A ACADEMIA JOANINA DE LETRAS, CIÊNCIAS E SABERES CULTURAIS

A ACADEMIA JOANINA DE LETRAS, CIÊNCIAS E SABERES CULTURAIS

Por Marcondes Serra Ribeiro*

Faz certamente bem mais que dez anos, desde o dia em que eu e o nobre conterrâneo e amigo, Professor Batista Azevedo – mui respeitosamente, um grande profissional da área educacional, particular expoente e orgulho da terrinha – conversamos, muito empolgados, sobre a criação da Academia Joanina de Letras.

Na oportunidade, as considerações feitas primavam pelo propósito de reunir nossos intelectuais para tratarmos coletivamente, com cuidadoso carinho, sobre as questões contemplativas de nossa língua, com especial enfoque às produções literárias, incentivo à arte de escrever, apoio às manifestações culturais, e reconhecimento da qualidade valorativa de seus membros, o que aconteceria através de eventos, homenagens e premiações. Outra assertiva colocada em pronta evidência naquela oportunidade, e muito valiosamente fortalecedora do intento, foi a funcionalidade da “academia” como uma instituição voltada à preservação de nossa memória, zeladora do acervo reconhecidamente criativo dos cidadãos joaninos.

Não nego que o compartilhamento da ideia criativa da academia seja contemplativa de minha vontade em ser um dos acadêmicos, com a necessária humildade que me caracteriza, sem o esplendor de “tornar-me imortal”, a exemplo daquilo que ocorre com a maioria dos membros das instituições congêneres. Embora seja uma vaidosa intenção, tenho consciência de que há necessidade de enquadramento aos critérios estatutários estabelecidos mediante as discussões em reuniões com os demais envolvidos, pessoas que, desde o primeiro momento, foram inclusas em uma listagem de convidados para apreciação da ideia, também seguindo os moldes das academias existentes. É claro que eu e o amigo Batista Azevedo tínhamos em mente a justa certeza de que não deveriam existir precedências privilegiáveis de algum membro.

Na ocasião, ainda sabíamos muito pouco sobre o assunto, mas conhecíamos alguns importantes itens do estatuto da Academia Brasileira de Letras, como por exemplo aquele que estabelece aos candidatos à vaga na instituição, a necessidade de ser brasileiro nato e ter publicado, em qualquer gênero da literatura, obras de reconhecido mérito ou, fora desses gêneros, livros de valor literário. Esse detalhe levou-me a dedicação mais resolutiva da edição de meu primeiro livro, Revérbero Amarelo, que se fez realidade, embora com alguns pormenores pendentes quanto ao ISBN, pois a gráfica relaxou este importante detalhe, mas que está em trâmite, junto à Câmara Brasileira do Livro. Apressei-me na divulgação, pelas redes sociais, de alguns trabalhos que habitualmente faço com dedicada paixão: escrever e postar meus textos reflexivos, notas e poemas – retratos de mim em aproveitamento da inspiração que o dom instiga e o hábito constrói, mesclando as qualidades e defeitos de todos os artistas.

Depois de algumas investiduras, ao longo destes anos, juntamo-nos a outros expoentes joaninos e caminhamos, determinados e bem confiantes, para a elaboração do estatuto e criação da então nominada “Academia Joanina de Letras, Ciências e Saberes Culturais”. Estão conosco, os respeitáveis futuros acadêmicos, perfis do mais puro ajuste aos preceitos institucionais: Manoel Martins, Edinete Alves, Gracilene Pinto, Flavio Braga, Sharlene Serra, Damasceno Júnior, Raimundo Cutrim, Evando Cutrim, Dilercy Adler, Gilberto Matos Aroucha, José Eulálio Figueiredo, Jersan Araújo, Raimundo Correia Cutrim, Ana Márcia Ferreira, entre outros profissionais que também labutam com as artes, ciências e os saberes culturais, componentes iniciais de um quadro que estará completo até o dia previsto para a fundação e que se seguirá preenchendo condignamente o número de cadeiras, na medida em que surgirem candidatos a atenderem os requisitos.

Todos nós comungamos as ideias mais promissoras quanto à promoção da literatura, leitura, educação, defesa consciente do meio ambiente, dos patrimônios artístico, cultural, histórico, turístico, paisagístico de nosso município, além de nos mostramos desejosos de investir na manutenção de intercâmbios com as demais entidades nacionais, realização de seminários, cursos, encontros que congreguem expoentes das atividades culturais, proporcionem condições de produtividade e livre debates de ideias.

Até o momento, temos definidos alguns nomes para Patronos das Cadeiras Acadêmicas. Personalidades escolhidas para serem inicialmente as homenageadas, por terem expressivo destaque e marcado verdadeiramente a história joanina: José Maria de Araújo, Francisco Figueiredo, Antônio Santos Jacinto, José Ribamar Dominici, Onezinda Castelo Branco, Fran Figueiredo, José Souza Martins, Iracema Ferreira de Araújo, Arthur Marques Figueiredo, Creusa Costa Araújo, Maria Creusa Santos Jacinto, Padre Domingos Tibúrcio, Padre Dante Alligiere Lasagna, Suvamyr Viverkananda Meireles, José Brígido da Silva Neto, entre outros.

Em reuniões conectadas, nós, os membros fundadores, conhecedores das limitações do nosso município quanto à militância puramente literária, resolvemos ampliar o leque de abrangência da academia, certos de estarmos investindo em uma expressiva referência no mundo cultural de nossa cidade, porque a academia simbolizará o assento da historicidade de nosso povo, preconizando um caminho venturoso para aqueles que se empenham nas artes, ciências e nos saberes e divulgação da cultura como grandes ideais de suas vidas!

A fundação e posse dos primeiros acadêmicos está prevista para o dia 29 de outubro – Dia Nacional do Livro, em sessão solene, com a honrosa presença das autoridades municipais e convidados, podendo se constituir, talvez, com o apoio de representantes do Poder Público e de empresários locais, um dos mais significativos eventos da nossa querida São João Batista!
Nós merecemos!

* Marcondes Serra Ribeiro é natural de São João Batista, Graduação Superior em Língua Portuguesa e Literaturas na instituição de ensino CESB, Trabalhou como Professor de Língua Portuguesa na empresa Área de educação, Trabalhou como Management na empresa Ministério da Saúde.

Belas Águas

Belas Águas

Autor João Carlos

Não é novidade minha paixão pelas músicas do confrade, amigo desde tempos pueris, vizinho, companheiro de brincadeiras, pescarias e profissão; cantor, compositor, artista plástico, Kléber Brito, a quem eu, em que pese o passar dos anos, insisto chamando de Kebinha, seu apelido de criança.

Sempre digo que suas canções, todas elas, são autênticos faróis, e sendo analisadas sob ângulos/matizes, servem para reportar, contar, extrair, resgatar, no âmbito sociológico, cultural e artístico grande parte da nossa infância.

Parece que, igualmente Caetano Veloso exaltou na encantadora “Sampa”, o cruzamento da rua Ipiranga e a avenida São João, em São Paulo; aquele quadrado mágico da esquina entre a rua Cel. Antônio Augusto Alves da Silva e a rua Dr Afonso Matos, em Matinha, exerce profundo poder inspirativo, dando a Kebinha uma onda de criação tão incontrolável quanto bela.

