Belas Águas

Belas Águas

Autor João Carlos

Não é novidade minha paixão pelas músicas do confrade, amigo desde tempos pueris, vizinho, companheiro de brincadeiras, pescarias e profissão; cantor, compositor, artista plástico, Kléber Brito, a quem eu, em que pese o passar dos anos, insisto chamando de Kebinha, seu apelido de criança.

Sempre digo que suas canções, todas elas, são autênticos faróis, e sendo analisadas sob ângulos/matizes, servem para reportar, contar, extrair, resgatar, no âmbito sociológico, cultural e artístico grande parte da nossa infância.

Parece que, igualmente Caetano Veloso exaltou na encantadora “Sampa”, o cruzamento da rua Ipiranga e a avenida São João, em São Paulo; aquele quadrado mágico da esquina entre a rua Cel. Antônio Augusto Alves da Silva e a rua Dr Afonso Matos, em Matinha, exerce profundo poder inspirativo, dando a Kebinha uma onda de criação tão incontrolável quanto bela.

As reminiscências emanam em borbotões de versos e estrofes carregadas de saudade e poesia, e a cada obra nova, aparecem engendramentos de arte intensos, que só ratificam a sua genialidade. Eu mesmo ao escutá-las, faço com a certeza, de que o choro fluirá.

A última pérola desse artista admirável chama-se “BELAS ÁGUAS”, e tal qual as outras, emociona demais.

Tentarei neste texto uma avaliação, reflexão/hermenêutica, dessa composição. Faço sabedor que sob a ótica filosófica, essa análise nem deveria existir, pois a norma exige afastamento completo do objeto, a quem vai estudá-lo, para que seu juízo possua a necessária isenção; e quando se trata de Kebinha, meu sentido de equidade desaparece, sou seu fã de carteirinha. Parcial, na definição bem conceitual do termo.

A começar pelo título, Belas Águas, esta poesia musicada traz informações da Matinha de antigamente, que não obstante o passar do tempo, teima em permanecer intacta, nas nossas memórias.

Belas Águas, é um povoado distante da sede uns cinco quilômetros, que

sempre teve muita importância na história dos matinhenses.

De lá são duas das maiores lideranças políticas da cidade, o ex prefeito, Raimundo Silva Costa, cognominado Pixuta, e o doutor José Conceição Amaral.

Neste local situava-se o engenho de cana de açúcar de Costinha, irmão de Pixuta, último remanescente dos três que no passado, a terra das mangas, possuía, produzindo garapa, açúcar mascavo, e mel, mel de cana inigualável. Além da famosa cachaça que levava o nome da povoação.

Quando era a época de moagem, um número expressivo de moradores do município saía, quase em procissão, e a todo momento, trilhando o caminho, sob sol ou chuva, para adquirir aquilo que o engenho de açúcar fabricava, e um dos motivos da canção.

“Sobre a estrada funda/ cai chuva do céu/ lá na Belas Águas/ tão fazendo mel”. Primeira estrofe. Lembranças ecoam….

Praticamente todo o trajeto para o arraial, fazia-se numa estrada funda, desde a casa de seu Ozias, até chegar efetivamente no engenho. Essa “estrada funda”, eram barreiras, de um lado e outro, chegando em alguns locais a ter acima de dois metros.

Fazíamos o percurso de duas formas: Em não havendo chuvas, ou tendo pouca lama, por dentro da estrada. Quando o inverno apertava, caminhávamos sobre as barreiras, em vias alternativas, arriscando-se a todo momento, cortar ou furar os pés no capim, espinho de tucum, tocos.

Pegar um chuvisco na estrada funda, era sinônimo de intensa alegria, para nós garotos, pois proporcionava a possibilidade de podermos escorregar nos regos já existentes, que em função da água jorrando, tornavam-se em nossa lúdica imaginação, tobogãs.

Tantas e tantas vezes, pedíamos, ou mesmo em atos de desobediência, enquanto os adultos seguiam pelas trilhas em cima das barreiras, para irmos pelas fendas escorregadias da estrada funda, jogando e recebendo pedradas de bolas de barro, ou brincando com os seixos (pedra de trovão), que estavam no caminho

Mais à frente via-se o resultado: roupas enlameadas, repreensões, ralhamentos, algumas ocasiões até pitangadas, e sempre, alegria estampada nos rostos.

