Criação da Academia Joanina de Letras, Ciências e Saberes Culturais

Criação da Academia Joanina de Letras, Ciências e Saberes Culturais

Por Marcondes Serra Ribeiro*

Quando uma criatura humana desperta para um grande sonho e sobre ele lança toda a força de sua alma, todo o universo conspira a seu favor”. Johann Goethe

Felizmente, no tempo determinado por Deus, nós nos identificamos como acalentadores de um mesmo sonho, e ousamos torna-lo realidade, conscientes de sua grandiosidade e bem convictos de que unidos somos mais fortes – pois um sonho sonhado coletivamente tem muito mais chances de concretizar-se!

Assim, persistentes e corajosos, começamos a planejar e executar favorável e ansiosamente em prol da Academia Joanina de Letras, Ciências e Saberes Culturais – a Casa dos Expoentes Joaninos, que dá mais significado e razão à nossa vida, à nossa orgulhosa naturalidade, e vem chegando com o propósito de empreender naquilo que nos move individualmente e trará benefícios engrandecedores a nosso torrão natal, nos segmentos de sua estrutura – componentes significativos de nosso processo cultural.

Dia 29 próximo, um evento inédito e esperançosamente promissor marcará os anais da história de São João Batista, a criação da Academia Joanina de Letras, Ciências e Saberes Culturais. Que seja muito BEM-VINDA!

Marcondes Serra Ribeiro é natural de São João Batista, Graduação Superior em Língua Portuguesa e Literaturas na instituição de ensino CESB, Trabalhou como Professor de Língua Portuguesa na empresa Área de educação, Trabalhou como Management na empresa Ministério da Saúde.

O VELHO PORTO DA RAPOSA

O VELHO PORTO DA RAPOSA

Por João Batista Duarte Azevedo*

Não sei ao certo quando surgiu o Porto da Raposa. Quando me entendi, ele já existia. Mas só vim conhecê-lo de fato quando vim para a cidade pela primeira vez. Tinha que se passar por ali. Era lá o embarque nas lanchas que nos traziam até a capital.

Encravado às margens de extenso Igarapé que rasga continente adentro, o antigo Porto da Raposa ficava no povoado campestre de mesmo nome, a poucos quilômetros do Golfão Maranhense (Baia de São Marcos) e do estuário do Rio Mearim. De um lado uma extensa cortina verde formada por manguezais, de outro, mais para dentro do continente, extensas áreas de campos e tesos.

Ao longo de muitas décadas foi a única porta de entrada e saída de muitos municípios da baixada, especialmente São João Batista, São Vicente Férrer, Matinha, entre outros. Estamos falando de mais de meio século. Naquele tempo não havia estradas que ligassem estes municípios à Capital do Estado. O porto cumpria assim então a sua primordial finalidade. Era ponto de escoamento de mercadorias que iam e vinham e de embarque de passageiros que se destinavam rumo a São Luís e vice-versa.

Ainda lembro vagamente de algumas particularidades daquele lugar. Eram dois os principais atracadouros, exatamente para duas lanchas que costumavam fazer o transporte de cargas e passageiros. Eram dois pares de extensas passarelas, construídas de achas e mourões de mangue que nos levavam até ou a parte baixa, ou à parte alta da lancha, o convés, onde ficava o timoneiro, ou mestre, e onde ficavam os passageiros.

Nas lanchas, percebia-se um hiato de classes plenamente justificável. Na parte de baixo, costumavam viajar aqueles que transportavam cargas além de suas bagagens pessoais. Um odor forte de óleo e amônia exalava em meio ao cheiro de café e cozidão que costumava vir das bandas da cozinha. Já na parte alta, o segundo andar, vinham os mais destemidos, os que não tinham muito medo dos constantes balanços no alto mar e não costumavam expelir involuntariamente suas comidas boca a fora.