As reminiscências emanam em borbotões de versos e estrofes carregadas de saudade e poesia, e a cada obra nova, aparecem engendramentos de arte intensos, que só ratificam a sua genialidade. Eu mesmo ao escutá-las, faço com a certeza, de que o choro fluirá.

A última pérola desse artista admirável chama-se “BELAS ÁGUAS”, e tal qual as outras, emociona demais.

Tentarei neste texto uma avaliação, reflexão/hermenêutica, dessa composição. Faço sabedor que sob a ótica filosófica, essa análise nem deveria existir, pois a norma exige afastamento completo do objeto, a quem vai estudá-lo, para que seu juízo possua a necessária isenção; e quando se trata de Kebinha, meu sentido de equidade desaparece, sou seu fã de carteirinha. Parcial, na definição bem conceitual do termo.

A começar pelo título, Belas Águas, esta poesia musicada traz informações da Matinha de antigamente, que não obstante o passar do tempo, teima em permanecer intacta, nas nossas memórias.

Belas Águas, é um povoado distante da sede uns cinco quilômetros, que

sempre teve muita importância na história dos matinhenses.

De lá são duas das maiores lideranças políticas da cidade, o ex prefeito, Raimundo Silva Costa, cognominado Pixuta, e o doutor José Conceição Amaral.

Neste local situava-se o engenho de cana de açúcar de Costinha, irmão de Pixuta, último remanescente dos três que no passado, a terra das mangas, possuía, produzindo garapa, açúcar mascavo, e mel, mel de cana inigualável. Além da famosa cachaça que levava o nome da povoação.

Quando era a época de moagem, um número expressivo de moradores do município saía, quase em procissão, e a todo momento, trilhando o caminho, sob sol ou chuva, para adquirir aquilo que o engenho de açúcar fabricava, e um dos motivos da canção.

“Sobre a estrada funda/ cai chuva do céu/ lá na Belas Águas/ tão fazendo mel”. Primeira estrofe. Lembranças ecoam….

Praticamente todo o trajeto para o arraial, fazia-se numa estrada funda, desde a casa de seu Ozias, até chegar efetivamente no engenho. Essa “estrada funda”, eram barreiras, de um lado e outro, chegando em alguns locais a ter acima de dois metros.

Fazíamos o percurso de duas formas: Em não havendo chuvas, ou tendo pouca lama, por dentro da estrada. Quando o inverno apertava, caminhávamos sobre as barreiras, em vias alternativas, arriscando-se a todo momento, cortar ou furar os pés no capim, espinho de tucum, tocos.

Pegar um chuvisco na estrada funda, era sinônimo de intensa alegria, para nós garotos, pois proporcionava a possibilidade de podermos escorregar nos regos já existentes, que em função da água jorrando, tornavam-se em nossa lúdica imaginação, tobogãs.

Tantas e tantas vezes, pedíamos, ou mesmo em atos de desobediência, enquanto os adultos seguiam pelas trilhas em cima das barreiras, para irmos pelas fendas escorregadias da estrada funda, jogando e recebendo pedradas de bolas de barro, ou brincando com os seixos (pedra de trovão), que estavam no caminho

Mais à frente via-se o resultado: roupas enlameadas, repreensões, ralhamentos, algumas ocasiões até pitangadas, e sempre, alegria estampada nos rostos.

“O inverno é grande/ Cuidado meninos/ Que a água comprida/ Encobriu Faustino.” A segunda estrofe. Importantes informes…

O inverno está intenso, cuidado, não vão se afogar. Preocupação recorrente,

afinal, água não tem galho, dizem os mais velhos.

“Água comprida”, como era chamada aquela parte do igarapé açu, atravessava de um lado ao outro a estrada, e de acordo com o maior ou menor número de chuvas, espalhava-se tanto na horizontal, quanto na vertical, daí creio, o nome.

Interessante o modo de aferir a fundura desse rio da “água comprida”, nada de medições inócuas, ou outros métodos perigosos. “cuidado meninos/ a água comprida, já encobriu Faustino”.

E quem é esse personagem, essa referência de profundidade que qualquer matinhense, independentemente de idade, sexo, cor, ou condição social, já entendia aprioristicamente? Resposta: Antonio Faustino dos Santos, filho de seu Teodomiro e dona Diolinda.

Desde bem jovem quis ser motorista, foi também goleiro, vereador. Hoje possui um sítio no Jacarequara.

Mesmo tendo inúmeros atributos, uma coisa sobressaia-se nesse homem, a quem chamávamos de “Nhô Fosto”: sua altura. Faustino tem mais de dois metros de altura. Causava admiração a todos, quando ele descendo do carro de Juca Amaral, ou mesmo andando na rua, passava por nós.

Certa feita, mamãe me falava do quanto Deus é grande, e eu, devido a tenra idade, ainda sem entender ao que se referia, perguntei: – Mamãe, Deus é muito grande? E ela: – Sim, é enorme, grande demais. Eu inocentemente: – é maior que Faustino?

Era, portanto, natural a qualquer matinhense, ao ouvir a frase “já encobriu Faustino”, e alguns ainda faziam o adendo, “de braço pra cima”, entender que o inverno não tava pra brincadeiras.

“Gira maracujazinho/ Flor de geniparaneira/ Olha o redemoinho/ Tá por cima da barreira”. A terceira estrofe. Um giro de recordações…

Quando íamos pescar, ou mesmo tomar banho na água comprida, um espetáculo nos fascinava enormemente.

Devido as enchentes, quanto mais águas iam se acumulando no meio da estrada, havia a formação de redemoinhos. A enxurrada arrastava das profundezas do igarapé açu, maracujazinhos (maracujá do mato), bem como flores das geniparaneiras, que ficavam nas margens.

O encontro desses objetos com o torvelinho formado pela enchente, estabelecia um espetáculo ao mesmo tempo belo e perigoso, cheio de adrenalina.

Sabíamos do perigo presente, mas ao mesmo não conseguíamos nos desvencilhar do poder visual/emocional, sublime, que ele exercia sobre nós.

Ficávamos contraditoriamente fascinados, inebriados, “por cima da barreira”, os pés e os olhos molhados.

“Na volta a gente banha mais/ Se a vida é aventura/ A infância é moleca/ Litro preso na cintura/ Galho de espantar membeca” Quarta estrofe. Na volta…

Já foi dito que o tempo é relativo. Podemos passar horas satisfeitos, e pensar que são poucos minutos, como também alguns minutos de dor, podem parecer horas. Quando estávamos banhando nas tépidas termas da “água comprida”, a vida parava, perdíamos completamente a noção de espaço / tempo.

Era preciso uma chamada de alguém mais velho e responsável: “na volta a gente banha mais”, dizia carinhosamente Tchem ou papai, pra nós. Afinal a aventura ainda não acabara, nosso objetivo principal, chegar em Belas Águas, comprar mel, beber garapa, estava por se concretizar.

