Luiz Figueiredo

Em 13 de janeiro de 2019 8:13

Luiz Figueiredo

É natural de São João Batista (MA), graduado em Ciências da Administração. Foi vereador e prefeito de São João Batista, presidente do Escritório Técnico de Administração Municipal (ETAM) e funcionário do Banco do Brasil. É presidente da Fundação Chiquinho Figueiredo, Diretor da Rádio Beira Campo e empresário da construção civil. Cronista do Livro Ecos da Baixada.

Biscoitos recheados

Em 11 de abril de 2018 1:05

Neste início do mês de julho, fui a um grande supermercado em São Luís, onde moro atualmente, para fazer as compras mensais como de costume. Em minha solidão, empurrando o carrinho, fui pensando nas coisas que tanto me encantavam quando era criança, como por exemplo, biscoitos recheados. Em minha casa, era motivo de briga, sim – brigávamos e mamãe sempre era a juíza, e dava o veredicto: “no próximo mês, não trago mais!”. Isso era suficiente para cessar as picuinhas, afinal, ninguém queria correr o risco.

Isso era lá pelo final da década de 90, no início dos anos 2000. Mamãe ainda era professora contratada; nessa época, era incerto receber o salário em dia – às vezes passava de três a quatro meses sem receber um centavo sequer. Quantas e quantas vezes ela saía de casa junto com outros funcionários para ir em busca de seu salário de madrugada, a pé ou de canoa até o povoado Jeniparana para então pegar o caminhão (pau-de-arara) até a sede e voltava sem nada! Esse trajeto tinha de ser em grupo, pois havia uma parte da estrada que acreditavam ser mal assombrada, e ninguém corria o risco de passar sozinho por lá. Somente depois do concurso público em 1997 é que um homem que morava na sede da cidade, chamado Bambu, começou a ir até pontal no caminhão. Como a estrada era muito ruim naquela época, não era difícil os passageiros terem que descer do caminhão para empurrá-lo, pois vez ou outra atolava.

Papai sempre saía para trabalhar e meu irmão mais velho assumia o comando da casa. A nossa casa era bem simples, feita de alvenaria, não tão pequena e nem muito grande. Ao lado da casa há um grande jardim com muitas flores que mamãe ainda hoje cultiva; no quintal, tem um pomar, muitos tipos de manga e banana e outras plantas frutíferas; ao lado do quintal, havia a rocinha onde tinha o plantio de mandioca e macaxeira, e na frente de nossa casa, no inverno, cria-se um pequeno lago do qual, particularmente, eu gosto muito.  A energia elétrica chegou em 11/10/1997 (é uma data importante para nós), mas foi no ano de 1998, ano de copa do mundo, que a televisão foi comprada. Era grande para a época, com 20 polegadas – nela assistimos quatro copas do mundo.  Tenho uma pequena lembrança de pessoas de povoados adjacentes (Buritizeira e Coelho) sentadas no chão da sala assistindo aos jogos da seleção brasileira, onde a viram perder a taça para a seleção francesa na disputa final.

Quando mamãe ia receber dinheiro ficávamos ansiosos e esperançosos.  Durante a manhã inteira não fazíamos nenhuma tarefa que papai havia nos incumbido, mas quando sabíamos que estava perto do horário em que mamãe iria chegar, começava o corre-corre. Os baldes deviam estar cheios, a casa varrida e eu, a caçula, devia estar arrumada e de cabelos bem penteados, e assim, os meninos dividiam as tarefas entre si: um ia encher água, outro varrer a casa e outras coisinhas que se faz para agradar a mãe e ser digno do prêmio: biscoitos recheados. Primeiro, mamãe trazia um pacote grande e era a maior confusão na hora de dividir, pois não era raro ouvir um grito de insatisfação: “mamãe, fulano ganhou mais do que eu”.  Então, ela passou a comprar um pacote para cada, de tamanho menor. Isso estimulou a união entre nós porque, quando os sabores eram diferentes, a gente trocava entre si e todos ficavam satisfeitos. Sempre tinha um espertinho que fingia comer tudo, mas, na verdade, escondia um ou dois biscoitos. Depois que todos já haviam terminado de comer, era a hora de tirar do esconderijo e comer na frente dos outros para fazer inveja.

