MATINHA 73 ANOS – Avenida Major Heráclito

Autor Aroucha Filho*

Em todo o mundo, as cidades guardam referências que lhe são peculiares: museus, monumentos, fontes, palácios, catedrais, parques, teatros, praças, etc. são os locais mais procurados pelos turistas.

Eu, particularmente, sempre busco os museus e as igrejas, roteiros indispensáveis nas visitas às cidades que procuro conhecer.
As avenidas são sempre relevantes. Assim, temos: a Champs Élysées, em Paris, com seu destacado Arco do Triunfo; a 9 de julho em Buenos Aires, com o seu simbólico Obelisco; a Avenida da Liberdade, em Lisboa, com seus 90 metros de largura; em Santiago, a Avenida Libertador General O’ Higgins, mais conhecida como Avenida Alameda, com seus 8 km de extensão. Confesso que deixei a que mais frequento e adoro passear por último por ser muito especial. Trata-se da Avenida Paulista, onde sempre me hospedo em São Paulo. Tenho grande atração e intimidade com a Paulista. Frequento-a, quando em São Paulo, diariamente. Sou um assíduo frequentador do MASP.

No entanto, a Avenida que mais me encanta, que me fascina, é a avenida em que nasci no ano de 1951. Uma via mística, indelével na minha memória, com todo seu simbolismo histórico, charme e importância na vida da cidade.

Percorri todo esse caminho para me referir à Avenida Major Heráclito Alves da Silva, da cidade de Matinha – Maranhão. Tão importante para nossa cidade quanto às citadas anteriormente. Para mim, mais importante até.

A Avenida Major Heráclito nasceu junto com a cidade. Os primeiros traços de urbanização da sede do município foram implantados nesse logradouro. A marcante característica urbana, que se apresenta com suas ruas largas, teve origem no traçado dessa avenida, irradiando esse aspecto para as demais vias que foram se abrindo, com o processo de expansão urbanista da sede do município.
Com seus 1.300 metros retilíneos de extensão, por 17 metros de largura, em média, a Major Heráclito nasce na Avenida José Sarney, que até a década de 60 era denominada Rua João Pessoa, e se estende até a MA-014. Antes da construção da MA-014, chegava até o portão do Campo de Aviação.

O primeiro prédio era o Abrigo, local onde os passageiros aguardavam os aviões teco-teco que faziam linha (voos) para os municípios da Baixada Maranhense.

Do outro lado da avenida, a primeira casa era a residência do Sr. Teodomiro, bem próximo à cerca de proteção do aeroporto. Assim, a Avenida Major Heráclito foi, e ainda é, a via mais importante da cidade de Matinha, onde antes se concentrava todos os órgãos e serviços público dos três poderes, nas esferas municipal, estadual e federal.

Ficavam nesse logradouro a Coletoria Federal, a Agência de Estatística – IBGE e a Agência dos Correios e Telégrafos. Meu pai era o responsável pelos Correios. E nesse prédio público eu nasci e morei até o ano de 1961.

No mesmo terreno, logo depois dos Correios, por iniciativa do meu pai e outros moradores foi construído o Grêmio Recreativo Matinhense 15 de Fevereiro, local onde foram realizadas as melhores festas da sociedade matinhense por um longo período. Hoje, ali funciona a loja do Armazém Paraíba.

Os órgãos do poder estadual ali sediados eram a Delegacia, a Cadeia, o Hospital Dr. Afonso Matos, o Grupo Escolar Joaquim Inácio Serra e a Coletoria Estadual.

Quanto aos órgãos do Poder Municipal, a Câmara Municipal e as Secretarias, funcionavam na Prefeitura, imponente prédio com uma entrada principal rodeada de janelões e varanda interna em formato de L.

Na hoje residência do Sr. José Bonifácio, funcionou nas décadas de 50/60 um Colégio Municipal com duas salas de aula, o Coleginho, assim chamado por ser próximo, e bem menor, que o Grupo Escolar Joaquim Inácio Serra, na época a maior construção do município.

Na Major Heráclito funcionaram lojas expressivas para o comércio local; na esquina da Prefeitura, hoje local da casa da Sra. Livramento, funcionou o comércio do Sr. Antônio Neves. Naqueles tempos não havia luz elétrica em Matinha. Isso, na segunda metade dos anos 50.

O comércio do Sr. Antônio Neves era o principal distribuidor de querosene, combustível utilizado para alimentar as “lamparinas, única fonte de iluminação das residências. Rara era a residência matinhense que possuía “Petromax”.

Por ocasião da posse do Prefeito João Amaral da Silva, segundo prefeito eleito de Matinha, um foguete atingiu o depósito onde eram guardadas as latas de querosene, provocando um grande incêndio. O primeiro grande incêndio registrado em nossa Cidade. Posteriormente, esse ponto comercial foi adquirido pelo Sr. João Amaral Nunes, conhecido como João Barata, que ali instalou uma grande loja de tecidos, armarinhos e utensílios domésticos. No outro canto funcionava o comércio do Sr. João Lima, uma mercearia e bar com uma bela mesa de jogo de bilhar.

