FORMAS DE PESCARIAS NA BAIXADA: heranças históricas de um povo

Autor João Carlos da Silva Costa Leite

 

Resultado da miscigenação dos três povos que constituíram  a nação brasileira: o branco (português, algumas pinceladas de árabes, os carcamanos); o negro (trazido a força do continente africano como escravo); e o indígena (nativo), o  baixadeiro tem no seu DNA, na sua origem, elementos desses segmentos étnicos em atitudes sociológicas, políticas, filosóficas,  etc…

 Dessa forma, quando assistimos o jeito singular de um conterrâneo  nosso  quando fala, comercia, executa  atos artísticos/culturais, vemos ali representado  pelo menos 400 anos de sincretismo histórico.

 Poderíamos citar inúmeras manifestações populares que comprovam  essa assertiva, no entanto, falaremos apenas de uma, que traz no seu bojo, as linhagens bem representadas e delineadas: o bumba meu boi, especialmente o de matraca, tão comum a nós.  

 As índias e o cazumba, espelham o componente  autóctone; o amor desmedido  de pai Francisco por  Catirina, sua obsessão em   presentear   a amada  com a língua bovina, mostram os portugueses; e a batida rítmica das matracas, tambores, refletem o povo que aqui chegou como escravo, os africanos.

A mãe natureza contemplou este  torrão  – refiro-me aos 21 municípios da Baixada Maranhense, bem como os 13 do Litoral Ocidental -, de vasta e bela rede fluvial, lacustre, marítima, sem paralelo no Estado, transformando-o num verdadeiro manancial, onde a água e a piscosidade acontecem com magnifica intensidade. Além disso, lagoas, campos inundáveis, rios temporários, perenes, igarapés, charcos, riachos, pântanos, poções etc. unem, desembocam, interligam, conectam-se, durante o período invernoso (de janeiro a julho), convertendo uma imensa faixa da  região em estrada liquida.

Desse ambiente resultam extraordinária variedade de peixes, crustáceos, mariscos.  Para ter acesso a estes, prendê-los, transformá-los em apetitosos pratos, matar a fome, o morador usa de uma infinidade de ardis, que por si só traduzem a inteligência, astucia, perspicácia, sagacidade, desse povo abençoado por Deus.

 Resgatarei a seguir   essas ferramentas de aprisionamento.

 

PESCARIA DE FLECHA

 

 Não cheguei a ver, mas tive informações que foi muito utilizada nos lagos Aquiri, Itans, Museu,  capturando  curimatás, pescadas, pirapemas (camurupins), aracus, surubins, enormes traíras.

Praticada durante  anos, hoje não é mais exercida. Usava-se uma flecha (planta nativa,  com  pequena parecença   da   cana de açúcar), de composição muito leve. Na ponta um arpão, enrolado por um arame fino. Podia ser jogada pela força do braço, ou  empregando um arco de jeniparana

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PESCARIA DE ANZOL

 

 São  várias as maneiras  de alcançar  peixes com   anzol:

Bagrinhos. Chamados de capadinhos em Arari, e  anojados em  outras cidades. Sua colheita  é feita durante o inverno, nas áreas de campos inundáveis, quando as muitas águas invadem os territórios apinhados de pés de araribas, criviris, aningais, marajazaisalgodoais, (algodão do campo).

 É efetuada  a noite, em canoas. Com caniço pequeno e linha curta, sem estrovo ou chumbada. O chamariz  é o bicho de tucum ou de coco babaçu, essas larvas de um tipo de besouro, da família dos bruquídeos, também são intituladas  gongo.

 Começa  no lusco fusco do dia, quando já vai anoitecendo, a escuridão tomando conta do ambiente, pois se ainda houver claridade, as sardinhas, piabas e piranguiras não deixam o cevo em paz. A canoa com no máximo três pessoas (o ideal são duas, um na popa, outro na proa), embrenha-se sob  crivirizeiros, araribeiras, marajazais, ou mesmo no limpo, entre o algodoal do campo, folhas de gapeua, pés de  junco, capim, mururu. Levada por alguém que a dirige da popa, com remos ou varas,(dependendo da fundura), sendo orientado  pelo canoeiro  que segue na proa, o proeiro.

Confecciona-se  pesqueiros, e as eventuais presas são chamadas com a tradicional batida na água, complementada com o esmagamento de dois ou três bichos de tucum, de preferência já bem vinhosos. Quando por sorte consegue-se achar bons cardumes, é possível em pouco tempo arranjar-se bastante deles, chegando a encher a embarcação.

Outro  modo  de pescaria de anzol onde os bagrinhos    aparecem, ocorre   nos igarapés ou rios. A isca é a mesma, o horário idem (noturno), a diferença é que nessa esfera,   não são hegemônicos, mesclam-se aos deliciosos jandiás, eventualmente  piabas, piaus, mandis nobres, mandis rabo mole, os mandis lisos, (popularmente conhecidos por faz cagar, em função da descomunal dor causada pela furada de seus esporões), caranguejos de água doce, traíras, jejus.  Raramente sarapós e muçuns, que não são bem vindos, haja vista, sua propensão ao roubo dos  engodos.

Apronta-se com antecedência um local   à margem do igarapé, tendo a cautela de preparar mais um ou dois sobressalentes, pro caso do primeiro escolhido, não consegui suprir a demanda. Os caniços (geralmente de amejuba ou tauari), são compridos e a linha para o anzol bem mais extensa que a da pescaria no campo. Nesse item  encontramos ainda  a pescaria de jirau. Dar-se  quando as enchentes invadem áreas próximas aos igarapés ou rios, não deixando beirada para se sentar. Fabrica-se então o jirau.

 Enterra-se  no  mato inundado, quatro estacas de boa grossura, fixadas  numa distância de mais um menos um metro e meio. Depois são postas as travessas, com varas mais finas, produzindo o estrado. Neste são  colocadas folhas de palmeira, rachadas ao meio, ou de cauaçu da folha grossa. Ocasionalmente uma cobertura para livrar das chuvas. Alguns  mais perfeccionistas, põem dois andares, ou degraus, para uma melhor subida/ descida do recinto.

 Essas  maneiras    de pescar  de anzol acima elencados, são implementados  a noite, sem lua e chuva. A presença desses fatores afastam os peixes. Nesse aspecto então, quem os executa  de modo constante, precisa indispensavelmente   monitorar as duas atividades.

Destarte, não sair de casa quando o tempo está carregado, pressagiando   toró,  fazer o ato   até a saída da lua, nas horas iniciais da noite, ou quando esta iluminar fortemente, deixar para praticar   durante a  madrugada, como dizia papai, “depois que a lua se esconder,” torna-se um imperativo.

Piabas. A apreensão  destas   é desenvolvida  nos campos e igarapés, sempre durante o dia. Os caniços são mais flexíveis, linhas e anzóis confeccionados de agulha usada para coser roupas, entortadas no fogo brando de uma lamparina, para definir o contorno ideal.  A ceva pode ser pedaços minúsculos de carne, bichos de tucum partidos ao meio,  minhocas, (pescaria nos igarapés).

 No campo, obrigatoriamente  bolinhas  de farinha d’agua ou  miolo de pão. As vezes junto com as piabas, parecem  piranhas pequenas(piranguiras). Lógico que no campo utiliza-se canoas; nos riachos, igarapés,  aboleta -se  nas beiradas

Piabas de litro – É uma das formas mais lúdicas e aprazíveis de agarrar  esse gostoso peixinho. Recorre-se a  um litro, onde se retira o fundo, total ou parcialmente. Coloca-se um tampo, com um orifício onde estas possam entrar, e enterra-se a outra parte, normalmente pondo como isca  farinha seca ou bicho de tucum. Após algum tempo, vem-se mirar.

Acará preta –  Conhecida  como carambanja, em Arari e Vitória do Mearim, pescar acará preta  com anzol, dá-se na extremidade dos poções ou tesos, por entre os mururus ou algodão do campo.   Desempenhada com um caniço bem comprido, mais de dois metros, linha de boa dimensão. Usa-se minhocas coletadas cavoucando as bordas dos locais úmidos. É executada a pé, necessitando o pescador (ou pescadora, muitas mulheres    praticam ), entrar na água. Apanham-se  também  traíras e jejus.

 Citaria ainda a pescaria de piranhas, modalidade  bem perigosa, não recomendada  a  amadores. Consiste em instalar-se estrategicamente em local isolado, dentro de uma canoa, num silencio absoluto. Munido de  caniços compridos, geralmente de bambu, anzol com um estrovo reforçado,  um arame entre este e a linha, para evitar o corte pelos afiados dentes desse animal  voraz. São pegas  piranhas grandes, de vez em quando uma traíra,  um jeju, todos de bom tamanho. As iscas são pedaços de carne e vísceras de boi ou porco.  

Jandiás – Aplicada  nos igarapés e  rios temporários, durante o dia. As iscas são minhocas ou bichos de tucum. Sai-se a caminhar pela beira  a procura dos peixes, podem ser encontrados ainda traíras, acarás pretas, jejus, piaus, piabas, muçuns e sarapós, esporadicamente, um bagrinho ou outro, perdido durante o dia.

Ocorre ainda    método análogo, que chamaríamos de água toldada ou “tordada”, no linguajar mais simples. Compreende em mexer na terra por onde passa o igarapé,  riacho, na porção de cima, tornando-a turva (ou suja), correndo rapidamente na direção baixa da corrente, e lançando o anzol já previamente pronto para enquanto durar a toldação,  pegar o maior número possível de peixes, normalmente jandiazinhos. Podendo ainda atingir   bagrinhos, traíras, jejus, atordoados pela  turves da  água . Essa operação será refeita mais vezes e em outras partes, após  a limpidez retornar.

Linha – Um carretel de fibra de nylon com anzol chumbado é jogado das margens do rio Mearim, em Arari e Vitoria; Pindaré em Monção, Cajari. No lago Aquiri na parte relativa a Viana, (não é uma prática em Matinha), próximo ao Poção do Engenho. Também  vi pessoas pescando dessa forma às margens do Pericumã em  Pinheiro; e Turiaçu, Santa Helena.

 Na ponta do anzol, camarão de água doce, carne ou outro peixe pequeno. Levada pela correnteza, a isca  pode trazer no seu engate surubins, mandis, bagres do rio, (não confundir com bagrinho), que é  uma  espécie de uritinga da água doce, mandubés pembas ou mandubés sapos, lirios, carraus (corrós), boi acaris, (bodós).

Corda –  Bastante empregada  no rio Mearim. Expressa-se na concepção de uma corda trançada e  grossa, dessas usadas por barcos ou  navios( Arari possui  muitos trabalhadores  marítimos), que será esticada da margem do rio para dentro deste. Nesta  de 80 em 80 centímetros, é amarrado um cordel de linhas mais finas com um metro de comprimento e um anzol grande.  Na outra ponta da corda grossa (a de dentro do rio), ficará uma poita, (ancora) bem pesada para segurá-la contra a correnteza, outras poitas mais leves e menores serão fixadas na corda principal, para mantê-la abaixo da superfície, mas sem afundar muito. A ponta da margem será atada a um galho de ingá ou aninga grossa, em não havendo, enfia-se um mará ou vara profundamente no solo fofo, e amarra-se a ponta  neste.

As   iscas  são geralmente piabas, pacus, camurins(dorme na sala), cascudos, e ainda vísceras de boi. Podem ser capturados surubins, bagres do rio, camurins,(robalos), pescadas do rio, mandubés  (pembas e sapos),pirapemas, dentre outros.

 

PESCARIA DE CHOQUE.

