De Roça e Capoeira

De Roça e Capoeira

Autor Expedito Moraes *

Era outubro de 2013, verão brabo, era a terceira vez que eu visitava várias enseadas de campo da Baixada. Passei por Gameleira em direção a Regalo e Luizinho, povoados de CAJARI do lado esquerdo do Rio Pindaré.

O engenheiro e o fotógrafo que me acompanhavam tinham estado lá no mês de março quando o campo estava cheio d’água e, sobre os balcedos e tripas de vaca, havia muitas garças, socós e jaçanãs; pelo pasto verdinho o gado gordo; dentro das lagoas os búfalos só com as cabeças de fora ruminando; à beira do campo, os cabocos carregando cofos de peixes enfiados no mará ou remo sobre os ombros. Jovens e senhoras com suas tarrafas, caniços, socós e puçás já tinham àquela hora garantido a boia.

Em quase todo quintal havia uma rocinha de milho, mandioca, um feijãozinho; pés de maxixe, de melancia esparramados pelo chão; no terreiro e debaixo do jirau, galinhas e catraios mariscavam; alguns cabritos espalhados pelas moitas, os porcos fuçando tudo e os patos passeando pelas águas. Este era o cenário do mês de março para abril, o fotógrafo tinha se apaixonado pelo lugar, tirou centenas de fotos era uma pequena mostra de um paraíso ecológico.

Chegávamos agora em outubro, 6 meses depois. Pedi para o motorista parar no mesmo lugar que tínhamos parado em março. Todos desceram, ou melhor, apiaram. Disse: este é o mesmo lugar que vocês se apaixonaram. Espanto!!! O fotógrafo, depois de olhar prá todo lado, vira-se pra mim e diz: – daquilo tudo que tinha aqui só restou esse casebre?

É assim. Somente pode contar essas histórias quem é Baixadeiro. Naquele dia sai dali com a alma aturdida e um profundo sentimento de impotência. Antes de dormir naquele noite pedi a Deus que me permitisse conhecer outras pessoas dispostas a lutar pela redenção da Baixada, e pela vida desses conterrâneos.

Deus sempre nos ouve quando a causa é nobre. Na semana seguinte houve uma reunião na Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social e Agricultura Familiar-SEDES onde o assunto eram as Barragens de Enseadas. Nessa reunião conheci Flavio Braga, que logo depois criou o Fórum da Baixada, mas já não estava sozinho. De lá pra cá cresceu, virou Sociedade de Defesa da Baixada Maranhense, já é gente grande.
E como gosta de dizer a Forense Ana Creusa, Avante Baixada.

* Expedito Nunes Moraes é natural do povoado Cachoeira em Cajari (MA). Graduado em Administração (UEMA). Foi deputado estadual entre 1995 a 1997 e empresário da construção civil. Exerceu vários cargos na administração pública do Maranhão. Presidente de Honra do Fórum da Baixada (gestão 2016/2017); 1º Vice Presidente (gestão 2019/2021) e presidente em exercício.

Poema para a Baixada Maranhense

Poema para a Baixada Maranhense

Autor Hilton Mendonça*

Deslumbra-se a Baixada maranhense

Em vasta paisagem de sol e de chuva

E nela escreve a sua singular epopeia.

 

Sob um dezembro ofegante

Ou debaixo de um abril lacrimoso,

A Região ecológica enamora golfo,

Serpenteia lagos,

Abraça rios,

Revigora campos

E luta pela vida.

 

Útero de tanta gente

– geradora de santos e santa –

A Baixada é mãe de Helena,

De Bento.

De João Batista

E de Vicente Ferrer.

 

Como todas as mães seculares,

Perfilhou gentes até o corpo fatigar,

E dezenas de filhos

Ainda lhe escaparam do ventre:

Nasceram as belas Viana, Vitória, Olinda e Palmeirândia,

Que se irmanaram às formosas Conceição,

Anajatuba, Matinha e Penalva,

Todas de excelsa Bela Vista.

 

E como a descendência baixadeira

Não se podia compor só de princesas,

Eis que das suas entranhas regionais

Irromperam rebentos varonis,

Crismados de Pinheiro, Peri-Mirirn, Monção e Cajari,

Este último de perfeita rima com o ribeirinho Arari.

 

E para não rimar com mais irmãos

E serem a singularidade do todo,

Vieram Igarapé do Meio e Pedro do Rosário,

Para, à mesa, sentarem-se com Presidente Sarney

Uma bacia hidrográfica.

-farta de Mearim, Pindaré, Turiaçu e Pericumã – Plantada

bem no seio dessa Planície olímpica,

Faz a vida seguir bagrinhos, mandis e jacanãs.

Siamesa, outra bacia, lacustre,

-servida de Itans, Formoso, Viana e Aquiri –,

lacrimeja curimatás, jandiás e socós,

Além de japeçocas, surubins e acaris.

 

E para pescar esse peixe abundante,

Há o choque, o caniço e o landruá,

A se juntarem à tarrafa, ao espinhel e ao puçá.

 

No quintal baixadeiro,

Um cardápio de galinhas e patos avizinha-se

De suínos, bovinos e caprinos,

Espalhados pelos vastos campos,

Dos litigiosos búfalos africanos.

 

Na bela Planície inundada,

Sobre aguapés, juncos, mururus e gameleiras

Inda paira a memória da luz azul da curacanga,

Que assusta até o boi marrequeiro…

 

Se o verão é o pote de barro

-que se esvazia e se racha –,

O inverno é o copo cheio,

Derramado nesse Jardim flutuante,

Que seca e que enche e que pulsa Na mente e no corpo da gente…

E viva a Baixada!

