A POROROCA E A SARAFINA

A POROROCA E A SARAFINA

Por Expedito Moraes

Em sua origem tupi “pororoca” quer dizer algo como “causar um grande estrondo”. E foi esse o nome escolhido para nomear um dos mais impressionantes fenômenos da natureza, que ocorre quando o mar invade um rio na forma de uma grande onda que se choca contra a corrente fluvial, podendo atingir até quatro metros de altura.

Nas luas cheias e novas, as marés crescem bastante no Golfão Maranhense, chegando em alguns meses a alcançar mais de sete metros acima da lâmina de baixa-mar. De modo que invade o estuário do Mearim e avança furiosamente pelos rios Mearim e Pindaré, invertendo a corrente do rio. Nestas fases da lua, a velocidade da correnteza rio acima é muito maior, e permanece durante quase três horas, elevando a lâmina d’água até o cimo das barreiras. Principalmente, entre os meses de março e abril ou setembro a dezembro.

Nasci na margem direita do Rio Pindaré, no povoado Cachoeira, Município de Cajari. Do lado esquerdo é Viana.

Nessa época não existia assoreamento. As matas ciliares estavam perfeitas, o rio era altamente navegável, não havia estradas na região, e as lanchas de grande porte faziam o transporte de cargas e passageiros da cidade de Pindaré até São Luís, passando pelas demais localidades ribeirinhas.

Durante o inverno (período chuvoso), essas embarcações faziam tal percurso em 24 a 30 horas. No verão (período de estiagem), a viagem podia durar até 72 horas. E quem determinava esse tempo eram as marés, pois com o leito mais seco, os navegantes obrigavam-se a fundear em vários trechos para esperar a maré, até que esta elevasse a lamina d’água e evitasse o encalhe nas croas.
Ocorre que, quanto mais as embarcações se aproximavam do estuário, maiores eram as pororocas.

Lembro de muitos naufrágios e ameaças ocorridos quando eu ainda era criança. Havia um determinado lugar entre a Boca do Rio Mearim (local do encontro do Pindaré com o Mearim) e o Porto da Gambarra, chamado Malhadinha, que era o terror dos embarcadiços.

Fundear no Canto do Lago, local mais profundo com o canal passando junto às altas barreiras e mangueiros, já se tornara obrigatório. As embarcações eram amarradas com grossos cabos de manilha, com o ferro (âncora) arriado, para esperar a passagem da pororoca e poder atravessar a Malhadinha sem perigo.

Essa parada forçada durava de seis a oito horas. Rezava-se para que isto não acontecesse à noite, e, se fosse o caso, que não chovesse, e chovendo, que não fosse com trovoadas. E caso tudo isso acontecesse, que não fizesse frio. Imagine um cenário desse com as terríveis muriçocas, tão comuns nesses locais. Nem se podia abrir a boca. Quando o timoneiro da embarcação por imperícia ou imprudência não esperava a maré se encher nesse “fundiador” seguro e aventurava-se a atravessar a tenebrosa Malhadinha, corria grande risco de encalhar nas suas imensas croas ou bancos de areia, o que poderia redundar em naufrágio.

Ocorre que, esse pedaço do rio tinha o solo composto por um tipo de material que chamavam de “esmeril”, que transformava essas croas em areia movediça. Com o peso da embarcação, da carga (normalmente com 1.200 a 2.000 sacas de arroz e babaçu nos porões e por cima do convés), dos passageiros, animais e bagagens, corria um risco enorme de encalhar e ser tragada pela croa. À proporção que a maré baixava, a lancha ia sendo sugada e terminava ficando presa na croa.
O verdugo é uma peça de madeira forte que vai de um extremo a outro das embarcações, e, além de protegê-las de danos em choque com outros obstáculos, serve como limite entre o casco e convés. Quando a lâmina d’água ultrapassa essa peça é sinal de que a embarcação está com excesso de carga e corre perigo de ter seus porões invadidos pela água diante de banzeiros e pororocas. Da mesma forma, num encalhe desse tipo, é certo ter seu casco enterrado até à altura do verdugo. Isto é como uma sentença de morte – naufrágio certo.

Naquele trecho a Pororoca vinha com mais de cinco metros de altura e com uma força descomunal, de modo que alagava, e até emborcava, a embarcação, que, assim enterrada, pesada e imóvel, com a hélice e o leme presos na areia, não obedecia a nenhum comando.

Numa situação assim, restava esperar por um milagre. Wady Sauáia em “Cenas que Ficam”, proprietário da lancha Afife, assim descreve este fenômeno que ocorria no local: “Falo, então, para o Dizim que se encaminhe para o Corredor da Morte, pois queria ver se aquela onda se formaria da mesma forma que no dia anterior. Não demorou e bem a nossa frente avistamos um verdadeiro “Monstro” de água e espuma marrom que avançava furiosamente destruindo a margem e levando tudo que encontrava pela frente.” Esse era o cenário, e foi essa imagem que ficou também na minha memória. Não tinha como não sentir pavor.

É preciso registrar que, tanto na citação do autor como na minha, as lanchas estavam flutuando, e não encalhadas. Mas, mesmo assim era perigoso. Podia emborcar; no terrível choque do casco com a pororoca e as seguidas ondas “cavaleiros”, poderia sacar uma das tábuas do casco, passar por cima do porão, o que, caso não estivesse vedado por resistentes planchas e encerados, poderia enche-lo de água ou quebrar o leme, e a lancha ficaria à deriva sobre as ondas.

Pois, em 1956, foi exatamente com um “monstro” desse que, numa noite de lua nova, quando ela é maior, por volta das 19 horas a SARAFINA (em hebraico significa “aquela que protege o trono de Deus”) encontrou na Malhadinha, e “se perdeu”.

A lancha estava enterrada até o verdugo, imóvel e pesada, e a Pororoca passou por cima levando tudo que podia. A maré subia velozmente, a escuridão mais parecia um breu, e os passageiros subiram até o segundo toldo e começaram a queimar roupas na esperança de serem vistos por alguma embarcação.

Ocorre que, naquela época essa região era totalmente inóspita, ninguém habitava por ali. E, mesmo que tivesse alguém por perto, teria que dispor de uma outra embarcação capaz de abrigar os muitos passageiros e tripulantes.

Mas, milagres acontecem. Eis, que surge ao longe as luzes de uma embarcação. A correnteza era imensa. Todos queimavam as roupas, desesperados, porque, se demorasse muito, a água poderia chegar ao último toldo, e a morte seria certa. Mesmo para quem soubesse nadar, na escuridão, com a correnteza e água agitada, o nadador não saberia para que lado estaria a terra.

Porém, finalmente a embarcação se aproximou e conseguiu resgatar todos que estavam ali.

No dia seguinte, pela manhã, ficamos surpresos com o repentino desembarque no porto da nossa casa, dos muitos sobreviventes trazidos pela bendita lancha salvadora.

Todos foram aconselhados a ficar em nossa casa para esperar a lancha, da qual meu pai era o comandante, para levá-los aos seus Municípios.
Era desesperador. Alguns choravam, ainda apavorados. Outros, lamentavam as perdas, pois não conseguiram salvar nada. Outros, ainda, agradeciam a Deus por estar vivos. Os sobreviventes estavam com fome, sujos e sem roupas para trocar. Minha família fez rápida campanha para adquirir vestimentas para essas pessoas que ficaram só com a roupa do corpo.

Expedito Moraes
18/03/2020

O VELHO PORTO DA RAPOSA

O VELHO PORTO DA RAPOSA

Por João Batista Duarte Azevedo*

Não sei ao certo quando surgiu o Porto da Raposa. Quando me entendi, ele já existia. Mas só vim conhecê-lo de fato quando vim para a cidade pela primeira vez. Tinha que se passar por ali. Era lá o embarque nas lanchas que nos traziam até a capital.

Encravado às margens de extenso Igarapé que rasga continente adentro, o antigo Porto da Raposa ficava no povoado campestre de mesmo nome, a poucos quilômetros do Golfão Maranhense (Baia de São Marcos) e do estuário do Rio Mearim. De um lado uma extensa cortina verde formada por manguezais, de outro, mais para dentro do continente, extensas áreas de campos e tesos.

Ao longo de muitas décadas foi a única porta de entrada e saída de muitos municípios da baixada, especialmente São João Batista, São Vicente Férrer, Matinha, entre outros. Estamos falando de mais de meio século. Naquele tempo não havia estradas que ligassem estes municípios à Capital do Estado. O porto cumpria assim então a sua primordial finalidade. Era ponto de escoamento de mercadorias que iam e vinham e de embarque de passageiros que se destinavam rumo a São Luís e vice-versa.