“O inverno é grande/ Cuidado meninos/ Que a água comprida/ Encobriu Faustino.” A segunda estrofe. Importantes informes…

O inverno está intenso, cuidado, não vão se afogar. Preocupação recorrente,

afinal, água não tem galho, dizem os mais velhos.

“Água comprida”, como era chamada aquela parte do igarapé açu, atravessava de um lado ao outro a estrada, e de acordo com o maior ou menor número de chuvas, espalhava-se tanto na horizontal, quanto na vertical, daí creio, o nome.

Interessante o modo de aferir a fundura desse rio da “água comprida”, nada de medições inócuas, ou outros métodos perigosos. “cuidado meninos/ a água comprida, já encobriu Faustino”.

E quem é esse personagem, essa referência de profundidade que qualquer matinhense, independentemente de idade, sexo, cor, ou condição social, já entendia aprioristicamente? Resposta: Antonio Faustino dos Santos, filho de seu Teodomiro e dona Diolinda.

Desde bem jovem quis ser motorista, foi também goleiro, vereador. Hoje possui um sítio no Jacarequara.

Mesmo tendo inúmeros atributos, uma coisa sobressaia-se nesse homem, a quem chamávamos de “Nhô Fosto”: sua altura. Faustino tem mais de dois metros de altura. Causava admiração a todos, quando ele descendo do carro de Juca Amaral, ou mesmo andando na rua, passava por nós.

Certa feita, mamãe me falava do quanto Deus é grande, e eu, devido a tenra idade, ainda sem entender ao que se referia, perguntei: – Mamãe, Deus é muito grande? E ela: – Sim, é enorme, grande demais. Eu inocentemente: – é maior que Faustino?

Era, portanto, natural a qualquer matinhense, ao ouvir a frase “já encobriu Faustino”, e alguns ainda faziam o adendo, “de braço pra cima”, entender que o inverno não tava pra brincadeiras.

“Gira maracujazinho/ Flor de geniparaneira/ Olha o redemoinho/ Tá por cima da barreira”. A terceira estrofe. Um giro de recordações…

Quando íamos pescar, ou mesmo tomar banho na água comprida, um espetáculo nos fascinava enormemente.

Devido as enchentes, quanto mais águas iam se acumulando no meio da estrada, havia a formação de redemoinhos. A enxurrada arrastava das profundezas do igarapé açu, maracujazinhos (maracujá do mato), bem como flores das geniparaneiras, que ficavam nas margens.

O encontro desses objetos com o torvelinho formado pela enchente, estabelecia um espetáculo ao mesmo tempo belo e perigoso, cheio de adrenalina.

Sabíamos do perigo presente, mas ao mesmo não conseguíamos nos desvencilhar do poder visual/emocional, sublime, que ele exercia sobre nós.

Ficávamos contraditoriamente fascinados, inebriados, “por cima da barreira”, os pés e os olhos molhados.

“Na volta a gente banha mais/ Se a vida é aventura/ A infância é moleca/ Litro preso na cintura/ Galho de espantar membeca” Quarta estrofe. Na volta…

Já foi dito que o tempo é relativo. Podemos passar horas satisfeitos, e pensar que são poucos minutos, como também alguns minutos de dor, podem parecer horas. Quando estávamos banhando nas tépidas termas da “água comprida”, a vida parava, perdíamos completamente a noção de espaço / tempo.

Era preciso uma chamada de alguém mais velho e responsável: “na volta a gente banha mais”, dizia carinhosamente Tchem ou papai, pra nós. Afinal a aventura ainda não acabara, nosso objetivo principal, chegar em Belas Águas, comprar mel, beber garapa, estava por se concretizar.

Subir na barreira, retomar a caminhada, era muito difícil. Mas a realidade se impunha.

E lá íamos nós, rumo ao engenho de Costinha, na cintura, amarrado por uma embira ou cipó, o litro pra trazer o mel de cana, e no cós da bermuda toda molhada, um galho de murta, pronto pra espantar as danadas das membecas, que acorriam em nuvens sobre nós, a fim de chupar nosso sangue.

Membeca ou mambeca, é um tipo de inseto hematófago, que vive atazanando, picando a pele, de quem andava por aquelas bandas. Se não for “espantada”, sua picada causa inchaço e dor…

“Daqui já se avista/ Fumaça no céu/ Lá na Belas Águas/ Tão fazendo mel…/ Fazendo mel…” Última estrofe. A apoteose….

