As lanchas e seus comandantes

Autor Expedito Moraes

Os Comandantes eram respeitados e tinham autoridade por onde passavam. Dentro da lancha sua autoridade não podia ser questionada. Sentava-se dentro da cabine de comando ao lado marinheiro e às vezes ouviam ou falavam com um ou outro passageiro.

Até os anos 70, o ir e vir de pessoas de várias regiões do Maranhão para São Luís era uma verdadeira aventura. Neste texto, pretendo ater-me exclusivamente às opções que os baixadeiros tinham até então. Na região dos lagos, baixo Mearim e Pindaré, a única opção era a navegação por esses rios. Dependendo do período do ano e da fase da lua, uma viagem de Pindaré a São Luís poderia durar até três dias, caso não “desse prego” ou encalhasse em alguma croa ou banco de areia.

O tipo de lancha mais comum era de dois toldos, sendo um cobrindo da proa até a popa e outro da proa até a metade do primeiro. Nessas embarcações carregava-se tudo; no convés vinha bode, boi, porco, cofos de galinha, que dividiam espaços com as redes e bagagens dos passageiros imprensados entre a sacaria coberta pelos “encerados” e o segundo toldo.

Quem viajava neste ambiente ficava sujeito ao frio, chuva e “golfadas” da maresia. No porão e convés vinham as sacarias de arroz e babaçu. O calado dessas lanchas variava entre 4 a 6 palmos o que determinava a capacidade de carga (sendo 90% de arroz e babaçu em saco de estopa de 60 quilos), ou seja, a quantidade variava entre 900 a 2.200Kg. Os motores navais dessas lanchas eram de marcas Caterpiller, Bolinder, Mwm, etc. Nessas lanchas a tripulação era composta por 1 comandante, 1 imediato, 3 a 4 marinheiros, 2 motoristas, 4 a 5 moços de convés, 1 cozinheiro e 1 taifeiro.

Uma lancha funcionava como uma empresa, cada tripulante de acordo com a sua categoria tinha função bem específica dentro e fora dela. Um moço de convés fazia as funções do que chamamos hoje nas organizações de “auxiliar de serviços gerais”. Eram responsáveis pela limpeza da embarcação, do atracamento ao desatracamento, pelo bombeamento da água dos porões, arrumação de bagagens e acomodação dos passageiros.

Estes profissionais tinham tarefas inusitadas, em determinadas situações corriam risco de vida. Lembro-me de um caso que ocorreu em uma determinada lancha, numa daquelas noites “de breu”, com chuva torrencial e tempestade, no Canto do Lago, lugar usado como fundeadouro para esperar a maré e poder passar pela tenebrosa Malhadinha sem perigo de encalhar. As croas da Malhadinha são do tipo “areia movediça”. A maré de lua nova vazava e a correnteza era muito forte. O Canto do Lago era um lugar inóspito.

O rio era altamente caudaloso, barrento e ameaçador. Suas margens eram de barreiras altas e lamacentas cheias de galhos e troncos de mangueiros derrubados e arrancados violentamente pela ventania e pororoca. Mesmo assim, em cima das barreiras, ainda, resiste uma floresta esparsa; apesar dos lenhadores que naquela época, diariamente, derrubavam à base do machado os troncos mais frondosos e enchiam seus igarités ou barcos a vela ou motorizados para venderem à ULEM e aos depósitos de materiais de construção. Atrás desses mangueiros estendem-se imensos campos selvagens de capim-açu repletos de serpentes tipo: rabo seco e cascavel.

Em uma determinada madrugada, a escuridão era total, chuva torrencial, a ventania terrível jogava os vagalhões das águas barrentas do rio sobre a proa e convés balançando ameaçadoramente a lancha. Parecia um pesadelo. Não tinha quem ficasse dormindo numa hora dessa. Apesar do ronco do motor e da trovoada ouvia-se os estrondos assustadores dos trovões e os relâmpagos rasgando o céu de cima a baixo. Era imperioso fundear. Durante três ou quatro horas a lancha permaneceria ali até a maré passar e aumentar o volume de água no canal e seguir em direção à “Cidade”. As condições de manobra com todos esses fatores exigia muita perícia do marinheiro e do comandante. O mais grave, ainda, era o “peso d’água” muito forte.

Uma embarcação no meio de uma turbulência dessa, por mais segura e bem construída que fosse, virava uma frágil canoinha. Até mesmo fundeada, senão fora bem amarrada poderia ser arrastada pela correnteza com consequências imprevisíveis. Então, era necessário além do ferro (âncora) amarrar um cabo num mangueiro frondoso em cima da barreira com quase 6 metros de altura, lamacenta e escorregadia.

Nessa ocasião, o moço de convés de plantão era um sujeito forte, truculento, aguardava a lancha aproximar-se o máximo da barreira para pular com o cabo amarrado pela cintura enquanto que outro ficaria no convés para solecar o cabo até este conseguir dar o laço no mangueiro. Este tipo de tarefa exigia do operador algumas técnicas. Estes cabos, ainda, eram de manilha que além de grossos eram bastante pesados e principalmente molhados. Com todos estes ruído, não adiantava gritos ou quaisquer tipo de comunicação com o sujeito, a partir do momento que se atirava de convés abaixo para subir a barreira. Tudo isto, dependia, como guia, de um fraco facho de luz emitida por uma lanterna a pilha.

Pois bem, esse procedimento tinha que ser em frações de segundos, no escuro e com um “pragueiro” medonho. Eram aproximadamente duas horas da manhã. Por volta das sete, o Comandante manda levantar ferro e desamarrar a embarcação. O moço que subiu a barreira pra desamarrar, dá um grito de lá e exibe pra todos verem uma casável de mais de 2 metros morta e amassada ao meio. Com certeza, no escuro e rápido como relâmpago, o moço que amarrou de madrugada, laçou a serpente com mangueiro e tudo. Esse caso ficou famoso na região.

O Rio Pindaré possui múltiplos canais ao longo do seu leito de Cachoeira para baixo. Este tipo de rio, além de sofrer a influência das enchentes, da pororoca, erosão, assoreamento, em determinadas épocas do ano e de acordo com a variação lunar tem seu leito constantemente alterado.

O conhecer essa dinâmica e saber quando e para onde o canal foi deslocado era o principal item do curriculum de um Comandante.

Os Comandantes eram respeitados e tinham autoridade por onde passavam. Dentro da lancha sua autoridade não podia ser questionada. Sentava-se dentro da cabine de comando ao lado marinheiro e às vezes ouviam ou falavam com um ou outro passageiro.