O mais importante comércio da avenida pertencia ao Sr. Manoel Antônio da Silva, primeiro Prefeito de Matinha, nomeado para instalar o município e promover a primeira eleição, na qual foi eleito o primeiro Prefeito de Matinha, o Sr. Aniceto Mariano Costa.
Esse comércio funcionava em uma loja geminada à residência do Sr. Manoel Silva, e ali vendiam de tudo.

O senhor Manoel adquiria e exportava para São Luís gêneros produzidos ou produtos extraídos no município: amêndoas de babaçu, tucum, farinha, arroz, etc.

Não tenho certeza, porém, creio que a primeira padaria de Matinha funcionou ali nos anos de 1949 a 1953. Tinha como padeiro chefe o senhor Ribamar Muniz (Ribamar de Honório), auxiliado por Nelson Alves e Francisco Gomes da Silva (Chico Padeiro). Em seguida, essa padaria foi adquirida pelo seu genro Sr. Arnaldo Lindoso, o qual ficou até o ano de 1963. A Padaria São José era avançada, para a época, e seus produtos eram distribuídos em todo o território do município, com destaque para o pão de massa fina e massa grossa, pão doce, bolacha doce, biscoito e a famosa bolachinha.

Eu, como vizinho e amigo dos seus filhos Carlos Eduardo e Carlos Antônio, tinha como divertimento arrumar as bolachinhas na fôrma antes de ir ao forno para serem assadas. Isso, claro, nos dava o direito de nos deliciarmos com boa porção desse tradicional produto matinhense.

As melhores casas residenciais eram as da Av. Major Heráclito, em sua maioria de alvenaria e telha. Nesses tempos ainda predominavam as casas construídas com taipa e palha.

A avenida já ostentava um belo conjunto arquitetônico, composto pelo prédio da prefeitura, o Grupo Escolar, o prédio do hospital, o prédio dos Correios, e a imponente casa do Sr. Manoel Silva, com sua bela escadaria interna e o piso em sobrado de madeira de lei.

Nas imediações da casa do Sr. Sebastião Neves existia duas belas casas no estilo “bangalô”, as primeiras desse tipo arquitetônico da cidade. De propriedade do município, essas edificações tinham plantas bem diferentes da arquitetura local. Era um estilo arquitetônico com linhas modernas, acesso por corredor descoberto e porta ao fundo. Cumeeira no sentido perpendicular à avenida, teto com duas águas, e sem os usuais “espigões”.

Duas barragens de contenção, construídas de alvenaria, existiam na avenida para evitar erosão e facilitar a acessibilidade das pessoas no período invernoso. Eram implantadas no sentido longitudinal à avenida. A primeira, a maior, foi construída na década de 50, e ficava frontal à Praça de Eventos. Era longa, bem construída e possuía uma grande galeria por onde escoavam as águas pluviais que se acumulavam em grande volume naquela área. A outra ficava nas imediações do Depósito Leal, e tinha a mesma finalidade. Não possuí galeria, apenas um recorte por onde era drenada a água que escorria do transbordamento da Baixa de Crisóstomo. Suas águas alimentavam o Igarapé de Pito. As da outra barragem, o Igarapé do Gongo.

Em uma noite da década de 50, em procissão iluminada por velas, a comunidade católica saiu da Igreja de São Sebastião conduzindo uma grande cruz. Eu participei desse evento religioso. Seguimos até às imediações da Padaria de Benedito de João Lima, onde foi implantada uma grande cruz de madeira, na cor ocre, bem no centro da avenida. Era um grande monumento da fé, por todos chamado “O Cruzeiro”, que ali permaneceu por décadas. Em sua base de dois degraus, reuniam-se moradores para longas conversas ao final da tarde. Lamentavelmente, não foi preservado.

O primeiro Mercado de Matinha também funcionou na Major Heráclito, e ficava próximo à esquina da Prefeitura.

Nessa avenida vivi alegre e feliz toda a minha infância e carrego até hoje as amizades dessa infância. Todas as brincadeiras permitidas pratiquei nesse belo logradouro. Joguei bola, empinei papagaio, andei de perna de pau, rodei ladeira a baixo dentro de pneus, joguei bolinha de vidro, pião feito de coco babaçu, jogo de chucho, banhei na Baixa de Crisóstomo, andei de bicicleta. Enfim, fiz muitas estripulias por ali. E hoje, em homenagem aos 73 anos de emancipação política de Matinha, falar dessa imponente Avenida é o meu contentamento.

Parabéns Matinha!
Parabéns, minha terra querida!

José Ribamar Aroucha Filho (Arouchinha) é natural do município de Matinha-MA, Engenheiro Agrônomo aposentado do INCRA, exerceu os cargos de Executor do Projeto Fundiário do Vale do Pindaré e Executor do Projeto Colonização Barra do Corda. Ex Superintendente do INCRA Maranhão. Foi Superintendente da OCEMA e Chefe de Gabinete da SAGRIMA.

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