A Bacia de São Marcos – Parte III

A Bacia de São Marcos – Parte III

Autor Expedito Moraes

A Baia de São Marcos será transformada em poucos anos, num dos maiores pontos de convergência de transação comercial do Planeta. Vários fatores contribuem para isso: profundidade do canal, dragagem natural, logística ferroviária e rodoviária, carga abundante de grãos e minerais, proximidade do continente europeu, América Central, do Norte e Canal do Panamá.

A Baia banha, de um lado a Ilha de São Luís, e de outro a Baixada. Desse lado da Baixada, mais precisamente em Alcântara, planeja-se a transformação da Base de Lançamento de Alcântara em Centro Espacial de Alcântara (CEA) e a implantação do Terminal Portuário de Alcântara (TPA).

Ambos são projetos de grandiosa envergadura e a maioria dos recursos será privado. Serão dois polos que exigem alta tecnologia, com investimentos de bilhões de reais ao longo da implantação. Milhares de empregos diretos e indiretos serão gerados, demandando serviços, produtos e investimentos em toda a Região. Será uma revolução econômica e social. Temos, então, que prever, planejar e agir para superarmos os grandes desafios e nos adequarmos da melhor forma possível para as oportunidades que advirão.

Temos que construir parcerias. O Fórum da Baixada deve exercer o papel de intermediador dessa ação. Algumas parcerias já estão em andamento, caso da CODEVASF, UFMA, SEBRAE; outras estão sendo iniciadas como UEMA, CEA (Centro Espacial de Alcântara), TPA (Terminal Portuário de Alcântara) e Governos Federal, Estadual e Municipais.

Zé Lascó e as lapadas de “Sarney”

Zé Lascó e as lapadas de “Sarney”

Autor: Luiz Antônio Morais*

Era um dia típico na Cidade dos Lagos. Depois da escola, muitas brincadeiras de época entre os garotos, ou seja, brincar com carrinhos de lata, chuço, bolinhas de gude, pião (feito artesanalmente com coco babaçu) ou, ainda, caçar passarinhos, empinar papagaios, jogar futebol na Praça da Matriz e tomar banho no lago de Viana.

Mas era preciso retornar ao lar, principalmente na hora do rango, caso contrário, dependendo do atraso, poderia ganhar uma boa surra de cipó ou de galho de goiabeira, tomar banho e, somente depois, fazer a refeição.

No entanto, se, para uma minoria dos vianenses, a hora do almoço era uma festa abastada, à base de carnes nobres ou outras iguarias, para muitos meninos pobres restava se contentar com pequenas porções de peixe do lago, arroz socado no pilão e muita farinha d´água para engrossar o pirão de cada dia. Carne de boi, geralmente só aos domingos. E era carne de segunda ou de terceira.

Por isso, em vez de uma deliciosa sobremesa, restava aos garotos suprir a iminente fome da tarde, entrando em alguns quintais que mais se pareciam com pomares, bastante comuns nas casas do interior dessa época.

A minha galera apreciava pular a cerca de arame farpado da acolhedora residência do padre Eider Furtado e da sua irmã, a professora Edith Nair. Lá existia uma grande variedade de manga, goiaba, pitanga, mamão, jaca, coco, carambola e outras fruteiras que abasteciam e saciavam a fome de quem tivesse a habilidade de invadir a propriedade sem despertar o olhar desconfiado do religioso, sempre de plantão com enorme relho de couro cru para botar a turma para correr.

Outro quintal bastante frequentado na época era o da Igreja da Matriz, repleto de pés de mangas-rosas, goiabeiras e mamoeiros. Mas era ali que morava o perigo: um temido sacristão – pessoa responsável pela guarda e pela limpeza da igreja –, que usava o epíteto de “Sarney”. Enquanto escrevia esta crônica, tentei, em vão, descobrir o nome de batismo do cidadão e, é claro, o porquê desse apelido, porém só consegui saber que ele era natural de Monção, também na Baixada Maranhense.

