A Baixada não é problema, é solução

Em 4 de setembro de 2019 12:29

A Baixada Maranhense é uma microrregião geográfica composta por 21 municípios, habitada por mais de meio milhão de pessoas, numa área superior a 20.000 km quadrados, com uma localização privilegiada, não apenas pela proximidade da Capital, mas também por ser zona de transição entre o semiárido nordestino e a região amazônica, o que torna as suas terras férteis e produtivas.

Formando uma enorme planície, quase ao nível do mar,na época das chuvas acumula uma lâmina d´água de aproximadamente um metro e é constituída pela imensidão de campos naturais, ostentando fauna e flora só comparáveis ao pantanal mato-grossense.

O seu ecossistema serve como berçário natural para uma majestosa biodiversidade, composta por animais, aves e peixes bem característicos do pantanal maranhense.

A Baixada possui um potencial hídrico extraordinário, reforçado pela existência dos rios Aurá, Maracu, Pericumã, Turiaçu, Pindaré, Mearim e outros, potencial esse que necessita de investimentos urgentes para contenção da água doce que escoa para o mar, deixando uma extensa área desertificada durante vários meses, todos os anos.

A eletrificação com a energia de Boa Esperança, a implantação de rodovias asfaltadas, o transporte por meio de ferry boats e projetos ainda a serem implementados, como os diques da Baixada, a ligação rodofluvial entre São Luís e os municípios de São João Batista e Cajapió, via município de Bacabeira, representam ações e planos de governo que contribuem e ainda vão contribuir bastante para o melhora-mento da qualidade de vida da população baixadeira.

Diante desse quadro, é hora de pensarmos no PLANO DE DESENVOLVIMENTO INTEGRADO DA BAIXADA MARANHENSE, alicerçado na implantação de projetos estruturantes e arranjos produtivos de grande alcance econômico e social, que transformarão a região numa grande produtora de alimentos, dentre outros fatores de crescimento.

A espinha dorsal da Baixada é a MA-014 (rodovia Vitória do Mearim-Três Marias), que cruza a maioria dos municípios. De suma importância também é a MA-106 (rodovia Cujupe-Pinheiro). Isso sem contar os ramais de acesso às sedes de vários municípios e as estradas vicinais.

Para iniciar esse processo de desenvolvimento seriam implantadas mini-usinas de etanol e biodiesel, sustentadas com o cultivo da cana de açúcar, girassol, mamona e aproveitamento do coco babaçu. A instalação de usinas eólicas e experiências com energia solar também deveriam ser priorizadas, devido à abundância de ventos e de luminosidade existentes na região. No Brasil, onde verificamos atualmente uma grande instabilidade climática em diversas regiões, vemos a Baixada mantendo uma regularidade propícia à sua autossustentação energética.

Incentivo ao desenvolvimento agropecuário e da agroindústria, com a implantação de uma bacia leiteira capaz de suprir a região metropolitana de São Luís e outras regiões do Estado; industrialização de laticínios e derivados; projetos de piscicultura, rizicultura e carcinicultura; criação de aves (frangos, patos, marrecos e outros); criação de abelhas, considerando a grande floragem durante vários meses do ano; campos agrícolas comunitários para produção específica de mandioca, milho, arroz, melancias e hortaliças. Tudo isso é possível para transformarmos a região da Baixada numa das mais prósperas do Estado, com investimentos públicos e privados e com base no PLANO DE DESENVOLVIMENTO INTEGRADO DA BAIXADA MARANHENSE.

O Governo Estadual daria um grande passo para reduzir a pobreza e garantir o desenvolvimento econômico-social, a partir da criação de uma “comissão de alto nível”, formada por técnicos identificados com a Baixada, contando ainda com o empenho de parlamentares estaduais e federais, que recebem o respaldo do eleitorado da região, para a alavancagem dessa iniciativa junto às diversas esferas governamentais. Somos de um tempo em que a Baixada elegia seus próprios filhos como parlamentares intransigentes e resolutos na defesa de seus mais legítimos interesses, o que infelizmente não ocorre hoje.

Todos que amam a Baixada devem lutar com tenacidade buscando a intervenção do Poder Público para a consecução desse sonho, viabilizando a construção dos Diques da Baixada (obra redentora da Baixada Maranhense), projeto reivindicado ao longo de muitos anos e que se encontra sob a responsabilidade da Codevasf, em fase de levantamento cartográfico e de estudos ambientais.

A Baixada não é problema, precisa somente da sensibilidade dos nossos governantes.

Crônica de Luiz Figueiredo, publicada no Livro Ecos da Baixada, nas páginas 28/31.