Às vezes três ou mais lanchas ancoravam por ali. Todas bem nomeadas. Maria do Rosário. Santa Teresa, esta, pequenina e valente, boa de navegação. A Proteção de São José, que sucumbiu na maior tragédia náutica ocorrida naquela travessia. A Ribamar. A Fátima. A Nova Estrela e a Imperatriz foram as últimas dos tempos auge do transporte marítimo. Nestas últimas fiz a maioria das minhas viagens.

A Raposa era um lugar como muitos outros numa área de campo. As casas de jirau, mostravam que ali em épocas de inverno costumava ser úmido e encharcado. Eram habitações de madeiras, desde o assoalho até as paredes. As cobertas, algumas eram de telhas de barro, outras de pindobas. Naqueles tempos de plena atividade do velho porto, Raposa devia ter cerca de cinquenta casas. A maioria eram de pessoas que viviam em função do porto. Pequenos comerciantes, estivadores, donos de pequenas embarcações e até mesmo ambulantes que viviam da compra e venda de mercadorias e produtos. Eram todos hospitaleiros. Lembro de Seu Dominguinhos, sempre cortês, atencioso, mas, dizem os que mais o conheciam, de uma astúcia e malícia sem precedentes.

Entre as muitas peripécias atribuídas a Seu Dominguinhos está a de ter dado um pernoite ao Padre Dante que certa vez se deparou numa noite escura e não quisera voltar pra sede. Fora aconselhado a ficar por ali. Após acomodar o Padre em uma rede, contam que Seu Dominguinhos acendeu uma fogueira de pau de siriba, uma espécie de mangue que ao queimar expele uma fumaça ardente aos olhos de qualquer cristão, ainda mais a quem não era acostumado, como o sacerdote italiano. Contam que o Padre passou a noite em claro, rezando para que logo amanhecesse, enquanto Dominguinhos se contorcia de risos. Ao amanhecer os olhos do reverendo pareciam duas bolas de sangue.

As principais casas de comércio e pequenos restaurantes estavam ali em redor do armazém. Um velho prédio de alvenaria que servia como uma espécie de alfândega. Era lá que trabalhavam os fiscais da receita estadual. Ali eram expedidas e pagas as guias de impostos sobre o que era embarcado, fossem cofos de farinha, cofos de banana, cofos de criações, pequenos e grandes animais. Quase nada passava sem as vistas dos coletores de impostos. Nos dias de embarque e desembarque era bastante intenso o movimento de pessoas por ali. Fossem os que viajavam, os que ali trabalhavam, e os que apenas buscavam estar no meio do vai e vem das pessoas. Não faltavam também os donos de bancas de jogo de caipira. Mas era uma alegria só. O povoado era tão movimentado que ganhou até um gerador de luz para garantir a permanência das pessoas que por ali transitavam e trabalhavam até o zarpar das lanchas.

Nos dias que não se tinha esse movimento proporcionado pelas lanchas, o povoado de Raposa mantinha um quotidiano normal. Moradores em suas tarefas diárias preparavam-se para o dia seguinte. O incremento maior do porto fora sem dúvida quando da construção da “barragem da Raposa”. Esta grandiosa obra – tanto pela extensão como na forma de como fora construída, realizada pelo então prefeito Luiz Figueiredo – permitiu um tráfego maior de veículos por mais tempo ao longo do ano.

A partir da abertura da Estrada da Beta, nome que fora dado inicialmente pela população para o ramal São João Batista – Bom Viver, que ligou a sede do município à MA -014, começaram ainda que com muitas dificuldades por conta das condições da estrada, os transportes de cargas e passageiros por via terrestre, fato este que atingiu frontalmente o cerne da economia gerada no Porto de Raposa por conta do transporte marítimo. Os primeiros ônibus a fazerem linha para São João Batista e até mesmo para outros municípios da Baixada foram os da Expresso Florêncio, que inúmeras vezes não completavam o trajeto da viagem.

Hoje, com poucas casas e sem aquele fervilhar de pessoas que faziam dali um marco da economia do município, o Porto da Raposa precisa se redescobrir com um outro propósito já que a rodovia nos leva até a capital São Luís, ou a terras além do estado.