Dentre suas atribuições, estava a de comandar o pro-rama vespertino “A hora da Ave Maria”, transmitido por dois potentes autofalantes instalados nas laterais da torre da Igreja da Matriz. Pontualmente às 18 horas, semanalmente, exceto sábados e domingos, “Sarney” ligava uma vitrola bem antiga que tocava aqueles inesquecíveis sucessos do Padre Zezinho, entre outros hinos religiosos. O meu canto preferido era “Cálix Bento”, de Milton Nascimento, que o sacristão gentilmente oferecia a este garoto cheio de sonhos, cuja introdução era: “Oh, Deus salve o oratório. Oh, Deus salve o oratório. Onde Deus fez a morada, oiá, meu Deus, Onde Deus fez a morada, oiá”…

E foi numa dessas incursões de “roubar” frutas em quintal alheio que o nosso amigo Zé Lascó se deu mal mais uma vez.

Estávamos nos empanturrando com nossa merenda natural, quando, de repente, “Sarney” irrompe o quintal, saindo do interior da igreja, falando impropérios e ameaças de todo tipo. A princípio, dada à função do religioso, tudo parecia um blefe, mas ninguém esperou para saber; menos Zé Lascó que, ao tentar atravessar as duas linhas de arame farpado da cerca, ficou preso entre elas com o traseiro na mira de “Sarney”.

O sacristão olhou de um lado para outro, avistou um pequeno pedaço de tábua, pegou e desferiu umas dez lapadas nas nádegas do desesperado garoto, que gritava de dor, arrancando gargalhadas de todos.

Quando finalmente conseguiu se desvencilhar da surra, com o calção todo rasgado, Lascó revelou aos amigos que fizera uma improvável confissão ao sacristão:

– Nunca mais iria roubar frutas no quintal da igreja da Matriz!

Crônica publicada no Livro Ecos da Baixada, Edições FDBM, nas páginas 200/202.

*Luiz Antônio Morais é graduado em Comunicação Social, especialização em Jornalismo, pela Faculdade Estácio de Sá. Mentor e redator do blog “Vianensidades”, veículo de mídia que divulga principalmente notícias referentes à Cidade dos Lagos, Luiz Antônio Morais é pós-graduado em Design Gráfico pela UFMA, Coautor do Livro Ecos da Baixada.

O dia da multiplicação dos livros

O dia da multiplicação dos livros

Por Ana Creusa

Cada expedição do Fórum da Baixada é uma missão cercada de mistérios. Primeiro, é a dúvida quanto ao comparecimento dos que coloram o nome na lista, pois os encontros acontecem, quase sempre, na madrugada.

Essa dúvida atormenta os organizadores porque geralmente recebemos o transporte em cessão, o qual solicitamos na medida das inscrições.

Lembro-me que em uma das expedições solicitamos um ônibus para 30 pessoas, mas somente 17 guerreiros tiveram coragem de estar na Praça Maria Aragão às 04 horas da manhã. Resultado: o Fórum teria que ressarcir a diferença! Perdeu quem não foi, tivemos uma expedição memorável.

De outra feita, fomos ao Quilombo de Frechal, para participar de um evento promovido pelo Sebrae. O ônibus que iria nos aguardar no Porto do Cujupe, foi parar em Alcântara e nós, com a força de expedicionários, pagamos o transporte regular e fomos ao local. O Superintendente do Sebrae, o forense João Martins, não conseguiu almoçar até que chegamos ao local já eram mais de 13 horas.

Essa expedição foi considerada a melhor de todas, até agora, tivemos o privilégio de dormir na Casa Grande do quilombo do Frechal e participar de rodada de conversa com as pessoas do lugar, em uma noite de luar.

Porém, nada se compara em emoção à expedição a São João Batista ocorrida em 02 de dezembro de 2017 que se propunha relançar o Livro Ecos da Baixada naquele município. O primeiro lançamento ocorreu dia 14/11/2017 em São Luís. Não combinamos quem levaria os exemplares do livro para serem vendidos. Chegando lá, ficamos sabendo que tínhamos apenas 11 (onze) livros para serem comercializados para uma plateia de mais de cinquenta pessoas.

O desespero se abateu sobre o chefe do cerimonial, que me perguntava a todo o momento: – o que faremos? Deu-me um sono momentâneo, resultado da noite não dormida e do peso do comunicado iminente:  não haveria livros para vender. Minha irmã Ana Cléres que foi de Peri-Mirim para o evento, me despertou do cochilo em plena mesa de cerimônia.