 

 Choque ou socó, é uma armadilha montada  com talos retirados da madeira marajá, uma palmeira espinhosa que existe nos pântanos baixadeiros, ou em menor escala com varinhas normalmente de papa terra, uma espécie de árvore, também com espinhos, só que mais volumosos, em que mesmo o mais fino ramo é bastante duro e resistente. Está atualmente quase extinta.

 Assim como  o  anzol, existem várias maneiras de pescar de socó:

Camboa no limpo – Efetivada  em área onde inexiste mato, mururus, etc.. chamado de limpo, geralmente  por mais ou menos vinte pescadores, que saindo um para a direita outro para a esquerda, combinam em formar um círculo, a camboa.  O circuito vai se fechando gradativa e vagarosamente, deixando os peixes que tiveram o azar de serem achados nesse espaço, confinados. Com isso facilitando suas capturas.

É uma  forma bem perigosa  de pesca, concomitantemente proveitosa. Pois é possível, devido estarem cercados, apanhar copiosos e diferentes tipos  de peixe.  Ao  serem sitiados, animais como o jacaré, cobras rabo seco e o poraqué,(peixe elétrico), além da edaz   piranha vermelha e  a não menos destrutiva  piranha ambeua, de cor branca, viram verdadeiras feras enjauladas.

Inúmeros  peixes são pegos: arangaus, peixes – cachorro, piranhas, pacus, curimatás, surubins, tubis, sarapós, traíras, acarás pretas, acarás pitanga, calambanjes, pirapemas, piaus, jejus, peixe sabão, branquinhas,(tapiacas), mandi tatu,(mandi rato), jandiás, bagrinhos, boi acari, carrau, cascudos, violas, dentre outros.

Camboa no matoTambém chamada de pesca puxando mato. A organização é quase igual da forma  anterior. Faz-se  uma coluna   de pessoas, que escolhem determinada área a ser atingida, como se fosse um eito na  roça. O pelotão passa então a puxar o mato (plantas aéreas) mururus, dando a possibilidade ao   socó ser afundado.

A cada choqueada, a mão tem que ser posta dentro deste, pois diferentemente da modalidade  no limpo, onde os peixes estão em águas menos turvas, portanto mais passiveis de se debater, ao serem alcançados; devido aos balcedos, e barros existentes no terreno, mesmo estando presos, não se sente as batidas    nas talas

A operação se encerra, quando a meta  anteriormente definida, é alcançada.  Volta-se  para onde começaram realizando  uma espécie de rescaldo na zona ocupada, pois devido ao grande número de mato, balcedo e barro, muitos peixes  passaram despercebidos, enterrando-se. Essa ação, algumas vezes consegue ser mais efetiva que a primeira.

A variedade de peixes encontrados nesse tipo de pescaria são todos os elencados na parte relativa a pescaria de camboa no limpo, exceto os chamados peixes brancos. No mato estes  não transitam.

Choqueando a esmo. Uma, duas, três ou mais pessoas saem no meio dos poções  choqueando  sem rumo  definido. Serve tanto para o limpo como para o mato.

Temos ainda a pescaria solitária puxando mato, por  entre os mururus e pés de aninga. As vezes cortando, outras puxando, e choqueando no espaço vazio. É sempre necessário  a cada descida do choque na água, que a mão entre na armadilha, para comprovação de se algum peixe foi coberto, como já foi explicado antes.  

Miminga. A partir do mês de agosto, quando os poções começam a separar-se   podemos observar o   fenômeno da miminga. Que é o ato de respiração do peixe, no fundo d’agua, refletido em borbulhas de ar que sobem a superfície.

 Antes que o vento caia, entre cinco e seis da manhã, um exímio pescador, em canoa ou a pé, com um socó na mão, observa os locais onde as erupções aparecem, quando as vê, de modo mais silencioso possível, enfia a armadilha. Não dá outra, embaixo estará uma  traíra.

Corre mão. Em fevereiro ou março, quando as chuvas se intensificam, e águas começam a invadir o capim de marreca, iniciando a piracema,  observamos um dos mais belos modos de pescar.

 Tendo o socó apenas como coadjuvante, o pescador invade silenciosamente a área, e ao ver  as espumas, sinal de que ali está se desenvolvendo um procedimento de reprodução, consegue com a mão, agarrar a presa. Esse mesmo processo é executado nos meses do abaixamento, desta vez claro, sem a babugem da piracema, e contando só com o sentido do tato e a capacidade de se manter em silencio.

Tive o privilégio de conhecer dois ases nesse tipo de pescaria: Lauro, meu irmão e Nézio  dos Santos, apelidado de Jaburu. Era empolgante vê-los entrar no campo, só com o socó e o cofo na cintura, depois largavam-no, e  saiam agachados, as mãos na água.  Logo aparecia como num passe de mágica uma traíra. Em pouco tempo, o cofo estava cheio.

 

PESCARIA DE GAIOLA.

 

 Muito comum no lago Aquiri. Prepara-se uma armadilha que será posta no  lago, em áreas não muito fundas, denominadas gaiolas. Seu  tamanho é de mais ou menos um metro de altura com 50 centímetros de circunferência. Geralmente confeccionada de  talas de buriti, palmeira ou anajá.

Possui dois dispositivos de entrada: uma na parte de cima onde os peixes são introduzidos, induzidos pela ceva posta dentro  da trapeira, feita com talinhas  de folhas de palmeiras, anajás, pontiagudas nas partes que ficam no interior, permitindo só o acesso  da presa, e impedindo a saída  devido as pontas afiadas. Na parte relativa as talas sobrepostas na vertical, prepara-se um janela que terá duas serventias: permitir a colocação das iscas, bem como a retirada dos peixes aprissionados.

Utiliza-se : vísceras, ou qualquer outra   coisa que escorra sangue, visando pegar especificamente piranhas, especialmente  as vermelhas grandes;  cupim, para pegar aracus, surubins, mandis, bagrinhos, mandubés, lirios…etc..

 

PESCARIA DE TAPAGEM.

                                                                                                                                      

Basicamente são duas as formas de tapagens.

Nos igarapés ou rios temporários. Os rios que cortam a Baixada, em sua maioria são ocasionais. Contam-se nos dedos os  perenes existentes, de Arari a Alcantara. Em Matinha não há nenhum, ou poderíamos citar os rios do Jenipaí ou Tamataí, que são córregos dentro do lago Aquiri, numa área fronteiriça entre Matinha e Viana e que se “recusam” a secar, mesmo nas estiagens mais inclementes.

Acontecem  quando se iniciam as chuvas do inverno ou período chuvoso, final do mês de dezembro, primeiros dias de janeiro, ou no mais tardar,  começo de fevereiro, tudo dependendo do rigor das águas caindo.

Os leitos dos igarapés, antes poeirentos, agora escorrem o precioso líquido.  Aproveitando-se disto,  prepara-se  dois troncos longos e grossos, que possam abarcar ambas as margens do igarapé. Nestes são apostas folhas de pindoveiras ( palmeiras jovens de babaçu), de modo a não permitir que os peixes impulsionados pelas primeiras chuvas, e subindo o rio para desovar, passem.

No amago das  folhagens são abertos, dependendo do espaço entre as duas barreiras, buracos para a  colocação  dos manzuás ou monzuás, e  matipis. Armadilhas preparadas com material das próprias folhas das pindoveiras.

Os monzuás, são fabricados  da parte central destas palmeiras, as   mais jovens. Põe-se dois arcos, frequentemente  de jeniparana, numa espécie de cano, mais aberto na parte de cima e fechando-se nas pontas, podendo a água entrar e sair. O peixe, não.

São situados  em direção  oposta a  correnteza, com duas funções precípuas: permitir  ao líquido  escoar  velozmente,  encontrando  espaço para atravessar, consequentemente evitando a derrubada  da barragem, e, segurando  no seu bojo alguns  peixes que porventura estejam descendo o rio.

Os matapis, também são confeccionados por folhas do mesmo material dos monzuás, só que desta vez das pindoveiras mais antigas, chamadas palmiteiras( que já podem dar palmito), ou xacheiras, normalmente ainda não tendo chegado na  condição de palmeiras, as que já produzem  cachos.

Construídos a partir da retirada de talas cortadas  cuidadosamente com uma largura mais ou menos de dois dedos, que são sobrepostos sobre dois arcos de jeniparana, bem encostadas de modo a não permitir que passe nada, formando uma espécie de barril, um pouco mais comprido.

No lado da cima, no arco da boca, são amarrados pedaços pontiagudos de mais ou menos um palmo, denominados espeques, que saem abertos e se fecham nas partes acuminadas, objetivando a  fácil passagem e não permitindo  retorno dos peixes. As pontas das talas são amarradas por cipós ou caranãs. É por essa passagem que os peixes são soltos. 

Essa armadilha é posta na tapagem de modo inverso ao manzuá, ou seja, contra a correnteza, para poder  pegar os peixes que estão subindo o fluxo d’água para desovar.

Quando as enchentes são intensas, as tapagens nos rios estendem-se para além do leito original. Na perspectiva de evitar a passagem dos peixes, são feitas barragens dos dois lados, chamadas de bamburral. Nesses espaços normalmente não se utiliza matapis, já os monzuás, são  usados. O objetivo, como já falado, permitir o escoamento da água.

Os peixes capturados: jandiás, bagrinhos, traíras, jejus, matapiris, piabas, piranhas, caranguejos, cascudos, piaus, acarás preta, peixe cachorro, sarapós, tubis. Esporadicamente muçuns e poraqués, podendo  ainda   aparecer  cobras ou jacarés.  

Nos Campos ou lago Aquiri . Hoje em dia mais raras.  Consistem em cercar com varas de madeiras finas, ou talos de folha de palmeira, uma área dentro lago. Normalmente uma enseada, onde são colocadas gaiolas, e matapis para recolhimento dos peixes.

 Nesse  tipo de tapagem não são usados monzuás. Como o número de  presas é muito grande, e as gaiolas são miradas (olhadas)  durante a noite. É preparado um local, um viveiro, onde os estes  ficam a espera dos compradores, sem sofrer deterioração. Temos ainda uma área   denominada     curral.   Montado ao lado da tapagem,  serve para guardar os peixes grandes.

 As tapagens no campo são feitas em áreas já previamente delimitadas,  Ocorrem  em córregos propensos a  secar mais devagar que as outras partes, onde a água se espalha.  

Os peixes pegos são: curimatás, pirapemas, tapiacas, arangaus, surubins, pescadas, peixe cachorros, aracus ,piabas, matapiris, pacus, mandubés, calabanjes, piaus, piranhas (ambeuas e vermelhas) mandis (tatu, amarelo,) jandiás, no âmbito dos peixes brancos. Trairas. Jejus, acará pretas, carraus, cascudos, boi acaris, (bodós),violas, tubis, sarapós, bagrinhos;  peixes pretos. Fortuitamente,  arraias, jacarés, poraqués, cobras.

 

PESCARIA SECANDO POÇA

 

Acontece sempre no abaixamento, que é a partir do mês de julho. Quando as chuvas vão rareando, e os riachos secando pela evaporação.

Consiste basicamente na  construção de  contenções, ou desvios, em alguma parte do rio, isolando uma parte mais funda ou poça . A partir da retenção do fluxo, passa-se pra dentro do reservatório com latas, cuias, baldes, objetivando diminuir o máximo possível o volume d’água. Normalmente, essa água é jogada para frente da poça.  Após algum tempo, os peixes já embriagados, sem oxigênio, começam a aparecer e são pegos.

Na captura são usados os mesmos materiais com que foi efetuado o processo de retirada da água, alguns utilizam ainda landruás, uma espécie armadilha feita de fios de náilon, parecido com um saco de coar café.