Subir na barreira, retomar a caminhada, era muito difícil. Mas a realidade se impunha.

E lá íamos nós, rumo ao engenho de Costinha, na cintura, amarrado por uma embira ou cipó, o litro pra trazer o mel de cana, e no cós da bermuda toda molhada, um galho de murta, pronto pra espantar as danadas das membecas, que acorriam em nuvens sobre nós, a fim de chupar nosso sangue.

Membeca ou mambeca, é um tipo de inseto hematófago, que vive atazanando, picando a pele, de quem andava por aquelas bandas. Se não for “espantada”, sua picada causa inchaço e dor…

“Daqui já se avista/ Fumaça no céu/ Lá na Belas Águas/ Tão fazendo mel…/ Fazendo mel…” Última estrofe. A apoteose….

Neste momento do texto, as lágrimas já rolam soltas. Não tem como não se emocionar com a lembrança daquela fumaça branquinha, subindo suavemente para céu, num contraste límpido, perfeito.

A sensação prazerosa do mel, da garapa, da cana in natura, descendo pelas nossas gargantas, já tomam conta do corpo e alma. Os últimos metros de distância são atingidos quase em desembalada carreira.

Enquanto o adulto que ia conosco “perdia tempo” cumprimentando ou tomando café na casa dos amigos, já estávamos adentrando as dependências do engenho.

Ali nos esbaldávamos. A apoteose da viagem estampava-se nos nossos rostos carregados de felicidade. Era o nirvana, o paraíso terrestre, o auge autêntico do bem-estar.

Obrigado Kebinha, por proporcionar através da tua arte, a possibilidade de poder mergulhar no passado, da infância saudosa que não nos sai do pensamento. Por resgatar frases/palavras já esquecidas do glossário dos tempos atuais.

Vocábulos como maracujazinho, geniparaneira, galho de espantar membeca, infância moleca, mel de cana…. etc. Revivem aquilo que nos faz ainda sobreviver. Amores de eras priscas. Saudades guardadas na alma das imorredouras crianças que fomos e somos.

Meu contemporâneo confrade, talvez não tenha noção do quanto suas músicas/poemas nos fazem bem. É muita nostalgia envolvida, amor descarregado, choro desandado. Lembranças revigoradas. No teu canto, caro amigo, somos imensamente felizes.

Discurso de saudação acadêmica: Kléber e Edleuza

Discurso de saudação acadêmica: Kléber e Edleuza

Autor João Carlos

Excelentíssimo senhor presidente Carlos Cesar Brito, em nome de quem saúdo a todas as confreiras e confrades da AMCAL, conterrâneas e conterrâneos, demais acadêmicas e acadêmicos aqui presentes.

Senhoras, senhores.

Recebi uma incumbência deveras difícil, mas ao mesmo tempo saborosa: fazer um discurso de saudação á confreira Edleuza Brito e ao confrade Luís Kléber, dois dignos representantes da nossa academia

Artigo: Discurso de saudação da acadêmica matinhense Edleuza Brito – Jailson MendesEdleuza Nere Brito Souza, cadeira nº 07, cujo patrono é o senhor Antônio Pedro Brito; Luís Kléber Furtado Brito, cadeira nº 18 patroneada por Miguel Penha Brito.

Edleuza Nere Brito Souza, nascida em 23 de outubro de 1961, na cidade Matinha. Membro fundadora da AMCAL, vice presidenta da atual diretoria. É graduada em Pedagogia pela UFMA, especialista em Didática Universitária, mestranda em Cultura e Sociedade, do Programa de Pós Graduação PGCULT/UFMA, professora do IFMA –    -membro do Núcleo de Estudo e Pesquisa em Tecnologias Educacionais, Neurociência e Afetividade – (GEP-TNA), da UEMA. Considera-se uma educadora em processo, portanto inacabada. Pretende na academia, contribuir com o desenvolvimento de ações/atividades que de algum modo colaborem com a melhoria de qualidade de vida dos seus conterrâneos.

Luís Kléber Furtado Brito, nascido em   07, de setembro de 1963. Bancário aposentado da CEF, declara-se um autodidata, compositor. Para mim é um poeta de mão cheia. Não perdendo pra muitos que existem por ai. Também não se acha cantor. Eu o avalio um excelente musicista, bem como notável pintor e artista plástico.

Suas canções são belíssimas, inesquecíveis, brilhantes. Quem de nós não já se pegou cantando a linda melodia “por isso eu canto e o meu canto é Matinha …” da sua música, canto para um canto? Ou então quem não se sentiu debaixo do cajueiro do mercado, “com seus ninhos de japi”, remoendo – se de inveja de João Dhiba, só ele, por ser o mais levado de todos nós, seus contemporâneos, ter conseguido subir, na canção cajueiro velho?

Eu e muitos matinhenses   choramos de emoção ao ouvir a sublime estrofe “tinha concertos de bichos, cachoeira cores mil. Beleza, força, magia, no mundo que rosa via e a ganância destruiu”, da maviosa Rosa triste. Quem não parou pra pensar na nossa vida de antanho ao ouvir “Brinco com folhas invento formas, conforme o vento e a sombra nos jiraus, guardo um espelho pendurado na pindoba, tomo meus banhos em poço de juçaral”, ou “o progresso tá chegando minha Matinha tá mudando, mas não muda o amor”, das meditativas Reflexões e Reencontro?

Velhos carnavais homenageia o símbolo maior da nossa terra, a manga, e nos emociona demais: “essa nossa fruta nobre, que satisfaz o paladar do rico e na escassez, mata a fome do pobre”

Paro por aqui…senão, talvez não consiga segurar o choro!

 QUEBRA DE PROTOCOLO:

EDILEUZA

Eu a conheço, desde de criança, como Edleuza de Nezico e Francisquinha.

A imagem mais antiga que tenho dela? Sentada num sofá comendo, creio que manga, a boca toda suja, numa das visitas que Tchem (Ana Rita), fazia a sua mãe dona Francisca, num dos seus muitos partos.

Sempre foi inteligente. Liamos muitas revistinhas na infância.  Estudamos juntos no ginásio Bandeirante. Depois ela mudou-se pra Vitoria do Mearim. Perdemos o contato.

KEBINHA

Pra mim ele sempre foi Kebinha…mesmo grandão, é assim que eu o chamo até hoje.

É muito difícil falar de alguém que gostamos e admiramos. A filosofia diz que é necessário nos afastarmos do objeto para fazermos uma avaliação isenta. Com Kebinha será impossível.  Nós sempre estivemos juntos. Nossa amizade ultrapassa meio século.

A imagem mais antiga que eu tenho dele? É uma lembrança que remonta os meus quatro ou cinco anos de idade, e vem por incrível que pareça, não no sentido da visão, mas na memória olfativa. Ainda sinto o cheiro do talco que Dondona, como todos chamávamos sua mãe, passava nele.

 Não teria tempo para falar das peripécias que vivemos, foram muitas, eu diria dezenas ou centenas.