Anajatuba: portal da Baixada

Em 3 de setembro de 2019 20:50

A Baixada Maranhense abre-se bela e acolhedora pelos campos de Anajatuba. Humilde e misteriosa, espalha seus campos na imensa planície verde que constitui a nossa região. Misteriosa e encantadora, canta na voz de seus morros as nossas lendas, repetidas pelos habitantes do campo num sussurro que mais parece uma prece.

Seus mistérios se misturam com a realidade, deixando em cada viajante que vem de longe uma expressão de espanto que não lhe tira a magia de seus encantamentos.

Por ali passavam as estradas de gado que, a partir do século XVII e até o início do século XX, conduziam as boiadas vindas do Sertão e de outros Estados até o Porto das Gabarras, hoje aterrado pelo capricho da própria natureza, para o abastecimento da capital. Restam hoje alguns estreitos igarapés por onde navegam pequenas igarités utilizadas pelos marisqueiros para a pesca de camarões, guardando a tristeza de ver os manguezais sendo destruídos por pragas de lagartas.

De seus campos, Raimundo Gomes Jutaí partiu com alguns vaqueiros conduzindo uma boiada da “ilha” Buenos Aires até Manga do Iguará, atual cidade de Nina Rodrigues, onde a ação dos baixadeiros invadiu a cadeia pública, liberando os prisioneiros e marcando o início da Guerra da Balaiada.

Os seus tesos exuberantes, que chamamos de ilhas campestres, se diluem na imensidão do campo, recebendo nomes exóticos que envolvem um passado construído por pessoas de diversas procedências, cujos fantasmas lendários construíram um conjunto riquíssimo de estórias inusitadas que a maioria dos homens do campo têm como verdadeiras.

Dos seus morros sagrados, ecoam os sons surdos das caixas do Divino ou de São Benedito, misturados com o rufar dos atabaques que acompanham danças ancestrais como o terecô ou coco e o Tambor de Crioulos, característica de nossa terra, onde só dançam os homens. De suas comunidades quilombolas se ouve a cantoria de trovadores e repentistas, menestréis que guardam as tradições vindas da Mãe África. Os livros que escrevi (Santa Maria de Anajatuba e Os Fantasmas do Campo I e II), se ocupam de contar essas histórias fascinantes, com suas luzes caminheiras, aparições e assombrações que encontram eco no imaginário popular.

Abençoados campos de Anajatuba, guardiões silenciosos da Baixada, onde várias espécies de peixe promovem o sustento da população: jejus, traíras, carambanjas, anojados (chamados de bagres ou mandis em outras regiões), piabas, pacus, cascudos e muitos outros que agora disputam o es-paço com as redes de engancho com malhas abaixo do que permitido pelo IBAMA, estendidas criminosamente no campo onde são apanhados ainda pequenos e jogados fora, mortos e em decomposição.

A Baixada serve de abrigo para muitas outras vidas. As suas aves encantam os céus com suas cores brilhantes e diversificadas: garças, guarás, marrecas e carões, dividem o espaço com as jaçanãs, algumas de tonalidade azul. Nas suas moitas de junco, abrigam-se os jurarás, a jacarerana, os jabutis e os jacarés que velam pelos ninhos das aves. E os homens, os maiores beneficiários dessa riqueza, a destroem com suas queimadas, transformando essas vidas como espécies em extinção.

Não podemos esquecer que, nas matas que rodeiam os campos, canários, canarinhos, rouxinóis, vivins, bigodes, caboclinhos e espécimes raras de beija-flores festejam principalmente as nossas manhãs com suas belas sinfonias.

Todos esses traços culturais guardam a memória de um povo que se delicia com expressões artísticas e literárias, ocasionando a fundação da primeira academia de letras da Baixada, no dia 31 de julho de 1999, a Academia Anajatubense de Letras, Ciências e Artes, a qual, embora fechada no seu próprio ambiente, abriga poetas, cronistas, compositores, artistas plásticos e artesãos que constituem o orgulho de sua gente.

É com essa contribuição, humilde, mas pujante, que saudamos a edição dos “Ecos da Baixada”, para cujo canto empresta também a sua voz e saúda o município de Matinha, caçula das academias de letras da Baixada Maranhense que por certo inspirará a criação de muitas outras.

Crônica escrita por Mauro Rego, publicada no Livro Ecos da Baixada, nas páginas 21/23.

