O NOSSO PRETO DOEGNES!

O NOSSO PRETO DOEGNES!

Por Elizeu Cardoso*

Para quem não o conheceu.

A primeira vez em que vi Doegnes, foi ali num palco do Fesmap, cantando “Mamãe eu tô com uma vontade louca de ver o dia sair pela boca”, clássico de César Teixeira, no disco Bandeira de Aço. A minha irmã Ducarmo Cardoso me arrastava sempre para esses eventos culturais, onde fui conhecendo os artistas da minha cidade. Fiquei paralisado ao vê-lo soltar a aquela voz tão bonita e rara, que todo pinheirense reconhece como a alma da nossa cidade. Uma África tão nossa, amalgamada nos tambores, carnavais e bumba-meu-boi do Maranhão. Depois o reconheci frequentando a nossa casa, só então descobri que ele e Ducarmo eram parceiros na música desde a escola Anchieta.

Um dia aconteceu algo inexplicável, um milagre diante de mim, ainda com olhos e ouvidos de menino. Ele chegou numa bicicleta em nossa casa e entregou uma letra que Gico havia compilado do livro As Veias Abertas da América Latina, do intelectual uruguaio Eduardo Galeano. Ducarmo, compositora que é, foi olhando e compondo ali mesmo, sem instrumento algum. Logo, estavam ensaiando, os dois decidindo partes e vozes, numa das músicas mais bonitas que já ouvi. Parceiros perfeitos!

Quando cresci me tornei compositor e a nossa relação se estreitou. Bastava pisar em Pinheiro, e lá estávamos reunidos em cantorias e boemias, lá por casa, bares e na beira do rio Pericumã. Num desses encontros, Tontom que era anfitrião e cinegrafista, achou de gravar no seu quintal um momento em que Doegnes se mostra em plenitude. Com um balde na mão entoa a toada Batalhão do Amor, do meu irmão Abraão Cardoso. Um canto que emociona todo mundo que assiste, e ao fim se derrama em seus bordões e brincadeiras, como era de sua alma, música e alegria como uma coisa só. “Urubu levou a chave”! E explodimos em gargalhadas.

Estávamos preparando uma gravação para o dia 13 de maio deste ano, em homenagem ao Festival Ginga Zé Macaco, quando a sua família realiza o maior festival de tambor-de-crioula do Maranhão, mas a pandemia adiou este encontro. Há poucos anos, aproveitando que todos estávamos nessa data por lá, o seu irmão Gilmar, idealizou o Tributo à Doegnes, sempre no dia anterior, 12 de maio. Na última edição, já com o dia clareando na praça do Centenário, sem ninguém querer dormir, ele sorrindo me disse: Meu preto, nós vamos ter que mudar essa data, que assim não tem quem aguente. Todo ano a gente amanhece, e hoje ainda tem o festival!

Doegnes é um ícone para o Maranhão, na dimensão de mestre da cultura popular, que se sentia à vontade numa festança de tambor-de-crioula, num bumba-meu-boi, numa roda de samba, ou num palco diante de uma multidão no carnaval. É daqueles artistas em qualquer lugar em que estivesse, emocionava. Com a corda na cintura, esmurrando um tambor grande, e soltando a voz, a gente compreendia mais facilmente como a arte é necessária aos homens. De onde vinha aquela voz? A transcendência do canto e das mãos? A ginga de tantas ancestralidades, numa cantorias de muitos povos que para cá vieram, nos ensinamentos do pai Zé Macaco e tantos outros.

Em qualquer lugar do mundo, um pinheirense hoje guardará a tua presença, pois não será fácil a tua despedida tão inesperada e breve. A cidade chora, o Pericumã desce mais lento, os campos perdem um pouco do verde, e o azul do céu fica mais pálido. Mas sabemos que vai para um lugar melhor, e a vida que escreveu diante de tanta gente, só nos tornou melhores e mais alegres. A grandeza de alguém está em como chega às outras pessoas, e tu tão bem sabia chegar para nunca mais partir.

Imagino meu preto, tu chegando no céu. São Benedito de braços abertos, numa roda de tambor, com teu o pai Zé Macaco, Dona Catarina, Venâncio, Coisinha, e tantos mestres da cultura te recebendo, e tu pronunciando alegre aquele teu Oiiiiiiiiiiiiiiiiiii! Que beleeeezaaaa! Depois, já com a corda na cintura e sentado no tambor grande, dá aquela gargalhada que Deus te emprestou e que agora recebe.

Vá em paz, meu preto, mas tu continua na gente para sempre porque a tua música e a tua simplicidade, te fazem uma luz na eternidade!!!

Elizeu Cardoso, professor, músico, compositor, poeta e escritor.