Sempre defendi que o antigo e outrora próspero Porto da Raposa deveria absorver em tempos atuais outras finalidades. Ao que parece, por obra e graça do tempo e pela resistência de alguns poucos moradores que ali ainda residem, esta é uma realidade próxima das novas gerações. Por conta de sua aprazibilidade e beleza natural, o velho Porto de Raposa poderá ressurgir como um ponto de lazer rústico. Para tanto falta-lhe estrutura e muito precisar ser feito.

Com a palavra os homens dos poderes!

João Batista Duarte Azevedo* é natural de São João Batista (MA), graduado em Letras pela UFMA, professor e editor do blog “São João Batista On-Line”, coautor do livro Ecos da Baixada, postulante a uma cadeira na Academia de São João Batista.

AQUELA VOZ NO SILÊNCIO

AQUELA VOZ NO SILÊNCIO

Por Gusmão Araújo*

Há um sopro de Deus entre a intimidade que me religa pelo umbigo a alguém inesquecível e a saudade que se alimenta do perfume do amor que permanece. Perfume de rosas!

 Na terra onde fui parido e o meu umbigo enterrado, especialmente após as primeiras chuvas do inverno, sinto um cheiro de chão peculiar, incomparável, que remonta à minha infância feliz. A ligação minha e da família com a terra é muito intensa. Cultivar a terra e produzir a própria comida que frutificava do chão fértil era tradição familiar, além das aventuras em pescarias muito prolíficas.

Na pequena comunidade Qindiua (terra abundante de doces) onde nasci, a doçura da vida era viver com simplicidade e obter da natureza os frutos emanados do céu. Quando eu ainda era muito jovem, a família migrou para a sede do município, Bequimão, singela e linda cidadela encostada entre o litoral e os campos da Baixada.

No novo lugar, a família cresceu e alcançou alguns laivos de prosperidade. Casa simples e típica, situada próximo à Igreja Matriz de Santo Antonio e Almas, quintal grande, cheio de árvores frutíferas e pequenas criações, cantoria de pássaros… Parecia um cenário perfeito pra se viver e sonhar.

Há uma marca entre mãe e filho que cicatriza mas não se apaga: o umbigo. Basta tocar no umbigo e o pensamento voa pra ela e uma caixa de boas memórias se abre. Aquela que me gerou e deu a vida pela minha, me alimentou por algum tempo por esse cordão vivo que depois se transformou numa marca indelével, a cicatriz do amor. Com o passar dos anos um outro cordão surgiu, como contas de um rosário – mãos que cuidam, abraços que acolhem, palavras que ensinam, conselhos que educam, sorrisos que encantam, gestos que eternizam o amor.

Na rede atravessada na varanda onde repouso por alguns instantes ao cair da noite, dirijo meus pensamentos para um tempo distante no qual contemplo o barulho matinal das crianças – eu e meus irmãos – e a voz doce daquela mulher simples que me gerou, gerando em mim também uma alegria que não cabe nos sentidos.

O lugar na varanda onde me encontro foi o mesmo espaço onde, no grande quintal, vicejou o jardim da minha mãe e, logo próximo, havia um recanto dedicado às brincadeiras intermináveis das crianças ao final da tarde.

Fecho os olhos e, intencionalmente, conduzo meus sentidos para cenas remotas, ricas em simbolismos e significados…

Enquanto “ela” regava suas plantas e se embriagava com o perfume das rosas – suas prediletas – corria os olhos ágeis em nossa direção. Do seu olhar saia uma voz inaudível e, ao mesmo tempo, perfeitamente compreensível. Parecia dividida entre conversar com as flores do seu jardim e cuidar, com o olhar altaneiro, os rebentos de seu ventre, pululando nos arredores. Em seu semblante havia uma certeza de que os rebentos banhados de terra eram seus verdadeiros tesouros os quais ela iria gastar uma vida para lapidar e fazê-los dignos de um futuro luminoso e da bondade de Deus. E fazer brilhar em cada um a luz de Cristo, conquistada nas águas do batismo.