Neste momento do texto, as lágrimas já rolam soltas. Não tem como não se emocionar com a lembrança daquela fumaça branquinha, subindo suavemente para céu, num contraste límpido, perfeito.

A sensação prazerosa do mel, da garapa, da cana in natura, descendo pelas nossas gargantas, já tomam conta do corpo e alma. Os últimos metros de distância são atingidos quase em desembalada carreira.

Enquanto o adulto que ia conosco “perdia tempo” cumprimentando ou tomando café na casa dos amigos, já estávamos adentrando as dependências do engenho.

Ali nos esbaldávamos. A apoteose da viagem estampava-se nos nossos rostos carregados de felicidade. Era o nirvana, o paraíso terrestre, o auge autêntico do bem-estar.

Obrigado Kebinha, por proporcionar através da tua arte, a possibilidade de poder mergulhar no passado, da infância saudosa que não nos sai do pensamento. Por resgatar frases/palavras já esquecidas do glossário dos tempos atuais.

Vocábulos como maracujazinho, geniparaneira, galho de espantar membeca, infância moleca, mel de cana…. etc. Revivem aquilo que nos faz ainda sobreviver. Amores de eras priscas. Saudades guardadas na alma das imorredouras crianças que fomos e somos.

Meu contemporâneo confrade, talvez não tenha noção do quanto suas músicas/poemas nos fazem bem. É muita nostalgia envolvida, amor descarregado, choro desandado. Lembranças revigoradas. No teu canto, caro amigo, somos imensamente felizes.

Discurso de saudação acadêmica: Kléber e Edleuza

Discurso de saudação acadêmica: Kléber e Edleuza

Autor João Carlos

Excelentíssimo senhor presidente Carlos Cesar Brito, em nome de quem saúdo a todas as confreiras e confrades da AMCAL, conterrâneas e conterrâneos, demais acadêmicas e acadêmicos aqui presentes.

Senhoras, senhores.

Recebi uma incumbência deveras difícil, mas ao mesmo tempo saborosa: fazer um discurso de saudação á confreira Edleuza Brito e ao confrade Luís Kléber, dois dignos representantes da nossa academia

Artigo: Discurso de saudação da acadêmica matinhense Edleuza Brito – Jailson MendesEdleuza Nere Brito Souza, cadeira nº 07, cujo patrono é o senhor Antônio Pedro Brito; Luís Kléber Furtado Brito, cadeira nº 18 patroneada por Miguel Penha Brito.

Edleuza Nere Brito Souza, nascida em 23 de outubro de 1961, na cidade Matinha. Membro fundadora da AMCAL, vice presidenta da atual diretoria. É graduada em Pedagogia pela UFMA, especialista em Didática Universitária, mestranda em Cultura e Sociedade, do Programa de Pós Graduação PGCULT/UFMA, professora do IFMA –    -membro do Núcleo de Estudo e Pesquisa em Tecnologias Educacionais, Neurociência e Afetividade – (GEP-TNA), da UEMA. Considera-se uma educadora em processo, portanto inacabada. Pretende na academia, contribuir com o desenvolvimento de ações/atividades que de algum modo colaborem com a melhoria de qualidade de vida dos seus conterrâneos.

Luís Kléber Furtado Brito, nascido em   07, de setembro de 1963. Bancário aposentado da CEF, declara-se um autodidata, compositor. Para mim é um poeta de mão cheia. Não perdendo pra muitos que existem por ai. Também não se acha cantor. Eu o avalio um excelente musicista, bem como notável pintor e artista plástico.

Suas canções são belíssimas, inesquecíveis, brilhantes. Quem de nós não já se pegou cantando a linda melodia “por isso eu canto e o meu canto é Matinha …” da sua música, canto para um canto? Ou então quem não se sentiu debaixo do cajueiro do mercado, “com seus ninhos de japi”, remoendo – se de inveja de João Dhiba, só ele, por ser o mais levado de todos nós, seus contemporâneos, ter conseguido subir, na canção cajueiro velho?

Eu e muitos matinhenses   choramos de emoção ao ouvir a sublime estrofe “tinha concertos de bichos, cachoeira cores mil. Beleza, força, magia, no mundo que rosa via e a ganância destruiu”, da maviosa Rosa triste. Quem não parou pra pensar na nossa vida de antanho ao ouvir “Brinco com folhas invento formas, conforme o vento e a sombra nos jiraus, guardo um espelho pendurado na pindoba, tomo meus banhos em poço de juçaral”, ou “o progresso tá chegando minha Matinha tá mudando, mas não muda o amor”, das meditativas Reflexões e Reencontro?