Quando chegava o dia 7 de setembro, data consagrada pra comemorar a independência do Brasil, três coisas eu sabia que aconteceriam: teria desfile, eu largaria o desfile depois de uma hora debaixo do sol quente, e me empanturraria de bolo e refrigerantes, no aniversario dele

  • Pescamos jandiás, piabas, bagrinhos, de dia, de noite;
  • Íamos pra Santa Maria, Bom Jesus, Belas Aguas, com Tchem;
  • Secávamos poça, vendíamos tucum…
  • Armávamos garapucas, tirávamos bicho de tucum;
  • Jogávamos pião, bolinha de vidro, china;
  • Líamos e trocávamos revistinhas;
  • Comíamos, peruana, ginja, goiaba, cajá, seriguela;
  • Íamos pro Mangal comer manga, bacuri, jambolão;
  • Viemos pra São Luís quase ao mesmo tempo;
  • Ia visitá-lo na casa de padre Sidney. Na Jansen Miller;
  • Viramos bancários quase ao mesmo tempo;
  • Fomos da diretoria Sindicato dos Bancários;

 Ele é o craque do nosso time. Todo time tem seu Zico. Ele é nosso Maradona. Nosso Pelé.

Para encerrar: farei a saudação não de modo convencional, usual. Reverenciarei aos nossos imortais com a eterna louvação, que tornou famoso o personagem senhor Spock, um hibrido de vulcano e terráquea, protagonizado por Leonard Nimoy, na série Jornada nas Estrelas, a original, cuja filosofia ´de vida era pautada na lógica e na inteligência. Inspiração bem adequada para o momento.

VIDA LONGA, E PRÓSPERA, confreira Edleuza Nere Brito Sousa, Edleuza de Nezico e Francisquinha, e confrade Luís Kleber Furtado Brito, Kebinha de Miguel Brito e Dondona.

Lembranças, lembranças, eternas lembranças

Lembranças, lembranças, eternas lembranças

Autor João Carlos

Ouvir o CD “Canto para um Canto” de autoria do meu amigo de infância Luís Kleber, Kebinha, é como viajar numa máquina do tempo, num retorno aos áureos tempos, tempos de beleza, amizade, brincadeiras, sonhos, um retorno não só possível, mas principalmente, desejado, almejado ardentemente de coração. As músicas cantadas na maviosa voz de Torlene, nas surpreendentes vozes de Alinson, (Lalá-), e Marcelo, junto com um extraordinário arranjo, deram o exato tom intimista, necessário ás grandes obras. Não deixando, na minha modesta opinião, a desejar para quaisquer outras composições da MPB ou MPM. – Música Popular Maranhense-.

Embora falando de uma cidadezinha ignara nos confins da Baixada Maranhense, o disco não se torna piegas, provinciano, pelo contrário, universaliza os tons, as letras, mais ou menos, guardando as proporções, como o filósofo Imanuel Kant, que sem sair da pequena Konisberg, encravada na região portuária da Prússia, tornou sua obra universal, ou Luís Gonzaga, Geraldo Azevedo, Elomar Filgueiras, Xangai, Cora Coralina, dentre outros tantos, que também fizeram o mesmo.

E as lembranças fluem graciosas, nos elegantes versos. Rememoramos o canto de seu Miguel, tio Ademar, Juca Amaral, mamãe; uma esquina da Rua Cel Antonio Augusto com rua Dr Afonso Matos, que ficará para sempre em nossos corações, como as ruas que brincávamos, banhávamos na chuva, sem nenhuma preocupação.

Quem se esquece do cajueiro do mercado, imponente, majestoso, de João Djiba, e suas inúmeras traquinices?; Ou do banho na baixa de Grijosto, e a consequente surra ao chegar em casa, coberto de lodo e de satisfação ? O papagaio suro, com cerol na linha, que tão felizes pegávamos para brincar? Correndo esbaforidos, os joelhos arranhados e os pés cheios de espinho?

Quem sabe uma vida feliz, ditosa, não seria com uma rosa no dedo, nos contando e até lembrando coisas belas da sua vida nas matas, que o homem de forma inexplicável e maldosa luta para acabar? Talvez num espelho em um banheiro de pindoba? Num banho de poço no juçaral?

João Carlos

A verdadeira felicidade não estaria em comer um caroço de pequi, daqueles carnudos lá de Meia Légua, Aquiri, Belas Águas? Ou ainda nos bagres pescados nos igarapés, da Rosa Maxixe, de Buranga, Quebra bunda, com bicho de tucum? Triste realidade a que estamos expostos, contradiz tudo que aprendemos, a infância, o amor a velha Matinha, que mesmo nessa realidade tenebrosa, insiste em ainda se manter nas lembranças que são imorredouras.

Kebinha de modo incisivo e autêntico, nos faz esses questionamentos, ficamos então, ao término das canções, com a sensação de que o progresso, do modo como vem sendo desenvolvido e utilizado, está tirando toda a magia, deixando um débito muito grande com a humanidade, a sociedade, as pessoas. E mais uma vez evocando a filosofia, relembro Rousseau, e seus conceitos sobre a natureza do homem e os percalços ao qual está sujeita.

Fica então uma certeza: ser feliz, feliz de verdade, de modo pleno e absoluto, talvez só voltando a Matinha de antanho, num regresso aos tempos de menino, de conversas nos fundos dos quintais, revivendo velhos tempos, as belezas dos antigos carnavais, comendo manga com farinha até lambuzar o nariz.

Beco, um matinhense das antigas

Autor João Carlos

Quando do lançamento do CD de Kleber, “Canto para um canto”, tive oportunidade de rever um cara que povoou minha infância e adolescência, um homem acima do seu tempo, verdadeiro desbravador, referencia em audácia pra minha geração, Beco de Maria Carneiro, o Dias, como é conhecido em São Luís.

Beco é aquela pessoa que nos faz voltar à Matinha do passado. Saiu de lá a quase quarenta anos atrás, sua mente ainda pensa e vive naqueles tempos. De memórias gostosas, ainda não confundidas pela modernidade que assola nossa cidade. Dotado de uma sensibilidade marcante, nos recebeu gentilmente em sua residência, que mais parece um museu, com as paredes entupidas de quadros, fazendo-me lembrar o livro que atualmente estou lendo, de Chico Buarque de Holanda, “O Irmão Alemão”, onde o autor, escreve que na sua casa, “as paredes eram feitas de livros”. Na casa de Beco tudo respira cultura, arte, retorno ao passado, lembranças.

Recordo-me bem de quando morava em Matinha. Tenho marcado o dia em que inventou uma nova forma de vender bananas: cantando a plenos pulmões aquela musica de Jorge Benjor, que fazia muito sucesso, “Olha a banana, olha o bananeiro”; ou então um inesquecível desfile de moçoilas vestindo biquínis,- um verdadeiro atentado ao pudor para aquela época-, em que ele era o mestre de cerimônias, sem nenhuma cerimônia.

Conversar com ele, além de agradável aos sentidos, é uma volta as pescarias no igarapé de Zezé Veloso; uma ida ao mangal e o palmeiral de Maria Teixeira; o refresco de Flávio Penha; as peladas no campo do Machado; as viagens na lancha de Benedito de Osvaldo, no porto de Canem; os cambos de peixes vendidos por Xuxeta e Valério; as tapagens na Enseada da Mata. Eu poderia ficar horas enumerando fatos e passagens daquele espaço geográfico e temporal, onde Beco morava que nós chamamos de forma jocosa e talvez até um pouco preconceituosa de “lá em baixo”.