Esses ambientes  quase sempre possuem locas, buracos que se  estendem por baixo das barreiras, onde os peixes maiores e mais perigosos, bem como poraqués, jacarés, cobras, vão se instalando, a partir da diminuição da água. Aí é necessário usar um cofo, um facão ou os próprios braços, para buscar a caça e consequentemente em havendo outros animais, ter contato com estes.

Pescaria de cofo. Uma variante da forma  falada acima, é a pescaria com cofo. Segue-se quase o mesmo princípio das outras  fases, mas ela acontece com mais assiduidade quanto os rios já estão com suas poças apartadas, ou seja, alguns locais no leito, já estão completamente secos.

Usa-se um cofo grande, de boca bem larga, coloca-se algumas folhas de murta ou cauaçu, e arrasta-se o mesmo dentro d’água, explorando sempre as barreiras. Após  algum tempo, ergue-se o aranhol, arrastando para a parte   seca. A água então escorre, deixando sob as folhas o capturado.

A operação é refeita quantas vezes forem necessárias, ou até  que não tenha mais peixes no local.

PESCARIA DE TARRAFA.

 

Tarrafas são ferramentas de nylon ou fios de algodão (hoje muito raras),  utilizadas para o aprisionamento de peixes. São produzidas  em tamanhos diferentes, algumas chegando a ter a altura de um homem com o braço para cima.

 Poderíamos chamá-las de um recipiente  comprido de boca larga e circulada  na parte de baixo por canículos de chumbo, objetivando sua descida mais rápida.

Na boca destas  existe o saco, um traçado especial, que enrolado ao chumbo em formato de pequenos dutos, evita a fuga dos  peixes, quando da sua  emersão .

Na parte de cima, uma corda fina, de variados tamanhos,  proporcional ao seu  dimensionamento. Prende as malhas no  centro de junção, e é utilizada para jogar a armadilha sobre as águas.  É subdividida  em malhas. Quanto mais largas, peixes maiores serão pegos. Em Arari e Vitoria do Mearim, existem as camaroeiras, peças especialmente preparadas para  camarões  do rio Mearim, suas malhas são muito próximas umas das outras.

Camboa de tarrafa – Praticada no lago ou em porções  onde a água é limpa, sem matos. Segue o padrão das camboas, incluindo o componente canoa. Um grupo de indivíduos  saem uns para a direita e outros para a esquerda até formarem um círculo.

Após,  dois homens, um na popa, a parte de trás, o  popeiro, conduzindo a embarcação com  remo ou  vara; na proa, o proeiro, em pé segurando a tarrafa, e a jogando na água de tempos em tempos.

Então, esta é retirada e posta para dentro da embarcação, onde eventuais peixes aprisionados  são retirados. Volta-se novamente a postura  anterior. Tudo isso   é  simultaneamente sincronizado, e o circuito  sendo gradativamente fechado.

 A visão das tarrafas singrando os ares harmoniosamente, com seus silvos característicos, os raios de sol incidindo nas malhas, descendo vagarosamente sobre as águas, e seu  consequente retorno  à tona, tremulante de peixes. É um espetáculo fascinante.

Uma variante desse método, é denominada de pescaria de  ponga. Os canoeiros implementam o arco,  num tamanho que proporcione a todos participarem, as embarcações vão de forma equitativa e coordenada, efetuando seu fechamento sem usar as tarrafas, mas batendo com as varas ou remos na água, de tal modo que os peixes cercados  ocupem   o centro do aro, então, numa posição onde podem todas  serem jogadas juntas, é efetuada apoteose  da pescaria.

Temos ainda  a pescaria de tarrafa  sozinho a pé.  O pescador, portando a armadilha, e um cofo na cintura, entra na água limpa,   e a vai jogando,” bazugando”.  É praticada   normalmente quando as águas já estão cortadas e são formados os poções.

A   pesca de canoa a esmo, é  empreendida  por duas pessoas,  as vezes por uma só, que sentada na popa da embarcação, faz ambas as  atividades de modo simultâneo: remar/ empurrar,   tarrafear.

Nas cidades  banhadas por rios perenes e lacustres,  também é consumada ficando os praticantes as margens, jogando e puxando a armadilha, sem  necessariamente    entrar na água.

Atualmente   nos milhares de açudes que foram abertos profusamente   para a criação   em  cativeiro, na região da Baixada. São pegos  peixes tanto  naturais quanto exóticos desse modo

 PESCARIA DE REDE

 

As redes são uma forma de pescaria extremamente predatória, pois possuem uma amplitude  muito grande de ação e dependendo do tamanho das malhas, é capaz  dizimar  com os peixes de determinada região.

Contendo  fibras de nylon, que são atadas a dois cordames paralelos de linhas do mesmo produto, em configurações  que dependem da fundura do local onde será efetivada a pescaria, as fibras formam quadrados de diversos tamanhos, denominados  malhas, que vão desde a malha número  dois,  onde mal cabe um dedo ,até a dez, doze, catorze, em rios ou lagos. Podendo ser maiores que  vinte,   nos açudes ou  mar. Essas redes são chamadas malhadeiras.  Quanto ao comprimento,   variam  de acordo com o local e a condição financeira do dono

 São  duas as  maneiras de pescar: a rede  fixa, e a rede de arrasto.

Existe um consenso que talvez nós nem expressemos, alguns por medo, outros por comodidade, por falta de conhecimento, ou plena ignorância: a pescaria com redes e extremamente predatória.

 

 PESCARIA DE ESPINHEL

 

Exercida  nos campos e lagos durante  inverno e abaixamento. É um  tipo de ardil que  pega quase exclusivamente traíras. Trata-se de uma mais belas formas de pescaria que conheço.

Começa com o corte de  pedaços da parte central da folha da palmeira seca, buritis, ou qualquer outra madeira  capaz  de boiar. Atualmente já usam pedaços de isopor, na  dimensão de  mais ou menos um palmo e meio,  faz-se um furo ou amarra-se firmemente no centro  um cordame  trançado  de nylon, um pouco maior que ele.

Na ponta solta do cordame, afixa-se uma  minúscula  tala  de marajazeiro, pontiaguda dos dois lados. Coloca-se  então piabas, pequenas acarás, camarões, como  iscas. Esse diminuto   aguilhão  de marajá faz as vezes de um anzol   

As  peças são deixadas dentro d’agua aleatoriamente,  ao cair da noite. Logo cedo no dia seguinte, são  pegos   e jogados numa canoa de modo  indistinto, para posterior retirada dos  peixes aprisionados, bem como recolocar novas iscas para outro dia.

Devido o grande número  de espinheis,- algumas pessoas  podem ter mais de cem,- a possibilidade de  mistura entre a propriedade de  um ou outro  é constante.

Esse imbróglio foi superado de modo genial pelos nossos cidadãos:  é impressa  uma marca  própria em cada um deles. Desse modo ao levantá-los, já fazem a previa observação  sobre se  lhes  pertencem ou não. Assim, todos podem tranquilamente acessar suas próprias armadilhas, e não caírem na tentação ou “ esquecimento” de mirarem as que não são.

 

 PESCARIA DE PUDICA

 

  Utilizada nos campos cobertos, esta forma de pescaria,  pela sua simplicidade, merece destaque: usa-se uma   mensaba,  artefato fabricado da palha do centro da pindoveira, ou palmiteira, a mesma matéria prima com que são confeccionados abanos e cofos, e que era bastante utilizada no passado como porta ou janela nas casas mais humildes.

Essas mensabas são amarradas umas as outras, formando um   assoalho, que é armado estrategicamente.  Mururus são postos  por cima das peças, de modo a camuflá-las. A partir daí, um  grupo de pessoas passa  a bater na água com varetas de embira ou urucum,  fazendo  muito   barulho, visando levar os peixes para dentro da pudica.

 Logo após, conjuntamente, cada um  com seu cofo na cintura, erguem  as mensabas acima da lâmina d’agua, permitindo o escoamento do liquido e deixando no seu interior os peixes que fugiram das batidas e gritos e ali buscaram refúgio, além do mato ou mururu que fora colocado anteriormente.

O próximo passo será  a retirada do mato, e  posterior  catação dos peixes  que ficaram. Sendo estes colocados nos cofos.

Pega-se os mais variados tipos de peixes, tanto os chamados peixes pretos, quanto, em menor escala, os brancos. Não os  citarei em função de já tê-lo feito  anteriormente.

 Acredito ser relevante falar que junto aos peixes, também aparecem cobras, poraqués e pequenos jacarés, necessitando muito cuidado quando da coleta, pra não sofrer acidentes.

Cabe registro  especial, a preocupação  com  as piranhas. Devido  essa pescaria se realizar no abaixamento, período em que as águas vão se evaporando, formando os poções que guardam uma infinidade de  piranhas. Estas, quanto mais tênue se torna a lâmina, mais perigosas ficam.

Para evitar seus ataques, muitos  pescadores vestem uma espécie de calça feita de sacos de estopa, um tecido bem  grosso que antigamente acondicionava os produtos  comercializados. No contato com a água, a estopa incha, e quando é mordida pela piranha, não consegue alcançar a carne.

 Por ser um modo de pescar que não exige muito esforço físico, em certos  momentos tornando-se até uma  brincadeira/ diversão, quando das batidas e barulhos na água, alguns aproveitam para jogar o precioso líquido  uns nos outros. A  pudica  tornava-se um evento peculiar, único, que permitia  a participação de famílias inteiras, dando uma característica de congraçamento comunitário.

Não cheguei a praticar, mas na minha memória de criança, ficou gravada a imagem de inúmeras  crianças, adolescentes, mulheres, fazendo muita algazarra, sorrindo, espanando água, quando da etapa de tanger os peixes para dentro das armadilhas.

 PESCARIA DE LUZ

 

A engenhosidade do baixadeiro não tem limites quanto ao quesito pesca. A pescaria de luz ou facho é a prova disto.

Acontece  no verão e inverno e é praticada sempre a noite, quando os peixes, que durante o dia ficam nas partes mais fundas dos rios,  igarapés, lagos e campos, aproveitam o soturno e encostam nas beiradas, para  dormir. 

Usa-se uma luminária, acoplada a  um pedaço de madeira leve, já seca, de mais ou menos meio metro, sobre a lamparina uma  placa  de caranã, que é o involucro do palmito de babaçu.

A chapa  que envolve a lamparina, tem dupla função: proteger a chama dos ventos, não permitindo que se apague, e evitar o  ofuscamento,(incandiar) de quem está conduzindo, mais ou menos como se fosse um abajur.

Esse abajur/lucivelo, denominado “careta” também é, ou era, confeccionado com  de folhas de flandres, geralmente  de   latas de óleo para  cozinha.

 Praticada a pé, nas noites escuras, não faz muito sucesso quando existe luar. O pescador, com a luz a frente numa mão,  na outra um facão afiado, vai pé ante pé, caminhando a  d’água,  procurando  peixes dormitando. Ao identificá-los, desfere um rápido e mortal golpe, costumeiramente na cabeça, para não perder o corpo. Ato contínuo,  com o peixe já morto, recolhe-o ao cofo atado na cintura.

 É uma bela cena, digna de cinema, na limpidez da água, sob a fraca luz da lamparina ou mais recentemente, o facho de uma lanterna, traíras, acarás ,jejus, sarapós, dentre outros, com seus corpos tremulantes do suave balouço, madornando, para logo depois, num rápido talho, virarem comida.  

Em Arari conheci uma versão diferente e  interessante: a pescaria é efetivada as margens do rio Mearim, por entre os galhos da ingazeiras, troncos de aninga e mururus, que sobem e descem o rio.