Velhos carnavais homenageia o símbolo maior da nossa terra, a manga, e nos emociona demais: “essa nossa fruta nobre, que satisfaz o paladar do rico e na escassez, mata a fome do pobre”

Paro por aqui…senão, talvez não consiga segurar o choro!

 QUEBRA DE PROTOCOLO:

EDILEUZA

Eu a conheço, desde de criança, como Edleuza de Nezico e Francisquinha.

A imagem mais antiga que tenho dela? Sentada num sofá comendo, creio que manga, a boca toda suja, numa das visitas que Tchem (Ana Rita), fazia a sua mãe dona Francisca, num dos seus muitos partos.

Sempre foi inteligente. Liamos muitas revistinhas na infância.  Estudamos juntos no ginásio Bandeirante. Depois ela mudou-se pra Vitoria do Mearim. Perdemos o contato.

KEBINHA

Pra mim ele sempre foi Kebinha…mesmo grandão, é assim que eu o chamo até hoje.

É muito difícil falar de alguém que gostamos e admiramos. A filosofia diz que é necessário nos afastarmos do objeto para fazermos uma avaliação isenta. Com Kebinha será impossível.  Nós sempre estivemos juntos. Nossa amizade ultrapassa meio século.

A imagem mais antiga que eu tenho dele? É uma lembrança que remonta os meus quatro ou cinco anos de idade, e vem por incrível que pareça, não no sentido da visão, mas na memória olfativa. Ainda sinto o cheiro do talco que Dondona, como todos chamávamos sua mãe, passava nele.

 Não teria tempo para falar das peripécias que vivemos, foram muitas, eu diria dezenas ou centenas.

Quando chegava o dia 7 de setembro, data consagrada pra comemorar a independência do Brasil, três coisas eu sabia que aconteceriam: teria desfile, eu largaria o desfile depois de uma hora debaixo do sol quente, e me empanturraria de bolo e refrigerantes, no aniversario dele

  • Pescamos jandiás, piabas, bagrinhos, de dia, de noite;
  • Íamos pra Santa Maria, Bom Jesus, Belas Aguas, com Tchem;
  • Secávamos poça, vendíamos tucum…
  • Armávamos garapucas, tirávamos bicho de tucum;
  • Jogávamos pião, bolinha de vidro, china;
  • Líamos e trocávamos revistinhas;
  • Comíamos, peruana, ginja, goiaba, cajá, seriguela;
  • Íamos pro Mangal comer manga, bacuri, jambolão;
  • Viemos pra São Luís quase ao mesmo tempo;
  • Ia visitá-lo na casa de padre Sidney. Na Jansen Miller;
  • Viramos bancários quase ao mesmo tempo;
  • Fomos da diretoria Sindicato dos Bancários;

 Ele é o craque do nosso time. Todo time tem seu Zico. Ele é nosso Maradona. Nosso Pelé.

Para encerrar: farei a saudação não de modo convencional, usual. Reverenciarei aos nossos imortais com a eterna louvação, que tornou famoso o personagem senhor Spock, um hibrido de vulcano e terráquea, protagonizado por Leonard Nimoy, na série Jornada nas Estrelas, a original, cuja filosofia ´de vida era pautada na lógica e na inteligência. Inspiração bem adequada para o momento.

VIDA LONGA, E PRÓSPERA, confreira Edleuza Nere Brito Sousa, Edleuza de Nezico e Francisquinha, e confrade Luís Kleber Furtado Brito, Kebinha de Miguel Brito e Dondona.

Eu perdi o padrinho Sebastião Furtado

Eu perdi o padrinho Sebastião Furtado

Autor Nonato Reis*

Uma semana depois do falecimento da Madrinha Cici, foi a vez de o padrinho Sebastião Furtado fazer o mesmo caminho do plano celestial. Desnecessário dizer o quanto isso me afeta. O padrinho faz parte da minha infância e de toda a minha vida, como a seiva que percorre o caule e as folhas da árvore. Reproduzo aqui a crônica que lhe fiz para o livro A Fazenda Bacazinho, que mostra a sua importância para o Ibacazinho e também para Viana.