Ainda lembro vagamente de algumas particularidades daquele lugar. Eram dois os principais atracadouros, exatamente para duas lanchas que costumavam fazer o transporte de cargas e passageiros. Eram dois pares de extensas passarelas, construídas de achas e mourões de mangue que nos levavam até ou a parte baixa, ou à parte alta da lancha, o convés, onde ficava o timoneiro, ou mestre, e onde ficavam os passageiros.

Nas lanchas, percebia-se um hiato de classes plenamente justificável. Na parte de baixo, costumavam viajar aqueles que transportavam cargas além de suas bagagens pessoais. Um odor forte de óleo e amônia exalava em meio ao cheiro de café e cozidão que costumava vir das bandas da cozinha. Já na parte alta, o segundo andar, vinham os mais destemidos, os que não tinham muito medo dos constantes balanços no alto mar e não costumavam expelir involuntariamente suas comidas boca a fora.

Às vezes três ou mais lanchas ancoravam por ali. Todas bem nomeadas. Maria do Rosário. Santa Teresa, esta, pequenina e valente, boa de navegação. A Proteção de São José, que sucumbiu na maior tragédia náutica ocorrida naquela travessia. A Ribamar. A Fátima. A Nova Estrela e a Imperatriz foram as últimas dos tempos auge do transporte marítimo. Nestas últimas fiz a maioria das minhas viagens.

A Raposa era um lugar como muitos outros numa área de campo. As casas de jirau, mostravam que ali em épocas de inverno costumava ser úmido e encharcado. Eram habitações de madeiras, desde o assoalho até as paredes. As cobertas, algumas eram de telhas de barro, outras de pindobas. Naqueles tempos de plena atividade do velho porto, Raposa devia ter cerca de cinquenta casas. A maioria eram de pessoas que viviam em função do porto. Pequenos comerciantes, estivadores, donos de pequenas embarcações e até mesmo ambulantes que viviam da compra e venda de mercadorias e produtos. Eram todos hospitaleiros. Lembro de Seu Dominguinhos, sempre cortês, atencioso, mas, dizem os que mais o conheciam, de uma astúcia e malícia sem precedentes.

Entre as muitas peripécias atribuídas a Seu Dominguinhos está a de ter dado um pernoite ao Padre Dante que certa vez se deparou numa noite escura e não quisera voltar pra sede. Fora aconselhado a ficar por ali. Após acomodar o Padre em uma rede, contam que Seu Dominguinhos acendeu uma fogueira de pau de siriba, uma espécie de mangue que ao queimar expele uma fumaça ardente aos olhos de qualquer cristão, ainda mais a quem não era acostumado, como o sacerdote italiano. Contam que o Padre passou a noite em claro, rezando para que logo amanhecesse, enquanto Dominguinhos se contorcia de risos. Ao amanhecer os olhos do reverendo pareciam duas bolas de sangue.

As principais casas de comércio e pequenos restaurantes estavam ali em redor do armazém. Um velho prédio de alvenaria que servia como uma espécie de alfândega. Era lá que trabalhavam os fiscais da receita estadual. Ali eram expedidas e pagas as guias de impostos sobre o que era embarcado, fossem cofos de farinha, cofos de banana, cofos de criações, pequenos e grandes animais. Quase nada passava sem as vistas dos coletores de impostos. Nos dias de embarque e desembarque era bastante intenso o movimento de pessoas por ali. Fossem os que viajavam, os que ali trabalhavam, e os que apenas buscavam estar no meio do vai e vem das pessoas. Não faltavam também os donos de bancas de jogo de caipira. Mas era uma alegria só. O povoado era tão movimentado que ganhou até um gerador de luz para garantir a permanência das pessoas que por ali transitavam e trabalhavam até o zarpar das lanchas.

Nos dias que não se tinha esse movimento proporcionado pelas lanchas, o povoado de Raposa mantinha um quotidiano normal. Moradores em suas tarefas diárias preparavam-se para o dia seguinte. O incremento maior do porto fora sem dúvida quando da construção da “barragem da Raposa”. Esta grandiosa obra – tanto pela extensão como na forma de como fora construída, realizada pelo então prefeito Luiz Figueiredo – permitiu um tráfego maior de veículos por mais tempo ao longo do ano.

A partir da abertura da Estrada da Beta, nome que fora dado inicialmente pela população para o ramal São João Batista – Bom Viver, que ligou a sede do município à MA -014, começaram ainda que com muitas dificuldades por conta das condições da estrada, os transportes de cargas e passageiros por via terrestre, fato este que atingiu frontalmente o cerne da economia gerada no Porto de Raposa por conta do transporte marítimo. Os primeiros ônibus a fazerem linha para São João Batista e até mesmo para outros municípios da Baixada foram os da Expresso Florêncio, que inúmeras vezes não completavam o trajeto da viagem.

Hoje, com poucas casas e sem aquele fervilhar de pessoas que faziam dali um marco da economia do município, o Porto da Raposa precisa se redescobrir com um outro propósito já que a rodovia nos leva até a capital São Luís, ou a terras além do estado.

Sempre defendi que o antigo e outrora próspero Porto da Raposa deveria absorver em tempos atuais outras finalidades. Ao que parece, por obra e graça do tempo e pela resistência de alguns poucos moradores que ali ainda residem, esta é uma realidade próxima das novas gerações. Por conta de sua aprazibilidade e beleza natural, o velho Porto de Raposa poderá ressurgir como um ponto de lazer rústico. Para tanto falta-lhe estrutura e muito precisar ser feito.

Com a palavra os homens dos poderes!

João Batista Duarte Azevedo* é natural de São João Batista (MA), graduado em Letras pela UFMA, professor e editor do blog “São João Batista On-Line”, coautor do livro Ecos da Baixada, postulante a uma cadeira na Academia de São João Batista.

Mais um ano sem os Diques da Baixada Maranhense

Mais um ano sem os Diques da Baixada Maranhense

Por Luiz Figueiredo*

A Baixada Maranhense sofre mais uma vez a grave crise da estiagem o que acontece dos meses de agosto a dezembro, todos os anos, a partir da década de 50, quando aumentaram o número e a profundidade dos igarapés que além de drenarem a água doce, levam uma enorme quantidade de peixes, e contribuem também para invasão da água  do mar, provocando a salinização dos campos naturais em prejuízo da biodiversidade ali existente.

Os diques da Baixada foram concebidos em 1986, portanto há mais de trinta anos, tendo início com a construção da barragem de Pericumã no município de Pinheiro. De lá até agora nada mais foi executado. Interrompido o andamento desse importante projeto, o caos voltou a se instalar na Baixada com a falta d’agua causando grandes prejuízos para os que ali vivem e tirando o  sustento das famílias,  a pesca, a caça e agropecuária. Quem visita a região hoje, se depara com os campos áridos, semidesertificados, onde os animais perambulam de um lado para outro a procura de pasto e água.

Um verdadeiro crime e falta de sensibilidade daqueles que manipulam o dinheiro público. Muitos desses animais e aves, típicos da região, já se encontram em fase de extinção. O peixe, alimentação básica, está cada vez mais difícil e caro. Sentindo o agravamento desse quadro, tomei a iniciativa de em novembro de 2006, portanto a quase vinte anos do início (1987) e paralização dessa obra, de acompanhar técnicos do governo do estado para constatar “in loco” o  situação de abandono dos nossos campos, e encontramos pessoas carregando água na cabeça, em lombo de animais e o torrão rachado e a vegetação seca.

Agradeço a Reginaldo Telles que me deu apoio, Luiz Raimundo Azevedo, Leo Costa, Manoel Bordalo, Júlio Noronha, o saudoso e grande líder Neiva Moreira, que juntos formamos um grupo para apresentar uma nova proposta para o governo, a qual foi analisada, aprovada e de imediato autorizada o reinício dessa tão almejada e importante obra. Já se passaram outros dez anos e tudo continua como antes. A Baixada é uma região imensa, linda e bem localizada, rica,  com potencial para continuar sendo o celeiro da capital, como foi no passado, portanto merece uma ação urgente e definitiva para que aquela gente humilde e trabalhadora não venha continuar a sofrendo.

Sabemos que com os diques teremos uma região semelhante ao pantanal mato-grossense, com uma biodiversidade e um ecossistema bem característicos.  Vamos agir antes que seja tarde, pois a água salgada está prestes a invadir os lagos o que seria uma catástrofe ambiental sem precedentes. Medidas paliativas, soluções localizadas como pequenas barragens, canais ou açudes não resolvem, apenas minimizam as dificuldades da população. Só os diques promoverão a redenção dessa região rica e exuberante que a Baixada Maranhense.