Sempre que me colocava nessa situação, na rede na varanda, contemplando o infinito, conseguia congelar as imagens e eternizar um tempo que não morreu no passado. No inquietante e reconfortante silêncio do meu ser, com a pureza d’alma de uma criança, conseguia ouvir aquela voz familiar e insubstituível. Nessa condição, entre não estar acordado e não estar sonhando me permitia vivenciar uma realidade paralela que só amor era capaz de reproduzir e eternizar. Era como se sentar numa confortável poltrona para assistir a um filme ansiosamente aguardado. Há um sopro de Deus entre a intimidade que me religa pelo umbigo a alguém inesquecível e a saudade que se alimenta do perfume do amor que permanece. Perfume de Rosas!

De repente, aquela voz tão conhecida rompe o silêncio e ouço um chamado: “José, tá na hora de parar e se preparar para o banho”; ouvem-se outros chamados à prole: “João, Antônio, Francisco, Bal”…, chamados prontamente atendidos mesmo que não se desejasse que a tarde findasse. Em outro canto do quintal um grupo de quatro meninas também brincava de construir sonhos e, vez ou outra, aumentar o barulho do dia com gritos de alegria. Após os acenos, aquela nobre mulher, com cheiro de rosas, seguia na frente e nós, com cheiro de terra, a seguíamos com a justa obediência daqueles que respeitavam porque amavam.

Por vezes, perdia a noção do mergulho que fazia na nossa história comum e quão tênue era a linha que separa a realidade cotidiana e a alegria genuína esculpida no íntimo do meu coração. Quando parecia que ia acordar, procurava meu umbigo e começava tudo outra vez e aquela voz silenciosa se colocava dessa vez a cantar, fazendo-me adormecer e sonhar, como um menino da pequena Quindíua que não desejava crescer…

Aquela nobre mulher, que conversava com as flores e se encantava com a história de Maria Santíssima e Jesus partiu para o jardim celestial há tempos, por certo auxiliando Nossa Senhora em suas tarefas divinas, mas a sua voz continua ecoando silenciosamente na minha história, aquecendo minha realidade, remexendo meu umbigo e me renovando o encanto pela vida e pelas vidas que também tive a graça de gerar. São flores que também cultivo no jardim do meu coração.

Senhora Antônia, esposa de Antônio…

O seu amor me fez vencer a dor e os desafios E acreditar que o seu olhar

Sua voz

E o seu abraço Me fazem sentir

Que continuas aqui Bem perto de mim Como um anjo

A me proteger Do anoitecer Ao amanhecer

Sempre, Minha Querida Mãe!


 * José Ribamar Gusmão Araújo  é natural de Bequimão/Maranhão. Membro-fundador do Fórum em Defesa da Baixada Maranhense (FDBM), Gestor do Projeto Bosques na Baixada do FDBM. Engenheiro Agrônomo, formado pela UEMA. Mestre e Doutor em Agronomia/ Horticultura pela UNESP, Campus de Botucatu/SP. Professor Adjunto do Departamento de Fitotecnia e Fitossanidade (DFF)/CCA/UEMALeciona no Curso de graduação em Agronomia e no Programa de Pós-graduação em Agroecologia.

Mais um ano sem os Diques da Baixada Maranhense

Mais um ano sem os Diques da Baixada Maranhense

Por Luiz Figueiredo*

A Baixada Maranhense sofre mais uma vez a grave crise da estiagem o que acontece dos meses de agosto a dezembro, todos os anos, a partir da década de 50, quando aumentaram o número e a profundidade dos igarapés que além de drenarem a água doce, levam uma enorme quantidade de peixes, e contribuem também para invasão da água  do mar, provocando a salinização dos campos naturais em prejuízo da biodiversidade ali existente.

Os diques da Baixada foram concebidos em 1986, portanto há mais de trinta anos, tendo início com a construção da barragem de Pericumã no município de Pinheiro. De lá até agora nada mais foi executado. Interrompido o andamento desse importante projeto, o caos voltou a se instalar na Baixada com a falta d’agua causando grandes prejuízos para os que ali vivem e tirando o  sustento das famílias,  a pesca, a caça e agropecuária. Quem visita a região hoje, se depara com os campos áridos, semidesertificados, onde os animais perambulam de um lado para outro a procura de pasto e água.