Mauro Rego

Em 3 de setembro de 2019 20:26

Mauro Bastos Pereira Rêgo é natural de Anajatuba (MA). Pedagogo, poeta e pesquisador. Membro da Academia Anajatubense de Letras, membro da Academia Maçônica Maranhense de Letras e membro da Academia Itapecuruense de Ciências, Letras e Artes, é formado em Letras pela Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) e também em Pedagogia pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), com habilitação em Magistério Normal e Supervisão Escolar. É especialista em Língua Portuguesa pela Universidade Salgado de Oliveira. Tem uma cadeira na Academia Anajatubense de Letras e é forte colaborador da Academia de Letras do município de Itapecuru. Escreveu vários livros e alguns trabalhos de poesia, como Taça Vazia e Ganzola, contando histórias de sua infância e adolescência. Cronista do Livro Ecos da Baixada.

Ana, de Peri-Mirim para o mundo

Em 30 de agosto de 2019 23:37

As pessoas constroem em torno de si seus espaços de existência, com suas singularidades, porém nunca sozinhas. Para o bem ou para o mal, constroem com outras pessoas, semelhantes ou não, o legado da vida e das suas circunstâncias.

Existem pessoas com exemplo de vida a serem compartilhados por seguidas gerações,  não pelo que agregaram ao seu patrimônio individual de natureza econômica ou material, mas pelo que dividiram de virtudes e sabedoria com os outros seres humanos que se dignaram a fazer parte do círculo de suas participações nos diferentes lugares de exercício de suas atividades profissionais e da vivência diária em suas próprias comunidades.

De Peri-Mirim para o mundo, nos fins da primeira metade do século passado, da união matrimonial de dois lavradores – seu José dos Santos e dona Maria Amélia – nascia uma menina, como tantas outras de uma família de dez irmãos, destinada a ser mais uma dentre milhões de crianças brasileiras nascidas na roça; nordestina, acometida de saúde precária, por conta dos surtos constantes de asma, que não lhe conferiam muita esperança de uma infância feliz e muito menos de um futuro diferente dos seus pares.

Contradizendo as circunstâncias adversas, essa menina, Ana, não apenas sobreviveu às dificuldades interioranas da pobreza comum aos municípios da Baixada Maranhense, como concluiu os estudos no Ginásio Bandeirante, o máximo que era permitido à época pela rede de ensino de Peri- Mirim.

Não conformada com essa conquista inicial, Ana partiu para enfrentar novos desafios na capital, prestando exames de admissão para o ingresso no ensino médio do Colégio Gonçalves Dias, e daí para uma jornada profissional e acadêmica que, resumindo, resultou na conclusão de dois cursos superiores, Ciências Contábeis e Direito, ambos pela Universidade Federal do Maranhão.

Paralelamente ao processo de formação, inaugura uma trajetória vitoriosa de acesso a variados cargos públicos, que se inicia no extinto SIOGE e prossegue pelo Ministério do Trabalho, Correios, Auditoria dos estados do Piauí, Rondônia e Maranhão, incluindo uma passagem pelo cargo de analista de controle do Tribunal de Contas da União, e culminando com a investidura no cargo de Auditora-Fiscal da Receita Federal do Brasil. Com exceção do primeiro, todos os demais sob o difícil crivo do concurso público.

Ana Creusa Martins dos Santos é o nome completo da personagem do artigo desta semana; um nome que com certeza não faz parte das colunas noticiosas ou do repertório de matérias sensacionalistas, ou mesmo dos destaques de personalidades do mundo político ou intelectual tão badalado pela imprensa do Maranhão.

Porém, para nós, colegas da Receita Federal do Brasil, que tivemos a honra de comungar por muitos anos da sua solidariedade funcional e competência técnica, um exemplo de dignidade, de pessoa humana que vai deixar uma imensa lacuna no serviço público federal brasileiro. Com todas as letras, e sem medo de errar, um dos melhores e mais capacitados quadros das assim denominadas carreiras de estado, integrantes do Ministério da Fazenda.

Nesta última sexta-feira, 13 de setembro de 2013, Ana completou o que ela mesma chama de mais um ciclo, dos muitos que a vida lhe proporcionou, aposentando-se do serviço público, após uma gloriosa e impecável carreira, cercada de grandes contribuições aos processos e procedimentos referentes à arrecadação e acompanhamento de ações administrativas e judiciais no campo tributário.

Numa cerimônia simples, como quase tudo que aconteceu e acontece em sua vida, realizada no quarto andar do imponente prédio do edifício-sede dos órgãos do Ministério da Fazenda no Maranhão, localizado no Canto da Fabril, Ana recebeu as merecidas homenagens de seus colegas pelo conjunto da obra e serviços prestados às instituições públicas por onde passou.