O comandante era assim o único ser dentro daquela embarcação responsável por todas as vidas que ali estavam, por toda a mercadoria transportada e do patrimônio do patrão. Como disse antes, essas lanchas tinham calados medidos em palmos. De modo que variavam entre 4 a 6 palmos. Isto fazia uma tremenda diferença entre elas. Estas medidas definiam a capacidade de carga e tempo do percurso entre São Luís e outras cidades. Por exemplo: a lancha YARA carregava 900 em sacos de 60 kg de arroz, a NAZARÉ DE BELÉM 2.200 sacos. Entretanto, a NAZARÉ fazia 2 viagens, ida e volta entre os CANIVETES e SÃO LUÍS. Em 15 dias só para carregar e descarregar eram necessário 6 dias. A YARA levava 2 dias. Então, enquanto Yara fazia 10 viagens por mês, a NAZARÉ fazia 3 ou 4 viagens.

Belas Águas

Belas Águas

Autor João Carlos

Não é novidade minha paixão pelas músicas do confrade, amigo desde tempos pueris, vizinho, companheiro de brincadeiras, pescarias e profissão; cantor, compositor, artista plástico, Kléber Brito, a quem eu, em que pese o passar dos anos, insisto chamando de Kebinha, seu apelido de criança.

Sempre digo que suas canções, todas elas, são autênticos faróis, e sendo analisadas sob ângulos/matizes, servem para reportar, contar, extrair, resgatar, no âmbito sociológico, cultural e artístico grande parte da nossa infância.

Parece que, igualmente Caetano Veloso exaltou na encantadora “Sampa”, o cruzamento da rua Ipiranga e a avenida São João, em São Paulo; aquele quadrado mágico da esquina entre a rua Cel. Antônio Augusto Alves da Silva e a rua Dr Afonso Matos, em Matinha, exerce profundo poder inspirativo, dando a Kebinha uma onda de criação tão incontrolável quanto bela.

As reminiscências emanam em borbotões de versos e estrofes carregadas de saudade e poesia, e a cada obra nova, aparecem engendramentos de arte intensos, que só ratificam a sua genialidade. Eu mesmo ao escutá-las, faço com a certeza, de que o choro fluirá.

A última pérola desse artista admirável chama-se “BELAS ÁGUAS”, e tal qual as outras, emociona demais.

Tentarei neste texto uma avaliação, reflexão/hermenêutica, dessa composição. Faço sabedor que sob a ótica filosófica, essa análise nem deveria existir, pois a norma exige afastamento completo do objeto, a quem vai estudá-lo, para que seu juízo possua a necessária isenção; e quando se trata de Kebinha, meu sentido de equidade desaparece, sou seu fã de carteirinha. Parcial, na definição bem conceitual do termo.

A começar pelo título, Belas Águas, esta poesia musicada traz informações da Matinha de antigamente, que não obstante o passar do tempo, teima em permanecer intacta, nas nossas memórias.

Belas Águas, é um povoado distante da sede uns cinco quilômetros, que

sempre teve muita importância na história dos matinhenses.

De lá são duas das maiores lideranças políticas da cidade, o ex prefeito, Raimundo Silva Costa, cognominado Pixuta, e o doutor José Conceição Amaral.

Neste local situava-se o engenho de cana de açúcar de Costinha, irmão de Pixuta, último remanescente dos três que no passado, a terra das mangas, possuía, produzindo garapa, açúcar mascavo, e mel, mel de cana inigualável. Além da famosa cachaça que levava o nome da povoação.

Quando era a época de moagem, um número expressivo de moradores do município saía, quase em procissão, e a todo momento, trilhando o caminho, sob sol ou chuva, para adquirir aquilo que o engenho de açúcar fabricava, e um dos motivos da canção.

“Sobre a estrada funda/ cai chuva do céu/ lá na Belas Águas/ tão fazendo mel”. Primeira estrofe. Lembranças ecoam….

Praticamente todo o trajeto para o arraial, fazia-se numa estrada funda, desde a casa de seu Ozias, até chegar efetivamente no engenho. Essa “estrada funda”, eram barreiras, de um lado e outro, chegando em alguns locais a ter acima de dois metros.

Fazíamos o percurso de duas formas: Em não havendo chuvas, ou tendo pouca lama, por dentro da estrada. Quando o inverno apertava, caminhávamos sobre as barreiras, em vias alternativas, arriscando-se a todo momento, cortar ou furar os pés no capim, espinho de tucum, tocos.

Pegar um chuvisco na estrada funda, era sinônimo de intensa alegria, para nós garotos, pois proporcionava a possibilidade de podermos escorregar nos regos já existentes, que em função da água jorrando, tornavam-se em nossa lúdica imaginação, tobogãs.

Tantas e tantas vezes, pedíamos, ou mesmo em atos de desobediência, enquanto os adultos seguiam pelas trilhas em cima das barreiras, para irmos pelas fendas escorregadias da estrada funda, jogando e recebendo pedradas de bolas de barro, ou brincando com os seixos (pedra de trovão), que estavam no caminho

Mais à frente via-se o resultado: roupas enlameadas, repreensões, ralhamentos, algumas ocasiões até pitangadas, e sempre, alegria estampada nos rostos.

“O inverno é grande/ Cuidado meninos/ Que a água comprida/ Encobriu Faustino.” A segunda estrofe. Importantes informes…

O inverno está intenso, cuidado, não vão se afogar. Preocupação recorrente,

afinal, água não tem galho, dizem os mais velhos.

“Água comprida”, como era chamada aquela parte do igarapé açu, atravessava de um lado ao outro a estrada, e de acordo com o maior ou menor número de chuvas, espalhava-se tanto na horizontal, quanto na vertical, daí creio, o nome.

Interessante o modo de aferir a fundura desse rio da “água comprida”, nada de medições inócuas, ou outros métodos perigosos. “cuidado meninos/ a água comprida, já encobriu Faustino”.

E quem é esse personagem, essa referência de profundidade que qualquer matinhense, independentemente de idade, sexo, cor, ou condição social, já entendia aprioristicamente? Resposta: Antonio Faustino dos Santos, filho de seu Teodomiro e dona Diolinda.

Desde bem jovem quis ser motorista, foi também goleiro, vereador. Hoje possui um sítio no Jacarequara.

Mesmo tendo inúmeros atributos, uma coisa sobressaia-se nesse homem, a quem chamávamos de “Nhô Fosto”: sua altura. Faustino tem mais de dois metros de altura. Causava admiração a todos, quando ele descendo do carro de Juca Amaral, ou mesmo andando na rua, passava por nós.

Certa feita, mamãe me falava do quanto Deus é grande, e eu, devido a tenra idade, ainda sem entender ao que se referia, perguntei: – Mamãe, Deus é muito grande? E ela: – Sim, é enorme, grande demais. Eu inocentemente: – é maior que Faustino?

Era, portanto, natural a qualquer matinhense, ao ouvir a frase “já encobriu Faustino”, e alguns ainda faziam o adendo, “de braço pra cima”, entender que o inverno não tava pra brincadeiras.

“Gira maracujazinho/ Flor de geniparaneira/ Olha o redemoinho/ Tá por cima da barreira”. A terceira estrofe. Um giro de recordações…

Quando íamos pescar, ou mesmo tomar banho na água comprida, um espetáculo nos fascinava enormemente.