Ao ouvir o barulho do caminhão de Bambu – Mercedes 710, cujo barulho do motor e cheiro de óleo é inigualável – já era a hora de ficar pronto para ir encontrar mamãe lá na estrada, uns 200 metros longe de casa, e nós íamos correndo ao encontro dela para ajudar com as compras. Às vezes, para a nossa maior tristeza e decepção, ela vinha de mãos vazias com uma expressão tão triste que já sabíamos o que era, mas ninguém falava nada. Só depois ela dizia: “não saiu dinheiro para os contratados”.  Eram palavras devastadoras. Em outras vezes, íamos para casa contentes, munidos de sacolas – eu, por ser muito pequena, carregava a mais leve possível, e ao chegar em casa tal qual como um pirata em busca de ouro, abríamos todas as sacolas em busca de…biscoitos recheados! Quando encontrávamos, a alegria era geral. Lembro-me da nossa alegria, dos risinhos e gritinhos de contentamento. Naquela época, essa guloseima era coisa valiosa, coisa rara… Para nós, tinha muito valor, afinal, crianças sempre se encantam com essas coisas que, para os adultos, não fazem o menor sentido. Quando mamãe foi aprovada no concurso público de 2002, as coisas mudaram para melhor porque era mais provável receber o salário na data certa, como tem sido atualmente, e assim nosso biscoitinho era garantido.

Hoje, passo em frente à seção de biscoitos no supermercado e eles não me atraem mais. Talvez por  não terem mais o sabor que tinha lá em 1999 ou no início dos anos 2000: o sabor de comer juntamente com os irmãos naquela algazarra toda, de saber que aquilo era só uma vez no mês; o sabor de algo raro, tão esperado, que quase toda criança gosta e que mamãe, mesmo com tão pouco recurso, fazia questão de comprar para nos agradar. Hoje eles não me atraem mais, porque talvez eu nem sinta falta deles, mas sim do momento em que ele significava tanto na minha infância, no interior de Bequimão, em meio àquele cenário rural, de campos e matas de fauna e flora riquíssimas. Entre tantas lembranças e tantos talvez, tenho apenas uma certeza: hoje eles não me atraem mais.

Elinajara Pereira.

 

A Baixada e a Praia Grande

Em 9 de abril de 2018 18:13

Historicamente, o território da Baixada Maranhense foi palco de um enredo formado por brancos europeus colonizadores, negros africanos e índios nativos ao longo dos séculos XVII, XVIII e XIX. Nessa microrregião eram geradas riquezas oriundas da  produção do algodão, da cana-de-açúcar, do arroz, da farinha de mandioca, da pecuária, do extrativismo do babaçu etc., comercializadas na Capital e destinadas ao  consumo interno e à exportação para a Europa,  principalmente do açúcar e do algodão.

A Baixada Maranhense contribuiu decisivamente para conduzir o Maranhão ao segundo lugar nacional na produção de algodão e uma das províncias mais prósperas do nosso país, ombreada com Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco.

A fartura proveniente da nossa região impulsionou a construção dos suntuosos casarões de até quatro pavimentos, que serviam de residência para as famílias abastadas (fazendeiros da Baixada e ricos comerciantes de São Luís) e abrigavam os pontos comerciais da Praia Grande.

As embarcações que transportavam as nossas mercadorias para a Europa, traziam, no seu retorno a São Luís, lastros de pedras de  cantaria e azulejos portugueses, os quais até hoje adornam as calçadas e fachadas dos sobrados desse cenário urbano e arquitetônico que vivenciou períodos áureos de progresso e opulência.

Todo o lucro obtido com a produção e o comércio permanecia concentrado nas mãos de uma aristocracia formada por fazendeiros e grandes comerciantes da Praia Grande.  Os seus filhos estudavam nas  melhores escolas da Europa ou nos centros mais desenvolvidos do nosso país – a Bahia e o Rio de Janeiro.

Como em todo o Brasil, na Baixada também os escravos africanos constituíram a base de sustentação da economia colonial e imperial. Sem o auxílio de máquinas e exaurindo a força dos seus braços, com jornadas de doze a quinze horas por  dia, a vida útil de trabalho de um escravo durava de dez a quinze anos. Na Cafua das Mercês, na Praia Grande, funcionava o mercado de venda dos cativos procedentes da África e que abastecia com mão de obra graciosa as fazendas da Baixada e de outras regiões do Estado.

Na segunda metade do século XIX, os negros escravizados nas fazendas da Baixada, não suportando mais o perverso regime a que foram subjugados por séculos, promoveram diversas rebeliões, segundo relatos da professora e pesquisadora Mundinha Araujo, no seu brilhante livro “A Insurreição dos Escravos em Viana – 1867”.

Após essa sublevação libertária e de resistência à opressão escravagista, irradiada por toda a Baixada, os quilombos se multiplicaram e a economia baixadeira começou a estagnar. Vinte e um anos depois, com  o advento da  Lei Áurea, que aboliu o regime escravocrata de 350 anos (o mais longo da história das Américas), a atividade produtiva da Baixada entrou em decadência.

O declínio econômico da Baixada provocou a ruína do faustoso comércio da Praia Grande e o abandono dos luxuosos sobrados pelos seus moradores, que se deslocaram em sua  maioria para o Rio de Janeiro.