Ainda teve espaço e tempo para nos brindar com um agradecimento especial por tudo aquilo que o Estado lhe proporcionou, por meio da formação integral nos bancos de escolas públicas, manifestando a sua vontade de retribuir, dentro de suas novas possibilidades de tempo e dedicação, no pagamento da grande dívida social que ainda gera tantas desigualdades na sociedade maranhense e brasileira.

Deixa em nossos corações e mentes uma mensagem bastante simbólica e significativa, avisando que permanecerá engrossando as fileiras do combate às desigualdades e às injustiças sociais, como a dar alcance e sentido aos versos do poeta Thiago de Mello: “Não tenho um caminho novo. O que tenho de novo é um jeito de caminhar”, Só podemos lhe desejar sucesso nos caminhos novos, com seu jeito sutil de saber sempre caminhar pelas veredas retas da vida.

Texto de Joãozinho Ribeiro,  pulicado no Livro ECOS DA BAIXADA, páginas 17/20.

Joãozinho Ribeiro

Em 30 de agosto de 2019 23:15

João Batista Ribeiro Filho – o Joãozinho Ribeiro – é poeta e compositor. Foi presidente da Fundação Municipal de Cultura de São Luís (1997/1998), secretário de Cultura do Maranhão (2007/2009) e assessor do Ministério da Cultura (2009/2010).

 

A Baixada continua clamando!

Em 13 de janeiro de 2019 8:44

O governador Flávio Dino divulgou as principais metas do seu segundo mandato, com a previsão de quarenta grandes obras em todo o Estado.
Com relação a Baixada Maranhense, uma das regiões mais próximas da capital e com um potencial muito grande para fortalecer a economia do estado, tomo a liberdade de sugerir dois grandes projetos que beneficiarão diretamente toda a população que ali vive: – a construção dos diques da baixada e a estrada ligando o município de Bacabeira ‘a região, com uma redução de 200 km e consequentemente diminuição do tempo de viagem, do preço das passagens, fretes e uma grande economia de combustível, além da integração da Baixada ao Polo de Bacabeira.

Muito se tem falado e debatido sobre a Baixada Maranhense nos últimos anos, tudo girando em torno de projetos que possam contribuir para o seu desenvolvimento, melhorando a qualidade de vida da população que aqui vive.
A Baixada não é problema, é solução, com incentivos para empresas produtivas, capazes de gerar emprego e renda, fazendo com que a região volte a ser o que foi , até o meados do século XX, o grande celeiro abastecedor da capital maranhense.
Isto depende exclusivamente de decisão política, já que os nossos governantes não tem tido a capacidade ou o interesse de implementar políticas públicas com a finalidade de atingir a médio prazo esses objetivos.
As características naturais da região são propícias a implantação de várias atividades econômicas que transformariam as empresas ali instaladas em alavancas desse processo de mudança.
Temos uma excelente localização em relação a cidade de São Luís, temos terras férteis e de preços atrativos, infraestrutura rodoviária, elétrica e de transportes totalmente implantadas, contamos com o serviço dos ferry-bouts e com vários outros pontos de embarque e desembarque, portanto com possibilidade de acesso a qualquer cidade litorânea.

No Equador, país sulamericano, existe uma região chamada Guaaquyl, com as mesmas características da nossa baixada, até a área territorial é bem aproximada, bastante desenvolvida e com uma produção industrial muito grande, portanto o que precisamos é de investimento, e decisão de governo.
Só com a construção dos diques teremos uma solução definitiva para recuperação dos campos naturais com um potencial capaz de beneficiar pobres e ricos, porque ali se desenvolve a agropecuária, uma quantidade incalculável de peixes, a caça, e o represanento da água essencial para todos, e inclusive para a irrigação, evitando também a salinização dos campos.
Os chamados diques da produção é uma solução paliativa, localizada, que não contribui para a preservação do ecossistema e da biodiversidade características da região.
Destaco a atuação do Fórum em Defesa da Baixada, formado por líderes e técnicos profundos conhecedores dos problemas que afligem a Baixada e todos clamam por uma solução rápida. Cito o do Dr Flávio Braga idealizador e apoiador desse grande movimento, que persiste com objetivo de conseguir viabilizar projetos e recursos para esse fim.
Eu particularmente também venho procurando dar a minha colaboração com dois projetos fundamentais para completar a implantação da infraestrutura básica; a construção dos diques e a ligação rodo-fluvial via Bacabeira.
O projeto dos diques vem se arrastando há mais de trinta anos.
Passado todo esse tempo,em dezembro de 2006, levei técnicos do governo para visitar” in loco” as áreas mais afetadas pela estiagem e a partir daí foram retomados os trabalhos de elaboração de novo projeto no Governo Jackson Lago.
O grupo inicialmente foi formado por Reginaldo Teles, Leo Costa, Manoel Bordalo, e eu, com o apoio de Neiva Moreira e Luiz Raimundo Azevedo, Júlio Noronha e outros. Já se vão mais doze anos de muita luta, e o governo parece inerte, insensível.Mas não desistiremos!
Além dos projetos acima referidos, ainda temos sugestões para um grande programa de desenvolvimento integrado capaz de transformar a nossa Baixada Maranhense na terra berço que tanto sonhamos…