Devido as enchentes, quanto mais águas iam se acumulando no meio da estrada, havia a formação de redemoinhos. A enxurrada arrastava das profundezas do igarapé açu, maracujazinhos (maracujá do mato), bem como flores das geniparaneiras, que ficavam nas margens.

O encontro desses objetos com o torvelinho formado pela enchente, estabelecia um espetáculo ao mesmo tempo belo e perigoso, cheio de adrenalina.

Sabíamos do perigo presente, mas ao mesmo não conseguíamos nos desvencilhar do poder visual/emocional, sublime, que ele exercia sobre nós.

Ficávamos contraditoriamente fascinados, inebriados, “por cima da barreira”, os pés e os olhos molhados.

“Na volta a gente banha mais/ Se a vida é aventura/ A infância é moleca/ Litro preso na cintura/ Galho de espantar membeca” Quarta estrofe. Na volta…

Já foi dito que o tempo é relativo. Podemos passar horas satisfeitos, e pensar que são poucos minutos, como também alguns minutos de dor, podem parecer horas. Quando estávamos banhando nas tépidas termas da “água comprida”, a vida parava, perdíamos completamente a noção de espaço / tempo.

Era preciso uma chamada de alguém mais velho e responsável: “na volta a gente banha mais”, dizia carinhosamente Tchem ou papai, pra nós. Afinal a aventura ainda não acabara, nosso objetivo principal, chegar em Belas Águas, comprar mel, beber garapa, estava por se concretizar.

Subir na barreira, retomar a caminhada, era muito difícil. Mas a realidade se impunha.

E lá íamos nós, rumo ao engenho de Costinha, na cintura, amarrado por uma embira ou cipó, o litro pra trazer o mel de cana, e no cós da bermuda toda molhada, um galho de murta, pronto pra espantar as danadas das membecas, que acorriam em nuvens sobre nós, a fim de chupar nosso sangue.

Membeca ou mambeca, é um tipo de inseto hematófago, que vive atazanando, picando a pele, de quem andava por aquelas bandas. Se não for “espantada”, sua picada causa inchaço e dor…

“Daqui já se avista/ Fumaça no céu/ Lá na Belas Águas/ Tão fazendo mel…/ Fazendo mel…” Última estrofe. A apoteose….

Neste momento do texto, as lágrimas já rolam soltas. Não tem como não se emocionar com a lembrança daquela fumaça branquinha, subindo suavemente para céu, num contraste límpido, perfeito.

A sensação prazerosa do mel, da garapa, da cana in natura, descendo pelas nossas gargantas, já tomam conta do corpo e alma. Os últimos metros de distância são atingidos quase em desembalada carreira.

Enquanto o adulto que ia conosco “perdia tempo” cumprimentando ou tomando café na casa dos amigos, já estávamos adentrando as dependências do engenho.

Ali nos esbaldávamos. A apoteose da viagem estampava-se nos nossos rostos carregados de felicidade. Era o nirvana, o paraíso terrestre, o auge autêntico do bem-estar.

Obrigado Kebinha, por proporcionar através da tua arte, a possibilidade de poder mergulhar no passado, da infância saudosa que não nos sai do pensamento. Por resgatar frases/palavras já esquecidas do glossário dos tempos atuais.

Vocábulos como maracujazinho, geniparaneira, galho de espantar membeca, infância moleca, mel de cana…. etc. Revivem aquilo que nos faz ainda sobreviver. Amores de eras priscas. Saudades guardadas na alma das imorredouras crianças que fomos e somos.

Meu contemporâneo confrade, talvez não tenha noção do quanto suas músicas/poemas nos fazem bem. É muita nostalgia envolvida, amor descarregado, choro desandado. Lembranças revigoradas. No teu canto, caro amigo, somos imensamente felizes.

Discurso de saudação acadêmica: Kléber e Edleuza

Discurso de saudação acadêmica: Kléber e Edleuza

Autor João Carlos

Excelentíssimo senhor presidente Carlos Cesar Brito, em nome de quem saúdo a todas as confreiras e confrades da AMCAL, conterrâneas e conterrâneos, demais acadêmicas e acadêmicos aqui presentes.

Senhoras, senhores.

Recebi uma incumbência deveras difícil, mas ao mesmo tempo saborosa: fazer um discurso de saudação á confreira Edleuza Brito e ao confrade Luís Kléber, dois dignos representantes da nossa academia

Artigo: Discurso de saudação da acadêmica matinhense Edleuza Brito – Jailson MendesEdleuza Nere Brito Souza, cadeira nº 07, cujo patrono é o senhor Antônio Pedro Brito; Luís Kléber Furtado Brito, cadeira nº 18 patroneada por Miguel Penha Brito.

Edleuza Nere Brito Souza, nascida em 23 de outubro de 1961, na cidade Matinha. Membro fundadora da AMCAL, vice presidenta da atual diretoria. É graduada em Pedagogia pela UFMA, especialista em Didática Universitária, mestranda em Cultura e Sociedade, do Programa de Pós Graduação PGCULT/UFMA, professora do IFMA –    -membro do Núcleo de Estudo e Pesquisa em Tecnologias Educacionais, Neurociência e Afetividade – (GEP-TNA), da UEMA. Considera-se uma educadora em processo, portanto inacabada. Pretende na academia, contribuir com o desenvolvimento de ações/atividades que de algum modo colaborem com a melhoria de qualidade de vida dos seus conterrâneos.

Luís Kléber Furtado Brito, nascido em   07, de setembro de 1963. Bancário aposentado da CEF, declara-se um autodidata, compositor. Para mim é um poeta de mão cheia. Não perdendo pra muitos que existem por ai. Também não se acha cantor. Eu o avalio um excelente musicista, bem como notável pintor e artista plástico.

Suas canções são belíssimas, inesquecíveis, brilhantes. Quem de nós não já se pegou cantando a linda melodia “por isso eu canto e o meu canto é Matinha …” da sua música, canto para um canto? Ou então quem não se sentiu debaixo do cajueiro do mercado, “com seus ninhos de japi”, remoendo – se de inveja de João Dhiba, só ele, por ser o mais levado de todos nós, seus contemporâneos, ter conseguido subir, na canção cajueiro velho?

Eu e muitos matinhenses   choramos de emoção ao ouvir a sublime estrofe “tinha concertos de bichos, cachoeira cores mil. Beleza, força, magia, no mundo que rosa via e a ganância destruiu”, da maviosa Rosa triste. Quem não parou pra pensar na nossa vida de antanho ao ouvir “Brinco com folhas invento formas, conforme o vento e a sombra nos jiraus, guardo um espelho pendurado na pindoba, tomo meus banhos em poço de juçaral”, ou “o progresso tá chegando minha Matinha tá mudando, mas não muda o amor”, das meditativas Reflexões e Reencontro?