Um verdadeiro crime e falta de sensibilidade daqueles que manipulam o dinheiro público. Muitos desses animais e aves, típicos da região, já se encontram em fase de extinção. O peixe, alimentação básica, está cada vez mais difícil e caro. Sentindo o agravamento desse quadro, tomei a iniciativa de em novembro de 2006, portanto a quase vinte anos do início (1987) e paralização dessa obra, de acompanhar técnicos do governo do estado para constatar “in loco” o  situação de abandono dos nossos campos, e encontramos pessoas carregando água na cabeça, em lombo de animais e o torrão rachado e a vegetação seca.

Agradeço a Reginaldo Telles que me deu apoio, Luiz Raimundo Azevedo, Leo Costa, Manoel Bordalo, Júlio Noronha, o saudoso e grande líder Neiva Moreira, que juntos formamos um grupo para apresentar uma nova proposta para o governo, a qual foi analisada, aprovada e de imediato autorizada o reinício dessa tão almejada e importante obra. Já se passaram outros dez anos e tudo continua como antes. A Baixada é uma região imensa, linda e bem localizada, rica,  com potencial para continuar sendo o celeiro da capital, como foi no passado, portanto merece uma ação urgente e definitiva para que aquela gente humilde e trabalhadora não venha continuar a sofrendo.

Sabemos que com os diques teremos uma região semelhante ao pantanal mato-grossense, com uma biodiversidade e um ecossistema bem característicos.  Vamos agir antes que seja tarde, pois a água salgada está prestes a invadir os lagos o que seria uma catástrofe ambiental sem precedentes. Medidas paliativas, soluções localizadas como pequenas barragens, canais ou açudes não resolvem, apenas minimizam as dificuldades da população. Só os diques promoverão a redenção dessa região rica e exuberante que a Baixada Maranhense.

Lamentavelmente concluo afirmando, 2016, MAIS UM ANO SEM OS DIQUES.

Luiz Figueiredo, administrador, presidente da Fundação Chiquitinho Figueiredo e Rádio Beira Campo, ex-prefeito de São João Batista.

MEMÓRIAS DE UMA ELEIÇÃO

MEMÓRIAS DE UMA ELEIÇÃO

Por Eulálio Figueiredo*

Desde a minha investidura como magistrado de carreira, tenho vivido situações inusitadas. As experiências mais interessantes se passaram no período em que exerci a judicatura nas comarcas do interior do Estado.

No pleito que se realizou recentemente, fui designado para presidir as eleições e apurações na Junta Eleitoral que compreendeu os municípios de Palmeirândia e Peri-Mirim, localizados na Baixada Maranhense. Os trabalhos transcorreram dentro da mais completa normalidade, deixando aos presentes a sensação de que o serviço judiciário não sofreu qualquer deslize.

Proclamados os resultados das eleições, um fato inusitado ocorreu, qual seja: o desejo de uma vereadora eleita, em primeira candidatura, falar algo. Nesse momento, percebi que alguns partidários do prefeito eleito torceram o nariz e o advertiram para que não permitisse que a futura edil se pronunciasse sob o argumento de que a mesma era analfabeta e que poderia manchar a imagem do grupo que apoiava o novo chefe do executivo municipal.

Tranquilo e sereno, o prefeito lembrou aos correligionários que a referida candidata era da base aliada do seu go- verno e que teria recebido a maior votação, razão pela qual não podia impedir a vontade manifestada.

Afastado o óbice, e aproveitando a presença de autoridades e pessoas ilustres da cidade, inclusive o padre e algumas religiosas, no próprio recinto da apuração, a candidata eleita iniciou seu discurso. Disse inicialmente: “Gente, eu não gosto de política. Quem me meteu foi cumpadre Batista!”

Nesse momento, um assessor mais próximo do prefeito sussurrou ao seu ouvido: “Chefe, eu não disse para o senhor impedir Ivanilda de falar.” O Prefeito calmamente respondeu: “Deixa ela prosseguir, pois eu preciso do apoio dela na Câmara.”