Desde a época colonial até os tempos hodiernos, São Luís sempre foi vocacionada para o mercado externo, por meio de seus portos. Nos tempos da colonização, a maioria dos artigos  exportados era produzido no continente, notadamente na Baixada, daí  a conclusão de que o comércio da Praia Grande floresceu e conheceu o seu apogeu por força da pujança econômica da Baixada Maranhense.

Os barcos a vela realizavam a travessia para a Capital do Estado, atracando nos armazéns e de lá retornando com as mercadorias de consumo para abastecer as fazendas e o comércio da Baixada. A decadência de uma provocou a derrocada da outra.

Com o passar dos anos, a Praia Grande passou a ser identificada como o Centro Histórico de São Luís e, em dezembro de 1997, por reconhecimento da UNESCO,  foi tombada como Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade.

Hoje, nós baixadeiros, reconhecemos e reivindicamos que, antes de ser patrimônio da humanidade, o Centro Histórico de São Luís é o patrimônio do trabalho, do suor e do sangue do povo da Baixada Maranhense. Tributamos grande respeito e amor a São Luís, essa querida cidade que nos acolheu de braços abertos e que continua imbricada às nossas vidas e à nossa região de origem. Veneramos a Baixada, nossa terra, nossa gente, nosso gentílico baixadeiro, sua cultura, suas tradições, sua beleza esplendorosa, seus encantos, sua imponência natural espelhada nos seus rios, lagos e campos coloridos de flores e habitados por  diversificadas espécies de peixes,  pássaros e outros animais silvestres.

O Brasil e o Maranhão têm uma grande dívida para com a Baixada. E especialmente para com a nossa gente laboriosa, nossa nação baixadeira, que produziu riquezas no passado e foi  abandonada pelo Poder Público no presente. Urge resgatarmos o nosso legado histórico para que a Baixada volte a ser o celeiro do Maranhão e o melhor lugar para se viver. Estamos na luta para suplantar  esse colossal desafio e, com certeza, os “Ecos da Baixada Maranhense” serão ouvidos e hão de conquistar a mais ampla repercussão.

Crônica de Chico Gomes publicada no Livro Ecos da Baixada nas páginas 24/27.

Rotina do acaso

Em 14 de março de 2018 20:14

Quando os raios de sol descortinam no horizonte e começam a bronzear as nuvens que se movimentam como fumaça levadas pelo vento é a anunciação de que o dia está chegando para cumprir o que de mais belo ocorre na rotina da natureza.

Os pássaros em revoadas brincam sem parar num vaivém de intensa alegria e cantam o prelúdio da vida em sintonia com o amanhecer.

A rotina que se desenha em cada alvorecer parece transbordar as medidas do possível que, em outros momentos, vão tomando forma e proclamam o que sempre acontece de um jeito ou de outro. Nada fica para trás sem que se cumpra o que tem de ser cumprido nos primeiros momentos da aurora. A natureza providencia tudo segundo a rotina da vida no espaço e no tempo. E a terra se entrega em produção e colore sua existência do que há de mais belo aos olhos das criaturas.

O fascinante impressionismo remete a todos a feitura do Grande Arquiteto do Universo, que não poupou esforços em criar o que de mais encantador existe debaixo do céu. Um pedacinho desse universo se chama de Baixada Maranhense. Nela foram colocadas, de formas ornamentais, ilhas, morros, rios, lagos, lagoas e uma infinidade de campos inundáveis a perder de vista.

Como é lindo olhar as graúnas e outros pássaros em voos miúdos e as japeçocas (japiaçocas) pousadas nas vitórias-régias, que dão um tom ornamental de uma beleza ímpar aos campos com centenas de outras flores. Na Amazônia as vitórias-régias chegam a medir um metro de diâmetro, com o aspecto de grandes sombreiros mexicanos, onde os peixes se abrigam da luz solar.

Peixes de pequenos portes praticam suas peripécias em saltos para abocanharem os insetos de seus interesses que estão descansando nos caules das plantas. E quando o pescador observa esse fato faz seu pesqueiro ali próximo para disputar, também, a sua sobrevivência com alguns pescados.

Os campos da Baixada Maranhense formam uma grande manjedoura que cria e acalanta a vida aquática a se repetir todos os anos enquanto a água perdura. Sem água, quebra-se a cadeia produtiva e o encanto da vida. E, se falta água, sobra sofrimento e desespero, que deixa a esperança do baixadeiro árida e prolongada até o próximo inverno.