 

Luiz Figueiredo

Em 13 de janeiro de 2019 8:13

Luiz Figueiredo

É natural de São João Batista (MA), graduado em Ciências da Administração. Foi vereador e prefeito de São João Batista, presidente do Escritório Técnico de Administração Municipal (ETAM) e funcionário do Banco do Brasil. É presidente da Fundação Chiquinho Figueiredo, Diretor da Rádio Beira Campo e empresário da construção civil. Cronista do Livro Ecos da Baixada.

Biscoitos recheados

Em 11 de abril de 2018 1:05

Neste início do mês de julho, fui a um grande supermercado em São Luís, onde moro atualmente, para fazer as compras mensais como de costume. Em minha solidão, empurrando o carrinho, fui pensando nas coisas que tanto me encantavam quando era criança, como por exemplo, biscoitos recheados. Em minha casa, era motivo de briga, sim – brigávamos e mamãe sempre era a juíza, e dava o veredicto: “no próximo mês, não trago mais!”. Isso era suficiente para cessar as picuinhas, afinal, ninguém queria correr o risco.

Isso era lá pelo final da década de 90, no início dos anos 2000. Mamãe ainda era professora contratada; nessa época, era incerto receber o salário em dia – às vezes passava de três a quatro meses sem receber um centavo sequer. Quantas e quantas vezes ela saía de casa junto com outros funcionários para ir em busca de seu salário de madrugada, a pé ou de canoa até o povoado Jeniparana para então pegar o caminhão (pau-de-arara) até a sede e voltava sem nada! Esse trajeto tinha de ser em grupo, pois havia uma parte da estrada que acreditavam ser mal assombrada, e ninguém corria o risco de passar sozinho por lá. Somente depois do concurso público em 1997 é que um homem que morava na sede da cidade, chamado Bambu, começou a ir até pontal no caminhão. Como a estrada era muito ruim naquela época, não era difícil os passageiros terem que descer do caminhão para empurrá-lo, pois vez ou outra atolava.

Papai sempre saía para trabalhar e meu irmão mais velho assumia o comando da casa. A nossa casa era bem simples, feita de alvenaria, não tão pequena e nem muito grande. Ao lado da casa há um grande jardim com muitas flores que mamãe ainda hoje cultiva; no quintal, tem um pomar, muitos tipos de manga e banana e outras plantas frutíferas; ao lado do quintal, havia a rocinha onde tinha o plantio de mandioca e macaxeira, e na frente de nossa casa, no inverno, cria-se um pequeno lago do qual, particularmente, eu gosto muito.  A energia elétrica chegou em 11/10/1997 (é uma data importante para nós), mas foi no ano de 1998, ano de copa do mundo, que a televisão foi comprada. Era grande para a época, com 20 polegadas – nela assistimos quatro copas do mundo.  Tenho uma pequena lembrança de pessoas de povoados adjacentes (Buritizeira e Coelho) sentadas no chão da sala assistindo aos jogos da seleção brasileira, onde a viram perder a taça para a seleção francesa na disputa final.

Quando mamãe ia receber dinheiro ficávamos ansiosos e esperançosos.  Durante a manhã inteira não fazíamos nenhuma tarefa que papai havia nos incumbido, mas quando sabíamos que estava perto do horário em que mamãe iria chegar, começava o corre-corre. Os baldes deviam estar cheios, a casa varrida e eu, a caçula, devia estar arrumada e de cabelos bem penteados, e assim, os meninos dividiam as tarefas entre si: um ia encher água, outro varrer a casa e outras coisinhas que se faz para agradar a mãe e ser digno do prêmio: biscoitos recheados. Primeiro, mamãe trazia um pacote grande e era a maior confusão na hora de dividir, pois não era raro ouvir um grito de insatisfação: “mamãe, fulano ganhou mais do que eu”.  Então, ela passou a comprar um pacote para cada, de tamanho menor. Isso estimulou a união entre nós porque, quando os sabores eram diferentes, a gente trocava entre si e todos ficavam satisfeitos. Sempre tinha um espertinho que fingia comer tudo, mas, na verdade, escondia um ou dois biscoitos. Depois que todos já haviam terminado de comer, era a hora de tirar do esconderijo e comer na frente dos outros para fazer inveja.