Lamentavelmente concluo afirmando, 2016, MAIS UM ANO SEM OS DIQUES.

Luiz Figueiredo, administrador, presidente da Fundação Chiquitinho Figueiredo e Rádio Beira Campo, ex-prefeito de São João Batista.

MEMÓRIAS DE UMA ELEIÇÃO

MEMÓRIAS DE UMA ELEIÇÃO

Por Eulálio Figueiredo*

Desde a minha investidura como magistrado de carreira, tenho vivido situações inusitadas. As experiências mais interessantes se passaram no período em que exerci a judicatura nas comarcas do interior do Estado.

No pleito que se realizou recentemente, fui designado para presidir as eleições e apurações na Junta Eleitoral que compreendeu os municípios de Palmeirândia e Peri-Mirim, localizados na Baixada Maranhense. Os trabalhos transcorreram dentro da mais completa normalidade, deixando aos presentes a sensação de que o serviço judiciário não sofreu qualquer deslize.

Proclamados os resultados das eleições, um fato inusitado ocorreu, qual seja: o desejo de uma vereadora eleita, em primeira candidatura, falar algo. Nesse momento, percebi que alguns partidários do prefeito eleito torceram o nariz e o advertiram para que não permitisse que a futura edil se pronunciasse sob o argumento de que a mesma era analfabeta e que poderia manchar a imagem do grupo que apoiava o novo chefe do executivo municipal.

Tranquilo e sereno, o prefeito lembrou aos correligionários que a referida candidata era da base aliada do seu go- verno e que teria recebido a maior votação, razão pela qual não podia impedir a vontade manifestada.

Afastado o óbice, e aproveitando a presença de autoridades e pessoas ilustres da cidade, inclusive o padre e algumas religiosas, no próprio recinto da apuração, a candidata eleita iniciou seu discurso. Disse inicialmente: “Gente, eu não gosto de política. Quem me meteu foi cumpadre Batista!”

Nesse momento, um assessor mais próximo do prefeito sussurrou ao seu ouvido: “Chefe, eu não disse para o senhor impedir Ivanilda de falar.” O Prefeito calmamente respondeu: “Deixa ela prosseguir, pois eu preciso do apoio dela na Câmara.”

Ivanilda, com sua simplicidade, prosseguiu levantando a mão seca, calejada e nodosa: “Não sou de farsa, nem culiada com ninguém. Quando quero falar de alguém não meto o pau por trás, só pela frente.” O clima esquentou e, dessa vez, um vereador reeleito se aproximou do prefeito e disse-lhe: “Rapaz, vamos sair logo daqui. Ivanilda vai nos envergonhar, eu não te falei para que não deixasses ela discursar?” O prefeito novamente ignorou a advertência do seu companheiro de partido e apostou no que viria depois.

A candidata, então, contagiada com a possível aceita- ção de sua fala continuou o improviso: “Sou pobre, meu marido é pescador, mas sou uma mulher de palavra. Não faço promessa que não posso cumprir. Queria dizer ao cumpadre “Zé Curica” que já cumpri parte da promessa. A carroça eu já consegui, o que tá me pegando agora é o jumento”. Nesse momento houve um completo mal-estar no ambiente e alguns aliados do prefeito, entre atônitos e envergonhados, se retiraram do recinto, ante a relutância do mesmo em não cassar a palavra de Ivanilda.

Por último, a iletrada candidata finalizou: “Quero agradecer a presença das otoridades” e, virando-se, para o vigário sentenciou: “Agradeço especialmente a presença do nosso vigarista, que veio abençoar esta eleição, e a todos aqueles que não se cansaram de me ouvir.”

Após os aplausos e cumprimentos, Ivanilda deixou o local levando consigo grande contingente de admiradores. Nós, doutores da língua e da lei, que ali permanecemos encerrando os trabalhos e fechando o prédio, também nos perguntávamos porque proibir Ivanilda de falar? Ela, na sua ingenuidade, não cansou os ouvintes, nem fez-lhes falsas promessas, muito menos empenhou sua dignidade por conta do voto recebido.

A ausência de alfabetização não a tornou ignorante, nem astuciosa. Essa pecha somente carrega quem um dia, assentado no mais alto cargo da nação, ilude com promessas irrealizáveis desde o esperto doutor até o inocente caboclo.

*Eulálio Figueiredo é natural de São João Batista (MA). Juiz de Professor do Departamento de Direito da UFMA. Escritor, poeta e compositor.

Crônica publicada no livro ECOS DA BAIXADA às folhas 118 a 120.

SÃO JOÃO

SÃO JOÃO
Por Gracilene Pinto
São João, terra querida,
Teu nome é diversidade,
Estas palavras são pobres
Para expressar, de verdade,
Tudo o que representa
O teu povo, o teu chão,
E esse amor imensurável
Que há muito virou paixão.
Teus campos e manguezais,
Bosques e matas em flor,
São a prova mais concreta
De que Deus abençoou
Teu nascimento e batismo
Consagrado a São João
Quando o povo ali clamava
A celeste proteção.
E, quando as palmas ao vento,
Cantam o hino dos palmeirais,
O coração dá o tom,
Porque amor nunca é demais!

(Imagem Campos de São João Batista de David Wilkirson)

A BAIXADA TEM PRESSA

A BAIXADA TEM PRESSA

Por Gracilene Pinto

Amigos baixadeiros, as mensagens do nosso ilustre confrade, Dr. Expedito Moraes, nos levam a refletir sobre tudo o que está acontecendo.
Os nossos melhores sonhos, e mesmo aqueles que julgávamos mais difíceis de acontecer, estão a caminho de sua concretude, estão em vias de realizar-se. Mas, sua realização vai depender muito de todos nós, não esqueçamos disto. Vai depender de agirmos com sabedoria para aproveitar o ensejo, no sentido de canalizar tudo isso a nosso favor.
Grandes oportunidades de progresso estão se apresentando, como nunca antes, para o Maranhão e para a nossa Baixada.

A nós, forenses, cabe nos conscientizar da nossa grande responsabilidade, estar atentos ao nosso foco e imbuídos do nosso importante papel neste latifúndio, que é de orientadores, apoiadores e fomentadores de ações que possibilitem à Baixada tirar o máximo proveito das oportunidades que se nos apresentam, para trazer o progresso e mudar, para melhor, o destino da nossa gente.

Há quanto tempo sonhamos em ver a nossa região saindo do marasmo, crescendo, e o nosso povo saindo da situação de miséria que sempre esteve para uma vida com dignidade?
Pois, agora é a hora de usarmos nossa inteligência emocional para não perder essas oportunidades. Não podemos agora esquecer nossos propósitos nem desviar do nosso foco, que é o progresso da Baixada.

A BAIXADA é nosso berço e precisa de todos nós unidos e focados no objetivo comum: o bem maior da nossa região e do nosso povo.
A BAIXADA precisa de todos nós e, como gosta de dizer Dra. Ana Creusa, A BAIXADA TEM PRESSA! Foco e fé, minha gente, por favor! Unidos somos mais fortes!

MEMÓRIAS RADIOFÔNICAS

MEMÓRIAS RADIOFÔNICAS

Por Luiz Pedro*

O rádio ainda é o meio de comunicação de massas mais presente na vida das pessoas, seja pelo imediatismo seja pela facilidade de acesso a ele, presente nos lares, nos carros e, mais recente- mente, nos celulares. Se isso acontece nos dias atuais, imagine em épocas passadas, como as décadas de 50, 60 e 70 do século passado. O Maranhão, até os anos 50, não possuía rodovias. O movimento de pessoas e cargas era feito por embarcações e pelos trens da São Luís-Teresina. Os aviões eram utilizados por pessoas de posses ou em alguns casos emergenciais.

Já as comunicações eram extremamente escassas. As cartas demoravam semanas para chegar ao destino e mesmo os telegramas só chegavam a poucos pontos em determina- das cidades do interior. Ligações telefônicas eram difíceis, os telefones, raros e os enlaces interurbanos demoravam horas para se completar, quando se completavam.

Nesse ambiente, o rádio tinha importância fundamental. Através dele, informação, entretenimento e serviços chegavam ao mais distante povoado do interior, ainda mais depois do rádio transistorizado, que utilizava pilha ou bate- ria, uma vez que energia elétrica era pouquíssimo difundida. A radiofonia maranhense existia desde 1941, com a fundação da hoje Rádio Timbira. Mas é com a criação das rádios Ribamar (hoje Cidade) e Difusora que os programas radiofônicos ganham o gosto das multidões e lançam nomes de locutores que eram tão prestigiados quanto os atores globais da atualidade.

