Minha terra, minha origem

Em 5 de setembro de 2019 22:10

César Brito em Lisboa

Carlos César Silva Brito lança sua primeira obra, denominada Minha terra, minha origem.  O autor é o prestigiado presidente da Academia Matinhense de Ciências Artes e Letras – AMCAL  A obra foi escrita no estilo crônica poética, que retrata fielmente o passa no coração e na alma do autor, que tem o hábito de preservar a natureza e velejar pelas águas do Lago do Aquiri, que serpenteiam as terras dos seus ancestrais. O livro foi inicialmente lançado em Portugal, entre os dias 25 e 27 de julho deste ano, e deve ser relançado na Feira do Livro, em São Luís.

Minha terra, minha origem é uma obra para ser lida na vagarosidade da vida do interior, distanciando-se da correria já consolidada dos grandes centros urbanos, explorando, analisando e degustando cada verso, linha, parágrafo, como se fosse, numa analogia propicia ao momento, um gostoso produto da saborosa e peculiar culinária baixadeira, por todos apreciada. 

O poeta homenageia sua família e traz informações que serão essenciais para quem quer obter o conhecimento das origens de Viana/Matinha, suas fronteiras, pontos de vistas, histórias, bem como regalar-se num bom espaço de poesias.

No mês de agosto do ano passado, César Brito e sua esposa Ângela receberam, com carinho, o Fórum em Defesa da Baixada em sua propriedade em Matinha. Um lugar aprazível que o Dr. Gusmão, professor de Agronomia da UEMA e um dos palestrantes do evento, denominou de “Santuário de Ponta Grossa”, onde coexistem várias espécies de animais e plantas exibem suas riquezas de formas, cores e aromas, com certeza, fontes de inspiração ao autor.

Prefaciada e revisada pelos imortais da AMCAL, João Carlos da Silva Costa Leite,  e Maria Zilda Costa Cantanhede, respectivamente, a obra MINHA TERRA, MINHA ORIGEM tem um público alvo: aqueles que prestigiam e se deleitam na epopeia da arte poética e os muitos admiradores do autor, dada a sua capacidade de cativar pelo exemplo de um ser humano especial. Boa sorte, César Brito, é o que lhe deseja seus irmãos forenses. O Livro está disponível para venda na Livraria AMEI do São Luís Shopping em São Luís.

Texto adaptado a partir da publicação em: https://jailsonmendes.com.br/presidente-da-academia-matinhense-de-ciencias-artes-e-letras-lanca-livro-de-poesias/

A trilha da Vida*

Em 30 de agosto de 2018 13:36

A trilha da vida é feita de caminhos que se cruzam, uns para sempre e outros apenas por algum tempo. Foi um prazer estar com todos vocês e aprender a cada instante algo de novo. Não tem preço a convivência com gente que gosta de gente. Impressionante que ao fim do dia, eu queria que não tivesse acabado e voltar a estar com todos. A realidade é assim, estou feliz.

Foram muitos momentos alegres, outros de concentração e todos eles contribuíram imensamente para aguçar nosso senso crítico, fortalecendo a interação dos baixadeiros, sobretudo, a expectativa que fica de novos acontecimentos.

Quero agradecer por cada segundo dispensado comigo, por cada sorriso, por cada bom dia, cada abraço, aperto de mão e principalmente pelo conhecimento partilhado.

Impossível não fazer destaque ao empenho e espontaneidade dos nossos palestrantes (Obrigado Dr. Gusmão, pelas mudas de Paricás, serão tratadas com carinho), o apoio dos amigos da cultura, a dedicação de Jonilza, aos profissionais da educação, Ana Creusa uma grande líder e amiga, a Sra. Linielda, nossa verdadeira anfitriã que nos conquistou o todos com sua efetiva participação.

Que o sucesso continue ao lado de cada um de vocês e a felicidade seja uma companheira assídua.

Foi muito lindo a graciosidade e o bailado das companheiras ao final do encontro.

Desejo a todos, muito estímulo para seguir crescendo e aprendendo continuamente.  Os meus mais sinceros agradecimentos!

*Carlos César Silva Brito, naturalidade: Viana (MA); membro fundador e primeiro presidente da academia Matinhense de Ciências Artes e Letras – AMCAL, membro da Federação das Academias de Letras do Maranhão – FALMA, autor do livro: Minha terra minha origem; também é de sua autoria diversos poemas e crônicas ressaltando a grandeza e a beleza natural e cultural da região dos campos floridos de Viana e Matinha. Ambientalista, MBA em gestão empresarial e MBA em gestão ambiental; consultor de empresas, auditor de sistemas de qualidade total e planejamento estratégico, escritor, poeta e palestrante.