Novamente o colega me abordou: – o que faremos? De repente, sem pensar em nada, disse a ele: – vamos sortear os 11 livros! Ele virou e disse: “boa ideia’. E assim procedemos. Outro colega, auxiliado por outros começaram a distribuir um pedacinho de papel para colocar o nome dos presentes e depois proceder ao sorteio.

Os onze livros encheram o salão e ninguém falou em comprar livros. Os colegas não falaram mais no assunto, até hoje. Nós forenses envolvidos nesse episódio criamos laços de amizade ainda mais fortes, pela parceria na resolução de um problema, que se avizinhava intransponível. Por tudo isso, eu trato esse episódio como “o dia da multiplicação dos livros”.

Como os livros estavam em meu poder para venda, fiz o depósito do valor corresponde aos 11 livros sorteados na conta da instituição.

Depois desse episódio, fizemos outras expedições a Matinha, Viana, São João Batista novamente, Bequimão (Expocapril e Paricatiua) e tudo voltou à quase normalidade, pois a agonia dos encontros na madrugada, permanece.

Que venham mais expedições do Fórum em Defesa da Baixada Maranhense, pois temos que conhecer para amar essa bela região.

Maria da Graça Moreira Leite

Maria da Graça Moreira Leite é natural de Pinheiro (MA), pedagoga, escritora e membro da Academia Pinheirense de Letras, Artes e Ciências (APLAC). Produziu diversas obras sobre a história do município de Pinheiro.

Algumas obras: Bem-te-vi, bem te conto: crônicas pinheirenses; O poço do mercado; 

Canta, Fogo-Pagou!

Canta, Fogo-Pagou!

Por Graça Leite

Ouço uma rolinha fogo-pagou clamando pela presença do macho da sua espécie, dedilhando pedrinhas no fundo do meu quintal.

É uma manhã de julho ensolarada, dessas que no final do inverno nos traziam uma aragem fresca, abrindo espaço para que o brilho da folhagem resplandeça o verde no intervalo das chuvinhas rápidas que caem.

A manhã é bela e a rolinha fogo-pagou sente a presença da vida que o inverno guardou nas águas dos campos da Baixada Maranhense para entregar ao verão que chega.

Os bem-te-vis também festejam a caliente manhã afinando o canto, saudando a mudança de estação que é recebida por pipiras, chico-pretos, levarribas, curiós e demais pássaros da fauna da Baixada Maranhense. Até o canto de um galo distante integra o coral da vida.

Pena que uma sinfonia dessa natureza seja quase imperceptível aos habitantes da cidade, envolvidos que estão por afazeres que lhes garantam a sobrevivência ou a ganância. Também os estridentes sons dos carros eletrônicos que circulam dia e noite pela cidade anunciando, vendendo, cobrando,  e até xingando, como acontece nas campanhas eleitorais, não nos permitem sequer atender ao telefone ou dialogar com alguém, tal o barulho excessivo que contamina o ar.

A cidade de Pinheiro é sem sombra de dúvidas detentora da maior poluição sonora da nossa região.

A região da Baixada Maranhense, constituída por campos baixos, inundáveis na estação invernosa, facilitou o seu isolamento, por muitas décadas, distanciando-a do progresso. Soma-se à sua situação geográfica, o descaso das autoridades para com ela.

Devido a essas circunstâncias e à vontade da população, a maioria das cidades baixadeiras ainda guarda consigo hábitos e costumes dos velhos tempos, zelando pela sua tradição de origem, mas em Pinheiro a lição progressista foi decorada, mas não foi compreendida.

É certo que o mundo mudou, evoluiu muito em todos os aspectos (social, econômico, político e cultural). A televi- são e o celular estão por toda parte, mas existem relíquias que devem ser preservadas para garantirem a identidade dos povos, porém em Pinheiro não há essa preocupação, nem dos gestores nem da própria população.

Aqui tudo é mecânico: os sinos das igrejas não tocam mais, as pipas e os estilingues dos meninos, as bonecas das meninas foram substituídas por joguinhos eletrônicos nos celulares e até o nosso tradicional “tambor de crioula”, considerado “Patrimônio Cultural Nacional”, é rechaçado por vereadores na Câmara Municipal. Santa ignorância!!! Os supermercados estão cheios de produtos industrializados. As feiras vendem verduras e frutas importadas e não apre- sentam as mínimas condições de higiene; temos faculdade (até de Medicina), mas o nosso ensino básico é de péssima qualidade; a nossa saúde é precária e a água que consumimos não é confiável; o esgoto doméstico corre pelas sarjetas contaminando os campos. Os lixões a céu aberto também contaminam o nosso lençol freático e atraem urubus que passeiam tranquilamente pelas ruas da cidade.