 Na proa  da canoa,  lanterna numa mão, na outra em vez do facão, um ancinho  com cinco pontas afiadas.   Pequenos arpões nas extremidades  permitem que os peixes  venham presos para   quem o manuseia.

É chamada  pescaria de gadanho, e diferentemente da outra , onde se utiliza um facão, proporciona a possibilidade, de em havendo dois ou mais peixes próximos, alcançá-los e trazê-los engatados, de maneira integral, pois não  é necessário cortar a cabeça,  ou parte do corpo.

 Provavelmente, devem existir outras formas de pescarias na Baixada, e  eu, por não saber,  preguiça de aprofundar a pesquisa, ou medo de fazer um texto muito longo, deixei de enumerar.

 Em São João Batista, pescam caranguejos; em São Bento e Bacurituba, muçuns. No povoado Bonfim, em São Vicente Ferrer, existe a pescaria de ninquin, uma espécie de cascudo bem pequeno, só encontrado lá.

 Sem contar com mais recentemente, a verdadeira explosão de pequenos e grandes açudes, que estão explorando, implantando, diversificando – sem nenhum juízo de valor -,uma nova forma de criar, e consequentemente,  agarrar esse produto tão apreciado.

CONCLUSÃO

 

 Entendo que o explanado dar uma real dimensão da pluralidade  de modelos que nosso povo utiliza para aproveitar os peixes que abundam na região .Revelando o quanto fomos e somos agraciados pelo Criador  

Este texto só foi possível, devido a ajuda de muitos irmãos baixadeiros, que não nomearei para não causar  desconforto por ter  deixado de citar algum. A todos, minha  gratidão.

Também me foi muito útil o livro do vianense Ozimo de  Carvalho, a quem homenageio,  Retrato de um Município. Um excelente roteiro abordando  aspectos  sociais, históricos e ambientais, nos anos 1950, na cidade de Viana e cercanias.  Notadamente no capítulo  VIII,  a pesca.

MORRE BELARMINO GOMES, UM GRANDE VIANENSE

MORRE BELARMINO GOMES, UM GRANDE VIANENSE

Autor Nonato Reis*

O meu afeto por Belarmino Gomes vem de muito longe. É uma mistura de respeito, carinho e gratidão. Lembro do dia em que, ainda menino, o meu pai chegou em casa todo feliz, avisando que os nossos dias de dificuldade estavam contados. Fora Belo – assim todos o conheciam – quem lhe dera a notícia. Meu pai, que tivera um braço amputado por conta de uma terrível gangrena, cumpria os requisitos para aposentadoria pelo recém-criado Funrural (Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural).

Belarmino era então o responsável pela administração da seção municipal do Funrural, e coube a ele dar início ao processo de aposentadoria do meu pai, que foi, afinal, deferida dois anos depois, dando ao velho o direito à percepção de meio salário mínimo por mês. Com o dinheiro retroativo dos dois anos de tramitação do processo, ele pôde enfim construir uma casinha em alvenaria, em substituição ao casebre de tábuas e palha de babaçu em que morávamos.

A partir dali nascia em mim um sólido reconhecimento por Berlarmino Gomes, mesmo a distância e de forma anônima. Contato com ele eu só passei a ter depois que comecei a assinar uma coluna aos domingos no Jornal Pequeno, e da qual ele se tornou leitor assíduo.

Anos depois, fui apresentado a ele durante uma festa de aniversário do advogado Pedro Leonel, em Viana. Qual não foi a sua surpresa ao saber que o jornalista que escrevia os seus textos preferidos era filho do Renato, lá do Ibacazinho.

Entre surpreso e feliz, pegou-me pelo braço e me apresentou a sua esposa Rosa Maria, procuradora aposentada, também ela minha leitora de carteirinha. Não esqueço as suas palavras de apresentação a dona Rosa. “Olha, Rosa, este é o Nonato Reis, que escreve no Jornal Pequeno. Ele é filho de Renato, aquele que só tem um braço e morava no Ibacazinho”.

Ali começava uma amizade simples e verdadeira. No lançamento do meu primeiro livro “Lipe e Juliana”, vibrei de emoção ao ver os dois perfilados nas primeiras filas do auditório da Livraria AMEI. Veio o segundo livro, A Saga de Amaralinda, e lá estavam eles no Café Literário do Multicenter Sebrae.

Um dia fiz-lhes uma visita em sua casa no Calhau, e dona Rosa, pegando-me pelo braço, levou-me para conhecer a sua biblioteca, com uma seção só de escritores vianenses. Disse-me, apontando um espaço: “Tá vendo ali, são todos os teus livros”.

Cerca de dois meses atrás fui à agência do Banco do Brasil, no Renascença, e, ao fazer uma operação no autoatendimento, dei com a mão de Belo nos meus ombros. Feliz e preocupado, chamei-lhe a atenção. “Belo, o que você faz aqui? Isto é perigoso, você não deve se expor. Vá para casa, meu amigo!”. Como que caído em si mesmo, concordou comigo e prometeu ir logo embora.

Semanas depois, fui informado que ele lutava contra a Covid em um hospital de São Luís. Passei a acompanhar seu estado de saúde diariamente, por meio dos seus parentes. Chegou a dar sinais de recuperação, e isso me encheu de esperanças. Hoje, porém, fui atingido com a notícia do seu falecimento. Quase sem palavras, só me ocorre dizer, “que pena!”.

Deus, que é todo-sabedoria e todo-bondade, receba a sua alma em sua infinita misericórdia e conforte o coração dos seus entes queridos. Belo foi grande na Terra, porque soube ser humilde e humano.

* Nonato Reis é natural de Viana. Jornalista, poeta e escritor. Foi correspondente em São Luís da Folha de São Paulo em 1993 e colunista do Jornal Pequeno, no período de 2011 a 2017.

FERRY-BOAT: Fórum da Baixada participa de Audiência Pública realizada pela MOB

FERRY-BOAT: Fórum da Baixada participa de Audiência Pública realizada pela MOB

Na tarde desta quinta-feira, dia 18 de março de 2021, a convite do seu Presidente da Agência Estadual de Mobilidade Urbana e Serviços Públicos (MOB), Daniel Carvalho, o Fórum em Defesa da Baixada Maranhense (FDBM) participou de Audiência Pública, promovida pela MOB.

Por conta da pandemia, a audiência pública foi realizada on line por meio do aplicativo Teams. A referida audiência tratou sobre a licitação do serviço de Ferry-Boat no Estado do Maranhão, bem como a disponibilização de melhorias urgentes nesse serviço de grande relevância para os maranhenses.

Participaram do evento mais de 30 (trinta) pessoas, incluindo várias autoridades, entre elas: o Vice-Governador do Estado, Carlos Brandão; a Deputada Estadual, Thaíza Hortegal; a Promotora de Justiça, Lítia Cavalcanti; o Juiz de Direito, Douglas Martins; a Diretora do Procon, Karen Barros; o Capitão dos Portos; o Diretor dos Terminais Externos da Emap, Ted Lago; o Secretário Adjunto da SEFAZ, Magno Vasconcelos; o membro da Comissão de Direito Marítimo da OAB, Najla, entre outras.

Pelo FDBM participaram os forenses: Ana Creusa, Elinajara Pereira, Expedito Moraes e Ribeiro Júnior. Alguns forenses assistiram ao evento pelo Canal do Youtube, disponibilizado pela MOB.

O Vice-Governador iniciou a reunião, cumprimentando os participantes. Discorreu sobre as obras realizadas nos terminais de passageiros, que visaram dar mais conforto aos usuários e que agora se encara os desafios da licitação, construir um edital adequado às necessidades dos serviços. Por fim, afirmou que a Baixada é prioridade para o Governo.

A Promotora de Justiça do Consumidor, Lítia Cavalcante, falou sobre a luta empreendida pelo Ministério Público, com a finalidade de melhorias nos serviços de ferry-boat.

A Deputada Estadual Thaíza Hortegal também falou sobre a importância do serviço para a população da Baixada e Karen Barros do Procon falou do sofrimento da população usuária dos serviços.

Posteriormente, foram facultadas as inscrições para manifestações, as quais seriam realizadas após a apresentação do Presidente da MOB, Daniel Carvalho.

Na apresentação, Daniel Carvalho, apresentou considerações sobre a nova proposta de Licitação para Concessão do Serviço Público de Transporte Aquaviário Intermunicipal de Passageiros, Cargas e Veículos de Navegação Marítima entre o Terminal Marítimo Ponta da Espera e o Terminal Marítimo do Cujupe no Estado do Maranhão, que consta no Processo Administrativo nº 031522/2021, que está disponível no sistema e-processo do Governo do Estado.

A proposta contempla vários itens, como: Redução do valor da outorga, proporcionando que os valores arrecadados retornem ao sistema como investimento e melhorias; Idade média da frota, prevendo idade máxima das embarcações; Renovação da frota e previsão de novas embarcações; Melhoria e conforto das cabines de passageiros; Isolamento acústico nas casas de máquinas; Manutenções preventivas; Melhoria no sistema de venda antecipada (fim do sistema misto); Aumento dos pontos de vendas, entre outras.

Após a apresentação, o Presidente da MOB franqueou a palavra aos inscritos. Expedito Moraes do FDBM foi o primeiro a usar da palavra. Após os cumprimentos de praxe, ele discorreu sobre a luta dos baixadeiros e demais usuários dos serviços de Ferry Boat. Lembrou de outros eventos que o Fórum já participou, sempre reivindicando melhorias no serviço que, até o momento, não foram realizadas e que tem esperança que o processo licitatório se realize. Lembrou que os serviços nos tempos de pandemia foram reduzidos, mas que essa demanda reprimida virá, tão logo essa fase crítica amenize, mas que necessita de planejamento, para que não haja colapso do sistema. Solicitou providências referente ao embarque e desembarque de passageiros e carros, para que ambos sejam feitos em momentos diferentes.

O representante do FDBM ainda falou sobre algumas sugestões apresentadas pelos forenses que estavam assistindo à audiência pelo Youtube, como: o alcance internacional do edital, tempo máximo de viagem, menor intervalo entre as viagens, antecipação do horário de viagens e conforto dos passageiros. Estas últimas indagações foram realizadas pelo Dr. Gusmão, Prof. da UEMA e Gestor do Projeto Bosques na Baixada do FDBM.

Mais alguns participantes se manifestaram, como o Capitão dos Portos que lembrou que a manutenção preventiva das embarcações é fundamental. Hugo Veiga, Secretário-Adjunto do Turismo falou que é necessário que tenham mais postos de vendas à disposição dos usuários. Que estão em estudo a efetivação de terminal de vendas em Pinheiro e no Povoado Três Marias, em Peri-Mirim.

Lítia Cavalcante disse que já visitou o local e que considera adequada a instalação do Posto de Vendas no Povoado de Três Marias, pois se trata de uma confluência de estradas que ligam alguns municípios. Karen Barros do Procon, lembrou que os Vivas podem ser utilizados como postos de vendas, bastando que se instale o sistema.

Após a manifestação de todos os inscritos, o Presidente da MOB, Daniel Carvalho, encerrou a reunião, declinando o nome de todos os participantes e despediu-se com a costumeira delicadeza.

O FDBM agradece o convite e renova a esperança de que os serviços do Ferry Boat sejam melhorados, pois sem eles funcionando adequadamente, não se pode falar em desenvolvimento da Baixada, Litoral Ocidental e Noroeste do Estado; muito menos falar-se em turismo, que seria um eixo propulsor de trabalho.