*Hilton Mendonça é natural de Arari (MA). Graduado em Direito pela UFMA. Advogado, poeta e escritor. É autor das seguintes obras: “Julgados do Tribunal Trabalhista do Maranhão”, “Julgados das Turmas Recursais do Maranhão”, “Justiça Gratuita” e “Uma Ação Rescisória de Matar: TJ e STJ”.

A penúria da rica Baixada Maranhense

A penúria da rica Baixada Maranhense

Autor Expedito Moraes*

Todo dia Dona Antônia acorda cedo e procura alguma coisa pra fazer o “café” da família. Dona Tunica, como é conhecida, compra suas mercadorias no povoado mais próximo, na quitanda do Seu Teodoro, com o recurso que recebe do Bolsa Família. Além de o dinheiro ser muito pouco, Seu Teo pratica preços exorbitantes. Mas é o Nico quitandeiro da localidade. Bem surtido, é abastecido por caminhões dos Armazéns Peixoto e Martins e por outros fornecedores alienígenas. Nada, nada mesmo, é produzido neste estado de um potencial tão rico.

Há uma bancada dentro do comércio de Seu Teo, que ele chama de frutaria, onde expõe à venda laranjas, bananas, melancias, mangas, maçãs, tanjas, atas e outras frutas que vêm da Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco, São Paulo etc. Até o quiabo, maxixe, cheiro verde, vinagreira, joão-gomes etc. Seu Teo está bem sucedido, afinal ele é a ponta de um perverso e quase imperceptível sistema de transferência de renda dos estados não produtores para os produtores. Em São Luís, ocorre a mesma aberração: na Ceasa, 98% dos produtos vêm de fora do Maranhão.

As crianças, todas as manhãs, precisam percorrer a trilha que atravessa o campo, agora muito árido e cheio de torrões. Descalças, andam uma légua até a escola municipal. Chegam com o suor escorrendo pelo rosto, misturado com a poeira e exaustos de sede. No caminho não tem água em lugar nenhum. Apenas um pequeno açude, escavado pelo prefeito anterior, resiste até a seca virar tragédia. Entretanto, é o lugar em que os animais bebem e são lavados; onde as pessoas tomam banho, lavam roupa e recolhem água para consumo caseiro. Essas crianças desnutridas alimentam a esperança de saciar sua fome com a “merenda escolar”.

Com a aflição da pobreza, Dona Tunica se desespera: sem comida em casa, sem água para suprir suas necessidades, para molhar as plantas e o seu “canteiro”. Da peque- na roça, cultivada num pedacinho de terra que sobrou do lado de fora da cerca eletrificada do fazendeiro, o plantio morreu todo por causa da escassez de chuvas. O poção mais próximo, onde se pescava uns tamatazinhos e umas taririnhas, também já está seco. Seu Chico, marido de Tunica, não sabe mais o que fazer. Justamente ele que, no inverno, costuma pegar sua canoa e “empurrá-la à vara” até o meio do campo completamente cheio para, com um puçá ou uma tarrafa, apanhar o “cumê” da semana em poucos minutos.

Famílias como a de Chico e Tunica existem aos montes nos campos da Baixada. São famílias quase nômades, que na estação chuvosa mudam-se para o “teso”, conduzindo as suas criações domésticas, a fim de que não morram afogadas nas enchentes ou atoladas na lama, visto que o pasto fica submerso nas copiosas águas que recobrem os campos.

Chegando ao “teso”, constroem ranchos cobertos e ta- pados com pindoba; meaçabas são usadas como portas e janelas; o piso é um jirau de assoalho feito de rachas de palmeira ou marajá (para evitar água e umidade). Todas as serventias do casebre são improvisadas. Tempos depois o rancho será abandonado e vai virar “tapera” assim que começar o “abaixamento”. Logo a família estará em algum lugar perto de uma “baixa”.

Esta crônica parece uma obra de ficção, mas não é. É uma dura realidade. Somente os baixadeiros genuínos conhecem esse infortúnio anual.  Por  isso,  acreditamos  que  os planos, projetos e ações reivindicados pelo FÓRUM DA BAIXADA são capazes de reverter essa penúria e proporcionar melhoria de vida pra mais de meio milhão de pessoas.

Crônica publicada no Livro ECOS DA BAIXADA, páginas 53/55.

* Expedito Moraes é natural do povoado Cachoeira em Cajari (MA). Graduado em Administração (UEMA). Foi deputado estadual entre 1995 a 1997 e empresário da construção civil. Exerceu vários cargos na administração pública do Maranhão. Presidente de Honra do Fórum da Baixada (gestão 2016/2017); 1º Vice Presidente (gestão 2019/2021) e presidente em exercício.

Ecos da Baixada

Ecos da Baixada

Autor Flávio Braga*

As cadeias produtivas da Baixada  Maranhense ainda se sustentam na obsoleta economia de subsistência (produção para o consumo imediato) e as principais atividades econômicas restringem-se ao extrativismo vegetal (babaçu, juçara, buriti etc), pesca artesanal, pecuária extensiva e a pequena agricultura (lavoura rudimentar).  Inobstante  o abundante potencial hídrico, como recurso indutor do desenvolvimento socioeconômico da Baixada, o drama da escassez de água ainda é o principal flagelo das comunidades rurais, no segundo semestre de cada ano.

Nessa perspectiva, há uma circunstância particular que diferencia substancialmente a Baixada das outras regiões pobres do Maranhão: embora o seu povo seja bastante carente, as soluções para melhorar as suas condições de vida são baratas, simples e de fácil resolutividade. Só depende da vontade política dos nossos governantes. Quem conhece de perto a realidade social da Baixada tem a noção exata desse panorama ultrajante, cruel e desumano.