Tudo isso acontece em uma cidade “moderna” considerada polo regional que tem receptores de internet instalados na principal praça, no Centro da cidade.

Com tanto “modernismo”, alguém vai reparar quando os ipês estão floridos ou quando uma rolinha fogo-pagou canta em nossos quintais?

Até os grandes quintais estão desaparecendo tragados pela especulação imobiliária e mesmo nossos campos estão sendo aterrados por esse motivo. Os aterros estão empurrando os nossos campos para longe de nós.

É assim que a cidade de Pinheiro, polo da região da Baixada, vai perdendo a sua identidade baixadeira.

Canta, fogo-pagou!

Canta enquanto te é permitido cantar.

Crônica publicada no Livro Ecos da Baixada, Edições FDBM, nas páginas 60/62.

Vai chover na roça

Vai chover na roça

“A única coisa que sabemos sobre o futuro é que ele será diferente” Peter Drucker.

Texto de Expedito Moraes

Para nós, baixadeiros, a expressão “vai chover na minha roça” significa a certeza que de que haverá fartura. É a garantia de boa colheita. Da mesma forma, costumamos usá-la quando vislumbramos uma oportunidade de ganhar dinheiro, obter melhoria e prosperidade.

Entretanto, para que haja fartura o pedaço de terra precisa estar roçado, capinado, destocado, limpo e cercado, para quando as primeiras chuvas caírem ter início o plantio. A colheita, para ser boa, depende de planejamento, ainda que mínimo, e de conhecimento das condições naturais. Vários fatores devem ser observados antes e durante do plantio e também nas fases de colheita, armazenamento e comercialização.

O roceiro ou lavrador, em primeiro lugar, precisa definir o que vai plantar e para isso precisa saber o que “vai dar dinheiro” na próxima safra. Se não tiver uma boa semente e quantidade necessária para produzir o quanto deseja, terá que comprar.

Ter um pedaço de terra “que tudo dá” é fundamental. Precisa saber o momento exato do plantio e evitar pragas e ervas daninhas. Enfim, o lavrador ,para fazer uma roça e ser bem sucedido, depende de um certo aprendizado. Aprendizado esse passado de pai pra filho.

Precisamos, urgente, aprender a produzir mais e melhor. Para mudar, precisamos fazer o que sempre fizemos de modo diferente. Precisamos de novos conhecimentos, tecnologia, eficácia.

A busca da produção eficaz implica a constante implementação de novos processos eficientes. E isto só é possível por meio de conhecimento e decisão para quebrar paradigmas.

Bill Gates afirmava que, para se ter sucesso nos negócios, basta perceber para onde o mundo se dirige e chegar lá primeiro e Adam Smith dizia que a geração de riqueza de uma nação dependia do desenvolvimento e crescimento econômico de cada cidadão.

A nossa roça são a Baixada e as Reentrâncias maranhense, esse imenso território que vai receber “chuva” de investimentos nos próximos anos. Bilhões de reais serão investidos em projetos grandiosos. Anunciam o CENTRO ESPACIAL DE ALCÂNTARA e o TERMINAL PORTUÁRIO DE ALCÂNTARA. Nos próximos capítulos especialistas apontam ações necessárias e capazes para o progresso dessas regiões. Precisamos de capacitação.

PROJETO DO NOVO PORTO DE ALCÂNTARA, com capacidade para 140 milhões de toneladas/ano; obra deve ser concluída em 2024.

 

Gracilene Pinto fala da importância dos Diques da Baixada em sua obra Serões na Baixada do Maranhão

Gracilene Pinto fala da importância dos Diques da Baixada em sua obra Serões na Baixada do Maranhão

Em algumas épocas do ano, a falta de pescado e de carne vermelha era muito grande e as pessoas diziam que a comida estava “vasqueira”, o que significa que a procura estava maior que a oferta e havia carência no mercado.