Ao ouvir o barulho do caminhão de Bambu – Mercedes 710, cujo barulho do motor e cheiro de óleo é inigualável – já era a hora de ficar pronto para ir encontrar mamãe lá na estrada, uns 200 metros longe de casa, e nós íamos correndo ao encontro dela para ajudar com as compras. Às vezes, para a nossa maior tristeza e decepção, ela vinha de mãos vazias com uma expressão tão triste que já sabíamos o que era, mas ninguém falava nada. Só depois ela dizia: “não saiu dinheiro para os contratados”.  Eram palavras devastadoras. Em outras vezes, íamos para casa contentes, munidos de sacolas – eu, por ser muito pequena, carregava a mais leve possível, e ao chegar em casa tal qual como um pirata em busca de ouro, abríamos todas as sacolas em busca de…biscoitos recheados! Quando encontrávamos, a alegria era geral. Lembro-me da nossa alegria, dos risinhos e gritinhos de contentamento. Naquela época, essa guloseima era coisa valiosa, coisa rara… Para nós, tinha muito valor, afinal, crianças sempre se encantam com essas coisas que, para os adultos, não fazem o menor sentido. Quando mamãe foi aprovada no concurso público de 2002, as coisas mudaram para melhor porque era mais provável receber o salário na data certa, como tem sido atualmente, e assim nosso biscoitinho era garantido.

Hoje, passo em frente à seção de biscoitos no supermercado e eles não me atraem mais. Talvez por  não terem mais o sabor que tinha lá em 1999 ou no início dos anos 2000: o sabor de comer juntamente com os irmãos naquela algazarra toda, de saber que aquilo era só uma vez no mês; o sabor de algo raro, tão esperado, que quase toda criança gosta e que mamãe, mesmo com tão pouco recurso, fazia questão de comprar para nos agradar. Hoje eles não me atraem mais, porque talvez eu nem sinta falta deles, mas sim do momento em que ele significava tanto na minha infância, no interior de Bequimão, em meio àquele cenário rural, de campos e matas de fauna e flora riquíssimas. Entre tantas lembranças e tantos talvez, tenho apenas uma certeza: hoje eles não me atraem mais.

Elinajara Pereira.

 

A Baixada e a Praia Grande

Em 9 de abril de 2018 18:13

Historicamente, o território da Baixada Maranhense foi palco de um enredo formado por brancos europeus colonizadores, negros africanos e índios nativos ao longo dos séculos XVII, XVIII e XIX. Nessa microrregião eram geradas riquezas oriundas da  produção do algodão, da cana-de-açúcar, do arroz, da farinha de mandioca, da pecuária, do extrativismo do babaçu etc., comercializadas na Capital e destinadas ao  consumo interno e à exportação para a Europa,  principalmente do açúcar e do algodão.

A Baixada Maranhense contribuiu decisivamente para conduzir o Maranhão ao segundo lugar nacional na produção de algodão e uma das províncias mais prósperas do nosso país, ombreada com Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco.

A fartura proveniente da nossa região impulsionou a construção dos suntuosos casarões de até quatro pavimentos, que serviam de residência para as famílias abastadas (fazendeiros da Baixada e ricos comerciantes de São Luís) e abrigavam os pontos comerciais da Praia Grande.

As embarcações que transportavam as nossas mercadorias para a Europa, traziam, no seu retorno a São Luís, lastros de pedras de  cantaria e azulejos portugueses, os quais até hoje adornam as calçadas e fachadas dos sobrados desse cenário urbano e arquitetônico que vivenciou períodos áureos de progresso e opulência.

Todo o lucro obtido com a produção e o comércio permanecia concentrado nas mãos de uma aristocracia formada por fazendeiros e grandes comerciantes da Praia Grande.  Os seus filhos estudavam nas  melhores escolas da Europa ou nos centros mais desenvolvidos do nosso país – a Bahia e o Rio de Janeiro.

Como em todo o Brasil, na Baixada também os escravos africanos constituíram a base de sustentação da economia colonial e imperial. Sem o auxílio de máquinas e exaurindo a força dos seus braços, com jornadas de doze a quinze horas por  dia, a vida útil de trabalho de um escravo durava de dez a quinze anos. Na Cafua das Mercês, na Praia Grande, funcionava o mercado de venda dos cativos procedentes da África e que abastecia com mão de obra graciosa as fazendas da Baixada e de outras regiões do Estado.