Na estação chuvosa, a Baixada se transforma em uma imponente planície alagada, que adorna o majestoso Pantanal Maranhense. Entrementes, em pleno século XXI, a Baixada ainda agoniza com a martírio da estiagem, desnudando um paradoxo sinistro, que violenta as regras da lógica e as leis da razão. A falta de água já se tornou uma calamidade pública anual, visto que submete as comunidades baixadeiras às mesmas privações e ao mesmo suplício em todos os “verões maranhenses”.

O que mais nos angustia é que esse quadro de penúria é uma tragédia previsível e anunciada, mas incapaz de sensibilizar as autoridades que têm o poder de minimizar tamanho sofrimento, as quais fazem ouvido mouco para o grito de socorro ecoado da voz rouca dos baixadeiros.

Provoca perplexidade lembrar que entre os meses de abril e agosto de cada ano a Baixada fica envolta num verdadeiro mar de água doce. Entretanto, na época do abaixa- mento (entre julho e setembro), essa exuberância de água escoa para o mar e os campos da Baixada se transformam numa paisagem árida, imprópria para qualquer atividade produtiva, como consequência direta da omissão, descaso e negligência do Poder Público.

Hodiernamente, além da estiagem que castiga a Baixa- da todos os anos, ela ainda padece com a progressiva invasão da água salgada (salinização), que produz grandes manchas brancas na superfície dos campos (acúmulo de sal), comprometendo o equilíbrio ecológico da região.

A singeleza do senso comum nos ensina que a retenção da água doce nos campos da Baixada representa a maior ri- queza para as atividades de pesca de subsistência, pecuária, piscicultura, agricultura familiar e criação de pequenos animais, como galinhas, patos, porcos, caprinos e ovinos.

Malgrado os seus encantos e belezas naturais (que a tornam potencialmente rica), a Baixada continua bastante desassistida pelas diversas esferas governamentais. O que o clamor baixadeiro mais reivindica do Poder Público é a construção de barragens, açudes e canais que promovam a conservação da água doce. O resto pode deixar por conta da pujança da natureza e da labuta do nosso caboclo. Tendo a água disponível, eles sabem se virar muito bem. A natureza é o berço de uma vegetação aquática (guarimã, aguapé, orelha de veado, mururu etc) riquíssima em nutrientes para alimentar peixes e outros animais. E o camponês entra com a valentia da sua força de trabalho arrojada e obstinada.

Nesse contexto, a construção dos Diques da Baixada se tornou uma necessidade imperiosa para solucionar o tormento infligido pela seca e pela salinização. Os diques serão responsáveis por impedir o avanço da água salgada (salinização) rumo aos campos inundáveis da Baixada e armazenar, por maior período de tempo, a água doce que transborda dos lagos, inunda os campos naturais e se perde para o mar, sem alterar, no entanto, as cotas máximas naturais de inundação. Essa retenção aumentará a disponibilidade hídrica na Baixada, sobretudo no período crítico de outubro a dezembro.

Avante, nação baixadeira!!

Artigo publicado no Livro ECOS DA BAIXADA, páginas 83/85.

*Flávio Braga é natural de Peri-Mirim (MA). Graduado em Direito pela Servidor do TRE/MA. É presidente de honra do Fórum em Defesa da Baixada Maranhense, professor, escritor, articulista e blogueiro. É autor da obra “Dicionário do Baixadês”.

Itans Empreendedora I

Itans Empreendedora I

Autor Expedito Nunes Moraes*

Idealismo, vontade, determinação, trabalho, tecnologia, união, doação e prosperidade, são os adjetivos usados pelo Vice-Presidente do Fórum em Defesa da Baixada Maranhense (FDBM), Dr. Antônio Valente, para definir o sucesso da exitosa COMUNIDADE DE ITANS, situada no Município de Matinha/MA. Diz ele, que não são suficientes os adjetivos para determinar o tamanho do substantivo da comunidade. 

Sabe-se, com certeza, que três dos apóstolos de Jesus eram pescadores: Pedro, Tiago e André. Existem dúvidas se João chegou a pescar. O primeiro encontro dos apóstolos pescadores com Jesus aconteceu à beira do lago Tiberíades ou mar da Galileia, que banhava a também cidade de Tiberíades. 

Naquele tempo, a pesca era uma das principais fontes de renda da região. Os pescadores eram homens simples. Dedicavam-se a essa atividade herdada dos seus ancestrais, por isso, acumulavam bastante conhecimento, tanto do mar quanto da movimentação dos cardumes. Eram homens puros, preocupavam-se apenas com seus barcos, suas redes, pesca, venda e bem-estar da família.

Essa simplicidade constituía o perfil ideal para que os apóstolos fizessem parte da propagação da Boa Nova apresentada pelo Mestre. Porém, nestes homens, teria que ser profundamente fortalecida a Fé. E esse foi o grande desafio de Jesus: fazê-los compreender o verdadeiro sentido do seu Reino. Não compreendiam como sem poder, dinheiro, armas e violência poderiam se libertarem dos romanos e construírem um novo Reino.

A proposta de Jesus, em princípio, não poderia ser entendida porque aquele povo sofria todo tipo de injustiça. Eram obrigados a pagar impostos elevados, não tinham direitos algum. A violência,  a ameaça eram práticas comuns às quais todos eram submetidos a todo tipo de humilhação.  A fome e pobreza chegavam ao nível de calamidade.