Velhos carnavais homenageia o símbolo maior da nossa terra, a manga, e nos emociona demais: “essa nossa fruta nobre, que satisfaz o paladar do rico e na escassez, mata a fome do pobre”

Paro por aqui…senão, talvez não consiga segurar o choro!

 QUEBRA DE PROTOCOLO:

EDILEUZA

Eu a conheço, desde de criança, como Edleuza de Nezico e Francisquinha.

A imagem mais antiga que tenho dela? Sentada num sofá comendo, creio que manga, a boca toda suja, numa das visitas que Tchem (Ana Rita), fazia a sua mãe dona Francisca, num dos seus muitos partos.

Sempre foi inteligente. Liamos muitas revistinhas na infância.  Estudamos juntos no ginásio Bandeirante. Depois ela mudou-se pra Vitoria do Mearim. Perdemos o contato.

KEBINHA

Pra mim ele sempre foi Kebinha…mesmo grandão, é assim que eu o chamo até hoje.

É muito difícil falar de alguém que gostamos e admiramos. A filosofia diz que é necessário nos afastarmos do objeto para fazermos uma avaliação isenta. Com Kebinha será impossível.  Nós sempre estivemos juntos. Nossa amizade ultrapassa meio século.

A imagem mais antiga que eu tenho dele? É uma lembrança que remonta os meus quatro ou cinco anos de idade, e vem por incrível que pareça, não no sentido da visão, mas na memória olfativa. Ainda sinto o cheiro do talco que Dondona, como todos chamávamos sua mãe, passava nele.

 Não teria tempo para falar das peripécias que vivemos, foram muitas, eu diria dezenas ou centenas.

Quando chegava o dia 7 de setembro, data consagrada pra comemorar a independência do Brasil, três coisas eu sabia que aconteceriam: teria desfile, eu largaria o desfile depois de uma hora debaixo do sol quente, e me empanturraria de bolo e refrigerantes, no aniversario dele

  • Pescamos jandiás, piabas, bagrinhos, de dia, de noite;
  • Íamos pra Santa Maria, Bom Jesus, Belas Aguas, com Tchem;
  • Secávamos poça, vendíamos tucum…
  • Armávamos garapucas, tirávamos bicho de tucum;
  • Jogávamos pião, bolinha de vidro, china;
  • Líamos e trocávamos revistinhas;
  • Comíamos, peruana, ginja, goiaba, cajá, seriguela;
  • Íamos pro Mangal comer manga, bacuri, jambolão;
  • Viemos pra São Luís quase ao mesmo tempo;
  • Ia visitá-lo na casa de padre Sidney. Na Jansen Miller;
  • Viramos bancários quase ao mesmo tempo;
  • Fomos da diretoria Sindicato dos Bancários;

 Ele é o craque do nosso time. Todo time tem seu Zico. Ele é nosso Maradona. Nosso Pelé.

Para encerrar: farei a saudação não de modo convencional, usual. Reverenciarei aos nossos imortais com a eterna louvação, que tornou famoso o personagem senhor Spock, um hibrido de vulcano e terráquea, protagonizado por Leonard Nimoy, na série Jornada nas Estrelas, a original, cuja filosofia ´de vida era pautada na lógica e na inteligência. Inspiração bem adequada para o momento.

VIDA LONGA, E PRÓSPERA, confreira Edleuza Nere Brito Sousa, Edleuza de Nezico e Francisquinha, e confrade Luís Kleber Furtado Brito, Kebinha de Miguel Brito e Dondona.

Eu perdi o padrinho Sebastião Furtado

Eu perdi o padrinho Sebastião Furtado

Autor Nonato Reis*

Uma semana depois do falecimento da Madrinha Cici, foi a vez de o padrinho Sebastião Furtado fazer o mesmo caminho do plano celestial. Desnecessário dizer o quanto isso me afeta. O padrinho faz parte da minha infância e de toda a minha vida, como a seiva que percorre o caule e as folhas da árvore. Reproduzo aqui a crônica que lhe fiz para o livro A Fazenda Bacazinho, que mostra a sua importância para o Ibacazinho e também para Viana.

SEBASTIÃO FURTADO, A ANDORINHA QUE VEZ VERÃO

Dizem, e isso vem da Grécia antiga, que uma andorinha só não faz verão. Sebastião da Silva Furtado, hoje com 85 anos, pregou esse postulado de Aristóteles e o refez. Agindo solitariamente, confiando apenas na força dos seus princípios, fez história em Viana. Numa época em que a voz que se ouvia era a dos quartéis e a lei que pairava sobre todos era a dos fuzis, ele deu as costas para o regime, elegeu-se vereador por dois mandatos, tornou-se presidente da Câmara Municipal e quase chegou lá, como prefeito da cidade.

Os anos 50 foram difíceis. Perplexo, o país assistiu ao suicídio de Getúlio Vargas. No Maranhão, São Luís foi palco de uma greve política sangrenta, que tentou impedir a posse do governador Eugênio Barros, eleito por força de um processo eleitoral viciado. A Baixada Maranhense padeceu com a pior estiagem de todos os tempos. Em Viana, o Igarapé do Engenho, então perene e abundante, secou e o seu leito virou estrada de carro de boi.

É nesse ambiente conturbado que o jovem Sebastião começa a escrever os capítulos mais importantes de sua vida. Conhece Ceciliana, então menina de 16 anos, e com ela decide trocar alianças. ‘Raptou’ a garota e a levou para a casa de um parente. À noite, o dono da casa tentou colocar o casal em quartos separados. Sebastião reagiu. “Eu não roubei mulher para dormir sozinho”. Pegou a moça e a levou para a casa dos pais dele que, a contragosto, tiveram que “engolir” a decisão do filho.

Trabalhou duro com o pai na roça e na pequena criação de gado. Um dia o padre Manoel Arouche, vigário de Viana, chamou Antoninho Furtado, pai de Sebastião, e fez-lhe o convite. Queria que ele cuidasse do gado da Santa (sim, nessa época, Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Viana, era uma das maiores fazendeiras da região).

Antoninho chamou o filho e disse que só aceitaria a proposta, se ele o ajudasse. Sebastião coçou a cabeça, não tinha nada a perder. “Pai, se outros toparam, por que a gente vai desistir? A gente encara e mostra que sabe fazer”. Vaqueiro da Santa, ganhou visibilidade. Em pouco tempo tornou-se presidente da Associação dos Criadores do Município.

Ele tinha um açougue no mercado municipal. O lugar era uma bagunça. O tráfico de influência predominava. Quase nunca sobrava carne para os pobres. O prefeito Lino Lopes baixou portaria regulamentando a venda do produto. Todos teriam que obedecer à ordem de chegada. Um emissário do prefeito foi direto ao balcão. Queria quatro postas de carne. “O senhor vá para a fila”, advertiu Sebastião com sua voz grave e decidida. O emissário resistiu. Estava ali a mando do prefeito, não podia ir para a fila. “Por representar o prefeito o senhor devia ser o primeiro a obedecer à ordem dele. Ou o senhor entra na fila ou não lhe atendo”.