João Martins está de volta à presidência do Fórum da Baixada

João Martins está de volta à presidência do Fórum da Baixada

Companheiros,

O Fórum em Defesa da Baixada Maranhense (FDBM) está de parabéns. Havia uma expectativa de alguns colegas que João Martins eleito prefeito de Bequimão, não pudesse ou não quisesse continuar na presidência do Fórum. A primeira hipótese não existe, pois não há impedimento. A segunda foi descartada em uma reunião remota acontecida nesta segunda feira (15.03.2021), na qual João foi convencido por mim, Antônio Valente e Ana Creusa a continuar sua Gestão. Aliás, foi eleito democraticamente.

JOĀO MARTINS continua Presidente do Fórum. O fato de ser Prefeito não o impede legalmente desta função; muito pelo contrário, possibilita que este Fórum, tenha uma dimensão mais política e mais capaz de realizar uma série de ações já planejadas e outras que, ainda, serão.

Existe um movimento atual que envolve prefeitos eleitos e reeleitos na ultima eleição de algumas microrregiões das mesorregiões do Norte e Oeste maranhense – incluindo a Baixada, para criarem Consórcios Municipais. O foco é fortalecer a representação política da Região e consequentemente elevar o poder de barganha e traduzir em investimento comuns a todos os municípios. Este tipo de organização tem dado certo em alguns estados, principalmente nos quais prevalece um maior grau de maturidade e eficácia na gestão e execução do planejamento.

Cremos que, JOÃO MARTINS, pelo histórico e competência que tem, pode ser um consorciado bastante forte nesse organismo; A posição do município de Bequimão nesse território é bastante privilegiada, exemplo:

1) Ponte de Pericumã ligará esse município a toda à região noroeste do Maranhão;

2) Todos os megas Projetos que serão implantados em Alcântara – as tratativas institucionais e técnicas para a instalação do Terminal Portuário de Alcântara – TPA e o Centro Espacial de Alcântara – CEA, continuam – pela proximidade, será o mais beneficiado;

3) A demanda de mão de obra e insumos de toda ordem será grande, e JOÃO com a experiência que tem em formação, qualificação e capacitação profissional, conhecendo os órgãos e com o trânsito que conquistará no Estado e em Brasília será muito mais fácil;

4) A parceria que iniciamos com a UFMA será muito mais abrangente e frutífera. Enfim, os vários projetos que iniciamos podem continuar com o apoio do próprio Consórcio.

5) Em 16 de maio de 2015, logo após a implantação do FDBM, elaboramos e aprovamos um Plano Estratégico e definimos que a missão do Fórum deveria ser um agente articulador de projetos para o desenvolvimento sustentável da baixada maranhense, interagindo com o poder publico, privado e a sociedade e ser reconhecido como o principal defensor do desenvolvimento sustentável da baixada maranhense. Então, acreditamos estar no caminho certo.

Após um período de afastamento da presidência em que eu assumi interinamente a presidência do Fórum, João Martins está de volta ao cargo, para o qual foi eleito democraticamente. Seja bem-vindo, presidente João Martins.

Expedito Moraes, 1º Vice-Presidente do FDBM

FERRY-BOAT: MOB convida a sociedade civil para audiência pública para licitação do serviço

FERRY-BOAT: MOB convida a sociedade civil para audiência pública para licitação do serviço

O Presidente do Fórum em Defesa da Baixada Maranhense (FDBM), João Martins, Prefeito do município de Bequimão, CONCLAMA os colegas Prefeitos, Deputados estaduais e federais, vereadores, lideranças políticas, empresários, comerciantes, sociedade civil, enfim, todos que tenham atuação política, empresarial, usuários, moradores das regiões servida por este tipo de transporte, que ao longo do tempo vem a cada dia deixando de prestar um serviço de qualidade; para participarem da Audiência Pública que vai debater sobre a situação dos ferry-boats no Maranhão. A Audiência será promovida pela Agência Estadual de Mobilidade Urbana e Serviços Públicos (MOB), e será realizada no dia 18, próxima quinta-feira, as 14h. A chamada pública visa ser um instrumento preparatório da sociedade civil na licitação, visando às melhorias do Transporte Aquaviário no Maranhão.

Afirma a MOB que por conta da pandemia, a audiência on-line e será transmitida pelo aplicativo “MICROSOFT TEAMS”. Poderão participar órgãos estaduais e municípios da região da Baixada Maranhense. Na audiência será pautada a proposta de Licitação para Concessão do Serviço Público de Transporte Aquaviário Intermunicipal de Passageiros, Cargas e Veículos de Navegação Marítima entre o Terminal Marítimo Ponta da Espera e o Terminal Marítimo do Cujupe no Estado do Maranhão.

O presidente da MOB, Daniel Carvalho detalhou que essa audiência é um marco para o estado. “O serviço de ferryboat será licitado pela primeira vez no Maranhão e consequentemente trará benefícios para a sociedade que utiliza esse meio de transporte e que já passou por alguma situação. Será um marco para o Transporte Aquaviário e para nós maranhenses”, finalizou Daniel. Para participar da audiência basta entrar no link da audiência disponibilizado pela MOB e o Governo do Estado.

Para acompanhar a  audiência basta entrar no link do Youtube da MOB: https://www.youtube.com/c/MOBMaranhão

Fonte: http://www.mob.ma.gov.br/mob-convida-sociedade-civil-para-audiencia-publica.

Chucho – “O Pelé da Baixada Maranhense”

Chucho – “O Pelé da Baixada Maranhense”

Um breve relato do maior craque de futebol da Baixada Maranhense de todos os tempos.

Por Luiz Antonio Morais – Acadêmico da AVL – Cadeira N 20 – Patrono Dom Francisco Hélio Campos.

Autor do artigo: Luiz Antonio Morais

Antonio Matos Gaspar, o Chucho, nasceu em 28 de julho de 1936, na pacata Rua do Sol, viela que corta a Praça da Matriz, em Viana, e termina na comunidade Gruguéa – antigo atracadouro de canoas de pescadores –, que alertavam os fregueses por meio de um rústico berrante, confeccionado por um dos lados de chifres bovinos.

Filho do casal Coaraci Neres Gaspar e Laura Rosa dos Santos Gaspar, esse ilustre e talentoso vianense teve, ainda, nove irmãos, seis deles já falecidos: José de Laura, Zuleide, Conceição, Balbino, Emídio, Tarcísio, Maria Rita e Elisabete.

Nossa reportagem encontrou Chucho em uma manhã de domingo, 9 de setembro de 2018, em sua modesta residência, na Rua do Sol, local onde sempre morou desde que nasceu. Olhar fixo na TV, assistindo a uma corrida de Fórmula 1, era o arquétipo do melhor jogador de futebol nascido em solo vianense.

Enquanto muitos jogadores, hoje, de qualidade técnica duvidosa, ou os grandes craques de fama mundial, entre eles Messi, Cristiano Ronaldo, Neymar – ainda jovens ou na plenitude da forma física –, acumulam verdadeiras fortunas, carros de luxo, viajam em jatos particulares, namoram mulheres belas e famosas e residem em mansões cinematográficas, quis o destino que o nosso maior craque encerrasse a carreira muito cedo, pobre e vivendo os seus dias de velhice sustentando-se apenas com uma humilde renda da aposentadoria; solitário e sem esperança por dias melhores.

Mas o nosso craque já teve os seus dias de glória!

Quis a graça divina que esse menino pobre, nascido em Viana, ostentasse um assombroso talento com a bola nos pés. E, ali nas várzeas e campinhos dos arredores da cidade, verdejantes após a baixa das águas, que Chucho e seus coleguinhas da época: Zé Pedro Morais, Tomás Morais, Raimundão, Lupercínio, Fefeu, ente outros, já mostravam uma incrível habilidade, mesmo que a diversão se desse com humildes bolas de meia, recheadas com papel ou sobras de tecido.

Logo, Chucho despertou os olhares e a cobiça dos desportistas da região e, aos 15 anos, era a maior atração do lendário Dragão, um dos clubes mais vencedores da época, em Viana e vizinhas.

Mesmo com as dificuldades da memória que a idade avançada impõe, Chucho lembrou, com nostalgia, alguns nomes dos velhos companheiros de campo da época, quando, ao lado de Futuca (goleiro), Vavá, Tarcísio de Lima, Fefeu, Marreco, Dico de Catarina, Esquerdinha, Machadinho e outros, o Dragão enfrentava as equipes rivais. Entre elas: o Ipiranga, que mudou de nome para Babaçu, e o Democrata, que virou Cruzeiro.

“Esses jogos, além de muito disputados, sempre terminavam em sopapos, chutes, correria e agressões devido à juventude e à rivalidade dos bairros”, afirmou Chucho.

Anos depois, segundo relatou, o time do Dragão também mudou de nome e passou a se chamar América, tendo como principal cartola e mecenas, um gerente do extinto Banco do Estado do Maranhão (BEM), lembrado apenas pelo nome de Pavão.

“Nós não tínhamos um esquema tático definido nem posições fixas. O nosso principal objetivo era dominar o adversário com raça, toque de bola e chegar ao gol, inevitável”, relembrou.

Aos 22 anos, já na idade adulta, Chucho se apaixonou e se casou com a jovem Maria do Rosário Neves Gaspar, união que gerou oito filhos: Antonio Carlos, José Etevaldo (in memorian), Laura Rosa, Francisco Carlos, Sebastião, Raimundo Nonato, Rosirene e Roberto.

Vice-campeão; campeão e bicampeão intermunicipal de futebol.

Em 1965, quando o Brasil ostentava o título de bicampeão, conquistado nas Copas do Mundo (Suécia/1958, e Chile/1962), e o futebol gozava de enorme prestígio nacional, Chucho, então no auge da forma física, aos 25 anos, já reinava e desfilava o seu indefectível talento nos campos de todas as cidades da Baixada Maranhense, encantando dirigentes e torcedores da época.

Segundo relatos de moradores mais velhos, Chucho chutava forte com as duas pernas, era um exímio cabeceador e driblava seus adversários com igual ou superior habilidade de Pelé, (ele mesmo, o Rei do Futebol).

Mantida as aparências, Chucho não demorou a conquistar, com a camisa da Seleção Vianense, os títulos de vice-campeã, campeã e bicampeã dos acirrados torneios intermunicipais de futebol, em 1965/1966 e 1967 – anos dourados do futebol vianense.

Fome e falta de reconhecimento

Embora as delegações que disputaram três títulos intermunicipais, inclusive sobrevivendo a um naufrágio da lancha Marília em 1965, quando retornavam para casa, essas conquistas tiveram muitos momentos tensos, tristes e delicados. Segundo Chucho, o Brasil vivia uma crise econômica e, também, institucional naquela época, isto é, já vivia sob a Ditadura Militar.

O prefeito de Viana, nesse momento, era Acrísio Mendonça, que tinha enormes dificuldade em manter o custeio da prefeitura, pagar os funcionários e/ou realizar obras. Portanto, como era quase sua obrigação dar apoio ao selecionado vianense – que tinha grande admiração da população, em razão dos talentos escolhidos para defender nossas cores –, a gestão também passou por apertos financeiros para honrar compromissos com as despesas de hotel e refeições, sempre que o selecionado se deslocava à capital para disputar as finais do Intermunicipal.

“Muitas vezes, passamos fome em São Luís. A dona do hotel afirmava que não iria fazer refeição enquanto não recebesse o dinheiro devido. Então, o prefeito Acrísio, que, às vezes, acompanhava o nosso time, voltava pra Viana e fazia uma ‘vaquinha’ entre os comerciantes locais e retornava para pagar as despesas”, relatou.