Foi na o final da década de 50 que surgiu um programa que veio a fazer história no rádio maranhense: o Correio do Interior. A fórmula era simples: pessoas que queriam se comunicar com parentes ou amigos no interior, especialmente nos municípios da Baixada, redigiam avisos que eram lidos pelo locutor do programa.

Zé Leite, Fernando Cutrim, Ricardo Rodrigues, César Roberto Maciel, Fernando Sousa e Almeida Filho emprestaram a sua voz para os avisos de viagens, de acidentes, de mortes, de nascimento de filhos e netos e de coisas prosaicas como preparar uma montaria para esperar um viajante que subia os rios da Baixada. O programa ia ao ar às 8 da noite, após a Voz do Brasil.

O sucesso era tanto que os avisos invadiam outros pro- gramas da Difusora, como o Correio Musical Eucalol, de 8 às 10 horas, e de 16 às 17 horas, e o Quem Manda é Você, comandado por Zé Branco, nas manhãs de segunda a sexta. Nem os domingos escapavam: os avisos apareciam no Do- mingo é nosso, que teve Lima Júnior, Don Ivan e Leonor Filho como apresentadores.

A fórmula foi copiada sem o mesmo sucesso por emissoras como a Ribamar e a Educadora. Esta, aliás, mantém avisos em sua programação até hoje, mas as comunicações fáceis fizeram a fórmula murchar.

Meu amigo Gojoba, o jornalista e radialista José Ribamar Gomes, durante um curto período recebia os avisos a serem divulgados e cobrava pela transmissão das notas, tudo devidamente contabilizado num bloco de recibos que, ao final do dia, era eventualmente arrecadado por Magno Bacelar, um dos donos da emissora.

O sucesso do programa era tamanho que os Correios entraram com uma ação tentando proibir a divulgação dos avisos por concorrência ilegal. O caso não prosperou porque os Bacelar conseguiram na Assembleia Legislativa aprovar para o programa um título de utilidade pública e, assim, tudo continuou como dantes.

Registre-se que, nessa época, a Difusora operava em ondas curtas e ondas tropicais, além das ondas médias até hoje existentes. As ondas tropicais e curtas chegavam aos recantos mais longínquos, dentro e fora do Brasil.

O Correio do Interior era uma fonte importante de recursos para a Difusora. Gojoba calcula que, a preços de hoje, a emissora faturava cerca de 150 mil reais mensais com os avisos, dinheiro providencial para pagar os “vales” que os trabalhadores da casa pediam.

A maior renda do programa, deveu-se a uma tragédia. O naufrágio da Lancha Proteção de São José, ocorrido no dia 27 de outubro de 1965, que deixou centenas de vítimas. O número exato de mortos e desaparecidos não se sabe, pois não havia o controle de passageiros à época.

A lancha que partira do porto da Raposa, em São João Batista, afundou à noite após se chocar com recifes, já próximo à costa de São Luís. Entre os sobreviventes, que permanece vivo até os dias atuais, está o comerciante Juarez Diniz Cutrim, dono de um bar tradicional na Belira.

Nessa noite, sobreviventes faziam fila diante dos microfones da Difusora para, com suas vozes, tranquilizarem os familiares no interior.

*Luiz Pedro de Oliveira é natural de Juazeiro do Norte (CE). Jornalista. Foi deputado estadual por duas legislaturas. Foi chefe de gabinete do governador Jackson Lago. É baixadeiro por adoção, amor e convicção. Coator do livro Ecos da Baixada.

MAJESTADE DA LUA

MAJESTADE DA LUA

Autora Gracilene Pinto

Enquanto os sinos ressoam
Na alta torre da Matriz,
Desce o escuro da noite
Sobre a velha São Luís.
Em alguns becos as luzes
Mal dominam a escuridão,
Fazendo evocar o medo
Das lendas de assombração.
Porém, logo no horizonte
Surge um disco de prata
Que é um chamado aos poetas,
Um convite à serenata.
A claridade se derrama
E a majestade da lua
Faz a noite vida dia.
A cidade se engalana,
Em cada praça, cada rua,
Para a festa da poesia.

Imagem Luar de Penalva/Maranhão por Anatalio

ESPIANDO A CIDADE DA JANELA DOS MIRANTES NAS NOITES DE LUA CHEIA

ESPIANDO A CIDADE DA JANELA DOS MIRANTES NAS NOITES DE LUA CHEIA

Autor Expedito Moraes

Sou apaixonado pela LUA CHEIA. Não tanto quanto Catulo da Paixão Cearense. Como não sou músico e violeiro, escrevi isto em 2014, numa dessas noites quando ela banhava esta cidade de luz prateada.

Dizem que do alto desses prédios coloniais, das janelas dos mirantes, surgem em noites de lua cheia personagens que se debruçam sobre os telhados e se deleitam com o luar, com o silêncio da noite e a brisa morna que sibila pelas esquinas da cidade. Juram os que dizem, que nessas noites, ouvem soluços, lamentos e prantos tão intensos que escorrem pelos telhados dos casarios.

Os que dizem suspeitam serem aquelas mesmas madames que, outrora, por não poderem acompanhar seus filhos partirem para Portugal até o porto por ser um ambiente impróprio para mulheres, subiam ao Mirante e das janelas balançavam seus lenços brancos como despedida e com eles enxugavam suas lágrimas dolorosas de saudade.

Outros que veem e ouvem os gemidos destas almas afirmam que estas, apenas continuam a lamentar e indignarem-se por verem tudo que construíram com tanto esforço e dificuldade, caindo, abandonado e desvalorizado. Choram e lamentam ao perceberem que a cidade que criaram com tanto zelo, viveram e deixaram como herança o maior acervo arquitetônico colonial da América do sul e os ingratos herdeiros não souberam valorizar.
Dezembro de 2014

FORMAS DE PESCARIAS NA BAIXADA: heranças históricas de um povo

Autor João Carlos da Silva Costa Leite

 Resultado da miscigenação dos três povos que constituíram  a nação brasileira: o branco (português, algumas pinceladas de árabes, os carcamanos); o negro (trazido a força do continente africano como escravo); e o indígena (nativo), o  baixadeiro tem no seu DNA, na sua origem, elementos desses segmentos étnicos em atitudes sociológicas, políticas, filosóficas,  etc…

 Dessa forma, quando assistimos o jeito singular de um conterrâneo  nosso  quando fala, comercia, executa  atos artísticos/culturais, vemos ali representado  pelo menos 400 anos de sincretismo histórico.

 Poderíamos citar inúmeras manifestações populares que comprovam  essa assertiva, no entanto, falaremos apenas de uma, que traz no seu bojo, as linhagens bem representadas e delineadas: o bumba meu boi, especialmente o de matraca, tão comum a nós.  

 As índias e o cazumba, espelham o componente  autóctone; o amor desmedido  de pai Francisco por  Catirina, sua obsessão em   presentear   a amada  com a língua bovina, mostram os portugueses; e a batida rítmica das matracas, tambores, refletem o povo que aqui chegou como escravo, os africanos.

A mãe natureza contemplou este  torrão  – refiro-me aos 21 municípios da Baixada Maranhense, bem como os 13 do Litoral Ocidental -, de vasta e bela rede fluvial, lacustre, marítima, sem paralelo no Estado, transformando-o num verdadeiro manancial, onde a água e a piscosidade acontecem com magnifica intensidade. Além disso, lagoas, campos inundáveis, rios temporários, perenes, igarapés, charcos, riachos, pântanos, poções etc. unem, desembocam, interligam, conectam-se, durante o período invernoso (de janeiro a julho), convertendo uma imensa faixa da  região em estrada liquida.

Desse ambiente resultam extraordinária variedade de peixes, crustáceos, mariscos.  Para ter acesso a estes, prendê-los, transformá-los em apetitosos pratos, matar a fome, o morador usa de uma infinidade de ardis, que por si só traduzem a inteligência, astucia, perspicácia, sagacidade, desse povo abençoado por Deus.

Resgatarei a seguir   essas ferramentas de aprisionamento.

 

PESCARIA DE FLECHA

 Não cheguei a ver, mas tive informações que foi muito utilizada nos lagos Aquiri, Itans, Museu,  capturando  curimatás, pescadas, pirapemas (camurupins), aracus, surubins, enormes traíras.