Dom Hélio de Campos chegara a Viana para chefiar a diocese local, substituindo a Dom Hamleto de Angelis. De visão política progressista, líder por vocação, Dom Hélio percebeu o isolamento da cidade do resto do Estado. A única ligação com São Luís era feita por via marítima, em lanchas que transportavam desde manufaturas a animais e gente. As viagens eram longas e perigosas.

Dom Hélio entendeu que era preciso construir uma estrada de rodagem ligando Viana a Arari. Deu início então a uma luta inglória, que o levaria diversas vezes a São Luís e Brasília, tentando convencer as autoridades a mandar construir a estrada. Mobilizou as entidades de classe e o povo. Foi como atear fogo em canavial.

De pronto recebeu o apoio de Sebastião Furtado, então líder classista rural, e também do padre Eider Furtado, tio de Sebastião e adepto da Teoria da Libertação. “A gente começou a entupir a mesa do ministro Mário Andreazza (Transportes) de telegramas, cobrando a licitação da estrada”. Ele deve ter ficado zonzo com tanta aporrinhação”.

Dom Hélio foi a Brasília. Na Base Aérea encontrou com José Sarney e pediu-lhe apoio, que o negou. “Sarney disse que o projeto não era viável, que a Baixada era uma região pobre”. Dom Hélio não desistiu, percorreu a esplanada dos ministérios, solicitou audiências. Em São Luís pediu o apoio do governador da época, que também o negou. A luta prosseguiu até que o Estado, vencido, decidiu abrir licitação e assinar a ordem de serviço.

À frente de uma comissão, Sebastião Furtado veio a São Luís assistir ao desfecho do processo licitatório no DER/MA. O grupo se alojou no Seminário Santo Antônio, onde confeccionou faixas e cartazes. Na volta a Viana, encontraram a cidade em festa. Uma multidão retirou Sebastião do ônibus e o carregou nos braços, agradecida. “Foi uma emoção enorme. Jamais esqueci”.

A conquista da rodovia deu-lhe visibilidade. Em 1972 Dom Hélio o chamou para comunicar que ele seria o candidato da Igreja e dos trabalhadores rurais à Câmara Municipal. “Mas como? Eu não entendo nada desse negócio de política!”. A decisão estava tomada. A igreja jamais se envolveu abertamente na campanha, mas ele recebeu o apoio em massa do sindicato de trabalhadores rurais e, concorrendo pelo MDB, elegeu-se único vereador de oposição.

Começava a jornada solitária da água contra o rochedo. Combateu a gestão de Walber Duailibe do começo ao fim. Na Câmara, que tinha 9 vereadores, o placar a favor do prefeito era vergonhoso: 8 a 1. Mesmo assim, articulou e conseguiu o cargo de secretário geral da Mesa, que na hierarquia do parlamento é o segundo em importância.

Seu primeiro projeto restabeleceu a dignidade da Câmara, ao transferir a sede do Parlamento, alojada no prédio da prefeitura, para outro imóvel. “Era um absurdo a Câmara funcionar ao lado do gabinete do prefeito, como um biombo”. O prefeito não queria o projeto, mas Sebastião, mesmo sozinho, articulou com os colegas de ofício e sua proposição foi aprovada por unanimidade.

Também apresentou projetos para a construção de escolas em duas localidades. O prefeito, dessa vez, agiu rápido e a Câmara rejeitou as matérias. Sebastião não se deu por vencido. Fez reuniões com as comunidades beneficiadas pelos projetos e, em sistema de mutirão, ergueu as duas escolas em barro e palhas de babaçu. Os salários dos professores pagava com recursos próprios, isso numa época em que os vereadores não possuíam remuneração.

Em 1976 concorreu à reeleição e ganhou. Na hora de montar a chapa da Mesa Diretora, aplicou um golpe de mestre. Havia dois grupos com igual número de vereadores disputando a presidência, um ligado ao prefeito eleito e o outro, ao candidato derrotado. Era o fiel da balança. Para qualquer lado que pendesse, levaria a eleição. Foi assediado pelos dois grupos e para todos repetiu a mesma história: seria candidato de si mesmo. Na última hora o prefeito o procurou e aceitou que figurasse na cabeça da chapa. Tornou-se assim presidente da Câmara, sem pertencer a grupo algum.

Era o tempo das baionetas e o verde-oliva metia medo. Um dia recebeu a visita de um coronal do Exército, que veio de Fortaleza com a missão de fazer aprovar um projeto de interesse do bispo Dom Adalberto. Sem meias palavras ordenou que Sebastião aprovasse a matéria. “Quem aprova ou rejeita são os vereadores, não o presidente”. O militar não quis saber, queria o projeto aprovado por ele e ponto. “Então o senhor faça aprovar um projeto que dê essa prerrogativa ao presidente”, rebateu.

Em 1982, lançou-se candidato a prefeito, enfrentando duas forças exponenciais. Teve quase 3.000 votos. O eleito recebeu pouco mais de 4.000. “Perdi porque não tinha apoio político nem material, mas o povo me apoiou”. Deixou a política e foi cuidar da vida. No dia em que completou 80 anos, comemorou a data ao lado da família e dos amigos. Eu quis saber o que passa pela cabeça de quem chega a essa idade, lúcido e admirado. “Dá vontade de ser eterno, de gozar a vida e jamais morrer”. A história tem a capacidade de imortalizar seus personagens.

* Nonato Reis é natural de Viana. Jornalista, poeta e escritor. Foi correspondente em São Luís da Folha de São Paulo em 1993 e colunista do Jornal Pequeno, no período de 2011 a 2017.

Obra CRÔNICAS DE ANAJATUBA de Mauro Rêgo

Obra CRÔNICAS DE ANAJATUBA de Mauro Rêgo
Encontra-se à venda na Livraria AMEI no São Luís Shopping o livro do baixadeiro Mauro Rêgo, conforme postagem no Facebook:
“As crônicas de Anajatuba – um livro que retrata muito bem a história, os acontecimentos, aquilo que foi vivido nesse lugar encantado de sua gente, costumes, tradições.
É o próprio Mauro Rêgo quem nos diz:
“Eu falo do campo. Dos espíritos que povoam a imaginação dos homens da baixada; falo das almas penadas que moram sob as águas dos igarapés e nas enseadas verdes; falo das luzes caminheiro que partem do campo e percorrem as ruas da cidade; falo do aboio dos vaqueiros, do canto dos pescadores, da magia do peixe apanhado de anzol. Falo das nossas crendices, do rufar dos tambores do Divino subindo a encosta dos morros, da dança ancestral do tambor de
São Benedito…”
À venda por apenas R$40,00. 📌
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Pedidos – whatsapp: 98-982832560″.
Pode ser uma imagem de livro e texto que diz "IEGASEDITORA As CRÔNICAS DE ANAJATUBA MAURORÊGO MAURO"
 
 

Lembranças, lembranças, eternas lembranças

Lembranças, lembranças, eternas lembranças

Autor João Carlos

Ouvir o CD “Canto para um Canto” de autoria do meu amigo de infância Luís Kleber, Kebinha, é como viajar numa máquina do tempo, num retorno aos áureos tempos, tempos de beleza, amizade, brincadeiras, sonhos, um retorno não só possível, mas principalmente, desejado, almejado ardentemente de coração. As músicas cantadas na maviosa voz de Torlene, nas surpreendentes vozes de Alinson, (Lalá-), e Marcelo, junto com um extraordinário arranjo, deram o exato tom intimista, necessário ás grandes obras. Não deixando, na minha modesta opinião, a desejar para quaisquer outras composições da MPB ou MPM. – Música Popular Maranhense-.