Chucho também relembra com tristeza que a prefeitura dessa época nunca reconheceu como deveria, ou premiou os jogadores com o conhecido “bicho” (premiação em dinheiro, prática comum nas equipes de futebol do Brasil, até os dias de hoje, quando estas alcançam grandes conquistas).

“Nem os troféus que conquistamos, não sabemos onde foram parar”, afirmou com tristeza.

Portas da esperança

Com a divulgação das conquistas do selecionado vianense pelos jornais “O Imparcial”, “Jornal Pequeno” e o “O Dia” (extinto), a fama de craque de Chucho logo chegou a outras plagas. O político João Alberto de Sousa, já bastante conhecido e influente, esportista e apaixonado por futebol, mandou um emissário para contratar o craque vianense para defender o América de Bacabal, que, em seguida, se profissionalizou e virou Americano e veio a disputar vários campeonatos estaduais.

Chucho também jogou pelo Flamengo de Santa Inês, que tinha como rival, é claro, o Vasco, da mesma cidade.

“Logo na minha estreia, era dia de clássico. Cheguei até a fazer um gol e ganhamos de 2 x 0, mas o jogo acabou com muitas brigas e teve até tiroteio na torcida”, diverte-se!

A oportunidade mais próxima de uma profissionalização de Chucho, no futebol maranhense, deu-se por meio de um convite para treinar no Maranhão Atlético Clube (MAC), de São Luís. No entanto, as dificuldades financeiras, a saudade da família e a falta de estrutura para morar em São Luís o impediram de mostrar o seu talento para públicos além-mares.

“Morei em um casarão caindo aos pedaços, não tinha como me sustentar. Lembrava que não tinha deixado um tostão para minha mulher e meus filhos. Um dia, meu irmão Emídio, que, na época, já era capitão do Exército, foi me visitar, ficou triste com minha situação e me levou para casa dele, ali na Rua 28 de Julho, no Centro da cidade. Então, voltei para Viana, sem nunca jogar no MAC”, resigna-se.

Sapatos, chuteiras e contusão

Quando retornou a Viana, filhos em fase de crescimento e muitas despesas, Chucho buscou o sustento da família em uma nova profissão, na qual também mostrou grande talento: a de sapateiro, ofício que desenvolvia em iguais condições com o também companheiro de seleção, João Batista Melo, o Coquinho.

“Quando ia treinar, eu já levava minha suvela (instrumento pontiagudo para perfurar couro) e agulha. Se a bola murchasse ou as chuteiras rasgassem ou perdessem as traves, estávamos prontos para recuperar, ali mesmo, na hora,” contou.

“Certa vez, meu ‘compadre’ Aluísio pediu minha chuteira emprestada; joguei contra ele descalço e levei um forte ‘pisão’ no pé, e ele ainda tirou sarro comigo, que era pra eu comprar chuteira pra mim”, relatou sorrindo.

Para alimentar a prole, também se aventurou no Lago de Viana, com tarrafa e anzol, em busca do pão de cada dia.

Aos 35 anos, o destino tratou de pôr fim a carreira desse “Pelé da Baixada Maranhense”.

Em uma partida de futebol disputada em um bairro vianense, Chucho sentiu um forte estalo no joelho direito. Os meniscos sentiram o desgaste do tempo, a falta de condicionamento físico para um atleta e, foram ceifados das condições para a prática do futebol. Em um município isolado territorialmente, sem médicos, sem clínicas ou qualquer possibilidade de tratamento, o atleta sucumbiu ao peso do desgaste.

Era o fim da carreira de Chucho.

“Hoje, com a minha idade avançada, estou sofrendo muito com essa contusão no joelho. É um preço muito alto que estou pagando por ter jogado futebol” relatou.

… e time do tempo ganhou…

“Sua ilusão entra em campo no estádio vazio

Uma torcida de sonhos aplaude talvez

O velho atleta recorda as jogadas felizes

Mata a saudade no peito driblando a emoção”.

Na canção “Balada nº 7 – Mané Garrincha”, na qual o compositor Moacyr Franco homenageia o lendário craque da Seleção Brasileira, podemos imaginar o apogeu e a derrocada de um craque com o calibre e o talento de Chucho.

Não ao talento

Na última gestão do ex-prefeito Rilva Luís, o desportista, ex-jogador e ex-vereador Zé Carlos Costa, que gozava de prestígio na administração pública, chegou a convencer o gestor a enviar à Câmara de Vereadores um projeto de lei que garantisse uma renda mensal a todos os jogadores e comissão técnica das seleções que trouxeram tamanho orgulho para os vianenses no futebol, inacreditavelmente NÃO aprovado pelos edis da época.

A Mangueira chegou!

Se as pernas já não serviam para o futebol e as mãos continuavam tratando bem o couro, fazendo sapatos, para a nossa alegria, Chucho também demonstrou talento e afinidade com outra paixão: o samba. Era na sua porta, na Rua do Sol, que um grupo de vianenses, da Matriz e outros bairros, se reuniam para ensaiar os sambas do seu irmão, exímio compositor, Balbino, para serem cantados nos aguardados desfiles, em frente ao palanque oficial da prefeitura, na Rua Antonio Lopes.

E, como resultado dessa abnegação pelo samba, a Mangueira fez um desfile inesquecível no início da década de oitenta, em homenagem à lendária professora vianense, Edith Nair Furtado da Silva. Com uma apresentação, enredo, fantasias e adereços impecáveis, a escola ganhou o título de campeã e marcou uma geração no Carnaval de rua vianense.

Olhar e lembranças

Chucho, hoje, depois que realiza suas tarefas e refeições matinais, servidas pela neta e vizinha Francinete, descansa um pouco e, logo em seguida, quando o Sol arrefece, dirige-se, com um caminhar lento, ao Parque Dilu Melo (Areal) onde possui um modesto barzinho.

Ali, sentado em uma cadeira de macarrão, de plástico, contempla o horizonte do nosso lago e os meninos descalços, suados, alegres e barulhentos que disputam, alegremente, uma pelada no campinho de areia, logo à frente.

Observando a cena, este jornalista não resistiu à pergunta:

– Seu Antonio, o senhor já foi bom disso, não foi?

Soam gargalhadas…

O jogo da vida continua!

  • Bibliografia consultada: RAPOSO, Luiz Alexandre – Anos Dourados em Viana: artigos e crônicas. São Luís: Gráfica e Editora Sete Cores, 2018.
Seleção campeã (1966) – De pé: Macial (goleiro reserva), o presidente da Liga Vianense Raimundo Nonato Mendonça (Papa-banha), os irmãos Cabeça e Picirica (goleiro titular), os também irmãos Coquinho e Zé Melo, Lupercínio, Louro, o técnico Jurandir, o médico Dr. Osmir, Zé Viana, Nilson e um desconhecido. Agachados: o massagista Nego Luís, Pedro de Constantino, Bacabal, Marreco, Darío, Chucho, Lanchão, Walmir, Fefeu, Carmelito e Vavá.
Antonio Matos Gaspar, o Chucho
Antonio Matos Gaspar, o Chucho

DIQUES DA BAIXADA: Fórum da Baixada se reúne com técnicos de empresa contratada pela CODEVASF

DIQUES DA BAIXADA: Fórum da Baixada se reúne com técnicos de empresa contratada pela CODEVASF

Na noite de ontem, 15/03/2021, o Fórum em Defesa da Baixada Maranhense (FDBM) reuniu-se com técnicos da empresa Walm Engenharia e Tecnologia Ambiental, contratada pela Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (CODEVASF), para realizar o Levantamento Socioambiental da Baixada, bem como análise dos hábitos e costumes dos baixadeiros.

A reunião ocorreu de forma remota, por meio do Google Meet. Expedito Moraes, Ana Creusa e Antônio Valente representaram o FDBM e Ágata Novais, Mônica Duarte e Thaís Bueno representaram a empresa Walm.

Expedito deu as boas vindas aos participantes e falou sobre a importância dos Diques da Baixada e da expectativa para que essa obra seja executada, por fornecer segurança hídrica, bem como reter a água nos campos por maior período de tempo, ajudando no desenvolvimento sócio ambiental  e econômico dos baixadeiros, bem como agradeceu pelo trabalho das técnicas.

A WALM Engenharia e Tecnologia Ambiental Ltda. é uma empresa de prestação de serviços e projetos nos segmentos pertinentes a Engenharia Ambiental, Saneamento, Engenharia Geotécnica e de Recursos Hídricos. Os principais serviços da Walm são: Avaliação de Impacto Ambiental (EIAs, PBAs, Gerenciamento Ambiental), Gerenciamento e Remediação de Áreas Contaminadas, Estudos Geotécnicos, Hidrológicos e Hidro geológicos.

As técnicas enviadas à Baixada possuem formação multidisciplinar, adequadas à natureza do trabalho: Ágata Novais possui formação em Hidráulica e Saneamento Ambiental; Mônica Duarte, em Engenharia Ambiental e Thaís Bueno, em Geografia. Todas qualificadas para proceder o trabalho para o qual foram designadas. Falaram que para a próxima etapa, virão os biólogos.

Questionadas sobre a impressão que tiveram sobre a Baixada e sua gente, falaram que: muitas pessoas demonstraram interesse pela obra, especialmente no combate à seca e salinização dos campos que afetam o lençol freático, dificultado a perfuração de poços – principal meio de acesso à água potável.

Consideram que realizaram um minicenso sobre a Baixada e que puderam sentir o modo de vida dos baixadeiros e como se organizam as famílias. Perceberam que muitas famílias são constituídas apenas pela mãe e seus filhos.

Durante as visitas, mantiveram contatos com secretários e chefes de Gabinete, a fim de obterem mais informações, especialmente sobre aqueles municípios que não possuem Plano Diretor.

A estimativa da população, algumas leis orgânicas foram disponibilizadas pelo FDBM à equipe. Também se disponibilizou em intermediar o contato da equipe com os órgãos como o Instituto Maranhense de Estudos Socioeconômicos e Cartográficos (IMESC); SEBRAE e outras secretarias do Estado do Maranhão que possam fornecer dados sobre os municípios da Baixada.

Questionadas sobre a divulgação do Projeto pela empresa Walm Engenharia e Tecnologia Ambiental, as técnicas falaram que disponibilizarão o projeto à CODEVASF, que contratou o trabalho. Antônio Valente, que trabalha no DNIT, falou que após a entrega do levantamento à CODEVASF, esta vai disponibilizá-lo ao público, devido ao princípio da transparência.

Ao final, as técnicas discorreram sobre a importância do contato com o Fórum da Baixada, bem como agradeceram pelas informações recebidas e falaram da necessidade de contato com os coordenadores da empresa,encarregados Levantamento Socioambiental da Baixada. Os membros do FDBM, por sua vez, agradeceram pela oportunidade de participar do referido levantamento e se colocaram à disposição para ajudar, a fim de que esse importante projeto seja concretizado.

As lanchas e seus comandantes

Autor Expedito Moraes

Os Comandantes eram respeitados e tinham autoridade por onde passavam. Dentro da lancha sua autoridade não podia ser questionada. Sentava-se dentro da cabine de comando ao lado marinheiro e às vezes ouviam ou falavam com um ou outro passageiro.

Até os anos 70, o ir e vir de pessoas de várias regiões do Maranhão para São Luís era uma verdadeira aventura. Neste texto, pretendo ater-me exclusivamente às opções que os baixadeiros tinham até então. Na região dos lagos, baixo Mearim e Pindaré, a única opção era a navegação por esses rios. Dependendo do período do ano e da fase da lua, uma viagem de Pindaré a São Luís poderia durar até três dias, caso não “desse prego” ou encalhasse em alguma croa ou banco de areia.