Hoje vive em são Luís, mantém um ateliê de reforma de móveis, engrandecendo nossa terra com sua insuperável técnica e beleza na recuperação de quaisquer tipos de sofá, cadeiras, ou outra modalidade. Estando já acima dos 50 anos, – idade em que Platão diz: a sabedoria acontece melhor, e outro filósofo, menos conhecido, o Reverendo Valdir Mariano, diz que já podemos falar o que quisermos, sem medo de chocar os outros-, Beco desfila doxas sobre tudo. Ficou encantado com esse projeto de tentarmos reunir conterrâneos, que estamos querendo colocar em prática, dispondo-se imediatamente a elaborar ideias e devaneios para abrilhantar novos encontros, já fazendo planos para todos juntos, fazermos um piquenique, daqueles de antigamente.

Enfim, conviver com Beco, dá-nos a sensação de estarmos ao lado de alguém rico em conhecimento, e que só nos traz sentimentos belos e saudáveis, capazes de renovar ou emergir reminiscências que aquecem nossa alma, inesquecíveis recordações da nossa querida Matinha.

Parabéns… Matinha querida

Autor César Brito*

Muitos se foram, outros tantos estão por chegar, todos, iremos passar, nesta terra gloriosa. vidas vividas, sonhos sonhados, tristezas, alegrias, noites vazias. doces recordações, eternas lembranças.

As palmas das mãos unidas com que eu rezava, eram as mesmas com que bebia a água da fonte.

Água da fonte…

Lembrar tuas águas é lavar minha alma…

Os filhos que de longe pensam em ti, pois, não seguem sem pensar, trazem no peito a vontade de voltar.

Tua gente é mais forte no calor do teu solo, na paz dos teus braços, no aconchego do teu colo.

Como cegos vagando numa dura caminhada, vão construindo com o tempo perdido, horizontes e fronteiras, premissa do que é nosso dever, fardo de ilusão, medo da solidão, realização ou mesmo, frustração.

Despercebida passa tua sutil gratidão, teu afago fraterno no orvalho das manhãs, a benção de poder acordar e levantar com o brilho do sol, olhar no alto das palmeiras, samambaias, periquito jandaia, ouvir o badalar das palhas, respirar ar puro, contemplar o reflexo dourado da lua no espelho das águas.

Obrigado mãe gentil, paz, luz e bênçãos.

Aos teus dirigentes, serenidade, sabedoria, desapego da vaidade, ética, comprometimento com a cidade, só assim, teremos progresso e prosperidade, educação, cultura e igualdade.

Abençoada seja, querida matinha.

Vamos festejar com alegria neste sublime dia, brilhos, cores, desfiles, esperança, rojões e felicitações, com harmonia e união em homenagem a nossa terra adorada, merecedora de uma bela e calorosa alvorada.

Parabéns Matinha, parabéns povo matinhense.

MATINHA FOI EMANCIPADA EM 31/12/1948 ATRAVÉS DA LEI 267/48 – (MARCO DA FUNDAÇÃO); 15/02/1949 – DATA DA CONSOLIDAÇÃO E INSTALAÇÃO DO MUNICÍPIO DE MATINHA (ANIVERSÁRIO).

MATINHA, TERRA ENCANTADA

Autor CésarBritoImagem de Internet

Guardiana

Nas águas do Piraí…

Luar de prata, índios se abrigam lá na mata,

Desbravadores viajantes se encantam com a beleza,

Dessa terra verdejante, lindos campos, Cacoal e exuberante mangal;

Mata frondosa, paparaúba, ingá, cajá, bacuri, bacurizinho, goiaba araçá,

Terra gloriosa, caneleira, Axixá, sumaúma, Ervacidreira, jatobá,

Mata nativa, mata formosa, Enseada da Mata, mata, Matinha,

Subia o Genipaí a tribo dos Criviris, sob as águas do Caiada descansa Jaibara, sombra, água fresca, cachaça tiquira e juçara;

Caboclo meche a farinha com suor e alegria, parcela que teve o negro, com trabalho e devoção, importante integrante dessa miscigenação,

Levanta Santa Maria, o melaço belo dia, Vida doce, que alegria,

Esperança e Boa Fé abençoa Frei Antônio o Engenho Nazaré,

Enseada Grande no Lago Aquiri, tudo é lindo por aqui, capim boiador, agapéua, língua de vaca, pajé, orelha de veado, brilha arroz do campo, Balcedo, espelho d’água que encanto, espia o rosto mãe Iara, Reforma, Jacarequara, Sembal, Os Paulos, Charalamba, Cotias, Curral de Vara, São José dos Araras e também Ponta da Capivara,

Em São José de Bruno tem Felicidade, Antônio Augusto que saudade, meu padrinho sua benção, que Deus te guarde nessa nova dimensão.

Poucos lembram de Osmundo e Marco Camaleão, da passagem de um rio, muitas águas no grotão, resta ainda uma ponte que um dia foi passagem, no tempo uma viagem, para aqueles que ainda lembram, apenas recordação, pois a mata recobriu onde foi habitação,

Meia Légua, Malhada Grande, Caminho do fio, em Cafusa é beira campo e Roque ainda tem peixe e bastante algodão do campo, por lá canta bem-te-vi, bico de brasa, Curica e Bico de Ferro, menino, pé no chão, pé de moleque, pé de chinelo, saliva doce caramelo, sobe a Rampa dos Meireles até o alto da pedra, Monte Cristo, suplica meu Bom Jesus, Graças, Aleluia, Azevedo, Salva Terra agricultor, boa safra está por vir, te apega a Santa Rita, Santa Tereza, São Francisco, Contenda, esperança e Bom Fim, Valei-me meu Santo Antônio, São Raimundo, São Caetano, abençoa quem aqui está, quem já esteve e quem está por vir,

Ponta Grossa de Baiardo, Campinas, Coroatá, Nova Brasília, Cabaceira, Preguiças, Roma e Mendonça e até Ponta do Chá, Olho D’água, Palestina, Enseada do Cajá, Belas Águas, Santaninha que lugar,

Ilha Bela, Ilha Verde, São Rufo, Tronco, Primavera, Rodrigues, Ilha do meio, tem também, São José dos Gaspar,

Galego, Simeão, Jacuíca, Itapera e João Luís, “êta” povo feliz,

Do Chulanga, Tanque, Caranguejo, Vilinha ao Itãns, são famílias coirmãs, tios, tias, irmãos, irmãs, boiadeiros, doutor, agricultor, pescadores e tecelãs, formam o misto de um povo, alegre e hospitaleiro, deste lindo pedaço de chão do nordeste brasileiro, olhos presos no futuro, consciente do esplendor, denota satisfação a sua consecução, olhos voltados pra beleza, ouvidos musicais, criativo com a arte, alegria nos carnavais, felicidade pelo ar, sob a sombra dos mangais, por amar e ser amado, alegria de viver, nos realça o prazer desta terra conhecer como surgiu como vai ser, assentadas por escrito e nas mentes dos antigos, testemunhas dessa história, registrada nos anais. Só peço a São Felipe, Santa Isabel, Santa Vitória, que proteja esse povo, suas águas, nascentes e mananciais, suas matas, sítios e mangais, mãe natureza agradece esses filtros naturais, consciência e atitude, é o que falta pra essa gente, olhos firmes para frente, coração cheio de amor e um rosto sorridente, respeitar a natureza é premissa de quem sabe o que é bom pra se viver em paz e harmonia como um simples passa tempo, nesta terra encantada, neste solo matinhense da baixada maranhense.