A intenção aqui não é assemelhar as histórias. Nem tampouco comparar o citado lago ao de Itans e, muito menos, equiparar os atuais pescadores aos apóstolos. Mas, pensando bem, podemos encontrar alguns aspectos dignos de menção, exemplo: os itaenses eram pescadores do lago e usaram a Fé para transformarem suas vidas. Aprenderam a pescar melhor peixes e pessoas. E a essas pessoas ensinam a viver melhor, a conquistarem qualidade de vida por meio do trabalho, do conhecimento técnico e, sobretudo, adquirirem renda para fazer face às suas necessidades básicas.

O foco era o mesmo que Jesus pregou “amar ao próximo como a ti mesmo”. Este principio é o mesmo que empatia. Desejar ao outro o mesmo que quero para mim. Assim, como o exemplo da semente de mostarda pode ser substituída pela semente da sumaumeira que de tão pequena é carregada pelo vento e quando germina transforma-se em uma imensa e maior de todas as árvores. Essa é a pregação de lideres itaenses como Cibaleno, Narlon, Eliseu, Silveira aos jovens e pessoas de Itans e outras comunidades. 

E os milagres acontecem. Cariri – nativo de Itans – afirma que com ele aconteceu um milagre por causa da grande fé em Deus. Silveira identifica como fator preponderante do sucesso de Itans, a solidariedade, o compartilhamento, a fé, a coragem e determinação dos itaenses. Segundo ele, existe uma cultura de um cuidar do outro. 

A vontade, determinação e foco, chegaram antes do Sebrae e do Banco do Brasil, que apoiaram o projeto. A estrada chegou depois de 10 anos de muita luta. O frigorífico, da mesma forma. 

A experiência já saiu de Itans e viajou para longe. Já está em mais de 160 municípios levando a BOA NOVA da prosperidade. Cacoal, povoado de Viana é um belo exemplo. Sandra, uma jovem, e outros, hoje, o empreendimento com 29 açudes transformou o povoado e até um barracão de reggae a depósito de ração para peixes. Nós próximos capítulos, vocês conhecerão melhor os empreendedores, pessoas e histórias dessa comunidade feliz.

*Expedito Nunes Moraes é natural do povoado Cachoeira em Cajari (MA). Graduado em Administração (UEMA). Foi deputado estadual entre 1995 a 1997 e empresário da construção civil. Exerceu vários cargos na administração pública do Maranhão. Presidente de Honra do FDBM (gestão 2017-2019). 1.º Vice-Presidente (Gestão 2019-2021) e atual Presidente do FDBM em exercício.

Reunião em Itans no dia 15/08/2020
Pescaria em Itans

 

Fé, Texto e Contexto

Fé, Texto e Contexto

Autor Antônio Francisco de Sales Padilha*

No dia 23 de dezembro de 1957, um bimotor Douglas rasgou os céus de São Luís em direção ao continente, voando baixo sobre a baia de São Marcos, desaparecendo entre as nuvens e deixando para trás a capital do Maranhão. Após a travessia da baía, podiam ser descortinadas as praias que anunciavam a chegada no continente, mais precisamente no litoral norte da Baixada Ocidental Maranhense.

Depois a última praia, lá embaixo, abriu-se uma paisagem recortada: estendidas florestas pantanosas cortadas indiscriminadamente por muitos igarapés em que se espelhava o pálido azul do céu; vastos pampas ressecados pelo forte verão tropical; pequenas ilhas, espalhadas como oásis de palmeiras; verdes bosques esmeraldinos, onde se escondem silenciosos povoados, e mais longe emergem as cidadezinhas interioranas.

São Bento era uma dessas cidadezinhas interioranas avistadas. E, para o povo dessa cidade, era uma tarde de júbilo e festa a chegada dos padres piamartinos, pois, durante a última década, a paróquia de São Bento passou por um período de muita carência de padres que permanecessem na cidade. O último vigário, o padre José de Jesus Travassos Furtado, tinha sido acometido de uma enfermidade psíquica, que não foi debelada e ele nunca se recuperou.

Havia também um mito de que São Bento havia sido excomungada pelo Bispo por conta de uma parte de sua população ter aceito a ideia de que alguns padres da Igreja Brasileira poderiam tomar conta da Igreja e passarem a ser os mentores espirituais da gente da cidade. Felizmente, a outra parte, que pelo visto era bem maior, não permitiu que os padres da Igreja Brasileira passassem do aeroporto, tendo que retornar para a cidade de Pinheiro, de onde haviam vindo. Ademais, para completar essa dádiva, os padres chegariam na antevéspera do Natal, o que intensificava a esperança de que São Bento voltasse a ter uma ação firme da Igreja, tal qual havia tido com a presença do sambentuense e agora Bispo Dom Phelipe Condurú Pacheco.

Por conta de tudo isso, os católicos fervorosos, as autoridades, os professores, os estudantes e as pessoas de todas as classes sociais, cruzaram o pequeno riacho da Velha Bárbara, equilibrando-se em troncos de palmeiras, que serviam de ponte, sob a luz forte dos raios de sol que resplandeciam nas águas outrora cristalinas do velho riacho, em direção ao Aeroporto para esperar os padres que iriam viver, revolucionar, educar, amar e serem amados pelo povo de São Bento.

Os músicos da Orquestra, conduzidos pelo Maestro Antônio Manoel Padilha, todos a postos. Os estudantes com suas bandeirinhas em punho, algumas pessoas mais afoitas aquecendo as mãos para as palmas, as autoridades limpando a garganta para evitar qualquer pigarro na hora do discurso, afinal, aquele momento, tão esperado, era um momento glorioso e nada poderia dar errado.