O tipo de lancha mais comum era de dois toldos, sendo um cobrindo da proa até a popa e outro da proa até a metade do primeiro. Nessas embarcações carregava-se tudo; no convés vinha bode, boi, porco, cofos de galinha, que dividiam espaços com as redes e bagagens dos passageiros imprensados entre a sacaria coberta pelos “encerados” e o segundo toldo.

Quem viajava neste ambiente ficava sujeito ao frio, chuva e “golfadas” da maresia. No porão e convés vinham as sacarias de arroz e babaçu. O calado dessas lanchas variava entre 4 a 6 palmos o que determinava a capacidade de carga (sendo 90% de arroz e babaçu em saco de estopa de 60 quilos), ou seja, a quantidade variava entre 900 a 2.200Kg. Os motores navais dessas lanchas eram de marcas Caterpiller, Bolinder, Mwm, etc. Nessas lanchas a tripulação era composta por 1 comandante, 1 imediato, 3 a 4 marinheiros, 2 motoristas, 4 a 5 moços de convés, 1 cozinheiro e 1 taifeiro.

Uma lancha funcionava como uma empresa, cada tripulante de acordo com a sua categoria tinha função bem específica dentro e fora dela. Um moço de convés fazia as funções do que chamamos hoje nas organizações de “auxiliar de serviços gerais”. Eram responsáveis pela limpeza da embarcação, do atracamento ao desatracamento, pelo bombeamento da água dos porões, arrumação de bagagens e acomodação dos passageiros.

Estes profissionais tinham tarefas inusitadas, em determinadas situações corriam risco de vida. Lembro-me de um caso que ocorreu em uma determinada lancha, numa daquelas noites “de breu”, com chuva torrencial e tempestade, no Canto do Lago, lugar usado como fundeadouro para esperar a maré e poder passar pela tenebrosa Malhadinha sem perigo de encalhar. As croas da Malhadinha são do tipo “areia movediça”. A maré de lua nova vazava e a correnteza era muito forte. O Canto do Lago era um lugar inóspito.

O rio era altamente caudaloso, barrento e ameaçador. Suas margens eram de barreiras altas e lamacentas cheias de galhos e troncos de mangueiros derrubados e arrancados violentamente pela ventania e pororoca. Mesmo assim, em cima das barreiras, ainda, resiste uma floresta esparsa; apesar dos lenhadores que naquela época, diariamente, derrubavam à base do machado os troncos mais frondosos e enchiam seus igarités ou barcos a vela ou motorizados para venderem à ULEM e aos depósitos de materiais de construção. Atrás desses mangueiros estendem-se imensos campos selvagens de capim-açu repletos de serpentes tipo: rabo seco e cascavel.

Em uma determinada madrugada, a escuridão era total, chuva torrencial, a ventania terrível jogava os vagalhões das águas barrentas do rio sobre a proa e convés balançando ameaçadoramente a lancha. Parecia um pesadelo. Não tinha quem ficasse dormindo numa hora dessa. Apesar do ronco do motor e da trovoada ouvia-se os estrondos assustadores dos trovões e os relâmpagos rasgando o céu de cima a baixo. Era imperioso fundear. Durante três ou quatro horas a lancha permaneceria ali até a maré passar e aumentar o volume de água no canal e seguir em direção à “Cidade”. As condições de manobra com todos esses fatores exigia muita perícia do marinheiro e do comandante. O mais grave, ainda, era o “peso d’água” muito forte.

Uma embarcação no meio de uma turbulência dessa, por mais segura e bem construída que fosse, virava uma frágil canoinha. Até mesmo fundeada, senão fora bem amarrada poderia ser arrastada pela correnteza com consequências imprevisíveis. Então, era necessário além do ferro (âncora) amarrar um cabo num mangueiro frondoso em cima da barreira com quase 6 metros de altura, lamacenta e escorregadia.

Nessa ocasião, o moço de convés de plantão era um sujeito forte, truculento, aguardava a lancha aproximar-se o máximo da barreira para pular com o cabo amarrado pela cintura enquanto que outro ficaria no convés para solecar o cabo até este conseguir dar o laço no mangueiro. Este tipo de tarefa exigia do operador algumas técnicas. Estes cabos, ainda, eram de manilha que além de grossos eram bastante pesados e principalmente molhados. Com todos estes ruído, não adiantava gritos ou quaisquer tipo de comunicação com o sujeito, a partir do momento que se atirava de convés abaixo para subir a barreira. Tudo isto, dependia, como guia, de um fraco facho de luz emitida por uma lanterna a pilha.

Pois bem, esse procedimento tinha que ser em frações de segundos, no escuro e com um “pragueiro” medonho. Eram aproximadamente duas horas da manhã. Por volta das sete, o Comandante manda levantar ferro e desamarrar a embarcação. O moço que subiu a barreira pra desamarrar, dá um grito de lá e exibe pra todos verem uma casável de mais de 2 metros morta e amassada ao meio. Com certeza, no escuro e rápido como relâmpago, o moço que amarrou de madrugada, laçou a serpente com mangueiro e tudo. Esse caso ficou famoso na região.

O Rio Pindaré possui múltiplos canais ao longo do seu leito de Cachoeira para baixo. Este tipo de rio, além de sofrer a influência das enchentes, da pororoca, erosão, assoreamento, em determinadas épocas do ano e de acordo com a variação lunar tem seu leito constantemente alterado.

O conhecer essa dinâmica e saber quando e para onde o canal foi deslocado era o principal item do curriculum de um Comandante.

Os Comandantes eram respeitados e tinham autoridade por onde passavam. Dentro da lancha sua autoridade não podia ser questionada. Sentava-se dentro da cabine de comando ao lado marinheiro e às vezes ouviam ou falavam com um ou outro passageiro.

O comandante era assim o único ser dentro daquela embarcação responsável por todas as vidas que ali estavam, por toda a mercadoria transportada e do patrimônio do patrão. Como disse antes, essas lanchas tinham calados medidos em palmos. De modo que variavam entre 4 a 6 palmos. Isto fazia uma tremenda diferença entre elas. Estas medidas definiam a capacidade de carga e tempo do percurso entre São Luís e outras cidades. Por exemplo: a lancha YARA carregava 900 em sacos de 60 kg de arroz, a NAZARÉ DE BELÉM 2.200 sacos. Entretanto, a NAZARÉ fazia 2 viagens, ida e volta entre os CANIVETES e SÃO LUÍS. Em 15 dias só para carregar e descarregar eram necessário 6 dias. A YARA levava 2 dias. Então, enquanto Yara fazia 10 viagens por mês, a NAZARÉ fazia 3 ou 4 viagens.

Belas Águas

Belas Águas

Autor João Carlos

Não é novidade minha paixão pelas músicas do confrade, amigo desde tempos pueris, vizinho, companheiro de brincadeiras, pescarias e profissão; cantor, compositor, artista plástico, Kléber Brito, a quem eu, em que pese o passar dos anos, insisto chamando de Kebinha, seu apelido de criança.

Sempre digo que suas canções, todas elas, são autênticos faróis, e sendo analisadas sob ângulos/matizes, servem para reportar, contar, extrair, resgatar, no âmbito sociológico, cultural e artístico grande parte da nossa infância.

Parece que, igualmente Caetano Veloso exaltou na encantadora “Sampa”, o cruzamento da rua Ipiranga e a avenida São João, em São Paulo; aquele quadrado mágico da esquina entre a rua Cel. Antônio Augusto Alves da Silva e a rua Dr Afonso Matos, em Matinha, exerce profundo poder inspirativo, dando a Kebinha uma onda de criação tão incontrolável quanto bela.

As reminiscências emanam em borbotões de versos e estrofes carregadas de saudade e poesia, e a cada obra nova, aparecem engendramentos de arte intensos, que só ratificam a sua genialidade. Eu mesmo ao escutá-las, faço com a certeza, de que o choro fluirá.

A última pérola desse artista admirável chama-se “BELAS ÁGUAS”, e tal qual as outras, emociona demais.

Tentarei neste texto uma avaliação, reflexão/hermenêutica, dessa composição. Faço sabedor que sob a ótica filosófica, essa análise nem deveria existir, pois a norma exige afastamento completo do objeto, a quem vai estudá-lo, para que seu juízo possua a necessária isenção; e quando se trata de Kebinha, meu sentido de equidade desaparece, sou seu fã de carteirinha. Parcial, na definição bem conceitual do termo.

A começar pelo título, Belas Águas, esta poesia musicada traz informações da Matinha de antigamente, que não obstante o passar do tempo, teima em permanecer intacta, nas nossas memórias.

Belas Águas, é um povoado distante da sede uns cinco quilômetros, que

sempre teve muita importância na história dos matinhenses.

De lá são duas das maiores lideranças políticas da cidade, o ex prefeito, Raimundo Silva Costa, cognominado Pixuta, e o doutor José Conceição Amaral.

Neste local situava-se o engenho de cana de açúcar de Costinha, irmão de Pixuta, último remanescente dos três que no passado, a terra das mangas, possuía, produzindo garapa, açúcar mascavo, e mel, mel de cana inigualável. Além da famosa cachaça que levava o nome da povoação.

Quando era a época de moagem, um número expressivo de moradores do município saía, quase em procissão, e a todo momento, trilhando o caminho, sob sol ou chuva, para adquirir aquilo que o engenho de açúcar fabricava, e um dos motivos da canção.

“Sobre a estrada funda/ cai chuva do céu/ lá na Belas Águas/ tão fazendo mel”. Primeira estrofe. Lembranças ecoam….

Praticamente todo o trajeto para o arraial, fazia-se numa estrada funda, desde a casa de seu Ozias, até chegar efetivamente no engenho. Essa “estrada funda”, eram barreiras, de um lado e outro, chegando em alguns locais a ter acima de dois metros.

Fazíamos o percurso de duas formas: Em não havendo chuvas, ou tendo pouca lama, por dentro da estrada. Quando o inverno apertava, caminhávamos sobre as barreiras, em vias alternativas, arriscando-se a todo momento, cortar ou furar os pés no capim, espinho de tucum, tocos.

Pegar um chuvisco na estrada funda, era sinônimo de intensa alegria, para nós garotos, pois proporcionava a possibilidade de podermos escorregar nos regos já existentes, que em função da água jorrando, tornavam-se em nossa lúdica imaginação, tobogãs.

Tantas e tantas vezes, pedíamos, ou mesmo em atos de desobediência, enquanto os adultos seguiam pelas trilhas em cima das barreiras, para irmos pelas fendas escorregadias da estrada funda, jogando e recebendo pedradas de bolas de barro, ou brincando com os seixos (pedra de trovão), que estavam no caminho

Mais à frente via-se o resultado: roupas enlameadas, repreensões, ralhamentos, algumas ocasiões até pitangadas, e sempre, alegria estampada nos rostos.

“O inverno é grande/ Cuidado meninos/ Que a água comprida/ Encobriu Faustino.” A segunda estrofe. Importantes informes…

O inverno está intenso, cuidado, não vão se afogar. Preocupação recorrente,

afinal, água não tem galho, dizem os mais velhos.

“Água comprida”, como era chamada aquela parte do igarapé açu, atravessava de um lado ao outro a estrada, e de acordo com o maior ou menor número de chuvas, espalhava-se tanto na horizontal, quanto na vertical, daí creio, o nome.

Interessante o modo de aferir a fundura desse rio da “água comprida”, nada de medições inócuas, ou outros métodos perigosos. “cuidado meninos/ a água comprida, já encobriu Faustino”.