PADRE GUIDO: um homem digno de Palmas

Autor João Carlos

Estávamos na segunda metade da década de 60. O mundo vivia um turbilhão de mudanças: a guerra fria entre os Estados Unidos da América, e URSS – União das Republicas Socialistas Soviéticas-, além do conflito bélico no Vietnam, mostrava uma nova face, o controle do espaço; na China, Mao Tse Tung, instituía a Revolução Cultural; Beatles e Rolling Stones, estavam no seu auge; o modo hippie de viver era a grande discussão na sociedade, vivíamos a época dos grandes movimentos libertários.

No Brasil, os anos de chumbo, instaurados com a deposição de João Goulart, e iniciando a sequência de generais na presidência, traziam o terror para estudantes, artistas/intelectuais, políticos de esquerda e trabalhadores. Foram proibidas as eleições diretas para presidente, governadores e prefeitos das capitais. O lema da nação era, “Brasil, ame-o ou deixe-o”.  

No Maranhão, começava o governo de um jovem intelectual, chamado José Sarney, que vencera a eleição, se dizendo a novidade, contra as velhas oligarquias, representadas por Vitorino Freire.

Em Matinha, o novo também apareceria, após duas derrotas para o grupo adversário, os Silva Costa, ascendem à prefeitura da cidade, que fora emancipada em 1948, representando a oposição, o dr. Francisco das Chagas Araújo.

Nesse cenário, chega a terra das mangas, cidade ainda moçoila, um jovem padre italiano, homem moldado e enviado por Deus, para pastorear a paróquia de São Sebastião, filiada à diocese de Viana, o Pe. Guido Palmas.

Nascido na cidade de Segariu, região da Sardenha – Itália, o nosso querido pároco tomou posse, no ano de 1967, ficando até 1973, quando por motivos pessoais teve que voltar a sua terra natal, deixando para o povo matinhense muita saudade, carinho, respeito e admiração.

Mesclando oração e ação, Pe. Guido protagonizou episódios e atos que foram e continuam sendo essenciais, em diversos aspectos, como por exemplo, educação, trabalho, moradia, transportes, etc., não só para Matinha hodierna, mas com reflexos em toda a Baixada Maranhense.

Possuidor de invulgar conhecimento do processo civilizatório, este humanista, tornou–se padre em julho de 1954; foi vigário das paróquias San Jorge Martir, em Quartucciu, Sardenha, de 1954 a 1959; de S. Elia em Cagliari, de 1959 a 1963, e ainda, de Santa Barbara, em Sinnai de 1963 a 1967.

Chega ao Brasil, em 1967, numa remota cidadezinha, do interior do Maranhão, um estado paupérrimo do nordeste, onde a carência grassava em todos os fundamentos, exatamente para cumprir com a missão que lhe fora ordenada pela igreja, “Fidei Donum”, para missões em continentes mais pobres.

Buscou, logo após sua posse, juntar na forma da cruz de Cristo, a verticalidade do amor ágape, a Deus; com a horizontalidade do amor philia, aos seres humanos; independentemente do seu credo. E pôs as mãos no arado.

A história perpetua então, registrados pelo livro Paróquia de São Sebastião em Matinha: “50 e mais anos da história da nossa fé”, muitas das ações desse missionário europeu em terras do Maranhão, que eu tentarei resumir, mas que sei, tenho certeza, não conseguirei, pois foram superabundantes as atividades, os serviços, as peripécias, protagonizadas por este homem, o italiano Pe. Guido Palmas, (perdoem a redundância), digno de ser homenageado com palmas, milhares de palmas.

Seu batismo nas tarefas   pastorais (segundo relato das professoras Maria Vitoria França Nunes, Maria do Socorro Neves Silva, Marly Silva Neves e Euzébia Silva Costa), deu-se com os festejos de São Raimundo Nonato; a partir desse ato desdobrou-se dia a dia, numa memorável e profícua campanha em prol da terra e região que fora escolhida para trabalhar.

Criação, com apoio do prefeito de Matinha, do Jardim de Infância São Sebastião; visitas as comunidades de Sacaitaua, São Rufo e João Luís; reforma e ampliação da igreja matriz; escolha para diretor do Ginásio Bandeirantes, criado pelo governo estadual, até então um sonho para os matinhenses, que desejavam continuar seus estudos do ginasial, sem sair cidade.

Primeiro encontro de catequistas dos povoados Coroatá, Itans, Boa Fé, São Felipe, Aquiri e Piriaí; realização da procissão de Corpus Cristi; instalação com a ajuda de sua irmã Bruna, da disciplina Técnicas Agrícolas, objetivando que cada aluno do recém criado Ginásio, confeccionasse uma horta caseira; além da instalação de um laboratório na referida escola.

Eu ainda lembro, embora pequeno, mas já curioso, o meu olhar espantado, ante as novidades das provetas e utensílios do laboratório, bem como a visão de legumes alienígenas até então pra mim, e toda a Matinha, como berinjelas e pepinos de metro, introduzidos e cultivados nas referidas hortas.

Os fatos elencados, só reafirmam, corroboram, a visão progressista, social e vinculada aos menos favorecidos, que este italiano, proveniente de um mundo diferente, com parâmetros de desenvolvimento bem acima do que agora tomava contato, operacionalizou para o cumprimento da sua honrosa missão.

Campanha para a criação da escola “João de Barro”, projeto do governo estadual, em Matinha; efetivação de um internato para que jovens de baixa renda, oriundos  dos povoados, pudessem  estudar em escolas da sede; organização de cursos através da paróquia, visando que rapazes e moças  entrassem no mercado de trabalho; construção da casa chamada Fraternidade, para que  catequistas pudessem ter uma melhor formação; incentivo à construção de cemitérios nos povoados, permitindo  que entes queridos pudessem ser sepultados mais próximo dos familiares.

De todos estes atos, outros três eu considero como fundamentais para a realidade do nosso povo, de notável e duradoura repercussão para o futuro, colocando o Pe. Guido na categoria não só de um fervoroso homem de Deus, como também de um visionário, uma pessoa de percepção além do seu tempo.

Sua articulação em conjunto com Dom Hélio,  na construção da estrada Viana-Arari,  um embrião do que hoje denominamos  MA 014; o estimulo à edificação de casas para famílias de baixa ou nenhuma  renda, efetuando  convênios com entidades italianas, proporcionando a estes,  habitações dignas; e por último a ajuda na criação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais  de Matinha, uma entidade que serviu  e ainda hoje auxilia a defesa dos trabalhadores rurais na sua luta por melhores condições de vida.

