Itans Empreendedora I

Itans Empreendedora I

Autor Expedito Nunes Moraes*

Idealismo, vontade, determinação, trabalho, tecnologia, união, doação e prosperidade, são os adjetivos usados pelo Vice-Presidente do Fórum em Defesa da Baixada Maranhense (FDBM), Dr. Antônio Valente, para definir o sucesso da exitosa COMUNIDADE DE ITANS, situada no Município de Matinha/MA. Diz ele, que não são suficientes os adjetivos para determinar o tamanho do substantivo da comunidade. 

Sabe-se, com certeza, que três dos apóstolos de Jesus eram pescadores: Pedro, Tiago e André. Existem dúvidas se João chegou a pescar. O primeiro encontro dos apóstolos pescadores com Jesus aconteceu à beira do lago Tiberíades ou mar da Galileia, que banhava a também cidade de Tiberíades. 

Naquele tempo, a pesca era uma das principais fontes de renda da região. Os pescadores eram homens simples. Dedicavam-se a essa atividade herdada dos seus ancestrais, por isso, acumulavam bastante conhecimento, tanto do mar quanto da movimentação dos cardumes. Eram homens puros, preocupavam-se apenas com seus barcos, suas redes, pesca, venda e bem-estar da família.

Essa simplicidade constituía o perfil ideal para que os apóstolos fizessem parte da propagação da Boa Nova apresentada pelo Mestre. Porém, nestes homens, teria que ser profundamente fortalecida a Fé. E esse foi o grande desafio de Jesus: fazê-los compreender o verdadeiro sentido do seu Reino. Não compreendiam como sem poder, dinheiro, armas e violência poderiam se libertarem dos romanos e construírem um novo Reino.

A proposta de Jesus, em princípio, não poderia ser entendida porque aquele povo sofria todo tipo de injustiça. Eram obrigados a pagar impostos elevados, não tinham direitos algum. A violência,  a ameaça eram práticas comuns às quais todos eram submetidos a todo tipo de humilhação.  A fome e pobreza chegavam ao nível de calamidade.

A intenção aqui não é assemelhar as histórias. Nem tampouco comparar o citado lago ao de Itans e, muito menos, equiparar os atuais pescadores aos apóstolos. Mas, pensando bem, podemos encontrar alguns aspectos dignos de menção, exemplo: os itaenses eram pescadores do lago e usaram a Fé para transformarem suas vidas. Aprenderam a pescar melhor peixes e pessoas. E a essas pessoas ensinam a viver melhor, a conquistarem qualidade de vida por meio do trabalho, do conhecimento técnico e, sobretudo, adquirirem renda para fazer face às suas necessidades básicas.

O foco era o mesmo que Jesus pregou “amar ao próximo como a ti mesmo”. Este principio é o mesmo que empatia. Desejar ao outro o mesmo que quero para mim. Assim, como o exemplo da semente de mostarda pode ser substituída pela semente da sumaumeira que de tão pequena é carregada pelo vento e quando germina transforma-se em uma imensa e maior de todas as árvores. Essa é a pregação de lideres itaenses como Cibaleno, Narlon, Eliseu, Silveira aos jovens e pessoas de Itans e outras comunidades. 

E os milagres acontecem. Cariri – nativo de Itans – afirma que com ele aconteceu um milagre por causa da grande fé em Deus. Silveira identifica como fator preponderante do sucesso de Itans, a solidariedade, o compartilhamento, a fé, a coragem e determinação dos itaenses. Segundo ele, existe uma cultura de um cuidar do outro. 

A vontade, determinação e foco, chegaram antes do Sebrae e do Banco do Brasil, que apoiaram o projeto. A estrada chegou depois de 10 anos de muita luta. O frigorífico, da mesma forma. 

A experiência já saiu de Itans e viajou para longe. Já está em mais de 160 municípios levando a BOA NOVA da prosperidade. Cacoal, povoado de Viana é um belo exemplo. Sandra, uma jovem, e outros, hoje, o empreendimento com 29 açudes transformou o povoado e até um barracão de reggae a depósito de ração para peixes. Nós próximos capítulos, vocês conhecerão melhor os empreendedores, pessoas e histórias dessa comunidade feliz.