O poeta José Chagas no Soneto 3 do seu livro Colégio do Vento, com sua criatividade, dá uma dimensão do que tudo isso representa em beleza e preocupação para os baixadeiros, mesmo ele sendo sertanejo:

O campo era um continuar de vida

a se estender pelo horizonte a fora,

e a paisagem se dava repetida,

tanto em seu pôr do sol, como na aurora,

com a luz sendo uma cálida bebida

a embriagar a vastidão sonora,

onde as aves em voo na paz erguida

cobriam de asas o seu ir embora,

e o azul era uma longa despedida

do tempo a consumir-se todo em hora,

para, fugindo assim, dar a medida

de tudo o que era pressa na demora,

e o quanto fosse solidão já ida

não mais voltasse como volta agora”.

Os prometidos Diques da Baixada pelas autoridades governamentais parecem obra de ficção. Passada a filmagem nada se concretizou a não ser a promessa. E, novamente, no próximo pleito eleitoral renova-se tudo mais uma vez, e até colocam máquinas para garantir, como quem garantia antigamente com um fio do bigode, o trato acordado.

A Barragem dos Defuntos localizada ao sudeste de Peri-Mirim, construída com o objetivo de manter a água doce nos campos e evitar a contaminação pela água salgada, que vem do mar, por diversas vezes, durante a estação invernosa sofria a ação das intempéries do tempo e tinha que ser socorrida com o fim de evitar a evasão fulminante da água, que descia ao mar formando caudalosos rios.

Para solucionar o desperdício e o rompimento progressivo daquele anteparo, o prefeito de Peri-Mirim contratava um homem experiente que soubesse liderar uma boa equipe de trabalhadores com o objetivo de sanar as avarias causadas pelas fortes chuvas. Essa labuta exigia dos trabalhadores um condicionamento físico de boa qualidade e muita dedicação no enfrentamento da tarefa, inclusive em condições inesperadas, com animais peçonhentos de todas as espécies e tamanhos, muriçocas e maruins a perturbarem o desenvolvimento do serviço.

Por volta do ano de 1956, meu pai era o líder de uma equipe que recuperava a barragem em ocasiões de acentuado inverno, quando um dos seus comandados foi mordido por uma cascavel pequena, que os companheiros mataram. Levaram o acidentado juntamente com o réptil para o líder avaliar o que fazer, haja vista que não havia soro antiofídico no local. A solução encontrada pelo líder no momento foi dar um brado no trabalhador, argumentando que uma cobrinha daquele tamanho não teria como molestar um homem novo e forte do tipo do acidentado. E não é que deu certo! – Além disso, foi espremido o local ferido para expulsar o veneno inoculado no sangue e lavado com uma pinga, superficialmente.

Naquela época os habitantes do município, principalmente os criadores de gado, cobravam do prefeito da cidade que cuidasse de manter a barragem íntegra para o bem dos seus rebanhos e o povo, por sua vez, também fazia coro nesse sentido com o intuito de garantir o sustento de suas famílias com o pescado.

Havia, portanto, um entendimento saudável entre a população e o Poder Executivo. A cada inverno os canoeiros e pescadores se juntavam para limpar os igarapés com o incentivo do prefeito que, mesmo sem gastar dinheiro para isso, parecia ter em mente a satisfação de lidar com o problema mostrando a eficácia desse trabalho.

Com os igarapés limpos os canoeiros praticavam menos esforços na movimentação de suas embarcações e as piabas usavam o caminho limpo e com água corrente vinda do rio Aurá, para tentarem subir em piracema. Mas ao chegarem numa pequena barragem que une a sede do município ao bairro Portinho eram alcançadas pelas tarrafas dos pescadores que as esperavam com o fim de capturá-las. E assim a vida na Baixada vai seguindo seu curso na beleza enquanto tem água, enquanto tem alimento, e no sacrifício de décadas de espera por uma tomada de decisão que prolongue o tempo de cheias em nossa região.

Francisco Viegas

Francisco Viegas

Em 14 de março de 2018 20:08

Francisco Viegas Paz é natural de Peri-Mirim (MA), licenciado em Química pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), ex-funcionário da Embratel, autor dos livros “Seminarista Graças a Deus”, “Curiosidades Históricas de Peri-Mirim”, coator do livro “Ecos da Baixada”, ocupante da Cadeira nº 08 da Academia de Letras, Ciências e Artes Perimiriense.

Eulálio Figueiredo

Em 2 de março de 2018 3:52

Chico Gomes

Em 2 de março de 2018 3:51

Chico Gomes é natural de Viana (MA), Bacharel em Filosofia pela UFMA, servidor público estadual aposentado. Foi por duas vezes Secretário de Estado e por duas vezes Deputado Estadual. Foi Prefeito de Viana (MA). É anistiado político.

Carlos César Paixão

Em 2 de março de 2018 3:50

Antônio Padilha

Em 2 de março de 2018 3:46

Álvaro Ubiratan – Vavá Melo

Em 2 de março de 2018 3:44