PESCA-VIDA

PESCA-VIDA

Por José Carlos*

Em nossa cidade, como em tantas e tantas da nossa imensa Baixada, devemos muito e muito aos conterrâneos, que dedicaram boa parte da vida, se não toda, “à sagrada arte”: a arte do pescar. Verdadeiros heróis a nos saciar com o alimento mais consagrado, principalmente o retirado dos rios, em especial do Pericumã (!!!).

Essa admiração sempre me acompanha: foi, é e sempre será forte!  Dos pescadores, as primeiras lembranças que tenho são, na Ponta da Capoeira, as da minha avó, Dedé, que se “equipava” como uma verdadeira “astronauta” – essa era a impressão que eu tinha na época – a ir à pesca: camisa manga comprida, do meu avô; calça larga, do meu avô; um lenço, que lhe pendia da cabeça, cobrindo-lhe o pescoço; um chapéu de aba terrivelmente larga, para a proteger do sol inclemente; deslizando-flutuando suave e serena, pela enseada, em uma imensa canoa.

Interessante é que a pescaria, da vovó, era antecedida de uns preparativos, os quais eram um verdadeiro ritual: alguém ia verificar os “baixos”, para se certificar “do tempo certo”. Depois, saía com uma enxada ou um “chacho”, às costas, e uma lata. Seguiam-se, então, as enxadadas na terra encharcada, a fim de capturar as melhores minhocas, que virariam apetitosas iscas.

A vovó era mestra em pescar acará. Acará pitanga, para nos oferecer um escabeche, suculento, fornecedor de tanta “sustança”, feito na mais perfeita frigideira de barro, temperado com o mais puro azeite de côco e com o estalar da lenha seca, que me “contava” segredos e segredos do reino do faz de contas.

Também, ainda, alcancei Antônio do Rosário, meu avô, sair para pescar, à noite, a fim de fazer “a ceia de bagre”, madrugada a dentro, ocasião em que eu e as demais crianças dormíamos por não “aguentar” esperar, sendo despertos apenas para desfrutarmos de tão rico e delicioso pasto.

Embora criado nessa atmosfera, que muito me seduzia, nunca fui um pescador – nem para contar histórias – salvo algumas tentativas de capturar piabas “na garrafa”, o que, venhamos, não é glória alguma.

Entretanto a magia da pesca “pescava-me” e se coroava com o espetáculo pujante, durante “as cheias”, quando “os pampinhas e as piabinhas” pululavam na correnteza da primeira boca, enchendo os cofos-pescadores, como esquecidos ali, em uma torrente constante, dando-me a certeza de que jamais acabariam; e, definitivamente, se completava, quando eu saía para comprar “uma pratada de peixe”, “costume” visto, por mim, só em Pinheiro, após esperar tirar “o mato”.

Quanta coragem! Seu Urbano, “Manel” Campeiro, Madeira, Zé Vaqueiro (…); ou vendo Camburão e Carioca ir buscar as mais belas traíras, sem algum apetrecho, em um longo e silencioso mergulho; ou encontrar Cruzeiro, totalmente ébrio e “cinza”, a oferecer sua produção do dia, a fim de poder tomar mais um São João da Barra, vindo da barragem da Justina. Barragem prodigiosa, a qual trazia uma figura, por demais interessante, a vender “o peixe do dia”, dona Leonília, da família Paulo Coró, que era a pescadora preferida da vovó e muito me impressionava pela idade avançada, mas com um vigor absurdo.

Entretanto, o apogeu das pescarias era o espetáculo proporcionado por Fula, com seu búzio, chamando-nos a lhe comprar pescados e entretendo-nos com suas histórias, ditos e relaxos, que marcaram várias e várias gerações, com a certeza de que a “fartura” era certa.
Tantas lembranças, que se apresentam deliciosas, fumegantes e apetitosas como “uma pratada de angu, com iscas de jabiraca”!

Delícias, dessa época, que me fizeram herdeiro de hábitos (e bons), que ainda mantenho (até hoje): assar peixe, cheio, na brasa; escabechar traíra e cabeça-gorda, ao leite de côco; fazer um “cozidão”, de bagrinho; e, o mais saboroso de todos, fritar piabas, enfiadas em espetinhos de talos de folhas de coqueiro (!!!).

 

ZÉ CARLOS (José Carlos Gonçalves Filho) é natural de Pinheiro, na Baixada Maranhense. Estudou o curso “primário” no Grupo Escolar Odorico Mendes e o “ginásio” e o “curso científico” no Colégio Pinheirense. Formou-se em Letras Modernas, pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA). É membro da Academia de Letras, Artes, Ciência e Agremiação de Saberes Culturais (ALEART), fundador da cadeira de número 10, tendo como patrono Odorico Mendes. Atualmente, desempenha as funções de revisor, escritor, letrista e professor de Redação, Língua e Literatura Brasileira e Portuguesa, para o ensino médio. Função, esta, desempenhada em diversos estabelecimentos de ensino do Maranhão.