Aliás, este é um problema histórico e revoltante na Baixada, pois como bem escreveu o Dr. Flávio Braga em seu artigo “Baixada Maranhense – graves problemas, singelas soluções”, “as medidas para melhorar as condições de vida do seu povo são baratas, simples e de fácil resolutividade. Só depende da vontade política dos nossos governantes, no sentido de construção de barragens, açudes e canais que promovam a conservação da água doce em nossos campos… Como se vê, a Baixada tem jeito, visto que as soluções para melhorar a vida do seu povo são viáveis, exequíveis e de baixíssimo custo material. Basta querer…” A Baixada tem problemas com o excesso de água e também com a escassez. E, enquanto não forem tomadas sérias medidas para administrar essa questão o baixadeiro vai continuar lutando contra a natureza, sofrendo e passando fome e sede desnecessariamente.

Ainda bem que como já foi dito anteriormente, na atualidade muita gente tem se preocupado com essa questão, tanto que o objetivo precípuo da criação do Fórum em Defesa da Baixada é exatamente este: discutir e buscar soluções para as dificuldades enfrentadas pelo povo da região, com ênfase para a questão de melhor administrar a preservação da água doce nos campos controlando a invasão da água salgada, problema que pode ser solucionado com a construção dos diques.

Ocorre que, com as chuvas os rios e açudes transbordam e os peixes fogem. O excesso de umidade também prejudica a lavoura causando, por exemplo, a degeneração da mandioca, como dizem na região. Então, a água, que é uma grande dádiva de Deus e significa vida, em excesso também pode ocasionar problemas. No entanto, no abaixamento as águas escoam totalmente pelos sangradouros deixando os campos secos, com raras poças de lama entre as extensões de torrão de barro esturricado e escuro. Então, escasseia o pescado e morre o gado, pelo que os criadores precisam sempre utilizar o regime de transumância, que é a transferência do gado para a região dos lagos, fugindo da seca. Em contrapartida, nas marés de sizígia a água salgada invade os campos da Baixada, destruindo o ecossistema pela salinização da água e do solo. Então, a flora e a fauna dos campos alagados sofrem, e morrem peixes e plantas. Recentemente até um filhote de tubarão foi encontrado no lago de Viana.

Em suma, tudo na vida necessita ser dosado. Daí a ansiedade pela construção dos já famosos Diques da Baixada, que, uma vez construídos, permitirão a conservação da água doce nos campos, ao mesmo tempo que impedirão a invasão da água salgada.”

Autora: Gracilene Pinto. Trecho do Livro Serões na Baixada do Maranhão, do Selo Editorial FDBM, nas folhas 62/63.

Vejam os objetivos dos Diques da Baixada, de acordo com apresentação da CODEVASF:

A ceia de bagre

A ceia de bagre

De tanto ouvir falar das belezas dos verdes campos de Pinheiro, dois amigos meus resolveram vir, de bem longe, me visitar aqui no Maranhão. Mas queriam ir até Pinheiro!

Do terminal da Ponta da Madeira até o porto do Cujupe, do outro lado do continente, a travessia já é uma viagem. No meio da baía, as pequenas gaivotas acompanham o ferry boat. O comandante Edson acelera os motores. Uma enorme espuma branca se forma na popa da embarcação e, sobre ela, os pequenos peixes fazem a alegria dos pássaros.

O fim de tarde se aproximava quando dobramos a curva do Farol em direção ao Cujupe. De repente, a exuberante natureza nos surpreende e coloca à nossa frente um bando de guarás. O reflexo da luz do sol poente na plumagem daquelas aves nos fez enxergar um encarnado único, indescritível e de rara beleza, que nem os mais renomados mestres da pintura seriam capazes de reproduzir.

Ficamos a contemplar, por certa de 30 minutos, bandos e mais bandos de guarás, cada qual guiado pelo seu líder, cruzando sobre nossas cabeças em direção a seus dormitórios.

Aos poucos o verde escuro do manguezal mudava de cor. Como numa pintura impressionista, o mangue ao nosso lado começava a tingir-se de rubro pela chegada dos guarás e pequenas manchas formadas pelas garças brancas enriqueciam a beleza do quadro.

A revoada dos recém-chegados, que desciam até as margens para lavar os pés, agitava a paisagem. Chama atenção que embora passem o dia inteiro à cata do sarará e do maraquanim, enterrando os pés no barro preto do mangue, nenhum guará se atreve a dormir de pé sujo; todos, sem exceção, lavam os pés antes de se recolherem aos braços de Morfeu.

