Maria da Graça Moreira Leite

Em 14 de março de 2020 9:51

Maria da Graça Moreira Leite é natural de Pinheiro (MA), pedagoga, escritora e membro da Academia Pinheirense de Letras, Artes e Ciências (APLAC). Produziu diversas obras sobre a história do município de Pinheiro.

Algumas obras: Bem-te-vi, bem te conto: crônicas pinheirenses; O poço do mercado; 

Canta, Fogo-Pagou!

Em 14 de março de 2020 9:44

Por Graça Leite

Ouço uma rolinha fogo-pagou clamando pela presença do macho da sua espécie, dedilhando pedrinhas no fundo do meu quintal.

É uma manhã de julho ensolarada, dessas que no final do inverno nos traziam uma aragem fresca, abrindo espaço para que o brilho da folhagem resplandeça o verde no intervalo das chuvinhas rápidas que caem.

A manhã é bela e a rolinha fogo-pagou sente a presença da vida que o inverno guardou nas águas dos campos da Baixada Maranhense para entregar ao verão que chega.

Os bem-te-vis também festejam a caliente manhã afinando o canto, saudando a mudança de estação que é recebida por pipiras, chico-pretos, levarribas, curiós e demais pássaros da fauna da Baixada Maranhense. Até o canto de um galo distante integra o coral da vida.

Pena que uma sinfonia dessa natureza seja quase imperceptível aos habitantes da cidade, envolvidos que estão por afazeres que lhes garantam a sobrevivência ou a ganância. Também os estridentes sons dos carros eletrônicos que circulam dia e noite pela cidade anunciando, vendendo, cobrando,  e até xingando, como acontece nas campanhas eleitorais, não nos permitem sequer atender ao telefone ou dialogar com alguém, tal o barulho excessivo que contamina o ar.

A cidade de Pinheiro é sem sombra de dúvidas detentora da maior poluição sonora da nossa região.

A região da Baixada Maranhense, constituída por campos baixos, inundáveis na estação invernosa, facilitou o seu isolamento, por muitas décadas, distanciando-a do progresso. Soma-se à sua situação geográfica, o descaso das autoridades para com ela.

Devido a essas circunstâncias e à vontade da população, a maioria das cidades baixadeiras ainda guarda consigo hábitos e costumes dos velhos tempos, zelando pela sua tradição de origem, mas em Pinheiro a lição progressista foi decorada, mas não foi compreendida.

É certo que o mundo mudou, evoluiu muito em todos os aspectos (social, econômico, político e cultural). A televi- são e o celular estão por toda parte, mas existem relíquias que devem ser preservadas para garantirem a identidade dos povos, porém em Pinheiro não há essa preocupação, nem dos gestores nem da própria população.

Aqui tudo é mecânico: os sinos das igrejas não tocam mais, as pipas e os estilingues dos meninos, as bonecas das meninas foram substituídas por joguinhos eletrônicos nos celulares e até o nosso tradicional “tambor de crioula”, considerado “Patrimônio Cultural Nacional”, é rechaçado por vereadores na Câmara Municipal. Santa ignorância!!! Os supermercados estão cheios de produtos industrializados. As feiras vendem verduras e frutas importadas e não apre- sentam as mínimas condições de higiene; temos faculdade (até de Medicina), mas o nosso ensino básico é de péssima qualidade; a nossa saúde é precária e a água que consumimos não é confiável; o esgoto doméstico corre pelas sarjetas contaminando os campos. Os lixões a céu aberto também contaminam o nosso lençol freático e atraem urubus que passeiam tranquilamente pelas ruas da cidade.

Tudo isso acontece em uma cidade “moderna” considerada polo regional que tem receptores de internet instalados na principal praça, no Centro da cidade.

Com tanto “modernismo”, alguém vai reparar quando os ipês estão floridos ou quando uma rolinha fogo-pagou canta em nossos quintais?

Até os grandes quintais estão desaparecendo tragados pela especulação imobiliária e mesmo nossos campos estão sendo aterrados por esse motivo. Os aterros estão empurrando os nossos campos para longe de nós.

É assim que a cidade de Pinheiro, polo da região da Baixada, vai perdendo a sua identidade baixadeira.

Canta, fogo-pagou!

Canta enquanto te é permitido cantar.

Crônica publicada no Livro Ecos da Baixada, Edições FDBM, nas páginas 60/62.