Na segunda metade do século XIX, os negros escravizados nas fazendas da Baixada, não suportando mais o perverso regime a que foram subjugados por séculos, promoveram diversas rebeliões, segundo relatos da professora e pesquisadora Mundinha Araujo, no seu brilhante livro “A Insurreição dos Escravos em Viana – 1867”.

Após essa sublevação libertária e de resistência à opressão escravagista, irradiada por toda a Baixada, os quilombos se multiplicaram e a economia baixadeira começou a estagnar. Vinte e um anos depois, com  o advento da  Lei Áurea, que aboliu o regime escravocrata de 350 anos (o mais longo da história das Américas), a atividade produtiva da Baixada entrou em decadência.

O declínio econômico da Baixada provocou a ruína do faustoso comércio da Praia Grande e o abandono dos luxuosos sobrados pelos seus moradores, que se deslocaram em sua  maioria para o Rio de Janeiro.

Desde a época colonial até os tempos hodiernos, São Luís sempre foi vocacionada para o mercado externo, por meio de seus portos. Nos tempos da colonização, a maioria dos artigos  exportados era produzido no continente, notadamente na Baixada, daí  a conclusão de que o comércio da Praia Grande floresceu e conheceu o seu apogeu por força da pujança econômica da Baixada Maranhense.

Os barcos a vela realizavam a travessia para a Capital do Estado, atracando nos armazéns e de lá retornando com as mercadorias de consumo para abastecer as fazendas e o comércio da Baixada. A decadência de uma provocou a derrocada da outra.

Com o passar dos anos, a Praia Grande passou a ser identificada como o Centro Histórico de São Luís e, em dezembro de 1997, por reconhecimento da UNESCO,  foi tombada como Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade.

Hoje, nós baixadeiros, reconhecemos e reivindicamos que, antes de ser patrimônio da humanidade, o Centro Histórico de São Luís é o patrimônio do trabalho, do suor e do sangue do povo da Baixada Maranhense. Tributamos grande respeito e amor a São Luís, essa querida cidade que nos acolheu de braços abertos e que continua imbricada às nossas vidas e à nossa região de origem. Veneramos a Baixada, nossa terra, nossa gente, nosso gentílico baixadeiro, sua cultura, suas tradições, sua beleza esplendorosa, seus encantos, sua imponência natural espelhada nos seus rios, lagos e campos coloridos de flores e habitados por  diversificadas espécies de peixes,  pássaros e outros animais silvestres.

O Brasil e o Maranhão têm uma grande dívida para com a Baixada. E especialmente para com a nossa gente laboriosa, nossa nação baixadeira, que produziu riquezas no passado e foi  abandonada pelo Poder Público no presente. Urge resgatarmos o nosso legado histórico para que a Baixada volte a ser o celeiro do Maranhão e o melhor lugar para se viver. Estamos na luta para suplantar  esse colossal desafio e, com certeza, os “Ecos da Baixada Maranhense” serão ouvidos e hão de conquistar a mais ampla repercussão.

Crônica de Chico Gomes publicada no Livro Ecos da Baixada nas páginas 24/27.

Rotina do acaso

Em 14 de março de 2018 20:14

Quando os raios de sol descortinam no horizonte e começam a bronzear as nuvens que se movimentam como fumaça levadas pelo vento é a anunciação de que o dia está chegando para cumprir o que de mais belo ocorre na rotina da natureza.

Os pássaros em revoadas brincam sem parar num vaivém de intensa alegria e cantam o prelúdio da vida em sintonia com o amanhecer.

A rotina que se desenha em cada alvorecer parece transbordar as medidas do possível que, em outros momentos, vão tomando forma e proclamam o que sempre acontece de um jeito ou de outro. Nada fica para trás sem que se cumpra o que tem de ser cumprido nos primeiros momentos da aurora. A natureza providencia tudo segundo a rotina da vida no espaço e no tempo. E a terra se entrega em produção e colore sua existência do que há de mais belo aos olhos das criaturas.

O fascinante impressionismo remete a todos a feitura do Grande Arquiteto do Universo, que não poupou esforços em criar o que de mais encantador existe debaixo do céu. Um pedacinho desse universo se chama de Baixada Maranhense. Nela foram colocadas, de formas ornamentais, ilhas, morros, rios, lagos, lagoas e uma infinidade de campos inundáveis a perder de vista.

Como é lindo olhar as graúnas e outros pássaros em voos miúdos e as japeçocas (japiaçocas) pousadas nas vitórias-régias, que dão um tom ornamental de uma beleza ímpar aos campos com centenas de outras flores. Na Amazônia as vitórias-régias chegam a medir um metro de diâmetro, com o aspecto de grandes sombreiros mexicanos, onde os peixes se abrigam da luz solar.