Praticada durante  anos, hoje não é mais exercida. Usava-se uma flecha (planta nativa,  com  pequena parecença   da   cana de açúcar), de composição muito leve. Na ponta um arpão, enrolado por um arame fino. Podia ser jogada pela força do braço, ou  empregando um arco de jeniparana.

 

PESCARIA DE ANZOL

 São  várias as maneiras  de alcançar  peixes com   anzol:

Bagrinhos. Chamados de capadinhos em Arari, e  anojados em  outras cidades. Sua colheita  é feita durante o inverno, nas áreas de campos inundáveis, quando as muitas águas invadem os territórios apinhados de pés de araribas, criviris, aningais, marajazaisalgodoais, (algodão do campo).

 É efetuada  a noite, em canoas. Com caniço pequeno e linha curta, sem estrovo ou chumbada. O chamariz  é o bicho de tucum ou de coco babaçu, essas larvas de um tipo de besouro, da família dos bruquídeos, também são intituladas  gongo.

 Começa  no lusco fusco do dia, quando já vai anoitecendo, a escuridão tomando conta do ambiente, pois se ainda houver claridade, as sardinhas, piabas e piranguiras não deixam o cevo em paz. A canoa com no máximo três pessoas (o ideal são duas, um na popa, outro na proa), embrenha-se sob  crivirizeiros, araribeiras, marajazais, ou mesmo no limpo, entre o algodoal do campo, folhas de gapeua, pés de  junco, capim, mururu. Levada por alguém que a dirige da popa, com remos ou varas,(dependendo da fundura), sendo orientado  pelo canoeiro  que segue na proa, o proeiro.

Confecciona-se  pesqueiros, e as eventuais presas são chamadas com a tradicional batida na água, complementada com o esmagamento de dois ou três bichos de tucum, de preferência já bem vinhosos. Quando por sorte consegue-se achar bons cardumes, é possível em pouco tempo arranjar-se bastante deles, chegando a encher a embarcação.

Outro  modo  de pescaria de anzol onde os bagrinhos    aparecem, ocorre   nos igarapés ou rios. A isca é a mesma, o horário idem (noturno), a diferença é que nessa esfera,   não são hegemônicos, mesclam-se aos deliciosos jandiás, eventualmente  piabas, piaus, mandis nobres, mandis rabo mole, os mandis lisos, (popularmente conhecidos por faz cagar, em função da descomunal dor causada pela furada de seus esporões), caranguejos de água doce, traíras, jejus.  Raramente sarapós e muçuns, que não são bem vindos, haja vista, sua propensão ao roubo dos  engodos.

Apronta-se com antecedência um local   à margem do igarapé, tendo a cautela de preparar mais um ou dois sobressalentes, pro caso do primeiro escolhido, não consegui suprir a demanda. Os caniços (geralmente de amejuba ou tauari), são compridos e a linha para o anzol bem mais extensa que a da pescaria no campo. Nesse item  encontramos ainda  a pescaria de jirau. Dar-se  quando as enchentes invadem áreas próximas aos igarapés ou rios, não deixando beirada para se sentar. Fabrica-se então o jirau.

 Enterra-se  no  mato inundado, quatro estacas de boa grossura, fixadas  numa distância de mais um menos um metro e meio. Depois são postas as travessas, com varas mais finas, produzindo o estrado. Neste são  colocadas folhas de palmeira, rachadas ao meio, ou de cauaçu da folha grossa. Ocasionalmente uma cobertura para livrar das chuvas. Alguns  mais perfeccionistas, põem dois andares, ou degraus, para uma melhor subida/ descida do recinto.

 Essas  maneiras    de pescar  de anzol acima elencados, são implementados  a noite, sem lua e chuva. A presença desses fatores afastam os peixes. Nesse aspecto então, quem os executa  de modo constante, precisa indispensavelmente   monitorar as duas atividades.

Destarte, não sair de casa quando o tempo está carregado, pressagiando   toró,  fazer o ato   até a saída da lua, nas horas iniciais da noite, ou quando esta iluminar fortemente, deixar para praticar   durante a  madrugada, como dizia papai, “depois que a lua se esconder,” torna-se um imperativo.

Piabas. A apreensão  destas   é desenvolvida  nos campos e igarapés, sempre durante o dia. Os caniços são mais flexíveis, linhas e anzóis confeccionados de agulha usada para coser roupas, entortadas no fogo brando de uma lamparina, para definir o contorno ideal.  A ceva pode ser pedaços minúsculos de carne, bichos de tucum partidos ao meio,  minhocas, (pescaria nos igarapés).

 No campo, obrigatoriamente  bolinhas  de farinha d’agua ou  miolo de pão. As vezes junto com as piabas, parecem  piranhas pequenas(piranguiras). Lógico que no campo utiliza-se canoas; nos riachos, igarapés,  aboleta -se  nas beiradas

Piabas de litro – É uma das formas mais lúdicas e aprazíveis de agarrar  esse gostoso peixinho. Recorre-se a  um litro, onde se retira o fundo, total ou parcialmente. Coloca-se um tampo, com um orifício onde estas possam entrar, e enterra-se a outra parte, normalmente pondo como isca  farinha seca ou bicho de tucum. Após algum tempo, vem-se mirar.

Acará preta –  Conhecida  como carambanja, em Arari e Vitória do Mearim, pescar acará preta  com anzol, dá-se na extremidade dos poções ou tesos, por entre os mururus ou algodão do campo.   Desempenhada com um caniço bem comprido, mais de dois metros, linha de boa dimensão. Usa-se minhocas coletadas cavoucando as bordas dos locais úmidos. É executada a pé, necessitando o pescador (ou pescadora, muitas mulheres    praticam ), entrar na água. Apanham-se  também  traíras e jejus.

 Citaria ainda a pescaria de piranhas, modalidade  bem perigosa, não recomendada  a  amadores. Consiste em instalar-se estrategicamente em local isolado, dentro de uma canoa, num silencio absoluto. Munido de  caniços compridos, geralmente de bambu, anzol com um estrovo reforçado,  um arame entre este e a linha, para evitar o corte pelos afiados dentes desse animal  voraz. São pegas  piranhas grandes, de vez em quando uma traíra,  um jeju, todos de bom tamanho. As iscas são pedaços de carne e vísceras de boi ou porco.  

Jandiás – Aplicada  nos igarapés e  rios temporários, durante o dia. As iscas são minhocas ou bichos de tucum. Sai-se a caminhar pela beira  a procura dos peixes, podem ser encontrados ainda traíras, acarás pretas, jejus, piaus, piabas, muçuns e sarapós, esporadicamente, um bagrinho ou outro, perdido durante o dia.

Ocorre ainda    método análogo, que chamaríamos de água toldada ou “tordada”, no linguajar mais simples. Compreende em mexer na terra por onde passa o igarapé,  riacho, na porção de cima, tornando-a turva (ou suja), correndo rapidamente na direção baixa da corrente, e lançando o anzol já previamente pronto para enquanto durar a toldação,  pegar o maior número possível de peixes, normalmente jandiazinhos. Podendo ainda atingir   bagrinhos, traíras, jejus, atordoados pela  turves da  água . Essa operação será refeita mais vezes e em outras partes, após  a limpidez retornar.

Linha – Um carretel de fibra de nylon com anzol chumbado é jogado das margens do rio Mearim, em Arari e Vitoria; Pindaré em Monção, Cajari. No lago Aquiri na parte relativa a Viana, (não é uma prática em Matinha), próximo ao Poção do Engenho. Também  vi pessoas pescando dessa forma às margens do Pericumã em  Pinheiro; e Turiaçu, Santa Helena.

 Na ponta do anzol, camarão de água doce, carne ou outro peixe pequeno. Levada pela correnteza, a isca  pode trazer no seu engate surubins, mandis, bagres do rio, (não confundir com bagrinho), que é  uma  espécie de uritinga da água doce, mandubés pembas ou mandubés sapos, lirios, carraus (corrós), boi acaris, (bodós).

Corda –  Bastante empregada  no rio Mearim. Expressa-se na concepção de uma corda trançada e  grossa, dessas usadas por barcos ou  navios( Arari possui  muitos trabalhadores  marítimos), que será esticada da margem do rio para dentro deste. Nesta  de 80 em 80 centímetros, é amarrado um cordel de linhas mais finas com um metro de comprimento e um anzol grande.  Na outra ponta da corda grossa (a de dentro do rio), ficará uma poita, (ancora) bem pesada para segurá-la contra a correnteza, outras poitas mais leves e menores serão fixadas na corda principal, para mantê-la abaixo da superfície, mas sem afundar muito. A ponta da margem será atada a um galho de ingá ou aninga grossa, em não havendo, enfia-se um mará ou vara profundamente no solo fofo, e amarra-se a ponta  neste.