SEBASTIÃO FURTADO, A ANDORINHA QUE VEZ VERÃO

Dizem, e isso vem da Grécia antiga, que uma andorinha só não faz verão. Sebastião da Silva Furtado, hoje com 85 anos, pregou esse postulado de Aristóteles e o refez. Agindo solitariamente, confiando apenas na força dos seus princípios, fez história em Viana. Numa época em que a voz que se ouvia era a dos quartéis e a lei que pairava sobre todos era a dos fuzis, ele deu as costas para o regime, elegeu-se vereador por dois mandatos, tornou-se presidente da Câmara Municipal e quase chegou lá, como prefeito da cidade.

Os anos 50 foram difíceis. Perplexo, o país assistiu ao suicídio de Getúlio Vargas. No Maranhão, São Luís foi palco de uma greve política sangrenta, que tentou impedir a posse do governador Eugênio Barros, eleito por força de um processo eleitoral viciado. A Baixada Maranhense padeceu com a pior estiagem de todos os tempos. Em Viana, o Igarapé do Engenho, então perene e abundante, secou e o seu leito virou estrada de carro de boi.

É nesse ambiente conturbado que o jovem Sebastião começa a escrever os capítulos mais importantes de sua vida. Conhece Ceciliana, então menina de 16 anos, e com ela decide trocar alianças. ‘Raptou’ a garota e a levou para a casa de um parente. À noite, o dono da casa tentou colocar o casal em quartos separados. Sebastião reagiu. “Eu não roubei mulher para dormir sozinho”. Pegou a moça e a levou para a casa dos pais dele que, a contragosto, tiveram que “engolir” a decisão do filho.

Trabalhou duro com o pai na roça e na pequena criação de gado. Um dia o padre Manoel Arouche, vigário de Viana, chamou Antoninho Furtado, pai de Sebastião, e fez-lhe o convite. Queria que ele cuidasse do gado da Santa (sim, nessa época, Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Viana, era uma das maiores fazendeiras da região).

Antoninho chamou o filho e disse que só aceitaria a proposta, se ele o ajudasse. Sebastião coçou a cabeça, não tinha nada a perder. “Pai, se outros toparam, por que a gente vai desistir? A gente encara e mostra que sabe fazer”. Vaqueiro da Santa, ganhou visibilidade. Em pouco tempo tornou-se presidente da Associação dos Criadores do Município.

Ele tinha um açougue no mercado municipal. O lugar era uma bagunça. O tráfico de influência predominava. Quase nunca sobrava carne para os pobres. O prefeito Lino Lopes baixou portaria regulamentando a venda do produto. Todos teriam que obedecer à ordem de chegada. Um emissário do prefeito foi direto ao balcão. Queria quatro postas de carne. “O senhor vá para a fila”, advertiu Sebastião com sua voz grave e decidida. O emissário resistiu. Estava ali a mando do prefeito, não podia ir para a fila. “Por representar o prefeito o senhor devia ser o primeiro a obedecer à ordem dele. Ou o senhor entra na fila ou não lhe atendo”.

Dom Hélio de Campos chegara a Viana para chefiar a diocese local, substituindo a Dom Hamleto de Angelis. De visão política progressista, líder por vocação, Dom Hélio percebeu o isolamento da cidade do resto do Estado. A única ligação com São Luís era feita por via marítima, em lanchas que transportavam desde manufaturas a animais e gente. As viagens eram longas e perigosas.

Dom Hélio entendeu que era preciso construir uma estrada de rodagem ligando Viana a Arari. Deu início então a uma luta inglória, que o levaria diversas vezes a São Luís e Brasília, tentando convencer as autoridades a mandar construir a estrada. Mobilizou as entidades de classe e o povo. Foi como atear fogo em canavial.

De pronto recebeu o apoio de Sebastião Furtado, então líder classista rural, e também do padre Eider Furtado, tio de Sebastião e adepto da Teoria da Libertação. “A gente começou a entupir a mesa do ministro Mário Andreazza (Transportes) de telegramas, cobrando a licitação da estrada”. Ele deve ter ficado zonzo com tanta aporrinhação”.