*Expedito Nunes Moraes é natural do povoado Cachoeira em Cajari (MA). Graduado em Administração (UEMA). Foi deputado estadual entre 1995 a 1997 e empresário da construção civil. Exerceu vários cargos na administração pública do Maranhão. Presidente de Honra do FDBM (gestão 2017-2019). 1.º Vice-Presidente (Gestão 2019-2021) e atual Presidente do FDBM em exercício.

Reunião em Itans no dia 15/08/2020
Pescaria em Itans

 

Fé, Texto e Contexto

Fé, Texto e Contexto

Autor Antônio Francisco de Sales Padilha*

No dia 23 de dezembro de 1957, um bimotor Douglas rasgou os céus de São Luís em direção ao continente, voando baixo sobre a baia de São Marcos, desaparecendo entre as nuvens e deixando para trás a capital do Maranhão. Após a travessia da baía, podiam ser descortinadas as praias que anunciavam a chegada no continente, mais precisamente no litoral norte da Baixada Ocidental Maranhense.

Depois a última praia, lá embaixo, abriu-se uma paisagem recortada: estendidas florestas pantanosas cortadas indiscriminadamente por muitos igarapés em que se espelhava o pálido azul do céu; vastos pampas ressecados pelo forte verão tropical; pequenas ilhas, espalhadas como oásis de palmeiras; verdes bosques esmeraldinos, onde se escondem silenciosos povoados, e mais longe emergem as cidadezinhas interioranas.

São Bento era uma dessas cidadezinhas interioranas avistadas. E, para o povo dessa cidade, era uma tarde de júbilo e festa a chegada dos padres piamartinos, pois, durante a última década, a paróquia de São Bento passou por um período de muita carência de padres que permanecessem na cidade. O último vigário, o padre José de Jesus Travassos Furtado, tinha sido acometido de uma enfermidade psíquica, que não foi debelada e ele nunca se recuperou.

Havia também um mito de que São Bento havia sido excomungada pelo Bispo por conta de uma parte de sua população ter aceito a ideia de que alguns padres da Igreja Brasileira poderiam tomar conta da Igreja e passarem a ser os mentores espirituais da gente da cidade. Felizmente, a outra parte, que pelo visto era bem maior, não permitiu que os padres da Igreja Brasileira passassem do aeroporto, tendo que retornar para a cidade de Pinheiro, de onde haviam vindo. Ademais, para completar essa dádiva, os padres chegariam na antevéspera do Natal, o que intensificava a esperança de que São Bento voltasse a ter uma ação firme da Igreja, tal qual havia tido com a presença do sambentuense e agora Bispo Dom Phelipe Condurú Pacheco.

Por conta de tudo isso, os católicos fervorosos, as autoridades, os professores, os estudantes e as pessoas de todas as classes sociais, cruzaram o pequeno riacho da Velha Bárbara, equilibrando-se em troncos de palmeiras, que serviam de ponte, sob a luz forte dos raios de sol que resplandeciam nas águas outrora cristalinas do velho riacho, em direção ao Aeroporto para esperar os padres que iriam viver, revolucionar, educar, amar e serem amados pelo povo de São Bento.

Os músicos da Orquestra, conduzidos pelo Maestro Antônio Manoel Padilha, todos a postos. Os estudantes com suas bandeirinhas em punho, algumas pessoas mais afoitas aquecendo as mãos para as palmas, as autoridades limpando a garganta para evitar qualquer pigarro na hora do discurso, afinal, aquele momento, tão esperado, era um momento glorioso e nada poderia dar errado.

O campo de pouso, na verdade uma estrada de piçarra, misturada em alguns pontos com um gramado, onde o gado sonolento pastava ou deitava-se aproveitando os últimos raios de sol da ventilada tarde do fim do verão, precisava estar em condições para que o avião aterrissasse. Tão logo o roncar dos motores do DC 3 da AERONORTE foi ouvido, alguém lembrou de enxotar o gado da pista para deixá-la livre, a fim de que o bimotor pudesse pousar nas terras de São Bento, no Chão Bento. Assim foi que, em uma tarde de muito sol e muita luz, sob os acordes da Banda de Música, a saudação dos estudantes balançando as bandeirinhas e sob os efusivos aplausos dos populares, desembarcaram o Bispo Dom Alfonso Maria Ungarelli, o Padre Felix Pistone, o Padre Luigi Rebuffini, o Padre Lorenzo Franzoni e o Irmão Luigi Paoletti, – missionários pioneiros da Congregação “Sagrada Família Nazareth” de Brescia – Itália.