As   iscas  são geralmente piabas, pacus, camurins(dorme na sala), cascudos, e ainda vísceras de boi. Podem ser capturados surubins, bagres do rio, camurins,(robalos), pescadas do rio, mandubés  (pembas e sapos),pirapemas, dentre outros.

 

PESCARIA DE CHOQUE.

 Choque ou socó, é uma armadilha montada  com talos retirados da madeira marajá, uma palmeira espinhosa que existe nos pântanos baixadeiros, ou em menor escala com varinhas normalmente de papa terra, uma espécie de árvore, também com espinhos, só que mais volumosos, em que mesmo o mais fino ramo é bastante duro e resistente. Está atualmente quase extinta.

 Assim como  o  anzol, existem várias maneiras de pescar de socó:

Camboa no limpo – Efetivada  em área onde inexiste mato, mururus, etc.. chamado de limpo, geralmente  por mais ou menos vinte pescadores, que saindo um para a direita outro para a esquerda, combinam em formar um círculo, a camboa.  O circuito vai se fechando gradativa e vagarosamente, deixando os peixes que tiveram o azar de serem achados nesse espaço, confinados. Com isso facilitando suas capturas.

É uma  forma bem perigosa  de pesca, concomitantemente proveitosa. Pois é possível, devido estarem cercados, apanhar copiosos e diferentes tipos  de peixe.  Ao  serem sitiados, animais como o jacaré, cobras rabo seco e o poraqué,(peixe elétrico), além da edaz   piranha vermelha e  a não menos destrutiva  piranha ambeua, de cor branca, viram verdadeiras feras enjauladas.

Inúmeros  peixes são pegos: arangaus, peixes – cachorro, piranhas, pacus, curimatás, surubins, tubis, sarapós, traíras, acarás pretas, acarás pitanga, calambanjes, pirapemas, piaus, jejus, peixe sabão, branquinhas,(tapiacas), mandi tatu,(mandi rato), jandiás, bagrinhos, boi acari, carrau, cascudos, violas, dentre outros.

Camboa no matoTambém chamada de pesca puxando mato. A organização é quase igual da forma  anterior. Faz-se  uma coluna   de pessoas, que escolhem determinada área a ser atingida, como se fosse um eito na  roça. O pelotão passa então a puxar o mato (plantas aéreas) mururus, dando a possibilidade ao   socó ser afundado.

A cada choqueada, a mão tem que ser posta dentro deste, pois diferentemente da modalidade  no limpo, onde os peixes estão em águas menos turvas, portanto mais passiveis de se debater, ao serem alcançados; devido aos balcedos, e barros existentes no terreno, mesmo estando presos, não se sente as batidas    nas talas

A operação se encerra, quando a meta  anteriormente definida, é alcançada.  Volta-se  para onde começaram realizando  uma espécie de rescaldo na zona ocupada, pois devido ao grande número de mato, balcedo e barro, muitos peixes  passaram despercebidos, enterrando-se. Essa ação, algumas vezes consegue ser mais efetiva que a primeira.

A variedade de peixes encontrados nesse tipo de pescaria são todos os elencados na parte relativa a pescaria de camboa no limpo, exceto os chamados peixes brancos. No mato estes  não transitam.

Choqueando a esmo. Uma, duas, três ou mais pessoas saem no meio dos poções  choqueando  sem rumo  definido. Serve tanto para o limpo como para o mato.

Temos ainda a pescaria solitária puxando mato, por  entre os mururus e pés de aninga. As vezes cortando, outras puxando, e choqueando no espaço vazio. É sempre necessário  a cada descida do choque na água, que a mão entre na armadilha, para comprovação de se algum peixe foi coberto, como já foi explicado antes.  

Miminga. A partir do mês de agosto, quando os poções começam a separar-se   podemos observar o   fenômeno da miminga. Que é o ato de respiração do peixe, no fundo d’agua, refletido em borbulhas de ar que sobem a superfície.

 Antes que o vento caia, entre cinco e seis da manhã, um exímio pescador, em canoa ou a pé, com um socó na mão, observa os locais onde as erupções aparecem, quando as vê, de modo mais silencioso possível, enfia a armadilha. Não dá outra, embaixo estará uma  traíra.

Corre mão. Em fevereiro ou março, quando as chuvas se intensificam, e águas começam a invadir o capim de marreca, iniciando a piracema,  observamos um dos mais belos modos de pescar.

 Tendo o socó apenas como coadjuvante, o pescador invade silenciosamente a área, e ao ver  as espumas, sinal de que ali está se desenvolvendo um procedimento de reprodução, consegue com a mão, agarrar a presa. Esse mesmo processo é executado nos meses do abaixamento, desta vez claro, sem a babugem da piracema, e contando só com o sentido do tato e a capacidade de se manter em silencio.

Tive o privilégio de conhecer dois ases nesse tipo de pescaria: Lauro, meu irmão e Nézio  dos Santos, apelidado de Jaburu. Era empolgante vê-los entrar no campo, só com o socó e o cofo na cintura, depois largavam-no, e  saiam agachados, as mãos na água.  Logo aparecia como num passe de mágica uma traíra. Em pouco tempo, o cofo estava cheio.

 

PESCARIA DE GAIOLA.

 Muito comum no lago Aquiri. Prepara-se uma armadilha que será posta no  lago, em áreas não muito fundas, denominadas gaiolas. Seu  tamanho é de mais ou menos um metro de altura com 50 centímetros de circunferência. Geralmente confeccionada de  talas de buriti, palmeira ou anajá.

Possui dois dispositivos de entrada: uma na parte de cima onde os peixes são introduzidos, induzidos pela ceva posta dentro  da trapeira, feita com talinhas  de folhas de palmeiras, anajás, pontiagudas nas partes que ficam no interior, permitindo só o acesso  da presa, e impedindo a saída  devido as pontas afiadas. Na parte relativa as talas sobrepostas na vertical, prepara-se um janela que terá duas serventias: permitir a colocação das iscas, bem como a retirada dos peixes aprissionados.

Utiliza-se : vísceras, ou qualquer outra   coisa que escorra sangue, visando pegar especificamente piranhas, especialmente  as vermelhas grandes;  cupim, para pegar aracus, surubins, mandis, bagrinhos, mandubés, lirios…etc..

 

PESCARIA DE TAPAGEM.                                                                                                     

Basicamente são duas as formas de tapagens.

Nos igarapés ou rios temporários. Os rios que cortam a Baixada, em sua maioria são ocasionais. Contam-se nos dedos os  perenes existentes, de Arari a Alcantara. Em Matinha não há nenhum, ou poderíamos citar os rios do Jenipaí ou Tamataí, que são córregos dentro do lago Aquiri, numa área fronteiriça entre Matinha e Viana e que se “recusam” a secar, mesmo nas estiagens mais inclementes.

Acontecem  quando se iniciam as chuvas do inverno ou período chuvoso, final do mês de dezembro, primeiros dias de janeiro, ou no mais tardar,  começo de fevereiro, tudo dependendo do rigor das águas caindo.

Os leitos dos igarapés, antes poeirentos, agora escorrem o precioso líquido.  Aproveitando-se disto,  prepara-se  dois troncos longos e grossos, que possam abarcar ambas as margens do igarapé. Nestes são apostas folhas de pindoveiras ( palmeiras jovens de babaçu), de modo a não permitir que os peixes impulsionados pelas primeiras chuvas, e subindo o rio para desovar, passem.

No amago das  folhagens são abertos, dependendo do espaço entre as duas barreiras, buracos para a  colocação  dos manzuás ou monzuás, e  matipis. Armadilhas preparadas com material das próprias folhas das pindoveiras.

Os monzuás, são fabricados  da parte central destas palmeiras, as   mais jovens. Põe-se dois arcos, frequentemente  de jeniparana, numa espécie de cano, mais aberto na parte de cima e fechando-se nas pontas, podendo a água entrar e sair. O peixe, não.

São situados  em direção  oposta a  correnteza, com duas funções precípuas: permitir  ao líquido  escoar  velozmente,  encontrando  espaço para atravessar, consequentemente evitando a derrubada  da barragem, e, segurando  no seu bojo alguns  peixes que porventura estejam descendo o rio.

Os matapis, também são confeccionados por folhas do mesmo material dos monzuás, só que desta vez das pindoveiras mais antigas, chamadas palmiteiras( que já podem dar palmito), ou xacheiras, normalmente ainda não tendo chegado na  condição de palmeiras, as que já produzem  cachos.