Dom Hélio foi a Brasília. Na Base Aérea encontrou com José Sarney e pediu-lhe apoio, que o negou. “Sarney disse que o projeto não era viável, que a Baixada era uma região pobre”. Dom Hélio não desistiu, percorreu a esplanada dos ministérios, solicitou audiências. Em São Luís pediu o apoio do governador da época, que também o negou. A luta prosseguiu até que o Estado, vencido, decidiu abrir licitação e assinar a ordem de serviço.

À frente de uma comissão, Sebastião Furtado veio a São Luís assistir ao desfecho do processo licitatório no DER/MA. O grupo se alojou no Seminário Santo Antônio, onde confeccionou faixas e cartazes. Na volta a Viana, encontraram a cidade em festa. Uma multidão retirou Sebastião do ônibus e o carregou nos braços, agradecida. “Foi uma emoção enorme. Jamais esqueci”.

A conquista da rodovia deu-lhe visibilidade. Em 1972 Dom Hélio o chamou para comunicar que ele seria o candidato da Igreja e dos trabalhadores rurais à Câmara Municipal. “Mas como? Eu não entendo nada desse negócio de política!”. A decisão estava tomada. A igreja jamais se envolveu abertamente na campanha, mas ele recebeu o apoio em massa do sindicato de trabalhadores rurais e, concorrendo pelo MDB, elegeu-se único vereador de oposição.

Começava a jornada solitária da água contra o rochedo. Combateu a gestão de Walber Duailibe do começo ao fim. Na Câmara, que tinha 9 vereadores, o placar a favor do prefeito era vergonhoso: 8 a 1. Mesmo assim, articulou e conseguiu o cargo de secretário geral da Mesa, que na hierarquia do parlamento é o segundo em importância.

Seu primeiro projeto restabeleceu a dignidade da Câmara, ao transferir a sede do Parlamento, alojada no prédio da prefeitura, para outro imóvel. “Era um absurdo a Câmara funcionar ao lado do gabinete do prefeito, como um biombo”. O prefeito não queria o projeto, mas Sebastião, mesmo sozinho, articulou com os colegas de ofício e sua proposição foi aprovada por unanimidade.

Também apresentou projetos para a construção de escolas em duas localidades. O prefeito, dessa vez, agiu rápido e a Câmara rejeitou as matérias. Sebastião não se deu por vencido. Fez reuniões com as comunidades beneficiadas pelos projetos e, em sistema de mutirão, ergueu as duas escolas em barro e palhas de babaçu. Os salários dos professores pagava com recursos próprios, isso numa época em que os vereadores não possuíam remuneração.

Em 1976 concorreu à reeleição e ganhou. Na hora de montar a chapa da Mesa Diretora, aplicou um golpe de mestre. Havia dois grupos com igual número de vereadores disputando a presidência, um ligado ao prefeito eleito e o outro, ao candidato derrotado. Era o fiel da balança. Para qualquer lado que pendesse, levaria a eleição. Foi assediado pelos dois grupos e para todos repetiu a mesma história: seria candidato de si mesmo. Na última hora o prefeito o procurou e aceitou que figurasse na cabeça da chapa. Tornou-se assim presidente da Câmara, sem pertencer a grupo algum.

Era o tempo das baionetas e o verde-oliva metia medo. Um dia recebeu a visita de um coronal do Exército, que veio de Fortaleza com a missão de fazer aprovar um projeto de interesse do bispo Dom Adalberto. Sem meias palavras ordenou que Sebastião aprovasse a matéria. “Quem aprova ou rejeita são os vereadores, não o presidente”. O militar não quis saber, queria o projeto aprovado por ele e ponto. “Então o senhor faça aprovar um projeto que dê essa prerrogativa ao presidente”, rebateu.

Em 1982, lançou-se candidato a prefeito, enfrentando duas forças exponenciais. Teve quase 3.000 votos. O eleito recebeu pouco mais de 4.000. “Perdi porque não tinha apoio político nem material, mas o povo me apoiou”. Deixou a política e foi cuidar da vida. No dia em que completou 80 anos, comemorou a data ao lado da família e dos amigos. Eu quis saber o que passa pela cabeça de quem chega a essa idade, lúcido e admirado. “Dá vontade de ser eterno, de gozar a vida e jamais morrer”. A história tem a capacidade de imortalizar seus personagens.

* Nonato Reis é natural de Viana. Jornalista, poeta e escritor. Foi correspondente em São Luís da Folha de São Paulo em 1993 e colunista do Jornal Pequeno, no período de 2011 a 2017.