Embora falando de uma cidadezinha ignara nos confins da Baixada Maranhense, o disco não se torna piegas, provinciano, pelo contrário, universaliza os tons, as letras, mais ou menos, guardando as proporções, como o filósofo Imanuel Kant, que sem sair da pequena Konisberg, encravada na região portuária da Prússia, tornou sua obra universal, ou Luís Gonzaga, Geraldo Azevedo, Elomar Filgueiras, Xangai, Cora Coralina, dentre outros tantos, que também fizeram o mesmo.

E as lembranças fluem graciosas, nos elegantes versos. Rememoramos o canto de seu Miguel, tio Ademar, Juca Amaral, mamãe; uma esquina da Rua Cel Antonio Augusto com rua Dr Afonso Matos, que ficará para sempre em nossos corações, como as ruas que brincávamos, banhávamos na chuva, sem nenhuma preocupação.

Quem se esquece do cajueiro do mercado, imponente, majestoso, de João Djiba, e suas inúmeras traquinices?; Ou do banho na baixa de Grijosto, e a consequente surra ao chegar em casa, coberto de lodo e de satisfação ? O papagaio suro, com cerol na linha, que tão felizes pegávamos para brincar? Correndo esbaforidos, os joelhos arranhados e os pés cheios de espinho?

Quem sabe uma vida feliz, ditosa, não seria com uma rosa no dedo, nos contando e até lembrando coisas belas da sua vida nas matas, que o homem de forma inexplicável e maldosa luta para acabar? Talvez num espelho em um banheiro de pindoba? Num banho de poço no juçaral?

João Carlos

A verdadeira felicidade não estaria em comer um caroço de pequi, daqueles carnudos lá de Meia Légua, Aquiri, Belas Águas? Ou ainda nos bagres pescados nos igarapés, da Rosa Maxixe, de Buranga, Quebra bunda, com bicho de tucum? Triste realidade a que estamos expostos, contradiz tudo que aprendemos, a infância, o amor a velha Matinha, que mesmo nessa realidade tenebrosa, insiste em ainda se manter nas lembranças que são imorredouras.

Kebinha de modo incisivo e autêntico, nos faz esses questionamentos, ficamos então, ao término das canções, com a sensação de que o progresso, do modo como vem sendo desenvolvido e utilizado, está tirando toda a magia, deixando um débito muito grande com a humanidade, a sociedade, as pessoas. E mais uma vez evocando a filosofia, relembro Rousseau, e seus conceitos sobre a natureza do homem e os percalços ao qual está sujeita.

Fica então uma certeza: ser feliz, feliz de verdade, de modo pleno e absoluto, talvez só voltando a Matinha de antanho, num regresso aos tempos de menino, de conversas nos fundos dos quintais, revivendo velhos tempos, as belezas dos antigos carnavais, comendo manga com farinha até lambuzar o nariz.

Beco, um matinhense das antigas

Autor João Carlos

Quando do lançamento do CD de Kleber, “Canto para um canto”, tive oportunidade de rever um cara que povoou minha infância e adolescência, um homem acima do seu tempo, verdadeiro desbravador, referencia em audácia pra minha geração, Beco de Maria Carneiro, o Dias, como é conhecido em São Luís.

Beco é aquela pessoa que nos faz voltar à Matinha do passado. Saiu de lá a quase quarenta anos atrás, sua mente ainda pensa e vive naqueles tempos. De memórias gostosas, ainda não confundidas pela modernidade que assola nossa cidade. Dotado de uma sensibilidade marcante, nos recebeu gentilmente em sua residência, que mais parece um museu, com as paredes entupidas de quadros, fazendo-me lembrar o livro que atualmente estou lendo, de Chico Buarque de Holanda, “O Irmão Alemão”, onde o autor, escreve que na sua casa, “as paredes eram feitas de livros”. Na casa de Beco tudo respira cultura, arte, retorno ao passado, lembranças.

Recordo-me bem de quando morava em Matinha. Tenho marcado o dia em que inventou uma nova forma de vender bananas: cantando a plenos pulmões aquela musica de Jorge Benjor, que fazia muito sucesso, “Olha a banana, olha o bananeiro”; ou então um inesquecível desfile de moçoilas vestindo biquínis,- um verdadeiro atentado ao pudor para aquela época-, em que ele era o mestre de cerimônias, sem nenhuma cerimônia.

Conversar com ele, além de agradável aos sentidos, é uma volta as pescarias no igarapé de Zezé Veloso; uma ida ao mangal e o palmeiral de Maria Teixeira; o refresco de Flávio Penha; as peladas no campo do Machado; as viagens na lancha de Benedito de Osvaldo, no porto de Canem; os cambos de peixes vendidos por Xuxeta e Valério; as tapagens na Enseada da Mata. Eu poderia ficar horas enumerando fatos e passagens daquele espaço geográfico e temporal, onde Beco morava que nós chamamos de forma jocosa e talvez até um pouco preconceituosa de “lá em baixo”.

Hoje vive em são Luís, mantém um ateliê de reforma de móveis, engrandecendo nossa terra com sua insuperável técnica e beleza na recuperação de quaisquer tipos de sofá, cadeiras, ou outra modalidade. Estando já acima dos 50 anos, – idade em que Platão diz: a sabedoria acontece melhor, e outro filósofo, menos conhecido, o Reverendo Valdir Mariano, diz que já podemos falar o que quisermos, sem medo de chocar os outros-, Beco desfila doxas sobre tudo. Ficou encantado com esse projeto de tentarmos reunir conterrâneos, que estamos querendo colocar em prática, dispondo-se imediatamente a elaborar ideias e devaneios para abrilhantar novos encontros, já fazendo planos para todos juntos, fazermos um piquenique, daqueles de antigamente.

Enfim, conviver com Beco, dá-nos a sensação de estarmos ao lado de alguém rico em conhecimento, e que só nos traz sentimentos belos e saudáveis, capazes de renovar ou emergir reminiscências que aquecem nossa alma, inesquecíveis recordações da nossa querida Matinha.