E quem é esse personagem, essa referência de profundidade que qualquer matinhense, independentemente de idade, sexo, cor, ou condição social, já entendia aprioristicamente? Resposta: Antonio Faustino dos Santos, filho de seu Teodomiro e dona Diolinda.

Desde bem jovem quis ser motorista, foi também goleiro, vereador. Hoje possui um sítio no Jacarequara.

Mesmo tendo inúmeros atributos, uma coisa sobressaia-se nesse homem, a quem chamávamos de “Nhô Fosto”: sua altura. Faustino tem mais de dois metros de altura. Causava admiração a todos, quando ele descendo do carro de Juca Amaral, ou mesmo andando na rua, passava por nós.

Certa feita, mamãe me falava do quanto Deus é grande, e eu, devido a tenra idade, ainda sem entender ao que se referia, perguntei: – Mamãe, Deus é muito grande? E ela: – Sim, é enorme, grande demais. Eu inocentemente: – é maior que Faustino?

Era, portanto, natural a qualquer matinhense, ao ouvir a frase “já encobriu Faustino”, e alguns ainda faziam o adendo, “de braço pra cima”, entender que o inverno não tava pra brincadeiras.

“Gira maracujazinho/ Flor de geniparaneira/ Olha o redemoinho/ Tá por cima da barreira”. A terceira estrofe. Um giro de recordações…

Quando íamos pescar, ou mesmo tomar banho na água comprida, um espetáculo nos fascinava enormemente.

Devido as enchentes, quanto mais águas iam se acumulando no meio da estrada, havia a formação de redemoinhos. A enxurrada arrastava das profundezas do igarapé açu, maracujazinhos (maracujá do mato), bem como flores das geniparaneiras, que ficavam nas margens.

O encontro desses objetos com o torvelinho formado pela enchente, estabelecia um espetáculo ao mesmo tempo belo e perigoso, cheio de adrenalina.

Sabíamos do perigo presente, mas ao mesmo não conseguíamos nos desvencilhar do poder visual/emocional, sublime, que ele exercia sobre nós.

Ficávamos contraditoriamente fascinados, inebriados, “por cima da barreira”, os pés e os olhos molhados.

“Na volta a gente banha mais/ Se a vida é aventura/ A infância é moleca/ Litro preso na cintura/ Galho de espantar membeca” Quarta estrofe. Na volta…

Já foi dito que o tempo é relativo. Podemos passar horas satisfeitos, e pensar que são poucos minutos, como também alguns minutos de dor, podem parecer horas. Quando estávamos banhando nas tépidas termas da “água comprida”, a vida parava, perdíamos completamente a noção de espaço / tempo.

Era preciso uma chamada de alguém mais velho e responsável: “na volta a gente banha mais”, dizia carinhosamente Tchem ou papai, pra nós. Afinal a aventura ainda não acabara, nosso objetivo principal, chegar em Belas Águas, comprar mel, beber garapa, estava por se concretizar.

Subir na barreira, retomar a caminhada, era muito difícil. Mas a realidade se impunha.

E lá íamos nós, rumo ao engenho de Costinha, na cintura, amarrado por uma embira ou cipó, o litro pra trazer o mel de cana, e no cós da bermuda toda molhada, um galho de murta, pronto pra espantar as danadas das membecas, que acorriam em nuvens sobre nós, a fim de chupar nosso sangue.

Membeca ou mambeca, é um tipo de inseto hematófago, que vive atazanando, picando a pele, de quem andava por aquelas bandas. Se não for “espantada”, sua picada causa inchaço e dor…

“Daqui já se avista/ Fumaça no céu/ Lá na Belas Águas/ Tão fazendo mel…/ Fazendo mel…” Última estrofe. A apoteose….

Neste momento do texto, as lágrimas já rolam soltas. Não tem como não se emocionar com a lembrança daquela fumaça branquinha, subindo suavemente para céu, num contraste límpido, perfeito.

A sensação prazerosa do mel, da garapa, da cana in natura, descendo pelas nossas gargantas, já tomam conta do corpo e alma. Os últimos metros de distância são atingidos quase em desembalada carreira.

Enquanto o adulto que ia conosco “perdia tempo” cumprimentando ou tomando café na casa dos amigos, já estávamos adentrando as dependências do engenho.

Ali nos esbaldávamos. A apoteose da viagem estampava-se nos nossos rostos carregados de felicidade. Era o nirvana, o paraíso terrestre, o auge autêntico do bem-estar.

Obrigado Kebinha, por proporcionar através da tua arte, a possibilidade de poder mergulhar no passado, da infância saudosa que não nos sai do pensamento. Por resgatar frases/palavras já esquecidas do glossário dos tempos atuais.

Vocábulos como maracujazinho, geniparaneira, galho de espantar membeca, infância moleca, mel de cana…. etc. Revivem aquilo que nos faz ainda sobreviver. Amores de eras priscas. Saudades guardadas na alma das imorredouras crianças que fomos e somos.

Meu contemporâneo confrade, talvez não tenha noção do quanto suas músicas/poemas nos fazem bem. É muita nostalgia envolvida, amor descarregado, choro desandado. Lembranças revigoradas. No teu canto, caro amigo, somos imensamente felizes.

Discurso de saudação acadêmica: Kléber e Edleuza

Discurso de saudação acadêmica: Kléber e Edleuza

Autor João Carlos

Excelentíssimo senhor presidente Carlos Cesar Brito, em nome de quem saúdo a todas as confreiras e confrades da AMCAL, conterrâneas e conterrâneos, demais acadêmicas e acadêmicos aqui presentes.

Senhoras, senhores.

Recebi uma incumbência deveras difícil, mas ao mesmo tempo saborosa: fazer um discurso de saudação á confreira Edleuza Brito e ao confrade Luís Kléber, dois dignos representantes da nossa academia

Artigo: Discurso de saudação da acadêmica matinhense Edleuza Brito – Jailson MendesEdleuza Nere Brito Souza, cadeira nº 07, cujo patrono é o senhor Antônio Pedro Brito; Luís Kléber Furtado Brito, cadeira nº 18 patroneada por Miguel Penha Brito.

Edleuza Nere Brito Souza, nascida em 23 de outubro de 1961, na cidade Matinha. Membro fundadora da AMCAL, vice presidenta da atual diretoria. É graduada em Pedagogia pela UFMA, especialista em Didática Universitária, mestranda em Cultura e Sociedade, do Programa de Pós Graduação PGCULT/UFMA, professora do IFMA –    -membro do Núcleo de Estudo e Pesquisa em Tecnologias Educacionais, Neurociência e Afetividade – (GEP-TNA), da UEMA. Considera-se uma educadora em processo, portanto inacabada. Pretende na academia, contribuir com o desenvolvimento de ações/atividades que de algum modo colaborem com a melhoria de qualidade de vida dos seus conterrâneos.

Luís Kléber Furtado Brito, nascido em   07, de setembro de 1963. Bancário aposentado da CEF, declara-se um autodidata, compositor. Para mim é um poeta de mão cheia. Não perdendo pra muitos que existem por ai. Também não se acha cantor. Eu o avalio um excelente musicista, bem como notável pintor e artista plástico.

Suas canções são belíssimas, inesquecíveis, brilhantes. Quem de nós não já se pegou cantando a linda melodia “por isso eu canto e o meu canto é Matinha …” da sua música, canto para um canto? Ou então quem não se sentiu debaixo do cajueiro do mercado, “com seus ninhos de japi”, remoendo – se de inveja de João Dhiba, só ele, por ser o mais levado de todos nós, seus contemporâneos, ter conseguido subir, na canção cajueiro velho?

Eu e muitos matinhenses   choramos de emoção ao ouvir a sublime estrofe “tinha concertos de bichos, cachoeira cores mil. Beleza, força, magia, no mundo que rosa via e a ganância destruiu”, da maviosa Rosa triste. Quem não parou pra pensar na nossa vida de antanho ao ouvir “Brinco com folhas invento formas, conforme o vento e a sombra nos jiraus, guardo um espelho pendurado na pindoba, tomo meus banhos em poço de juçaral”, ou “o progresso tá chegando minha Matinha tá mudando, mas não muda o amor”, das meditativas Reflexões e Reencontro?

Velhos carnavais homenageia o símbolo maior da nossa terra, a manga, e nos emociona demais: “essa nossa fruta nobre, que satisfaz o paladar do rico e na escassez, mata a fome do pobre”

Paro por aqui…senão, talvez não consiga segurar o choro!

 QUEBRA DE PROTOCOLO:

EDILEUZA

Eu a conheço, desde de criança, como Edleuza de Nezico e Francisquinha.

A imagem mais antiga que tenho dela? Sentada num sofá comendo, creio que manga, a boca toda suja, numa das visitas que Tchem (Ana Rita), fazia a sua mãe dona Francisca, num dos seus muitos partos.

Sempre foi inteligente. Liamos muitas revistinhas na infância.  Estudamos juntos no ginásio Bandeirante. Depois ela mudou-se pra Vitoria do Mearim. Perdemos o contato.

KEBINHA

Pra mim ele sempre foi Kebinha…mesmo grandão, é assim que eu o chamo até hoje.

É muito difícil falar de alguém que gostamos e admiramos. A filosofia diz que é necessário nos afastarmos do objeto para fazermos uma avaliação isenta. Com Kebinha será impossível.  Nós sempre estivemos juntos. Nossa amizade ultrapassa meio século.

A imagem mais antiga que eu tenho dele? É uma lembrança que remonta os meus quatro ou cinco anos de idade, e vem por incrível que pareça, não no sentido da visão, mas na memória olfativa. Ainda sinto o cheiro do talco que Dondona, como todos chamávamos sua mãe, passava nele.

 Não teria tempo para falar das peripécias que vivemos, foram muitas, eu diria dezenas ou centenas.

Quando chegava o dia 7 de setembro, data consagrada pra comemorar a independência do Brasil, três coisas eu sabia que aconteceriam: teria desfile, eu largaria o desfile depois de uma hora debaixo do sol quente, e me empanturraria de bolo e refrigerantes, no aniversario dele

  • Pescamos jandiás, piabas, bagrinhos, de dia, de noite;
  • Íamos pra Santa Maria, Bom Jesus, Belas Aguas, com Tchem;
  • Secávamos poça, vendíamos tucum…
  • Armávamos garapucas, tirávamos bicho de tucum;
  • Jogávamos pião, bolinha de vidro, china;
  • Líamos e trocávamos revistinhas;
  • Comíamos, peruana, ginja, goiaba, cajá, seriguela;
  • Íamos pro Mangal comer manga, bacuri, jambolão;
  • Viemos pra São Luís quase ao mesmo tempo;
  • Ia visitá-lo na casa de padre Sidney. Na Jansen Miller;
  • Viramos bancários quase ao mesmo tempo;
  • Fomos da diretoria Sindicato dos Bancários;

 Ele é o craque do nosso time. Todo time tem seu Zico. Ele é nosso Maradona. Nosso Pelé.

Para encerrar: farei a saudação não de modo convencional, usual. Reverenciarei aos nossos imortais com a eterna louvação, que tornou famoso o personagem senhor Spock, um hibrido de vulcano e terráquea, protagonizado por Leonard Nimoy, na série Jornada nas Estrelas, a original, cuja filosofia ´de vida era pautada na lógica e na inteligência. Inspiração bem adequada para o momento.

VIDA LONGA, E PRÓSPERA, confreira Edleuza Nere Brito Sousa, Edleuza de Nezico e Francisquinha, e confrade Luís Kleber Furtado Brito, Kebinha de Miguel Brito e Dondona.