Obra CRÔNICAS DE ANAJATUBA de Mauro Rêgo

Obra CRÔNICAS DE ANAJATUBA de Mauro Rêgo
Encontra-se à venda na Livraria AMEI no São Luís Shopping o livro do baixadeiro Mauro Rêgo, conforme postagem no Facebook:
“As crônicas de Anajatuba – um livro que retrata muito bem a história, os acontecimentos, aquilo que foi vivido nesse lugar encantado de sua gente, costumes, tradições.
É o próprio Mauro Rêgo quem nos diz:
“Eu falo do campo. Dos espíritos que povoam a imaginação dos homens da baixada; falo das almas penadas que moram sob as águas dos igarapés e nas enseadas verdes; falo das luzes caminheiro que partem do campo e percorrem as ruas da cidade; falo do aboio dos vaqueiros, do canto dos pescadores, da magia do peixe apanhado de anzol. Falo das nossas crendices, do rufar dos tambores do Divino subindo a encosta dos morros, da dança ancestral do tambor de
São Benedito…”
À venda por apenas R$40,00. 📌
Adquira o seu! Dê de presente! Perpetue essa história.
Pedidos – whatsapp: 98-982832560″.
Pode ser uma imagem de livro e texto que diz "IEGASEDITORA As CRÔNICAS DE ANAJATUBA MAURORÊGO MAURO"
 
 

Lembranças, lembranças, eternas lembranças

Lembranças, lembranças, eternas lembranças

Autor João Carlos

Ouvir o CD “Canto para um Canto” de autoria do meu amigo de infância Luís Kleber, Kebinha, é como viajar numa máquina do tempo, num retorno aos áureos tempos, tempos de beleza, amizade, brincadeiras, sonhos, um retorno não só possível, mas principalmente, desejado, almejado ardentemente de coração. As músicas cantadas na maviosa voz de Torlene, nas surpreendentes vozes de Alinson, (Lalá-), e Marcelo, junto com um extraordinário arranjo, deram o exato tom intimista, necessário ás grandes obras. Não deixando, na minha modesta opinião, a desejar para quaisquer outras composições da MPB ou MPM. – Música Popular Maranhense-.

Embora falando de uma cidadezinha ignara nos confins da Baixada Maranhense, o disco não se torna piegas, provinciano, pelo contrário, universaliza os tons, as letras, mais ou menos, guardando as proporções, como o filósofo Imanuel Kant, que sem sair da pequena Konisberg, encravada na região portuária da Prússia, tornou sua obra universal, ou Luís Gonzaga, Geraldo Azevedo, Elomar Filgueiras, Xangai, Cora Coralina, dentre outros tantos, que também fizeram o mesmo.

E as lembranças fluem graciosas, nos elegantes versos. Rememoramos o canto de seu Miguel, tio Ademar, Juca Amaral, mamãe; uma esquina da Rua Cel Antonio Augusto com rua Dr Afonso Matos, que ficará para sempre em nossos corações, como as ruas que brincávamos, banhávamos na chuva, sem nenhuma preocupação.

Quem se esquece do cajueiro do mercado, imponente, majestoso, de João Djiba, e suas inúmeras traquinices?; Ou do banho na baixa de Grijosto, e a consequente surra ao chegar em casa, coberto de lodo e de satisfação ? O papagaio suro, com cerol na linha, que tão felizes pegávamos para brincar? Correndo esbaforidos, os joelhos arranhados e os pés cheios de espinho?

Quem sabe uma vida feliz, ditosa, não seria com uma rosa no dedo, nos contando e até lembrando coisas belas da sua vida nas matas, que o homem de forma inexplicável e maldosa luta para acabar? Talvez num espelho em um banheiro de pindoba? Num banho de poço no juçaral?

João Carlos

A verdadeira felicidade não estaria em comer um caroço de pequi, daqueles carnudos lá de Meia Légua, Aquiri, Belas Águas? Ou ainda nos bagres pescados nos igarapés, da Rosa Maxixe, de Buranga, Quebra bunda, com bicho de tucum? Triste realidade a que estamos expostos, contradiz tudo que aprendemos, a infância, o amor a velha Matinha, que mesmo nessa realidade tenebrosa, insiste em ainda se manter nas lembranças que são imorredouras.