Parabéns… Matinha querida

Autor César Brito*

Muitos se foram, outros tantos estão por chegar, todos, iremos passar, nesta terra gloriosa. vidas vividas, sonhos sonhados, tristezas, alegrias, noites vazias. doces recordações, eternas lembranças.

As palmas das mãos unidas com que eu rezava, eram as mesmas com que bebia a água da fonte.

Água da fonte…

Lembrar tuas águas é lavar minha alma…

Os filhos que de longe pensam em ti, pois, não seguem sem pensar, trazem no peito a vontade de voltar.

Tua gente é mais forte no calor do teu solo, na paz dos teus braços, no aconchego do teu colo.

Como cegos vagando numa dura caminhada, vão construindo com o tempo perdido, horizontes e fronteiras, premissa do que é nosso dever, fardo de ilusão, medo da solidão, realização ou mesmo, frustração.

Despercebida passa tua sutil gratidão, teu afago fraterno no orvalho das manhãs, a benção de poder acordar e levantar com o brilho do sol, olhar no alto das palmeiras, samambaias, periquito jandaia, ouvir o badalar das palhas, respirar ar puro, contemplar o reflexo dourado da lua no espelho das águas.

Obrigado mãe gentil, paz, luz e bênçãos.

Aos teus dirigentes, serenidade, sabedoria, desapego da vaidade, ética, comprometimento com a cidade, só assim, teremos progresso e prosperidade, educação, cultura e igualdade.

Abençoada seja, querida matinha.

Vamos festejar com alegria neste sublime dia, brilhos, cores, desfiles, esperança, rojões e felicitações, com harmonia e união em homenagem a nossa terra adorada, merecedora de uma bela e calorosa alvorada.

Parabéns Matinha, parabéns povo matinhense.

MATINHA FOI EMANCIPADA EM 31/12/1948 ATRAVÉS DA LEI 267/48 – (MARCO DA FUNDAÇÃO); 15/02/1949 – DATA DA CONSOLIDAÇÃO E INSTALAÇÃO DO MUNICÍPIO DE MATINHA (ANIVERSÁRIO).

MATINHA, TERRA ENCANTADA

Autor CésarBritoImagem de Internet

Guardiana

Nas águas do Piraí…

Luar de prata, índios se abrigam lá na mata,

Desbravadores viajantes se encantam com a beleza,

Dessa terra verdejante, lindos campos, Cacoal e exuberante mangal;

Mata frondosa, paparaúba, ingá, cajá, bacuri, bacurizinho, goiaba araçá,

Terra gloriosa, caneleira, Axixá, sumaúma, Ervacidreira, jatobá,

Mata nativa, mata formosa, Enseada da Mata, mata, Matinha,

Subia o Genipaí a tribo dos Criviris, sob as águas do Caiada descansa Jaibara, sombra, água fresca, cachaça tiquira e juçara;

Caboclo meche a farinha com suor e alegria, parcela que teve o negro, com trabalho e devoção, importante integrante dessa miscigenação,

Levanta Santa Maria, o melaço belo dia, Vida doce, que alegria,

Esperança e Boa Fé abençoa Frei Antônio o Engenho Nazaré,

Enseada Grande no Lago Aquiri, tudo é lindo por aqui, capim boiador, agapéua, língua de vaca, pajé, orelha de veado, brilha arroz do campo, Balcedo, espelho d’água que encanto, espia o rosto mãe Iara, Reforma, Jacarequara, Sembal, Os Paulos, Charalamba, Cotias, Curral de Vara, São José dos Araras e também Ponta da Capivara,

Em São José de Bruno tem Felicidade, Antônio Augusto que saudade, meu padrinho sua benção, que Deus te guarde nessa nova dimensão.

Poucos lembram de Osmundo e Marco Camaleão, da passagem de um rio, muitas águas no grotão, resta ainda uma ponte que um dia foi passagem, no tempo uma viagem, para aqueles que ainda lembram, apenas recordação, pois a mata recobriu onde foi habitação,

Meia Légua, Malhada Grande, Caminho do fio, em Cafusa é beira campo e Roque ainda tem peixe e bastante algodão do campo, por lá canta bem-te-vi, bico de brasa, Curica e Bico de Ferro, menino, pé no chão, pé de moleque, pé de chinelo, saliva doce caramelo, sobe a Rampa dos Meireles até o alto da pedra, Monte Cristo, suplica meu Bom Jesus, Graças, Aleluia, Azevedo, Salva Terra agricultor, boa safra está por vir, te apega a Santa Rita, Santa Tereza, São Francisco, Contenda, esperança e Bom Fim, Valei-me meu Santo Antônio, São Raimundo, São Caetano, abençoa quem aqui está, quem já esteve e quem está por vir,

Ponta Grossa de Baiardo, Campinas, Coroatá, Nova Brasília, Cabaceira, Preguiças, Roma e Mendonça e até Ponta do Chá, Olho D’água, Palestina, Enseada do Cajá, Belas Águas, Santaninha que lugar,

Ilha Bela, Ilha Verde, São Rufo, Tronco, Primavera, Rodrigues, Ilha do meio, tem também, São José dos Gaspar,

Galego, Simeão, Jacuíca, Itapera e João Luís, “êta” povo feliz,

Do Chulanga, Tanque, Caranguejo, Vilinha ao Itãns, são famílias coirmãs, tios, tias, irmãos, irmãs, boiadeiros, doutor, agricultor, pescadores e tecelãs, formam o misto de um povo, alegre e hospitaleiro, deste lindo pedaço de chão do nordeste brasileiro, olhos presos no futuro, consciente do esplendor, denota satisfação a sua consecução, olhos voltados pra beleza, ouvidos musicais, criativo com a arte, alegria nos carnavais, felicidade pelo ar, sob a sombra dos mangais, por amar e ser amado, alegria de viver, nos realça o prazer desta terra conhecer como surgiu como vai ser, assentadas por escrito e nas mentes dos antigos, testemunhas dessa história, registrada nos anais. Só peço a São Felipe, Santa Isabel, Santa Vitória, que proteja esse povo, suas águas, nascentes e mananciais, suas matas, sítios e mangais, mãe natureza agradece esses filtros naturais, consciência e atitude, é o que falta pra essa gente, olhos firmes para frente, coração cheio de amor e um rosto sorridente, respeitar a natureza é premissa de quem sabe o que é bom pra se viver em paz e harmonia como um simples passa tempo, nesta terra encantada, neste solo matinhense da baixada maranhense.

PADRE GUIDO: um homem digno de Palmas

Autor João Carlos

Estávamos na segunda metade da década de 60. O mundo vivia um turbilhão de mudanças: a guerra fria entre os Estados Unidos da América, e URSS – União das Republicas Socialistas Soviéticas-, além do conflito bélico no Vietnam, mostrava uma nova face, o controle do espaço; na China, Mao Tse Tung, instituía a Revolução Cultural; Beatles e Rolling Stones, estavam no seu auge; o modo hippie de viver era a grande discussão na sociedade, vivíamos a época dos grandes movimentos libertários.