Construídos a partir da retirada de talas cortadas  cuidadosamente com uma largura mais ou menos de dois dedos, que são sobrepostos sobre dois arcos de jeniparana, bem encostadas de modo a não permitir que passe nada, formando uma espécie de barril, um pouco mais comprido.

No lado da cima, no arco da boca, são amarrados pedaços pontiagudos de mais ou menos um palmo, denominados espeques, que saem abertos e se fecham nas partes acuminadas, objetivando a  fácil passagem e não permitindo  retorno dos peixes. As pontas das talas são amarradas por cipós ou caranãs. É por essa passagem que os peixes são soltos. 

Essa armadilha é posta na tapagem de modo inverso ao manzuá, ou seja, contra a correnteza, para poder  pegar os peixes que estão subindo o fluxo d’água para desovar.

Quando as enchentes são intensas, as tapagens nos rios estendem-se para além do leito original. Na perspectiva de evitar a passagem dos peixes, são feitas barragens dos dois lados, chamadas de bamburral. Nesses espaços normalmente não se utiliza matapis, já os monzuás, são  usados. O objetivo, como já falado, permitir o escoamento da água.

Os peixes capturados: jandiás, bagrinhos, traíras, jejus, matapiris, piabas, piranhas, caranguejos, cascudos, piaus, acarás preta, peixe cachorro, sarapós, tubis. Esporadicamente muçuns e poraqués, podendo  ainda   aparecer  cobras ou jacarés.  

Nos Campos ou lago Aquiri . Hoje em dia mais raras.  Consistem em cercar com varas de madeiras finas, ou talos de folha de palmeira, uma área dentro lago. Normalmente uma enseada, onde são colocadas gaiolas, e matapis para recolhimento dos peixes.

 Nesse  tipo de tapagem não são usados monzuás. Como o número de  presas é muito grande, e as gaiolas são miradas (olhadas)  durante a noite. É preparado um local, um viveiro, onde os estes  ficam a espera dos compradores, sem sofrer deterioração. Temos ainda uma área   denominada     curral.   Montado ao lado da tapagem,  serve para guardar os peixes grandes.

 As tapagens no campo são feitas em áreas já previamente delimitadas,  Ocorrem  em córregos propensos a  secar mais devagar que as outras partes, onde a água se espalha.  

Os peixes pegos são: curimatás, pirapemas, tapiacas, arangaus, surubins, pescadas, peixe cachorros, aracus ,piabas, matapiris, pacus, mandubés, calabanjes, piaus, piranhas (ambeuas e vermelhas) mandis (tatu, amarelo,) jandiás, no âmbito dos peixes brancos. Trairas. Jejus, acará pretas, carraus, cascudos, boi acaris, (bodós),violas, tubis, sarapós, bagrinhos;  peixes pretos. Fortuitamente,  arraias, jacarés, poraqués, cobras.

 

PESCARIA SECANDO POÇA

Acontece sempre no abaixamento, que é a partir do mês de julho. Quando as chuvas vão rareando, e os riachos secando pela evaporação.

Consiste basicamente na  construção de  contenções, ou desvios, em alguma parte do rio, isolando uma parte mais funda ou poça . A partir da retenção do fluxo, passa-se pra dentro do reservatório com latas, cuias, baldes, objetivando diminuir o máximo possível o volume d’água. Normalmente, essa água é jogada para frente da poça.  Após algum tempo, os peixes já embriagados, sem oxigênio, começam a aparecer e são pegos.

Na captura são usados os mesmos materiais com que foi efetuado o processo de retirada da água, alguns utilizam ainda landruás, uma espécie armadilha feita de fios de náilon, parecido com um saco de coar café.

Esses ambientes  quase sempre possuem locas, buracos que se  estendem por baixo das barreiras, onde os peixes maiores e mais perigosos, bem como poraqués, jacarés, cobras, vão se instalando, a partir da diminuição da água. Aí é necessário usar um cofo, um facão ou os próprios braços, para buscar a caça e consequentemente em havendo outros animais, ter contato com estes.

Pescaria de cofo. Uma variante da forma  falada acima, é a pescaria com cofo. Segue-se quase o mesmo princípio das outras  fases, mas ela acontece com mais assiduidade quanto os rios já estão com suas poças apartadas, ou seja, alguns locais no leito, já estão completamente secos.

Usa-se um cofo grande, de boca bem larga, coloca-se algumas folhas de murta ou cauaçu, e arrasta-se o mesmo dentro d’água, explorando sempre as barreiras. Após  algum tempo, ergue-se o aranhol, arrastando para a parte   seca. A água então escorre, deixando sob as folhas o capturado.

A operação é refeita quantas vezes forem necessárias, ou até  que não tenha mais peixes no local.

PESCARIA DE TARRAFA.

Tarrafas são ferramentas de nylon ou fios de algodão (hoje muito raras),  utilizadas para o aprisionamento de peixes. São produzidas  em tamanhos diferentes, algumas chegando a ter a altura de um homem com o braço para cima.

 Poderíamos chamá-las de um recipiente  comprido de boca larga e circulada  na parte de baixo por canículos de chumbo, objetivando sua descida mais rápida.

Na boca destas  existe o saco, um traçado especial, que enrolado ao chumbo em formato de pequenos dutos, evita a fuga dos  peixes, quando da sua  emersão .

Na parte de cima, uma corda fina, de variados tamanhos,  proporcional ao seu  dimensionamento. Prende as malhas no  centro de junção, e é utilizada para jogar a armadilha sobre as águas.  É subdividida  em malhas. Quanto mais largas, peixes maiores serão pegos. Em Arari e Vitoria do Mearim, existem as camaroeiras, peças especialmente preparadas para  camarões  do rio Mearim, suas malhas são muito próximas umas das outras.

Camboa de tarrafa – Praticada no lago ou em porções  onde a água é limpa, sem matos. Segue o padrão das camboas, incluindo o componente canoa. Um grupo de indivíduos  saem uns para a direita e outros para a esquerda até formarem um círculo.

Após,  dois homens, um na popa, a parte de trás, o  popeiro, conduzindo a embarcação com  remo ou  vara; na proa, o proeiro, em pé segurando a tarrafa, e a jogando na água de tempos em tempos.

Então, esta é retirada e posta para dentro da embarcação, onde eventuais peixes aprisionados  são retirados. Volta-se novamente a postura  anterior. Tudo isso   é  simultaneamente sincronizado, e o circuito  sendo gradativamente fechado.

 A visão das tarrafas singrando os ares harmoniosamente, com seus silvos característicos, os raios de sol incidindo nas malhas, descendo vagarosamente sobre as águas, e seu  consequente retorno  à tona, tremulante de peixes. É um espetáculo fascinante.

Uma variante desse método, é denominada de pescaria de  ponga. Os canoeiros implementam o arco,  num tamanho que proporcione a todos participarem, as embarcações vão de forma equitativa e coordenada, efetuando seu fechamento sem usar as tarrafas, mas batendo com as varas ou remos na água, de tal modo que os peixes cercados  ocupem   o centro do aro, então, numa posição onde podem todas  serem jogadas juntas, é efetuada apoteose  da pescaria.

Temos ainda  a pescaria de tarrafa  sozinho a pé.  O pescador, portando a armadilha, e um cofo na cintura, entra na água limpa,   e a vai jogando,” bazugando”.  É praticada   normalmente quando as águas já estão cortadas e são formados os poções.

A   pesca de canoa a esmo, é  empreendida  por duas pessoas,  as vezes por uma só, que sentada na popa da embarcação, faz ambas as  atividades de modo simultâneo: remar/ empurrar,   tarrafear.

Nas cidades  banhadas por rios perenes e lacustres,  também é consumada ficando os praticantes as margens, jogando e puxando a armadilha, sem  necessariamente    entrar na água.

Atualmente   nos milhares de açudes que foram abertos profusamente   para a criação   em  cativeiro, na região da Baixada. São pegos  peixes tanto  naturais quanto exóticos desse modo

 PESCARIA DE REDE

As redes são uma forma de pescaria extremamente predatória, pois possuem uma amplitude  muito grande de ação e dependendo do tamanho das malhas, é capaz  dizimar  com os peixes de determinada região.

Contendo  fibras de nylon, que são atadas a dois cordames paralelos de linhas do mesmo produto, em configurações  que dependem da fundura do local onde será efetivada a pescaria, as fibras formam quadrados de diversos tamanhos, denominados  malhas, que vão desde a malha número  dois,  onde mal cabe um dedo ,até a dez, doze, catorze, em rios ou lagos. Podendo ser maiores que  vinte,   nos açudes ou  mar. Essas redes são chamadas malhadeiras.  Quanto ao comprimento,   variam  de acordo com o local e a condição financeira do dono

 São  duas as  maneiras de pescar: a rede  fixa, e a rede de arrasto.