Ivanilda, com sua simplicidade, prosseguiu levantando a mão seca, calejada e nodosa: “Não sou de farsa, nem culiada com ninguém. Quando quero falar de alguém não meto o pau por trás, só pela frente.” O clima esquentou e, dessa vez, um vereador reeleito se aproximou do prefeito e disse-lhe: “Rapaz, vamos sair logo daqui. Ivanilda vai nos envergonhar, eu não te falei para que não deixasses ela discursar?” O prefeito novamente ignorou a advertência do seu companheiro de partido e apostou no que viria depois.

A candidata, então, contagiada com a possível aceita- ção de sua fala continuou o improviso: “Sou pobre, meu marido é pescador, mas sou uma mulher de palavra. Não faço promessa que não posso cumprir. Queria dizer ao cumpadre “Zé Curica” que já cumpri parte da promessa. A carroça eu já consegui, o que tá me pegando agora é o jumento”. Nesse momento houve um completo mal-estar no ambiente e alguns aliados do prefeito, entre atônitos e envergonhados, se retiraram do recinto, ante a relutância do mesmo em não cassar a palavra de Ivanilda.

Por último, a iletrada candidata finalizou: “Quero agradecer a presença das otoridades” e, virando-se, para o vigário sentenciou: “Agradeço especialmente a presença do nosso vigarista, que veio abençoar esta eleição, e a todos aqueles que não se cansaram de me ouvir.”

Após os aplausos e cumprimentos, Ivanilda deixou o local levando consigo grande contingente de admiradores. Nós, doutores da língua e da lei, que ali permanecemos encerrando os trabalhos e fechando o prédio, também nos perguntávamos porque proibir Ivanilda de falar? Ela, na sua ingenuidade, não cansou os ouvintes, nem fez-lhes falsas promessas, muito menos empenhou sua dignidade por conta do voto recebido.

A ausência de alfabetização não a tornou ignorante, nem astuciosa. Essa pecha somente carrega quem um dia, assentado no mais alto cargo da nação, ilude com promessas irrealizáveis desde o esperto doutor até o inocente caboclo.

*Eulálio Figueiredo é natural de São João Batista (MA). Juiz de Professor do Departamento de Direito da UFMA. Escritor, poeta e compositor.

Crônica publicada no livro ECOS DA BAIXADA às folhas 118 a 120.

SÃO JOÃO

SÃO JOÃO
Por Gracilene Pinto
São João, terra querida,
Teu nome é diversidade,
Estas palavras são pobres
Para expressar, de verdade,
Tudo o que representa
O teu povo, o teu chão,
E esse amor imensurável
Que há muito virou paixão.
Teus campos e manguezais,
Bosques e matas em flor,
São a prova mais concreta
De que Deus abençoou
Teu nascimento e batismo
Consagrado a São João
Quando o povo ali clamava
A celeste proteção.
E, quando as palmas ao vento,
Cantam o hino dos palmeirais,
O coração dá o tom,
Porque amor nunca é demais!

(Imagem Campos de São João Batista de David Wilkirson)

Academia Joanina, um marco na História do município

Academia Joanina, um marco na História do município

Por Marcondes Serra Ribeiro*

Confesso que me encontro deveras ansioso pela chegada do dia 29, quando será criada nossa Academia Joanina de Letras, Ciências e Saberes Culturais. É um sonho que se vai transformando em realidade, sonhado juntamente com outros sonhadores (desculpem-me a tautologia premente) – aquele desejo que se firmou permanentemente em cada um de nós, vivo e constante. Um sonho coletivo, e por isso mesmo bem mais forte, que nos une e motiva-nos para seguir em frente, otimistas, esperançosamente alegres, carregando uma certeza de que estamos construindo um marco em nossas vidas, na história de São João Batista!