Mais tarde, hospedados em uma pousada à beira do campo em Pinheiro, nós acordamos bem cedo para contemplar o nascer do sol que refletia sobre aquele manto de água a perder de vista. Um verdadeiro oceano de água doce animado pelo voo rasante dos bandos de marrecas, jaçanãs e japiaçocas.

Munidos de uma caneca de alumínio e um pouco de Nescau fomos tirar o leite das duas vacas que se encontravam ao lado. Sentados num pequeno mocho de três pernas e espremendo as tetas da vaca, o leite mungido jorrava fazendo espumar aquele saudável milk shake.

No salão, uma grande urupema recheada de cupu, bacuri, ingá, murici, pitomba, carambola, tamarindo, abacaxi, (de Turiaçu, penso eu) enfeitava a mesa do farto café, regado com sucos de manga, cajazinho e caldo de cana tirado da engenhoca. Um beiju com queijo de São Bento e um bom copo de juçara, amassada na hora, completava o petit déjeuner.

Alugamos uma pequena canoa e fomos conhecer a Barragem do Pericumã, uma das raras eclusas existentes no Norte do país. No Lago Grande, encontramos Sr. Antão, um tradicional pescador, que nos ofereceu a oportunidade de fazermos, à noite, uma pescaria de bagre.

Aceitamos a oferta com uma condição: iríamos comer os bagres que fossem pescados. Lançado o desafio, encomendamos o restante do jantar. E convidamos alguns amigos para fazerem parte da “ ceia de bagre”.

Quando o sereno começou a cair, o senhor Antão passou pela pousada para nos levar ao cais da Faveira. Devidamente orientados, todos com camisas de mangas compridas para nos proteger das muriçocas, e com lamparinas na mão, embarcamos em duas pequenas canoas, onde delgadas varas de pescar já se encontravam à nossa espera.

Enquanto remávamos em direção ao pesqueiro, pelas águas serenas do Pericumã, o breu da noite era iluminado apenas pelo brilho intermitente dos pirilampos. As cozinheiras ficaram em casa fazendo os temperos e aguardando ansiosas pela chegada dos bagres que iriam ser “tratados” ainda vivos e preparados para a ceia. As iscas (bichos de coco babaçu) eram larvas branquinhas e enrugadas que pareciam ter sido feitas sob medida para serem enfiadas nos anzóis. A cada mergulho do anzol nas águas mornas do rio, um bagre era fisgado e jogado no fundo da ubá.

Sentados nos estreito banco da canoa, ficávamos imaginando a festa do retorno. O vinho (lá em Pinheiro é o vinho tinto) para acompanhar a ceia já estava posto no gelo e em mais algumas horas iríamos degustar a nossa própria pescaria. Imaginem! Comer aquele peixe que iria pular, ainda vivo, para dentro da panela! E, de lá, para o nosso prato!

Já remávamos de volta quando o tempo começou a fechar. Um grande relâmpago ao largo tingiu de prata aquela imensidão de água e prenunciava um enorme trovão.

Sacudindo pelo barulho do trovão acordei de mais um dos meus sonhos. Um sonho que poderá se transformar em realidade. Afinal de contas, um maranhense acaba de assumir o Mistério do Turismo e o incentivo às atividades turísticas pode ser uma solução para desenvolver algumas das regiões de grande potencial turístico de nosso Estado.

Crônica publicada no Livro Ecos da Baixada, páginas 39/42.

José Jorge Leite Soares

A Baixada Maranhense e sua vocação para a grandeza

A Baixada Maranhense e sua vocação para a grandeza

Autor Natalino Salgado*

“Esse horizonte usa um tom de paz”, disse Manoel de Barros, em sua obra “O livro das ignorãças”, ao discorrer poeticamente sobre os fins de tarde no Pantanal. Tomo emprestadas as palavras do poeta para também falar sobre o entardecer da minha sempiterna Cururupu, cenário de tantas boas lembranças de minha infância, e sobre a paisagem da Baixada Maranhense, que não me sai da memória.