O campo de pouso, na verdade uma estrada de piçarra, misturada em alguns pontos com um gramado, onde o gado sonolento pastava ou deitava-se aproveitando os últimos raios de sol da ventilada tarde do fim do verão, precisava estar em condições para que o avião aterrissasse. Tão logo o roncar dos motores do DC 3 da AERONORTE foi ouvido, alguém lembrou de enxotar o gado da pista para deixá-la livre, a fim de que o bimotor pudesse pousar nas terras de São Bento, no Chão Bento. Assim foi que, em uma tarde de muito sol e muita luz, sob os acordes da Banda de Música, a saudação dos estudantes balançando as bandeirinhas e sob os efusivos aplausos dos populares, desembarcaram o Bispo Dom Alfonso Maria Ungarelli, o Padre Felix Pistone, o Padre Luigi Rebuffini, o Padre Lorenzo Franzoni e o Irmão Luigi Paoletti, – missionários pioneiros da Congregação “Sagrada Família Nazareth” de Brescia – Itália.

Ainda sob a calorosa salva de palmas, o prefeito da cidade, Sr. Benedito Maia Moniz, fez a saudação inicial, demonstrando a alegria do povo de São Bento com a chegada deles. Em seguida, a Professora Négile Atta também os saudou e disse-lhes da esperança de boas novas para a educação da cidade, que eles, com certeza, estavam trazendo.

A impressão que os padres tiveram foi que haviam chegado em um outro planeta, pois viam pessoas com traços físicos e trajes totalmente diferentes dos deles, falando uma língua incompreensível. Eles conheciam algumas palavras do português, mas não conseguiam identificar nenhuma delas. Uma coisa lhes chamou a atenção: uma invejável simplicidade e simpatia das pessoas, um calor humano incomparável.

Ainda sob os acordes da Banda de Música, rumaram para o centro da cidade em direção a casa cedida pela família de José Campos, preparada carinhosamente pela comunidade para abrigá-los. Receberam os votos de boas-vindas e saudações do Sr. Joaquim Silvestre Trinta, ilustre cidadão sambentuense, intérprete dos sentimentos de alegria dos seus conterrâneos e dos eclesiásticos filhos da terra, Dom Luís de Brito e Dom Felipe Condurú Pacheco.

Neste ano de 2017 completarão sessenta anos que esses seres de luz aportaram em nossa terra, trazendo consigo a esperança da paz, da alegria e do amor. Muitos foram os que tiveram a oportunidade de serem educados no seu Ginásio Industrial Piamarta, onde aprenderam um ofício e se tornaram cidadãos de bem. Não ficaram apenas na educação, ensinaram a criar os peixes em cativeiro, trouxeram o primeiro trator para ajudar na implementação das novas técnicas agrícolas para melhorar a produção, criaram o banco rural, para proteger o trabalhador rural da ganância dos comerciantes, criaram as cooperativas para a construção de casas aos mais necessitados, apoiaram as artes: a pintura, o teatro, a música, implantaram a primeira sala de cinema da cidade, incentivaram o desporto, cuidaram dos doentes, lhes fornecendo medicamentos, dos leprosos, criaram o Recanto da Paz, a casa dos especiais.

Enfim, a Baixada foi sendo mudada a partir de novos paradigmas trazidos por eles. Prece e Trabalho, o lema do seu mentor – Santo Giovanini Piamarta – foi implementado vigorosamente. Ensinando a rezar e a trabalhar, os padres Piamarta revolucionaram esse pequeno São Bento, esse Chão Bento, cada dia mais abençoado com as suas presenças.

Crônica publicada no Livro ECOS DA BAIXADA, páginas 90/94.

* Antônio Francisco de Sales Padilha é natural de São Bento (MA). É bacharel em Trompete e Licenciado em Música pela UnB, Mestre em Regência e Doutor em Música pelas Universidades de Aveiro/Viena. Foi Diretor da Escola de Música do Maranhão, Secretário de Estado da Cultura e Chefe do Departamento de Artes da UFMA. É autor dos livros, entre eles A linguagem dos Tons, A Construção Ilu- sória da Realidade, Direção, Ansiedade e Performance.

Pinheiro

Pinheiro

Autor José Sarney*

Pinheiro estava no século XIX. Seus hábitos e costumes remontavam ao tempo da Colônia, e ainda era uma área de descobertas. O único meio de comunicação era o telégrafo, de fio único, que atravessava o campo, linha tênue de referência no meio do verde e das águas. Muitas vezes, menino, eu ficava na beira desse campo, olhando a infinidade de pássaros que pousava no fio do telégrafo, única ligação da cidade com a capital. Eram andorinhas, patativas, vim-vins, guriatãs, pássaros todos pequenos que ali descansavam e, como nós, admiravam o campo. Em nuvens se formavam, alimentando-se das sementes de capim ou dos mosquitos que proliferavam nas águas e que eram apanhados como comida, no baile das andorinhas em vôos de evoluções e acrobacias que nos faziam passar o tempo contemplando-as.

A cidade era uma pequena vila de duas ruas, uma maior, o eixo central, como sempre chamada de Rua Grande e outra que dela derivava e ia em curva até a Igreja de Santo Inácio, onde se iniciara a povoação, com a primeira morada, do Capitão-Mor de Alcântara, Inácio José Pinheiro, que por ali chegara em busca de novos campos para localizar fazendas de criação de gado, tendo montado curral, por volta de 1815. Em 1856, a povoação foi reconhecida como vila, pela Lei Provincial 439, e, em 1868, ali já existiam “200 almas”. Em 1920 foi elevada a município, desmembrada da Comarca de São Bento.

As vilas e cidades no Brasil sempre começaram com uma capela, marco de povoação. A devoção vinha primeiro. Em Pinheiro, primeiro chegou a fazenda: casa e curral.