Estamos bem otimistas, tentando disciplinar a empolgação, vislumbrando tudo pelo lado bom, concebendo a academia como um lugar de convivência real, amigável e elegantemente pacífica. Um ambiente ameno, onde nos dedicaremos esforçadamente ao usufruto daquilo que nos beneficiará e engrandecerá nossa alma, em forma de projetos contemplativos do crescimento de nossa terra, nas áreas afinadas com os propósitos institucionais – culturais e artísticos – que sejam dignos construtores, mantenedores, resgatadores da memória joanina. Somos conscientes que nossos propósitos não diferem das outras academias, quanto ao aspecto teórico, mas certamente que nosso ânimo fará a diferença no aspecto atitudinal , pois, graças a Deus, compomos um grupo com grandes expoentes, reunidos provavelmente pela saudade dos tempos de mais dedicação, gentileza e delicado amor ao próximo, apego à nossa eclética cultura, com o especial ufanismo que sempre caracterizou a ligação dos bons joaninos à sua querida terra – um sentimento que se mostra em semblante alegre e sincero, funda-se em argumentos extremamente firmes, expressa-se em termos de claro entendimento, pois provém da decisão vocacional em dar mais significância a nossas vidas, transforma-nos em plantadores das sementes dos sonhos mais prósperas , em solo abençoadamente fértil.

Não nos foge a certeza de que precisaremos ser fortes e corajosos para os embates contra as adversidades. Aqueles que se dedicam às artes, à cultura, tantas vezes são confundidos como articuladores apenas de projeção pessoal, mas isto, para nós, é mera consequência daquilo que é bem feito e torna-se agradavelmente digno de sucesso, por isso é que somos dedicados detalhistas, caprichosos artesãos de cada obra. Sabemos que remaremos contra a maré, enfrentaremos desafios terríveis e de toda ordem, mas bem determinados e decididos, seguiremos em frente, como temos seguido até aqui.

Não apenas homenagearemos, reconheceremos nossos valores, nossos expoentes artísticos, profissionais das mais variadas performances, mas também nos lançaremos às pesquisas que nos possibilitem o resgate de uma legião de esquecidos do passado e também do presente, pois muitos valores joaninos estão por aí, espalhados por esse imenso Brasil, desconhecidos de nossa gente, mas expressivos cidadãos de outras plagas, – personagens encantados pelo fenômeno da alma artística, pela dedicação e responsabilidade profissional concedente de grandes conquistas. Sentimo-nos, portanto, com a distinta obrigação de coloca-los em evidência, trazê-los zelosamente ao conhecimento e reconhecimento e proximidade de nossa gente, laureá-los condignamente!

Não poderia deixar de exaltar o especial apreço pela Língua Portuguesa, uma das inspiradoras razões que principiaram e justificam a existência da academia. Muitos de nós são poetas, escritores que se esmeram no trato com as palavras e deliciam-nos com obras requintadamente maviosas. A última flor do lácio inculta e bela, como referenciou Olavo Bilac, é o universo no qual esses confrades e confreiras movem a inspiração e pela qual se integram à comunidade lusófona, constituída de milhões de pessoas espalhadas pelos diferentes continentes, comunicando-se em português , cada povo a seu modo. Vale-nos lembrar o magistral Fernando Pessoa e seu dito: “a minha pátria é a língua portuguesa” e nós estaremos certamente muito inspirados por ele e assim cultuaremos a literatura e os livros e as produções literárias entre nossos conterrâneos.

Amigos, nossa academia está sendo criada com o orgulhoso referencial “a casa de Fran Figueiredo”. Ele foi escolhido para ser patrono da instituição, mas será também a casa de todos os demais patronos, a casa de todos os acadêmicos, mas, acima de tudo será uma realização que orgulhará nossa terra, firmar-se-á como o ambiente do diálogo entre a tradição e a contemporaneidade que esperançosamente dará bons resultados!

Marcondes Serra Ribeiro é natural de São João Batista, Graduação Superior em Língua Portuguesa e Literaturas na instituição de ensino CESB, Trabalhou como Professor de Língua Portuguesa na empresa Área de educação, Trabalhou como Management na empresa Ministério da Saúde.