Este é apenas um pequeno resumo da belíssima e enobrecedora história deste digno pastor, sua trajetória entre nós, e o quanto fez pela cidade e povo de Matinha.

Queremos portanto, desejar vida longa ao Padre Guido Palmas, confrade com muito orgulho na Academia Matinhense de Ciências, Artes e Letras (AMCAL), onde ocupa a cadeira de número 20, patroneada por Raimunda Ferreira Silva.  Que a sua vida e obras sejam pra sempre amadas e valorizadas, e as bênçãos de Deus se derramem sobre ele e seu profícuo ministério.

Palmas, intensas e copiosas palmas, ao pe. Guido Palmas.

Obituário Matinhense

Obituário Matinhense

Autor João Carlos

Hoje, dia 2 de novembro, Dia de Finados, acordei lembrando Papai, Juvêncio Capijuba, do cheiro (cheiro?) do seu molheiro, das batidas no flandres quando preparava as lamparinas, das suas canções, das pescarias de anzol no igarapé.  Lembrei-me das histórias (causos) de Miguel Brito, do carinho de tia Terezinha. Da carne vendida por Machado, de Nézio Jaburu, o maior pescador que conheci. Do bilhar de João Lima, da voz de Ribamar de Nhozão, de Corujinha, das articulações de Juarez Costa, e da calma de Antoninho Costa: meus amigos, de Zé Aroucha, estrategista, da bela caligrafia de Antonio Pedro Brito, Dr. Araújo, Nhonhô Barros. De tia Ana e Vicente Teixeira, Misael, de Manoel Teixeira, Marisa e Flávio Moraes, e sua relação de amor e ódio com Ana Rita no hospital, João Perna, Luis Dotô, Tatá e Maria Baixinha, Baiardo, Zé Pecuapá.  

Lembrei Cantidio, Tatico, Gordura, Roberval, Pitoca. Das pregações de Zé Conceição, dona Vicência, Romana, Zé Carlos, Seu Alcebíades, Marcos Aires. Do amem tríplice do Rev. Amaral: inigualável. Do amor e do carinho do Rev. Adiel por minha família, do futebol de Zé Raimundo de Jiruca, Maria Teixeira, Manduca e Puca, Antonio Augusto, Antonio Rola e Antonio Bolinha, tio Raimundinho de Belas Águas, Zé Raimundo Legó, João Neto, Leonardo, João de Mico, Forra Preta, Paturi, Janeiro, Silvino Rodrigues, e suas impagáveis gargalhadas nos velórios, João Diba,  Durvalzinho, João Gaguinho, Walbinho de Olinda, Teodomiro, Zé Preto, Diolinda, Belinha Soeiro, Floripes, Zé Pedro de Ventura, – de Bastião do Mangá, Venceslau do Galego e Barroso, – os três Sócrates de Matinha (quem conhece Filosofia Antiga, apreende).

Lembrei de Isaias Irara, Prisco do São Raimundo, Lalau, (ou Chico?), – todos conhecemos a piada-, Lidoca, Zé Maria de Itans, do conhecimento de Aderson, Didica, Zé Rico, Barnabé, Joaquim Tangará e João Costa, da Boa Fé. Tio Heráclito, – João Pombeiro, Seu Jerônimo, Maçica, Zé Meireles, Siriaco, chamado de fueiro, D. Angela, Teodomiro Penha, Mundiquinho Viana, Pereira da usina, Apolinário, Crispim: fui longe-. Santinho de Chico Quatrolho, Ataíde, “talihoo”, Raimundinho Barata, do caminhão de Juca Amaral, Titinha, Aniquinha, Zilda, Justina.

Lembrei das partidas de xadrez com Eldo RoneLuis e Matias Sousa, Silvestre Mendonça. Das Toyotas de Eugênio Furtado, Dioclécio Galvão, Jorge Galvão, Ademir e João Soldado, Joquinha, Clistenes e Raquel Amaral, Débora, Dolores, Léia, D. Glaci, Zé Morgado, Dico Solha, João Berredo, Dudu Mota, Zé da Caema, meu compadre, João Preto, Brás e Marcelino Costa, Doninha, Bima, Santoca, Henrique, Livramento, Nonato Padeiro, Getúlio, Oscar, Zé Fininho, Zé de Teotônio, Jeferson e Bajeba, Zé Borges, Joventina, Joca e Ana Maria de Aliete, Mambó, Pupu, Edgar, Domingos Marques, Raimundo Pito, Zeferino Farinha Boa, Raimundo Cutrim, Teodora e Nonato Costa, Mundico Lima, D. Nhadica e Rita. Ainda, João de Dico e Das Dores, Tio Barbosa, Aquino, Augusto de Afra, Escolástica, Nazaré de Chico e Nazaré de Lucilia, Maria Euzébia, Daziza, e suas mãos abençoadas.

Lembrei de Zé Prego, Adofina, do gosto musical de Gedeão, Juvencinho, meu” Mano”, João e Onésimo de Desidério, Zé Pedro de Chico e Neném de Bijoca, trocadores de cavalo. Dedé Cofo e João de Nem, Antonio Joacy, Zeruia e Dedé, Flávio Penha, Cel. Eurípedes e suas tiradas, Nego e sua mãe Ducarmo de Beatriz, Onésimo Tinga, Ribamar Ribeiro e suas sacadas “geniais”. De meu compadre Dominguinhos de Boa Fé, Valdo,  Joca Quarenta, Carlos Cesar, Marcio Amaral, Claudio, Saco Jr, que pra mim era  “Zaco Jr”, de Demóstenes.  Dos “palavrões” de Wilson,  Benedito de Grisosto, Augusto Teixeira, do trombone de Costinha, Nonato e Dondom, João Heráclito, (“Bolinha”) e meu companheiro do xadrez, Hercules. Das duas Mudas e o Mudinho, Cirilo Mendonça, Joaquim Bocá, Manoel Costa da Campina, Zé Berredo Novo e  Velho, Carrapicho, D. Roxa, Domingos Serra, Rubem e Regina, Abraão do Coroatá, Sivirino, Maneco Sena, Seu Dico Sena, Benedito de Osvaldo, e sua alegria em falar de política, Cherré, Chengo e Ribamar Fofinho, Canem, e sua lancha, D. Raimunda Furtado, Mundiquinho Ribeiro.