Os jesuítas foram os evangelizadores da Amazônia e dividiam com os capuchinhos, carmelitas e os mercedários a credencial de quem chegara primeiro. Quando o Papa João Paulo II visitou São Luís, em 1991, preparei e entreguei algumas informações sobre a cidade e o Maranhão ao Núncio Apostólico, meu amigo Dom Carlo Furno, hoje cardeal jubilado. Surpreso, vias incorporadas na homilia que o Papa fez durante a missa que celebrou:

“Recordo com emoção a História da Igreja aqui iniciada em 1612 pelos missionários capuchinhos franceses na cidade fundada por La Ravardière. O Maranhão se tornou o centro irradiador da extraordinária ação missionária que os jesuítas, capuchinhos, mercedários e tantos outros estenderam à imensa região amazônica no século dezessete. Aqui, o grande clássico da língua portuguesa, o orador  sacro e missionário Padre Antônio Vieira, soube defender a dignidade humana e a liberdade dos indígenas e denunciar os abusos que contra eles cometiam os colonizadores da terra. Por isso, desejo recordar este monumento que nos lembra um dos marcos fundamentais da evangelização na América Latina. Refiro-me ao Convento das Mercês que, recentemente restaurado por mãos generosas, concluirá sua reconstrução quando lhe for anexada a Igreja que os padres mercedários construíram, no início deste século, com enorme sacrifício e zelo. Nele ressoam ainda hoje as palavras do Padre Antônio Vieira que residiu nessa casa.”

A verdade é que a missão francesa que fundou a cidade de São Luís trazia quatro padres capuchos recrutados no Convento de St. Honoré, em Paris. A dois deles devemos livros fundamentais na História Brasileira. A Yves d’Évreux, o Suitte de l’Histoire des Choses Plus Mémorables Advenues en Maragnan, ès années 1613 et 1614 ou Voyage dans le Nord du Brésil, em que ele faz um relato dos animais e plantas do Maranhão e, pela primeira vez em nossa História, conta como os índios tupinambás viam o cosmo, o interpretavam e nominavam algumas constelações. O outro é do Padre Claude d’Abbeville, um extraordinário e minucioso relato da aventura francesa no Maranhão, a França Equinocial, em que descreve costumes, História, plantas, o envolvimento da corte francesa com a colonização do Norte do Brasil, e afirma que, com essa conquista, Luís XIII, o duvidoso pai de Luís XIV, o Rei Sol, seria rei de três coroas: França, Navarra e Maranhão.

Já os jesuítas vieram com Jerônimo de Albuquerque na expedição portuguesa que combateu os franceses: os padres Luís Figueira e Francisco Pinto.

No período filipino, também, os padres mercedários Pedro de Santa Maria e Juan Carnero de Alfaro desceram de Quito (então no Peru) e fundaram, no Maranhão e em Belém do Pará, dois conventos — seus sucessores se instalaram também em Alcântara —, com igrejas, fazendas para seu sustento em Alcântara, Viana e por toda essa região de pastagens. Nela, quase todas as ordens religiosas possuíam propriedades.

Em duas ruas, a cidade se esgotava. Do Engenho Queimado, do outro lado do campo, duas léguas de uma lâmina de água coberta de capim. Coube-me, como Governador do Maranhão, aos 35 anos, a oportunidade de construir uma barragem atravessando esse campo e uma ponte sobre o Rio Pericumã, além da estrada que liga Pinheiro a São Bento, passando pela Palmeira, hoje município de Palmeirândia. O Jornal de Pinheiro, quando inauguramos a barragem, tinha a manchete: “A obra do século!”

Crônica publicada no Livro ECOS DA BAIXADA, páginas 152/155.

* José Sarney é natural de Pinheiro (MA). Foi deputado federal, governador, senador e presidente da República. É membro da Academia Maranhense de Letras e da Acade- mia Brasileira de Letra.

Quase tudo virou saudades

Quase tudo virou saudades

Autor João Batista Azevedo *

Há muito queria escrever sobre as coisas que existiam na minha terra e hoje não tem mais, ou é muito difícil de se encontrar. E a penca de recordações é enorme. Para tanto, tive que fazer uma verdadeira regressão mental. Um mergulho nostálgico. Certamente não mencionarei tudo porque uma boa parte encontra-se armazenada no baú do esquecimento. Mas procurarei ser fiel às minhas lembranças: as veredas por onde caminhei, os frutos que saboreei e a experiência de vida que preencheu os dourados anos da minha infância.

Retrocedi na memória e me vi nos meus dias em férias na casa de meus avós maternos no povoado Boticário, em São João Batista – uma reentrância de campo onde se espalhava um extenso tapete verde de capim de marreca.

Às primeiras chuvas, o campo se enchia e logo vinha a vegetação típica emergindo do solo submerso. Eram as orelhas-de-veado, os pajés, as vitórias-régias, as gapeuas, os guarimãs, que logo recebiam as primeiras japeçocas em seus acasalamentos e berçários. Nas primeiras horas daquelas manhãs ou nos fins daquelas tardes, ouvia-se o cantar delas que cruzavam o estreito ressaco de enseada em direção à casa de Seu Doquinha ou lá pras bandas do Urucu.

Era comum se olhar, singrando os campos nunca cerca- dos, pessoas que faziam daquele habitat o seu próprio sus- tento e meio de vida. As canoas e os marás eram utensílios de uso de todos que por ali moravam.

A parte alta de terra começava com um rosário de quirizeiros, cujos frutos perfumavam o ambiente em suas safras. Os tarumãs e as ingás também ganhavam aspecto em meio ao arvoredo nativo. Mais no alto, sobressaiam-se as casas dos moradores com seus quintais e roças.

