Viajando pela Baixada do Maranhão

Em 13 de março de 2018 0:13

Morávamos na entrada de São João Batista em uma casinha com um grande quintal onde havia plantação de banana, batata-doce, macaxeira e maracujá, um chiqueiro de cabras e muita galinha, pato e peru. Alimento não faltava porque meu pai era ourives e minha mãe, mesmo na época que a comida ficava vasqueira, usava sua criatividade para por boas iguarias na mesa. Durante a moagem no Engenho Olho D´Agua, a tia de mamãe,  Mãe Azinha, mandava açúcar mascavo, mel e rapadura. Comíamos mel com farinha, batata, cará e macaxeira, e mamãe fazia puxa-puxa de maracujá, que eu adorava. Tanto que uma noite adormeci chupando puxa-puxa e quase morri engasgada. Leite também não faltava porque, além das cabras, recebíamos mensalmente uma quota do Projeto Aliança Para o Progresso, programa cooperativo dos Estados Unidos da América que visava acelerar o desenvolvimento econômico e social da América Latina e, ao mesmo tempo, frear o avanço do socialismo no continente.

Enfim, tínhamos uma vida boa. Mas, o primo de papai, Antônio Gonçalves, tinha espírito de andarilho, vivia mudando de domicílio e sempre arrastava o primo em suas andanças. Por isso, papai viajara para Penalva há meses e não retornara nem para buscar a família. Ao invés disso, mandara uma carta para mamãe orientando-a para que vendesse a casa e fosse ao seu encontro com as crianças.

Então, quando eu contava de quatro para cinco anos, minha mãe colocou os quatro filhos pequenos e um enteado maiorzinho no caminhão do Zé Gordo e partiu em uma longa e difícil viagem por caminhos inóspitos representados por estradas fundas, túneis de verdura refrescante na mata fechada e periculosas pontezinhas improvisadas com troncos, estreitas e sem proteção alguma, que atravessavam os córregos temporários. Tudo isso pode parecer extremamente amedrontador, mas eu não tinha medo algum, porque a presença do amor materno me dava a segurança necessária para nada temer e ainda aproveitar a sacolejante viagem observando as árvores que pareciam disputar uma corrida contrária ao caminhão, enquanto na carroçaria os carregadores cantavam em altas vozes: “Senta o pé na lata chofer/ que eu quero ver aquela mulher”.

De vez em quando o veículo fazia uma breve parada para que os viajantes se aliviassem nos matinhos ou preparassem as refeições. Nunca esqueci o pernoite em uma casa de forno e o café cheiroso que tomamos com farinha d´agua ao amanhecer. Lembro também do almoço de curimatás empilhadas, cozidas somente com sal e limão, o qual minha mãe se recusou a servir aos filhos, porque quando o cozido esquentou os bichos-de-vareja subiram no caldo com uma  espuma esbranquiçada que era recolhida pelo cozinheiro com a grande colher de pau e jogada fora.

Deveríamos viajar com Zé Gordo até o povoado Fala-Só, hoje sede do Município de Pedro do Rosário, de onde seguiríamos em outro caminhão rumo a Penalva. No entanto, nosso tio Joca Pinto sugeriu que desembarcássemos no Bacurizeiro, porque ali residiam uns parentes que nos poderiam hospedar e também por ser passagem de todos os caminhões com destino a Viana. E o local realmente era passagem para Viana, mas os caminhões que por ali passavam vinham com a carga completa e não paravam, por mais que acenássemos. Para piorar, naquela povoação se instalara uma epidemia de coqueluche que todos pegamos, com exceção de mamãe. A dona da casa brigava por tudo e com todos, a começar pelo próprio marido. E ficava sempre falando que não sabia o porquê da ansiedade da minha mãe para chegar a Viana, lugar de gente ruim onde até a água era vendida.

O resultado da parada foi passarmos cerca de quinze dias retidos no Bacurizeiro sem poder seguir viagem, até o dia que minha mãe, desesperada, ao ouvir ao longe o ronco de um caminhão, desceu a barreira e ajoelhou-se no meio da estrada funda. O caminhão guinchou nos freios, arrastou os pneus por uns bons metros até conseguir parar bem próximo da minha mãe, que estava em posição genuflexa sobre o barro vermelho com as mãos postas como em oração, e dele saiu um homem forte que espumava de raiva:

– A senhora é doida ou o quê?!! Quer me precipitar? Este caminhão está sem freio, sua louca!!! Eu estou dirigindo somente com freio de mão.

Quando a raiva amainou o motorista acedeu em ouvir a nossa história, embora insistisse que apesar de condoído da situação não poderia ajudar porque o caminhão estava com a carga completa e em razão de problemas com o freio precisava de um motorista auxiliar na cabine. Porém, a insistência de mamãe comoveu o homem, que fez descer os trabalhadores e reorganizou parte da carga, de modo a caber os nossos poucos teréns. E seguimos rumo a Viana com o bondoso senhor Cordeiro cuja buzina tocava a “Asa Branca” sempre que era apertada.

Chegamos a Viana ao anoitecer e fomos direto para a hospedaria de amigos do caminhoneiro na beira do lago, o qual nos deixou ali, recomendando-nos ao hospedeiro. A recomendação foi sobejamente atendida. Fomos acolhidos carinhosamente pela família da hospedaria, muito mais do que na casa dos parentes, no Bacurizeiro. As filhas do dono da pensão até ajudaram mamãe a cuidar das crianças, dando banho, comida, etc.

Mais tarde, limpos e alimentados ficamos um pouco na varanda olhando a lua que se refletia no lago tornando a noite mágica. A hospedaria praticamente se debruçava sobre a água, dando a impressão de que bastava esticar o braço para tocar nas embarcações que passavam. Foi então, que da canoa coberta de palha que deslizava mansamente na água do lago uma voz feminina se elevou em um cantar enebriante: “Ao ver passar no céu as andorinhas/ Eu sinto saudades do meu bem”. A música nostálgica e a voz suave ecoavam nas águas piscosas do Rio Maracu gravando-se indelevelmente em minha alma de criança. Nunca mais esqueci aquela melodia e aquela letra. Adormeci de bem com a vida e, feliz como estava, em sonho devo ter visitado os campos elíseos, como só as crianças e os poetas conseguem. De manhã cedo, quando mamãe tentou pagar pelo pernoite, soube que o senhor Cordeiro deixara tudo pago e nem nos dissera nada. Após a calorosa despedida, na canoa do próprio dono da hospedaria e sob as bênçãos de Nossa Senhora de Nazaré, olhamos ao longe o Morro da Mocoróca e descemos o Rio Pindaré rumo a Penalva, em uma viagem deliciosa onde um céu de puro azul refletia nas águas pontilhadas de flores de aguapés e vitórias-régias, deixando para trás a tão mal recomendada Viana, que ficou para sempre morando em meu coração como uma doce saudade.

Até hoje eu sempre rezo por esse senhor Cordeiro do caminhão, que nunca mais vi e nem sei se ainda vive, com uma gratidão imensa.

Gracilene Pinto.