Lembro de Dr. Messias, amigo, companheiro, Tancredo Ferreiro, Dona Biluca, Ribamar Pinguinho, Benito, “Arroiz de Pranta”,  Leonice, Zé Furtado, D. Joana e  Boaventura, contador de causos, Benedito Veloso, D. Jerusa, Carpina, Nilo, D. Tonica,  Chinga,  Ulisses Silva, Gaida, João Diniz, Manoel Silva, Rocha. Da D-20 de Zezé Veloso, Raimundo Leal,  de Camu e Norberto, amigos  e anjos da guarda de papai. De tio Sinhozinho,  Babita, Coronel, Maria Berredo, primeira professora,  D. Aliete, Coló, Matico, tia Ninita, Zé Oliveira, Lucas Seixas, Anastácio, João Barqueiro, Ana de tio Barbosa, Netinho, Ninrod Cutrim, Jackson, Pretinho e Gilvan, Binas e Saint Clair de  Itans, Zezeca de Ilha Verde, Nicácio, Gonzaguinha, Chiquinho, Duduzinho,  Antonio Fonseca,  Chucheta, Vico, Professora Didi,  Canguelo,  Zé de Lelis, Nizinha, Valderez, mais que amigas, irmãs, de mamãe. Pixilau, D. Raquima, Juju Silva, Abraão e Bastião de Bita, D. Josefa, Raimundo Abel, Raimundo Silva Costa, João Soeiro, Domingos Ferreiro, D. Noeme, Alberice, Justino Cutrim, e sua celebre frase do tanque, D. Pedrolina, Ulisses motorista, Ivanildo Sousa, Geraldo, Zé Maria Serra, Sisnandes, Paulo Gogo, Borel, tio Gregório Ferreiro, Rogenis e Rogivaldo, Tutuca.

Por último, mas não em último lugar, minhas duas mães: Ana Rita, Mãe Ita, Them, (assim eu a chamava), – nunca entendi o porquê-, a pessoa mais despojada que conheci, fazia da profissão um sacerdócio, atendia a todos, independentemente de cor, religião ou condição social e financeira, adorava o que fazia. Indescritível sua dedicação e amor ao próximo. Vereadora por três legislaturas, seu slogan era “A amiga certa das horas incertas”, nada mais verdadeiro.  Conduziu à vida, segundo meus cálculos , mais de 4 mil crianças, não lembro nenhum óbito de alguma mulher grávida. E Maria de Lola, minha mãe biológica, uma leoa na defesa dos seus, um amor devotado, paixão sem limites, palavra de afeto sempre nos lábios, vida dedicada aos filhos, marido e a Deus. Sem contar o peixe no leite de coco, feito por ela, imitado, mas nunca igualado.

Devo ter esquecido muitos nomes,….  Mas esses que citei, são personagens da minha infância, mocidade e também da fase adulta. Ficaram como diria Carlos Drummond de Andrade: “… Na vida de minhas retinas tão fatigadas”. Também no coração. Lembranças indeléveis, reminiscências abençoadas, contraditórias: tristes e belas recordações.  A eles, seus descendentes, amigos, saudosistas como eu, minhas sinceras homenagens.

A Luz Elétrica

A Luz Elétrica

Autor Aroucha Filho*

O ano era o de 1960, à frente do executivo municipal, o prefeito João Amaral da Silva, Juca Amaral, o segundo prefeito da emancipada cidade de Matinha, que em esforço hercúleo buscava consolidar a feição da recém-nascida cidade, fazer igualar-se às suas vizinhas Viana, cidade mãe, e Penalva, estas mais antigas e de referência. Viana e Penalva já ofereciam o serviço de iluminação pública aos seus munícipes no período noturno, até às dez horas da noite.

Juca Amaral, grande protagonista da emancipação política de Matinha, agora como prefeito, queria dotá-la de todos os serviços públicos possíveis para contemplar os habitantes daquela cidade em formação. Com esse propósito assumiu o desafio de implantar a “Luz Elétrica’, na cidade de Matinha. Um grande desafio.

As dificuldades iam desde os recursos para adquirir os equipamentos de geração de energia, caríssimos, até a logística de transporte para levá-los de São Luís à Matinha. Nessa época não haviam estradas de acesso à Baixada Maranhense, os transportes de passageiros e cargas eram feitos por barcos e lanchas.

Adquirido em São Luís o grupo gerador, um potente conjunto das marcas MWM/WEG, que geraria a energia elétrica para acender as lâmpadas e inserir Matinha no status das poucas cidades do Maranhão que possuíam “Luz Elétrica”. Ainda tinham outros desafios a serem vencidos.

Discutida a logística de transporte, passou-se ao planejamento da operação. O grupo gerador foi seccionado, desmontado o conjunto, separado o motor do gerador para facilitar o embarque/desembarque e transporte desse pesado equipamento até o seu destino final. O transporte foi feito em lancha que atracou em Ponta Grossa, dali transportado em carros de boi até Matinha. Tudo, carga e descarga, feito em braços de homens.

À espera do grupo gerador, o prefeito Juca construiu um abrigo, que chamávamos de “Usina”, edificada bem ao lado do antigo Mercado. O maior desafio seria montar e operar esse equipamento, Matinha possuía nessa era, apenas dois motores à explosão, de propriedade do Sr. João Amaral, um utilizado no pilador de arroz, o outro movia o caminhão marca Ford, modelo 1949. Tinha que importar mão de obra. Para tanto foi contratado o mecânico Pereira, extremamente competente, senhor simpático que facilmente foi acolhido pela população, fixou residência, e vários dos seus filhos nasceram ali.

A rede elétrica para distribuição da energia, composta de duas fases e um neutro, em fios 100% cobre, era apoiada em postes de madeira de lei, lavrados a machado, provenientes da Mata do Bom Jesus, de propriedade do prefeito Juca Amaral, que abnegado e com grande altruísmo, uma das suas várias virtudes, forneceu em doação toda a madeira necessária para o posteamento. Gesto de estadista.

Obstáculos heroicamente superados, tudo pronto, imensa ansiedade no aguardo do grande dia, a luz elétrica era o assunto de todos. A autoestima dos matinhenses estava em alta.

Dia do marcante evento, a inauguração da “Luz Elétrica”, população eufórica. Não lembro a data. Lembro que a festa foi merecidamente grande, uma majestosa noite para ficar marcada na história de MATINHA. Foi um grande banquete, com muitos e variados quitutes, rojões soltados pelo Sr. Elpídio, orquestra tocando, todos os olhos voltados para as lâmpadas alojadas em modestos abajures em formato de prato, branco leitoso na parte côncava e verde na parte convexa. Ao acionar a chave da luz o prefeito João Amaral da Silva poderia ter dito: FIAT LUX ELECTRICA. Não lembro suas palavras. Lembro do seu largo e angelical sorriso.

Na minha tenra idade vivi e guardei na memória todos esses detalhes, até a dificuldade que tive para me desfazer de uma azeitona que acompanhava uma das iguarias servidas no banquete. Não conhecia, provei e não gostei. Matinha definitivamente tinha cara de cidade, de dia e de noite.

PS: A luz elétrica funcionava somente no período noturno, acendia no início da noite e apagava às 21:30h. Às 21:00h piscava duas vezes, era o que denominávamos de “sinal”, indicava que apagaria em 30 minutos.

* José Ribamar Aroucha Filho (Arouchinha) é natural do município de Matinha-MA, Engenheiro Agrônomo aposentado do INCRA, exerceu os cargos de Executor do Projeto Fundiário do Vale do Pindaré e Executor do Projeto Colonização Barra do Corda. Ex Superintendente do INCRA Maranhão. Foi Superintendente da OCEMA e Chefe de Gabinete da SAGRIMA.