Ainda sob a calorosa salva de palmas, o prefeito da cidade, Sr. Benedito Maia Moniz, fez a saudação inicial, demonstrando a alegria do povo de São Bento com a chegada deles. Em seguida, a Professora Négile Atta também os saudou e disse-lhes da esperança de boas novas para a educação da cidade, que eles, com certeza, estavam trazendo.

A impressão que os padres tiveram foi que haviam chegado em um outro planeta, pois viam pessoas com traços físicos e trajes totalmente diferentes dos deles, falando uma língua incompreensível. Eles conheciam algumas palavras do português, mas não conseguiam identificar nenhuma delas. Uma coisa lhes chamou a atenção: uma invejável simplicidade e simpatia das pessoas, um calor humano incomparável.

Ainda sob os acordes da Banda de Música, rumaram para o centro da cidade em direção a casa cedida pela família de José Campos, preparada carinhosamente pela comunidade para abrigá-los. Receberam os votos de boas-vindas e saudações do Sr. Joaquim Silvestre Trinta, ilustre cidadão sambentuense, intérprete dos sentimentos de alegria dos seus conterrâneos e dos eclesiásticos filhos da terra, Dom Luís de Brito e Dom Felipe Condurú Pacheco.

Neste ano de 2017 completarão sessenta anos que esses seres de luz aportaram em nossa terra, trazendo consigo a esperança da paz, da alegria e do amor. Muitos foram os que tiveram a oportunidade de serem educados no seu Ginásio Industrial Piamarta, onde aprenderam um ofício e se tornaram cidadãos de bem. Não ficaram apenas na educação, ensinaram a criar os peixes em cativeiro, trouxeram o primeiro trator para ajudar na implementação das novas técnicas agrícolas para melhorar a produção, criaram o banco rural, para proteger o trabalhador rural da ganância dos comerciantes, criaram as cooperativas para a construção de casas aos mais necessitados, apoiaram as artes: a pintura, o teatro, a música, implantaram a primeira sala de cinema da cidade, incentivaram o desporto, cuidaram dos doentes, lhes fornecendo medicamentos, dos leprosos, criaram o Recanto da Paz, a casa dos especiais.

Enfim, a Baixada foi sendo mudada a partir de novos paradigmas trazidos por eles. Prece e Trabalho, o lema do seu mentor – Santo Giovanini Piamarta – foi implementado vigorosamente. Ensinando a rezar e a trabalhar, os padres Piamarta revolucionaram esse pequeno São Bento, esse Chão Bento, cada dia mais abençoado com as suas presenças.

Crônica publicada no Livro ECOS DA BAIXADA, páginas 90/94.

* Antônio Francisco de Sales Padilha é natural de São Bento (MA). É bacharel em Trompete e Licenciado em Música pela UnB, Mestre em Regência e Doutor em Música pelas Universidades de Aveiro/Viena. Foi Diretor da Escola de Música do Maranhão, Secretário de Estado da Cultura e Chefe do Departamento de Artes da UFMA. É autor dos livros, entre eles A linguagem dos Tons, A Construção Ilu- sória da Realidade, Direção, Ansiedade e Performance.

Pinheiro

Pinheiro

Autor José Sarney*

Pinheiro estava no século XIX. Seus hábitos e costumes remontavam ao tempo da Colônia, e ainda era uma área de descobertas. O único meio de comunicação era o telégrafo, de fio único, que atravessava o campo, linha tênue de referência no meio do verde e das águas. Muitas vezes, menino, eu ficava na beira desse campo, olhando a infinidade de pássaros que pousava no fio do telégrafo, única ligação da cidade com a capital. Eram andorinhas, patativas, vim-vins, guriatãs, pássaros todos pequenos que ali descansavam e, como nós, admiravam o campo. Em nuvens se formavam, alimentando-se das sementes de capim ou dos mosquitos que proliferavam nas águas e que eram apanhados como comida, no baile das andorinhas em vôos de evoluções e acrobacias que nos faziam passar o tempo contemplando-as.

A cidade era uma pequena vila de duas ruas, uma maior, o eixo central, como sempre chamada de Rua Grande e outra que dela derivava e ia em curva até a Igreja de Santo Inácio, onde se iniciara a povoação, com a primeira morada, do Capitão-Mor de Alcântara, Inácio José Pinheiro, que por ali chegara em busca de novos campos para localizar fazendas de criação de gado, tendo montado curral, por volta de 1815. Em 1856, a povoação foi reconhecida como vila, pela Lei Provincial 439, e, em 1868, ali já existiam “200 almas”. Em 1920 foi elevada a município, desmembrada da Comarca de São Bento.