Existe um consenso que talvez nós nem expressemos, alguns por medo, outros por comodidade, por falta de conhecimento, ou plena ignorância: a pescaria com redes e extremamente predatória.

 

 PESCARIA DE ESPINHEL

Exercida  nos campos e lagos durante  inverno e abaixamento. É um  tipo de ardil que  pega quase exclusivamente traíras. Trata-se de uma mais belas formas de pescaria que conheço.

Começa com o corte de  pedaços da parte central da folha da palmeira seca, buritis, ou qualquer outra madeira  capaz  de boiar. Atualmente já usam pedaços de isopor, na  dimensão de  mais ou menos um palmo e meio,  faz-se um furo ou amarra-se firmemente no centro  um cordame  trançado  de nylon, um pouco maior que ele.

Na ponta solta do cordame, afixa-se uma  minúscula  tala  de marajazeiro, pontiaguda dos dois lados. Coloca-se  então piabas, pequenas acarás, camarões, como  iscas. Esse diminuto   aguilhão  de marajá faz as vezes de um anzol   

As  peças são deixadas dentro d’agua aleatoriamente,  ao cair da noite. Logo cedo no dia seguinte, são  pegos   e jogados numa canoa de modo  indistinto, para posterior retirada dos  peixes aprisionados, bem como recolocar novas iscas para outro dia.

Devido o grande número  de espinheis,- algumas pessoas  podem ter mais de cem,- a possibilidade de  mistura entre a propriedade de  um ou outro  é constante.

Esse imbróglio foi superado de modo genial pelos nossos cidadãos:  é impressa  uma marca  própria em cada um deles. Desse modo ao levantá-los, já fazem a previa observação  sobre se  lhes  pertencem ou não. Assim, todos podem tranquilamente acessar suas próprias armadilhas, e não caírem na tentação ou “ esquecimento” de mirarem as que não são.

 

 PESCARIA DE PUDICA

Utilizada nos campos cobertos, esta forma de pescaria,  pela sua simplicidade, merece destaque: usa-se uma   mensaba,  artefato fabricado da palha do centro da pindoveira, ou palmiteira, a mesma matéria prima com que são confeccionados abanos e cofos, e que era bastante utilizada no passado como porta ou janela nas casas mais humildes.

Essas mensabas são amarradas umas as outras, formando um   assoalho, que é armado estrategicamente.  Mururus são postos  por cima das peças, de modo a camuflá-las. A partir daí, um  grupo de pessoas passa  a bater na água com varetas de embira ou urucum,  fazendo  muito   barulho, visando levar os peixes para dentro da pudica.

 Logo após, conjuntamente, cada um  com seu cofo na cintura, erguem  as mensabas acima da lâmina d’agua, permitindo o escoamento do liquido e deixando no seu interior os peixes que fugiram das batidas e gritos e ali buscaram refúgio, além do mato ou mururu que fora colocado anteriormente.

O próximo passo será  a retirada do mato, e  posterior  catação dos peixes  que ficaram. Sendo estes colocados nos cofos.

Pega-se os mais variados tipos de peixes, tanto os chamados peixes pretos, quanto, em menor escala, os brancos. Não os  citarei em função de já tê-lo feito  anteriormente.

 Acredito ser relevante falar que junto aos peixes, também aparecem cobras, poraqués e pequenos jacarés, necessitando muito cuidado quando da coleta, pra não sofrer acidentes.

Cabe registro  especial, a preocupação  com  as piranhas. Devido  essa pescaria se realizar no abaixamento, período em que as águas vão se evaporando, formando os poções que guardam uma infinidade de  piranhas. Estas, quanto mais tênue se torna a lâmina, mais perigosas ficam.

Para evitar seus ataques, muitos  pescadores vestem uma espécie de calça feita de sacos de estopa, um tecido bem  grosso que antigamente acondicionava os produtos  comercializados. No contato com a água, a estopa incha, e quando é mordida pela piranha, não consegue alcançar a carne.

 Por ser um modo de pescar que não exige muito esforço físico, em certos  momentos tornando-se até uma  brincadeira/ diversão, quando das batidas e barulhos na água, alguns aproveitam para jogar o precioso líquido  uns nos outros. A  pudica  tornava-se um evento peculiar, único, que permitia  a participação de famílias inteiras, dando uma característica de congraçamento comunitário.

Não cheguei a praticar, mas na minha memória de criança, ficou gravada a imagem de inúmeras  crianças, adolescentes, mulheres, fazendo muita algazarra, sorrindo, espanando água, quando da etapa de tanger os peixes para dentro das armadilhas.

 PESCARIA DE LUZ

 

A engenhosidade do baixadeiro não tem limites quanto ao quesito pesca. A pescaria de luz ou facho é a prova disto.

Acontece  no verão e inverno e é praticada sempre a noite, quando os peixes, que durante o dia ficam nas partes mais fundas dos rios,  igarapés, lagos e campos, aproveitam o soturno e encostam nas beiradas, para  dormir. 

Usa-se uma luminária, acoplada a  um pedaço de madeira leve, já seca, de mais ou menos meio metro, sobre a lamparina uma  placa  de caranã, que é o involucro do palmito de babaçu.

A chapa  que envolve a lamparina, tem dupla função: proteger a chama dos ventos, não permitindo que se apague, e evitar o  ofuscamento,(incandiar) de quem está conduzindo, mais ou menos como se fosse um abajur.

Esse abajur/lucivelo, denominado “careta” também é, ou era, confeccionado com  de folhas de flandres, geralmente  de   latas de óleo para  cozinha.

 Praticada a pé, nas noites escuras, não faz muito sucesso quando existe luar. O pescador, com a luz a frente numa mão,  na outra um facão afiado, vai pé ante pé, caminhando a  d’água,  procurando  peixes dormitando. Ao identificá-los, desfere um rápido e mortal golpe, costumeiramente na cabeça, para não perder o corpo. Ato contínuo,  com o peixe já morto, recolhe-o ao cofo atado na cintura.

 É uma bela cena, digna de cinema, na limpidez da água, sob a fraca luz da lamparina ou mais recentemente, o facho de uma lanterna, traíras, acarás ,jejus, sarapós, dentre outros, com seus corpos tremulantes do suave balouço, madornando, para logo depois, num rápido talho, virarem comida.  

Em Arari conheci uma versão diferente e  interessante: a pescaria é efetivada as margens do rio Mearim, por entre os galhos da ingazeiras, troncos de aninga e mururus, que sobem e descem o rio.

 Na proa  da canoa,  lanterna numa mão, na outra em vez do facão, um ancinho  com cinco pontas afiadas.   Pequenos arpões nas extremidades  permitem que os peixes  venham presos para   quem o manuseia.

É chamada  pescaria de gadanho, e diferentemente da outra , onde se utiliza um facão, proporciona a possibilidade, de em havendo dois ou mais peixes próximos, alcançá-los e trazê-los engatados, de maneira integral, pois não  é necessário cortar a cabeça,  ou parte do corpo.

 Provavelmente, devem existir outras formas de pescarias na Baixada, e  eu, por não saber,  preguiça de aprofundar a pesquisa, ou medo de fazer um texto muito longo, deixei de enumerar.

 Em São João Batista, pescam caranguejos; em São Bento e Bacurituba, muçuns. No povoado Bonfim, em São Vicente Ferrer, existe a pescaria de ninquin, uma espécie de cascudo bem pequeno, só encontrado lá.

 Sem contar com mais recentemente, a verdadeira explosão de pequenos e grandes açudes, que estão explorando, implantando, diversificando – sem nenhum juízo de valor -,uma nova forma de criar, e consequentemente,  agarrar esse produto tão apreciado.

CONCLUSÃO

 

Entendo que o explanado dar uma real dimensão da pluralidade  de modelos que nosso povo utiliza para aproveitar os peixes que abundam na região .Revelando o quanto fomos e somos agraciados pelo Criador  

Este texto só foi possível, devido a ajuda de muitos irmãos baixadeiros, que não nomearei para não causar  desconforto por ter  deixado de citar algum. A todos, minha  gratidão.

Também me foi muito útil o livro do vianense Ozimo de  Carvalho, a quem homenageio,  Retrato de um Município. Um excelente roteiro abordando  aspectos  sociais, históricos e ambientais, nos anos 1950, na cidade de Viana e cercanias.  Notadamente no capítulo  VIII,  a pesca.