No Brasil, os anos de chumbo, instaurados com a deposição de João Goulart, e iniciando a sequência de generais na presidência, traziam o terror para estudantes, artistas/intelectuais, políticos de esquerda e trabalhadores. Foram proibidas as eleições diretas para presidente, governadores e prefeitos das capitais. O lema da nação era, “Brasil, ame-o ou deixe-o”.  

No Maranhão, começava o governo de um jovem intelectual, chamado José Sarney, que vencera a eleição, se dizendo a novidade, contra as velhas oligarquias, representadas por Vitorino Freire.

Em Matinha, o novo também apareceria, após duas derrotas para o grupo adversário, os Silva Costa, ascendem à prefeitura da cidade, que fora emancipada em 1948, representando a oposição, o dr. Francisco das Chagas Araújo.

Nesse cenário, chega a terra das mangas, cidade ainda moçoila, um jovem padre italiano, homem moldado e enviado por Deus, para pastorear a paróquia de São Sebastião, filiada à diocese de Viana, o Pe. Guido Palmas.

Nascido na cidade de Segariu, região da Sardenha – Itália, o nosso querido pároco tomou posse, no ano de 1967, ficando até 1973, quando por motivos pessoais teve que voltar a sua terra natal, deixando para o povo matinhense muita saudade, carinho, respeito e admiração.

Mesclando oração e ação, Pe. Guido protagonizou episódios e atos que foram e continuam sendo essenciais, em diversos aspectos, como por exemplo, educação, trabalho, moradia, transportes, etc., não só para Matinha hodierna, mas com reflexos em toda a Baixada Maranhense.

Possuidor de invulgar conhecimento do processo civilizatório, este humanista, tornou–se padre em julho de 1954; foi vigário das paróquias San Jorge Martir, em Quartucciu, Sardenha, de 1954 a 1959; de S. Elia em Cagliari, de 1959 a 1963, e ainda, de Santa Barbara, em Sinnai de 1963 a 1967.

Chega ao Brasil, em 1967, numa remota cidadezinha, do interior do Maranhão, um estado paupérrimo do nordeste, onde a carência grassava em todos os fundamentos, exatamente para cumprir com a missão que lhe fora ordenada pela igreja, “Fidei Donum”, para missões em continentes mais pobres.

Buscou, logo após sua posse, juntar na forma da cruz de Cristo, a verticalidade do amor ágape, a Deus; com a horizontalidade do amor philia, aos seres humanos; independentemente do seu credo. E pôs as mãos no arado.

A história perpetua então, registrados pelo livro Paróquia de São Sebastião em Matinha: “50 e mais anos da história da nossa fé”, muitas das ações desse missionário europeu em terras do Maranhão, que eu tentarei resumir, mas que sei, tenho certeza, não conseguirei, pois foram superabundantes as atividades, os serviços, as peripécias, protagonizadas por este homem, o italiano Pe. Guido Palmas, (perdoem a redundância), digno de ser homenageado com palmas, milhares de palmas.

Seu batismo nas tarefas   pastorais (segundo relato das professoras Maria Vitoria França Nunes, Maria do Socorro Neves Silva, Marly Silva Neves e Euzébia Silva Costa), deu-se com os festejos de São Raimundo Nonato; a partir desse ato desdobrou-se dia a dia, numa memorável e profícua campanha em prol da terra e região que fora escolhida para trabalhar.

Criação, com apoio do prefeito de Matinha, do Jardim de Infância São Sebastião; visitas as comunidades de Sacaitaua, São Rufo e João Luís; reforma e ampliação da igreja matriz; escolha para diretor do Ginásio Bandeirantes, criado pelo governo estadual, até então um sonho para os matinhenses, que desejavam continuar seus estudos do ginasial, sem sair cidade.

Primeiro encontro de catequistas dos povoados Coroatá, Itans, Boa Fé, São Felipe, Aquiri e Piriaí; realização da procissão de Corpus Cristi; instalação com a ajuda de sua irmã Bruna, da disciplina Técnicas Agrícolas, objetivando que cada aluno do recém criado Ginásio, confeccionasse uma horta caseira; além da instalação de um laboratório na referida escola.

Eu ainda lembro, embora pequeno, mas já curioso, o meu olhar espantado, ante as novidades das provetas e utensílios do laboratório, bem como a visão de legumes alienígenas até então pra mim, e toda a Matinha, como berinjelas e pepinos de metro, introduzidos e cultivados nas referidas hortas.

Os fatos elencados, só reafirmam, corroboram, a visão progressista, social e vinculada aos menos favorecidos, que este italiano, proveniente de um mundo diferente, com parâmetros de desenvolvimento bem acima do que agora tomava contato, operacionalizou para o cumprimento da sua honrosa missão.

Campanha para a criação da escola “João de Barro”, projeto do governo estadual, em Matinha; efetivação de um internato para que jovens de baixa renda, oriundos  dos povoados, pudessem  estudar em escolas da sede; organização de cursos através da paróquia, visando que rapazes e moças  entrassem no mercado de trabalho; construção da casa chamada Fraternidade, para que  catequistas pudessem ter uma melhor formação; incentivo à construção de cemitérios nos povoados, permitindo  que entes queridos pudessem ser sepultados mais próximo dos familiares.

De todos estes atos, outros três eu considero como fundamentais para a realidade do nosso povo, de notável e duradoura repercussão para o futuro, colocando o Pe. Guido na categoria não só de um fervoroso homem de Deus, como também de um visionário, uma pessoa de percepção além do seu tempo.

Sua articulação em conjunto com Dom Hélio,  na construção da estrada Viana-Arari,  um embrião do que hoje denominamos  MA 014; o estimulo à edificação de casas para famílias de baixa ou nenhuma  renda, efetuando  convênios com entidades italianas, proporcionando a estes,  habitações dignas; e por último a ajuda na criação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais  de Matinha, uma entidade que serviu  e ainda hoje auxilia a defesa dos trabalhadores rurais na sua luta por melhores condições de vida.

Este é apenas um pequeno resumo da belíssima e enobrecedora história deste digno pastor, sua trajetória entre nós, e o quanto fez pela cidade e povo de Matinha.

Queremos portanto, desejar vida longa ao Padre Guido Palmas, confrade com muito orgulho na Academia Matinhense de Ciências, Artes e Letras (AMCAL), onde ocupa a cadeira de número 20, patroneada por Raimunda Ferreira Silva.  Que a sua vida e obras sejam pra sempre amadas e valorizadas, e as bênçãos de Deus se derramem sobre ele e seu profícuo ministério.

Palmas, intensas e copiosas palmas, ao pe. Guido Palmas.