A casa do meu avô, Heráclito, ficava na parte mais alta. Na frente, um terreiro sempre limpo onde pastavam os animais e era improvisado um campinho de futebol. Do lado, a velha “casa-do-forno”. Mais para a direita ficava a casa de Seu José Castro, enquanto para o lado esquerdo morava o ranzinza Seu Zé Costa.

Meu avô, cuja fisionomia me foge à memória, era um senhor severo, daqueles que empenhavam a palavra como a honra maior de um homem. Minha avó, Andrelina (a quem nós chamávamos carinhosamente de Delica), era extremamente dócil. Tinha nos seus pequenos olhos a profundidade de um azul-marinho. Era ela quem nos acolhia, quando das travessuras infantis e do relho que era prometido e quase sempre cumprido.

Afora a casa de moradia, quase sempre se tinha um poço no quintal, além de uma sentina, um chiqueiro, um galinheiro e uma estrebaria. A primeira parte do quintal era constituída de algumas árvores frutíferas, como limoeiros, laranjeiras, tanjarineiras, algumas bananeiras e mangueiras. Sobressaia-se também um jirau e uma armação de paus que, fincados no chão, se cruzavam em xis para o suporte de canteiros suspensos, onde se plantavam as ervas e os temperos caseiros. Muito difícil encontrar-se um quintal assim hoje em dia.

Do lado da estrada que vinha até a casa de meu avô, uma frondosa mangueira nos presenteava com uma espécie rara de manga: a sapatinho. Confesso que nunca a vi em outro lugar. Acho que era o último exemplar da espécie. Era uma fruta de tamanho pequeno, mas de um sabor agridoce sem igual. Era a preferida dos bezerros que costumavam por ali pernoitarem.

Outras plantas  de  grande  porte  também  compunham a beleza ímpar daquele lugar. Nelas costumavam pousar exemplares de tucanos, ainda que raros. Mas eram comuns os bicos-de-brasa e os os japis – estes mantinham, em uma grande árvore, seus ninhos bem trançados que balançavam  ao sabor do vento matinal. Por ali também passeavam as rolinhas “fogo-pagô” e as pipirinhas pardas e azuis. Nas roças, nos arrozais, faziam algazarra os curiós, caboquinhos e bigodes. Todos livres, leves e soltos a grazinarem suas sinfonias nas manhãs de minha infância.

Entre as astúcias dos meninos daqueles idos, uma era imprescindível. Garoto que se prezasse valente, sagaz e traquino tinha que ter uma baladeira, uma cordinha, ou um pequeno cabresto, a fim de campear os carneiros que pastavam soltos nos campos e capoeiras. Os machos nos serviam de montaria, enquanto as fêmeas quase sempre tinham outras utilidades.

No retorno para a casa paterna, exceto a responsabilidade de ir para o Grupo Escolar e para a aula particular (coisa que sempre fomos obrigados a fazer, eu, meus irmãos e muitos da minha época – na casa de Dona Ubaldina), a vida seguia seu curso normal de infância interiorana. Uma pelada nos campinhos improvisados, o jogo de bolinhas, a bola de meia, o dinheiro de carteira de cigarros, os chevrolets feitos de latas de sardinhas com pneus de rolhas de vidros de penicilina, além de algumas tarefas caseiras, como o recolhimento crepuscular dos animais e o agasalhar de algumas poucas criações. Isso era muito comum nas famílias da época.

Algumas vezes, em períodos mais estios, os animais se afastavam pra mais longe e não retornavam para casa ao cair da tarde. Era certo que no dia seguinte tínhamos que ir pro- curá-los. O rumo era os povoados Arrebenta, Cazumba, Jamari e Candonga. Às vezes se tinha êxito, mas quando não, a busca se repeteria no dia seguinte.

Nessas andanças por entre as capoeiras, uma fartura de frutos do mato sempre apareciam do nada, como se qui- sessem nos encantar com os seus sabores silvestres. Eram maracujazinhos-do-mato, murtas, goiabas-araçás, maria-pretinhas, cauaçus e os deliciosos tucuns-verdes. As amejubas eram raras, mas com faro apurado podiam ser encontradas. Das palmeiras diversas, a meninada se deliciava com as ma- caúbas e os marajás. Nos campos, os bandos de graúnas de peito vermelho faziam seu balé de cores e cantos. Tudo ali existia diante dos nossos olhos… Hoje, quase não se avista mais essas maravilhas do interior baixadeiro.

A procura pelos animais de casa me rendia um prazer imensurável de liberdade e conhecimento. Em algumas vezes, eu, perdido entre as guloseimas do mato, esquecia até da razão de estar naquelas peregrinações, enquanto o burro e o cavalo faziam o caminho de volta pra casa e chegavam na minha frente, me acarretando, vez por outra, uma corretiva pisa por causa da vadiagem.

Já na boca da noite, era preciso tomar banho às pressas, antes que os caburés começassem seu canto noturno. Morria de medo. Precisava estar preparado para ouvir as histórias de Dona Palica, que, entre uma cachimbada e outra, contava para a criançada da redondeza as estórias de reis e rainhas de um reino distante, bem como as dos bichos, em especial as de Coelho e Tia Onça, as que mais me encantavam.

Assim avançava a noite. A lua cintilante nos convidava para a brincadeira de “caí no poço”. Quando chegava a hora de dormir, o Pai-Nosso e a Ave-Maria nos davam a sensação de serenidade, acalento, proteção e guarda. E assim embalávamos nossos dias na pureza da vida mansa e pacífica.