Trago à baila esse assunto porque estive em Pinheiro, no início da semana passada, participando da cerimônia de instalação da primeira turma de licenciatura em Educação Física da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), no Campus instalado naquela cidade, evento esse concorridíssimo e que contou com a presença de autoridades municipais, técnicos administrativos, professores e alunos. Àquela ocasião, quarenta estudantes deram o primeiro passo rumo ao tão sonhado diploma de Educação Física. Além da motivação dos estudantes, o curso também inicia com um excelente corpo docente, de vasta experiência profissional. É nossa intenção, com a aprovação do conselho universitário, transformar o Campus de Pinheiro no terceiro centro de ensino dessa Instituição no continente.

A cada ida àquela região, volto com o ânimo renovado por constatar a vontade e a determinação de seus habitantes para o desenvolvimento. Nesse contexto, além das anteriormente referidas, outras iniciativas dignas de elogio estão sendo realizadas, a exemplo do recém-instalado Fórum da Baixada Maranhense. Aqui destaco o papel do advogado Flávio Braga, um dos principais defensores desse projeto.

A Baixada Maranhense compreende 21 municípios, que se distribuem em quase dezoito mil quilômetros quadrados na região noroeste do Estado. Com uma população de mais de 518 mil habitantes (dados de 2006), tem sua economia ancorada no extrativismo, agricultura de subsistência, pesca e pecuária cuja expressão principal é a bubalino-cultura, visto que esses animais se adaptam perfeitamente às condições de grande parte da região, caracterizada por campos inundáveis.

Mas, infelizmente, a economia baseada na exploração de atividades do campo e com escassa aplicação de tecnologia resulta em baixos índices de produtividade e coopera para manter o quadro de pobreza geral, que se expressa em insatisfatórios índices de progresso. Como exemplo disso, temos a cidade de Pinheiro, a principal da microrregião, que exemplifica com bastante acuidade a condição que se perpetua ao longo de décadas. Nessa cidade, o IDHM (Índice de Desenvolvimento Humano Municipal), que avalia a qualidade de vida, como a longevidade, renda e educação da população, é de apenas 0,637, o que representa um crescimento médio. Sobre isso, a dinâmica é a seguinte: quanto mais próximo de 1, maior o desenvolvimento. Registre-se que outras cidades do entorno possuem dados semelhantes. O quadro só não é mais desolador por causa do comprometimento de alguns poucos governantes da região que se esforçam para debelar os inúmeros problemas e desafios hercúleos, embalados pela determinação de um povo honesto, cordato e trabalhador.

No entanto, nem tudo é desanimador, pois há na região uma rica diversidade da fauna e flora e o maior conjunto de bacias lacustres do Nordeste. A transição entre o cerrado e a floresta amazônica criou um lugar único de campos dominados pelas águas, particularmente no período chuvoso, que transforma a região com seus rios e lagos num pantanal tão grandioso e exuberante quanto o equivalente mais famoso no Mato Grosso. Aquele cenário que não deixa a desejar a nenhum cartão postal do mundo. Volto a Manoel de Barros, no mesmo livro já citado, ao falar de seu pantanal, de forma modesta: “o mundo meu é pequeno, Senhor. Tem um rio e um pouco de árvores”.

A Baixada Maranhense tem vocação natural para a grandeza. Por isso mesmo, engajada no desafio de tornar essa região ainda melhor e mais próspera, a Universidade Federal do Maranhão (já tivemos a oportunidade de escrever sobre isso noutro momento) faz sua parte: iniciou o que considero um novo ciclo de crescimento. O campus de Pinheiro, que antes funcionava com os cursos interdisciplinares em ciências humanas (com habilitação em História ou Filosofia) e naturais (com habilitação em Biologia), conta hoje com os de Medicina e Enfermagem e, mais recentemente, com o curso de Educação Física, que teve sua aula inaugural no dia 16 (segunda-feira). Essas três últimas graduações atenderão a uma demanda crescente de saúde de qualidade, o que propiciará um efeito catalisador à formação dos profissionais e à produção de conhecimento. E, ainda este ano, no segundo semestre, teremos a honra de iniciar o curso de Engenharia de Pesca em Cururupu, cidade cuja economia está intimamente ligada à pesca marítima.