Peixes de pequenos portes praticam suas peripécias em saltos para abocanharem os insetos de seus interesses que estão descansando nos caules das plantas. E quando o pescador observa esse fato faz seu pesqueiro ali próximo para disputar, também, a sua sobrevivência com alguns pescados.

Os campos da Baixada Maranhense formam uma grande manjedoura que cria e acalanta a vida aquática a se repetir todos os anos enquanto a água perdura. Sem água, quebra-se a cadeia produtiva e o encanto da vida. E, se falta água, sobra sofrimento e desespero, que deixa a esperança do baixadeiro árida e prolongada até o próximo inverno.

O poeta José Chagas no Soneto 3 do seu livro Colégio do Vento, com sua criatividade, dá uma dimensão do que tudo isso representa em beleza e preocupação para os baixadeiros, mesmo ele sendo sertanejo:

O campo era um continuar de vida

a se estender pelo horizonte a fora,

e a paisagem se dava repetida,

tanto em seu pôr do sol, como na aurora,

com a luz sendo uma cálida bebida

a embriagar a vastidão sonora,

onde as aves em voo na paz erguida

cobriam de asas o seu ir embora,

e o azul era uma longa despedida

do tempo a consumir-se todo em hora,

para, fugindo assim, dar a medida

de tudo o que era pressa na demora,

e o quanto fosse solidão já ida

não mais voltasse como volta agora”.

Os prometidos Diques da Baixada pelas autoridades governamentais parecem obra de ficção. Passada a filmagem nada se concretizou a não ser a promessa. E, novamente, no próximo pleito eleitoral renova-se tudo mais uma vez, e até colocam máquinas para garantir, como quem garantia antigamente com um fio do bigode, o trato acordado.

A Barragem dos Defuntos localizada ao sudeste de Peri-Mirim, construída com o objetivo de manter a água doce nos campos e evitar a contaminação pela água salgada, que vem do mar, por diversas vezes, durante a estação invernosa sofria a ação das intempéries do tempo e tinha que ser socorrida com o fim de evitar a evasão fulminante da água, que descia ao mar formando caudalosos rios.

Para solucionar o desperdício e o rompimento progressivo daquele anteparo, o prefeito de Peri-Mirim contratava um homem experiente que soubesse liderar uma boa equipe de trabalhadores com o objetivo de sanar as avarias causadas pelas fortes chuvas. Essa labuta exigia dos trabalhadores um condicionamento físico de boa qualidade e muita dedicação no enfrentamento da tarefa, inclusive em condições inesperadas, com animais peçonhentos de todas as espécies e tamanhos, muriçocas e maruins a perturbarem o desenvolvimento do serviço.

Por volta do ano de 1956, meu pai era o líder de uma equipe que recuperava a barragem em ocasiões de acentuado inverno, quando um dos seus comandados foi mordido por uma cascavel pequena, que os companheiros mataram. Levaram o acidentado juntamente com o réptil para o líder avaliar o que fazer, haja vista que não havia soro antiofídico no local. A solução encontrada pelo líder no momento foi dar um brado no trabalhador, argumentando que uma cobrinha daquele tamanho não teria como molestar um homem novo e forte do tipo do acidentado. E não é que deu certo! – Além disso, foi espremido o local ferido para expulsar o veneno inoculado no sangue e lavado com uma pinga, superficialmente.

Naquela época os habitantes do município, principalmente os criadores de gado, cobravam do prefeito da cidade que cuidasse de manter a barragem íntegra para o bem dos seus rebanhos e o povo, por sua vez, também fazia coro nesse sentido com o intuito de garantir o sustento de suas famílias com o pescado.

Havia, portanto, um entendimento saudável entre a população e o Poder Executivo. A cada inverno os canoeiros e pescadores se juntavam para limpar os igarapés com o incentivo do prefeito que, mesmo sem gastar dinheiro para isso, parecia ter em mente a satisfação de lidar com o problema mostrando a eficácia desse trabalho.

Com os igarapés limpos os canoeiros praticavam menos esforços na movimentação de suas embarcações e as piabas usavam o caminho limpo e com água corrente vinda do rio Aurá, para tentarem subir em piracema. Mas ao chegarem numa pequena barragem que une a sede do município ao bairro Portinho eram alcançadas pelas tarrafas dos pescadores que as esperavam com o fim de capturá-las. E assim a vida na Baixada vai seguindo seu curso na beleza enquanto tem água, enquanto tem alimento, e no sacrifício de décadas de espera por uma tomada de decisão que prolongue o tempo de cheias em nossa região.

Francisco Viegas