Essas reminiscências, hoje, são como um filme nas lembranças que conservo em minha memória e que o tempo não me deixa viver outra vez.

Crônica publicada no Livro ECOS DA BAIXADA, páginas 78/82.

* João Batista Azevedo é natural de São João Batista (MA). Grduado em Letras pela UFMA, professor e editor do blog “São João Batista On-Line”.

O Baixadeiro

O Baixadeiro

Autor Manoel de Jesus Barros Martins

O baixadeiro é um ser preponderantemente transicional! Na beira do campo, na beira de mato, na beira do rio, na beira do lago e/ou na beira do mangue, esse personagem arquiteta e constrói sua vida transitando com folga e com conhecimento de causa por dualidades recorrentes e renitentes que são presenças indissociáveis dessas realidades.

Beira do campo é a maneira pela qual é denominada tanto a orla que toca a beira de mato quanto a própria vastidão dos campos abertos que configuram a Baixada. Imagem semelhante se aplica à beira de mato: esta é tanto a fralda que demarca o encontro com o campo quanto as zonas mais interiores, conhecidas também simplesmente como matas.

Beira de rio é a área contígua a toda a extensão do rio. Seus contornos são definidos pela geografia das áreas atravessadas pelo curso d’água e pela gente que nelas habita.

Beira do lago é a ambiência que encapsula ponderáveis depósitos de água, de cuja movimentação sazonal decorre a fartura e a carência vivenciadas mais ou menos pelos contingentes ali incrustados.

Beira do mangue é uma zona rica, variegada e inóspita que margeia os domínios de São Marcos. Para ela são drenados os cursos d’água que irrigam campos, matas, rios e lagos que perfazem a Baixada.

Em plena consonância com os dois períodos marcantes do ano, em cada uma dessas áreas da Baixada viceja uma fauna e uma flora típica e esplendorosa.

É nesse cenário que o baixadeiro forja a sua vida cotidiana, sob a regência onipresente ou de muita água e/ou  de muito calor. Isso é decorrência da definição natural e da experimentação histórica de duas estações possíveis na Baixada: a das cheias (no assim dito inverno) e a das secas (no assim conceituado verão).

Muito frequentemente, grosso modo, de janeiro a junho, o baixadeiro está às voltas com a intensidade das chuvas que produz as cheias. É tempo de enchente. Em qualquer proporção, elas invadem os ambientes baixadeiros e os modelam em proporção idêntica à modelagem das vidas que neles habitam. Nos matos surgem as famosas e reminiscentes estradas fundas, sedimentadas por espessos e pegajosos lamaçais, que infernizam trajetórias ordinárias de transeuntes e animais de carga ou de sela. Nos campos, a enchente suplanta a vegetação remanescente da seca e desenha eventuais e estratégicos tesos, nos quais se refugiam baixadeiros em busca de salvação para sua família e seus animais. No mato, no campo, no rio, no lago ou no mangue as águas enchem de vida a alma baixadeira.

De julho a dezembro, a mudança é aguda e cortante. As águas vazam dos matos, dos campos, dos rios e dos lagos e se somam e somem na baía de São Marcos. Desse contato prolífico restam registros estuarinos de riqueza incomensurável. É nesse contexto que o abaixamento se pronuncia. A seca avança. Os cenários campestres vão sendo progressiva- mente moldados pela torroada, cuja configuração floresce e enverdece e depois … fenece. A vazante se agiganta. Por bom tempo, as baixas resistem como repositório de águas e de muita vida. Delas, o habitante mais próximo usa sem limites a fartura finita e providencial.

Enfim! O baixadeiro é um ser transumante por excelência! O fio da navalha das cheias e das secas dá a esse personagem o norte para que ele trace seus movimentos e almeje sucesso em seus interesses. Em decorrência de seus afazeres mais imediatos, um bom número dos habitantes das beiras de mato, de campo, de rio, de lago e de mangue vive indistintamente em uma ou outra das beiras, no inverno e no verão. A recorrência das taperas é um registro desses movimentos.

Crônica publicada no Livro ECOS DA BAIXADA, páginas 132/134.

A Bacia de São Marcos – Parte III

A Bacia de São Marcos – Parte III

Autor Expedito Moraes

A Baia de São Marcos será transformada em poucos anos, num dos maiores pontos de convergência de transação comercial do Planeta. Vários fatores contribuem para isso: profundidade do canal, dragagem natural, logística ferroviária e rodoviária, carga abundante de grãos e minerais, proximidade do continente europeu, América Central, do Norte e Canal do Panamá.

A Baia banha, de um lado a Ilha de São Luís, e de outro a Baixada. Desse lado da Baixada, mais precisamente em Alcântara, planeja-se a transformação da Base de Lançamento de Alcântara em Centro Espacial de Alcântara (CEA) e a implantação do Terminal Portuário de Alcântara (TPA).

Ambos são projetos de grandiosa envergadura e a maioria dos recursos será privado. Serão dois polos que exigem alta tecnologia, com investimentos de bilhões de reais ao longo da implantação. Milhares de empregos diretos e indiretos serão gerados, demandando serviços, produtos e investimentos em toda a Região. Será uma revolução econômica e social. Temos, então, que prever, planejar e agir para superarmos os grandes desafios e nos adequarmos da melhor forma possível para as oportunidades que advirão.

Temos que construir parcerias. O Fórum da Baixada deve exercer o papel de intermediador dessa ação. Algumas parcerias já estão em andamento, caso da CODEVASF, UFMA, SEBRAE; outras estão sendo iniciadas como UEMA, CEA (Centro Espacial de Alcântara), TPA (Terminal Portuário de Alcântara) e Governos Federal, Estadual e Municipais.