Kebinha de modo incisivo e autêntico, nos faz esses questionamentos, ficamos então, ao término das canções, com a sensação de que o progresso, do modo como vem sendo desenvolvido e utilizado, está tirando toda a magia, deixando um débito muito grande com a humanidade, a sociedade, as pessoas. E mais uma vez evocando a filosofia, relembro Rousseau, e seus conceitos sobre a natureza do homem e os percalços ao qual está sujeita.

Fica então uma certeza: ser feliz, feliz de verdade, de modo pleno e absoluto, talvez só voltando a Matinha de antanho, num regresso aos tempos de menino, de conversas nos fundos dos quintais, revivendo velhos tempos, as belezas dos antigos carnavais, comendo manga com farinha até lambuzar o nariz.

Beco, um matinhense das antigas

Autor João Carlos

Quando do lançamento do CD de Kleber, “Canto para um canto”, tive oportunidade de rever um cara que povoou minha infância e adolescência, um homem acima do seu tempo, verdadeiro desbravador, referencia em audácia pra minha geração, Beco de Maria Carneiro, o Dias, como é conhecido em São Luís.

Beco é aquela pessoa que nos faz voltar à Matinha do passado. Saiu de lá a quase quarenta anos atrás, sua mente ainda pensa e vive naqueles tempos. De memórias gostosas, ainda não confundidas pela modernidade que assola nossa cidade. Dotado de uma sensibilidade marcante, nos recebeu gentilmente em sua residência, que mais parece um museu, com as paredes entupidas de quadros, fazendo-me lembrar o livro que atualmente estou lendo, de Chico Buarque de Holanda, “O Irmão Alemão”, onde o autor, escreve que na sua casa, “as paredes eram feitas de livros”. Na casa de Beco tudo respira cultura, arte, retorno ao passado, lembranças.

Recordo-me bem de quando morava em Matinha. Tenho marcado o dia em que inventou uma nova forma de vender bananas: cantando a plenos pulmões aquela musica de Jorge Benjor, que fazia muito sucesso, “Olha a banana, olha o bananeiro”; ou então um inesquecível desfile de moçoilas vestindo biquínis,- um verdadeiro atentado ao pudor para aquela época-, em que ele era o mestre de cerimônias, sem nenhuma cerimônia.

Conversar com ele, além de agradável aos sentidos, é uma volta as pescarias no igarapé de Zezé Veloso; uma ida ao mangal e o palmeiral de Maria Teixeira; o refresco de Flávio Penha; as peladas no campo do Machado; as viagens na lancha de Benedito de Osvaldo, no porto de Canem; os cambos de peixes vendidos por Xuxeta e Valério; as tapagens na Enseada da Mata. Eu poderia ficar horas enumerando fatos e passagens daquele espaço geográfico e temporal, onde Beco morava que nós chamamos de forma jocosa e talvez até um pouco preconceituosa de “lá em baixo”.

Hoje vive em são Luís, mantém um ateliê de reforma de móveis, engrandecendo nossa terra com sua insuperável técnica e beleza na recuperação de quaisquer tipos de sofá, cadeiras, ou outra modalidade. Estando já acima dos 50 anos, – idade em que Platão diz: a sabedoria acontece melhor, e outro filósofo, menos conhecido, o Reverendo Valdir Mariano, diz que já podemos falar o que quisermos, sem medo de chocar os outros-, Beco desfila doxas sobre tudo. Ficou encantado com esse projeto de tentarmos reunir conterrâneos, que estamos querendo colocar em prática, dispondo-se imediatamente a elaborar ideias e devaneios para abrilhantar novos encontros, já fazendo planos para todos juntos, fazermos um piquenique, daqueles de antigamente.

Enfim, conviver com Beco, dá-nos a sensação de estarmos ao lado de alguém rico em conhecimento, e que só nos traz sentimentos belos e saudáveis, capazes de renovar ou emergir reminiscências que aquecem nossa alma, inesquecíveis recordações da nossa querida Matinha.