As vilas e cidades no Brasil sempre começaram com uma capela, marco de povoação. A devoção vinha primeiro. Em Pinheiro, primeiro chegou a fazenda: casa e curral.

Os jesuítas foram os evangelizadores da Amazônia e dividiam com os capuchinhos, carmelitas e os mercedários a credencial de quem chegara primeiro. Quando o Papa João Paulo II visitou São Luís, em 1991, preparei e entreguei algumas informações sobre a cidade e o Maranhão ao Núncio Apostólico, meu amigo Dom Carlo Furno, hoje cardeal jubilado. Surpreso, vias incorporadas na homilia que o Papa fez durante a missa que celebrou:

“Recordo com emoção a História da Igreja aqui iniciada em 1612 pelos missionários capuchinhos franceses na cidade fundada por La Ravardière. O Maranhão se tornou o centro irradiador da extraordinária ação missionária que os jesuítas, capuchinhos, mercedários e tantos outros estenderam à imensa região amazônica no século dezessete. Aqui, o grande clássico da língua portuguesa, o orador  sacro e missionário Padre Antônio Vieira, soube defender a dignidade humana e a liberdade dos indígenas e denunciar os abusos que contra eles cometiam os colonizadores da terra. Por isso, desejo recordar este monumento que nos lembra um dos marcos fundamentais da evangelização na América Latina. Refiro-me ao Convento das Mercês que, recentemente restaurado por mãos generosas, concluirá sua reconstrução quando lhe for anexada a Igreja que os padres mercedários construíram, no início deste século, com enorme sacrifício e zelo. Nele ressoam ainda hoje as palavras do Padre Antônio Vieira que residiu nessa casa.”

A verdade é que a missão francesa que fundou a cidade de São Luís trazia quatro padres capuchos recrutados no Convento de St. Honoré, em Paris. A dois deles devemos livros fundamentais na História Brasileira. A Yves d’Évreux, o Suitte de l’Histoire des Choses Plus Mémorables Advenues en Maragnan, ès années 1613 et 1614 ou Voyage dans le Nord du Brésil, em que ele faz um relato dos animais e plantas do Maranhão e, pela primeira vez em nossa História, conta como os índios tupinambás viam o cosmo, o interpretavam e nominavam algumas constelações. O outro é do Padre Claude d’Abbeville, um extraordinário e minucioso relato da aventura francesa no Maranhão, a França Equinocial, em que descreve costumes, História, plantas, o envolvimento da corte francesa com a colonização do Norte do Brasil, e afirma que, com essa conquista, Luís XIII, o duvidoso pai de Luís XIV, o Rei Sol, seria rei de três coroas: França, Navarra e Maranhão.

Já os jesuítas vieram com Jerônimo de Albuquerque na expedição portuguesa que combateu os franceses: os padres Luís Figueira e Francisco Pinto.

No período filipino, também, os padres mercedários Pedro de Santa Maria e Juan Carnero de Alfaro desceram de Quito (então no Peru) e fundaram, no Maranhão e em Belém do Pará, dois conventos — seus sucessores se instalaram também em Alcântara —, com igrejas, fazendas para seu sustento em Alcântara, Viana e por toda essa região de pastagens. Nela, quase todas as ordens religiosas possuíam propriedades.

Em duas ruas, a cidade se esgotava. Do Engenho Queimado, do outro lado do campo, duas léguas de uma lâmina de água coberta de capim. Coube-me, como Governador do Maranhão, aos 35 anos, a oportunidade de construir uma barragem atravessando esse campo e uma ponte sobre o Rio Pericumã, além da estrada que liga Pinheiro a São Bento, passando pela Palmeira, hoje município de Palmeirândia. O Jornal de Pinheiro, quando inauguramos a barragem, tinha a manchete: “A obra do século!”

Crônica publicada no Livro ECOS DA BAIXADA, páginas 152/155.

* José Sarney é natural de Pinheiro (MA). Foi deputado federal, governador, senador e presidente da República. É membro da Academia Maranhense de Letras e da Acade- mia Brasileira de Letra.