Deus governa grandezas”, diz Guimarães Rosa pela boca de Riobaldo em “Grande sertão veredas”. O potencial da Baixada Maranhense, somado à fé e à coragem de seu povo, haverá de legar às próximas gerações uma herança de grandes conquistas, pois as esperanças mais incompatíveis podem conviver sem dificuldades, alerta Jorge Luís Borges. Que essas ações em favor daquela região encontrem corações maduros para que as sementes do crescimento e da prosperidade possam gerar bons frutos.

Crônica publicada no Livro ECOS DA BAIXADA, páginas 36/38.

Natalino Salgado Filho

A Baixada ontem e hoje

A Baixada ontem e hoje

Até os anos 60, a Baixada Maranhense ainda  conservava o seu ecossistema equilibrado, exuberante e farto. Rios e lagos navegáveis durante todo o ano, igarapés adentrando os campos, lagoas desaguando nos rios e estes na baía de São Marcos.

O transporte dessa região para as outras, inclusive para a Capital, era realizado exclusivamente pela navegação fluvial, lacustre e marítima. Não havia estradas de qualquer tipo, somente caminhos e veredas. As embarcações responsáveis pelo deslocamento de pessoas, animais, matérias-primas e mercadorias eram canoas, igarités, barcos, lanchas e batelões.

Nos pequenos trechos, carros de boi, cavalos, burros e jumentos. Dispersos pelos campos, pastavam bois, cavalos, bodes, porcos, patos e outros bichos. Ainda era possível, permitida, viável e fácil a mobilidade dos cabocos pelos campos baixadeiros sem as cercas de arames farpados. No verão, os caminhos empoeirados nos conduziam a lugares distantes e diversos, viajando a pé ou a cavalo; no inverno, transitava-se de canoa a remo ou à vara.

Posteriormente, chegaram os búfalos, criados em demasia e soltos nos campos. Em seguida, grandes áreas foram desmatadas e roçadas para fazer pastos e as cercas foram dificultando a vida dos cabocos da região, que logo se mudaram para as cidades mais próximas. Começou assim o processo de degradação do meio ambiente do Pantanal Maranhense. Estabeleceu-se, então, um silencioso ciclo de assoreamento de lagoas, igarapés e rios, devido, sobretudo, à nociva interferência humana.

Nos dias de hoje, é impraticável a navegação de médio calado. A lâmina de água nos lagos cada dia fica rasa e, consequentemente, peixes e outras formas de vida desaparecem em pouco tempo.

Nas áreas limítrofes com os rios e a baía de São Marcos, o mar e o mangue avançam a cada ano. O processo de salinização dos campos acarreta severos danos à fauna e a flora. A biodiversidade da Baixada Maranhense está ameaçada e suplica por um socorro urgente.

Apenas nos anos 70 surgiu a estrada carroçável que dá acesso à Capital, passando por Vitória do Mearim. E somente na década de 80 foram construídas pontes sobre os rios, libertando os viajantes das incômodas travessias de canoas e pontões.

Barcos e lanchas singravam a baía até São Luís abar- rotados de cargas, animais e passageiros mal acomodados e expostos a riscos de toda ordem, especialmente o perigo de naufrágios, como ocorreu em diversas tragédias.

Sobreveio o transporte via ferry boat: potentes, céleres e oferecendo maior segurança. Porém, continuam prestando um serviço com o mesmo padrão dos anos 80.

O fluxo migratório continua. Os jovens baixadeiros que partiram para estudarem em São Luís, com a expectativa de se graduarem e um dia retornarem, frustram-se em constatar que, em seus municípios de origem, as oportunidades de trabalho permanecem quase inexistentes.

A Baixada Maranhense necessita de um Plano de Desenvolvimento que contemple a universalização do conhecimento, da saúde, da pesquisa, da apreensão de novas tecnologias, capacitação, infraestrutura, logística e produção.

Tornou-se imperiosa a construção de ambientes institucionais em que as pessoas incorporem e convirjam sentimentos comuns do povo baixadeiro acerca das alternativas adequadas de intervenção nessa promissora região, a exemplo do Fórum em Defesa da Baixada Maranhense.

O ECO de nossas vozes se confunde com o de nossos ancestrais, retumbando pelos rios, igarapés, enseadas, campos, lagos e pela baía de São Marcos. Onde existe ECO, existe vida…existe esperança.

Crônica publicada no Livro Ecos da Baixada, páginas 32/34.

Expedito Moraes