 

Osmar Gomes

Em 24 de junho de 2018 8:33

Osmar Gomes dos Santos é Juiz de Direito da Comarca da Ilha de São Luís, membro das Academias Ludovicense de Letras, Maranhense de Letras Jurídicas e Matinhense de Ciências, Artes e Letras.

Ilha do Amor

Em 25 de março de 2018 21:35

Com alegria vou escrever
Versos de carinho e amor
Que jamais vou esquecer
Pra linda ilha do amor

Os seus antigos casarões
E a imensidão da beira mar
Tudo isso desperta paixões
São belezas a contemplar

Ilha do amor do coração
Teus mistérios e histórias
Ficam na imaginação
É tão rica e cheia de glórias

Tuas riquezas naturais
Tão cheia de belezas
Não se esquece jamais
És um presente da natureza.

Alan Rubens

 

Caju emplumado

Em 19 de março de 2018 23:21

Um grupo de professores que prestavam serviço durante uma semana na
bonita cidade de Pinheiro na Baixada Maranhense para a Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), para o extinto Programa Nacional de Cooperação Acadêmica (PROCAD) estava reunido em uma mesa de bar após um dia exaustivo de trabalho por volta das cinco horas da tarde.

Resolveram tomar umas cervejas pra relaxar um pouco e, com eles foi também a coordenadora do pólo. Após terem tomado umas cinco cervejas Paulo, um dos professores, apontando para cima comentou:
– Olhem um caju bem madurinho lá no alto todo amarelinho!
Todos voltaram-se para a direção que Paulo apontou. Carla a coordenadora disse:
– Vejam só que beleza deve estar uma delícia!

Os outros dois professores, Carlos e Jamilson, apenas observavam admirados e nada comentaram.
O papo continuou descontraído e de vez enquanto alguém levantava a vista para observar o caju mais pensando em como fazer para apanhá-lo.

Após algumas cervejas, aproximou-se da mesa um menino com seus onze anos, aproximadamente, e perguntou:
-Dona posso engraxar seu sapato custa apenas um real e prometo deixá-lo novinho em folha da mesma maneira que aconteceu ano passado!

Carla que já o conhecia disse que sim. Então o garoto sentou-se aos pés da coordenadora e começou a engraxar o sapato da coordenadora. 
De vez em quando ela levantava a vista pra admirar o caju com olhar desejoso.
Ela falou pro garoto:
-Meu filho vê pode apanhar aquele caju pra mim te dou mais um real?
O garoto levantou a vista e perguntou:
-A senhora está falando daquele caju ali? Disse ele apontando pra onde ela havia indicado pra ele.
– Sim meu filho você pode apanhar pra mim?

O garoto sorrindo com seu jeito inocente respondeu:
– Não é caju “fessora” é um bem te vi que está no seu ninho cuidando dos ovos!
Todos voltaram-se para observar enquanto o garoto levantou-se e sacudiu os braços o bem te vi espichou o bico que estava pra dentro das penugens e ficou atento.
No mesmo instante todos entreolharam-se e caíram na  gargalhada.

Alan Rubens.

Lindo lago

Em 19 de março de 2018 12:35

Chego bem cedo
À  beira  do lago 
Vejo o balsedo
E logo viajo
Na tua imensidão 
Que fico a contemplar
Vem a inspiração 
E logo começo  a cantar

Lindo lago és amor
Tua beleza nos envolve 
Em todo seu esplendor
Tuas histórias nos comove
És o  orgulho da baixada
Tens encanto e magia
Dessa terra tão amada
Que a todos contagia.

Alan Rubens

Belo Aquiri

Em 17 de março de 2018 2:33

Belo Aquiri 
Te conheci
E me surpreendi
Com tua beleza 
Fruto da mãe natureza.

O teu encanto é  especial
Como você  não tem igual 
Por isso mesmo fenomenal
E quem a ti conhece
Jamais te esquece. 

A tua mata verdejante
E tua água abundante 
É  uma bênção glorificante
Para os olhos um colírio 
Que nos leva ao delírio 

Ah meu belo aquiri
Te conhecendo percebi
Essa magia que vem de ti
E  Deus há de nos ajudar
Dar sabedoria pra te preservar.

Alan Rubens

Princesa dos lagos

Em 13 de março de 2018 1:14

Ah! Que saudades
Da princesa dos lagos
Onde no período chuvoso
Temos a beleza das águas
Nos campos inundados
Cheios de esperanças
Da diversidade animal
E com sua vegetação
De características próprias.

Banhistas que se divertem
Pescadores aventureiros
E aqueles que retiram
O seu ganha pão
De cada dia.

No período da estiagem
O lago abre passagem
Para o verde do  campo
Para mais de perto 
Admirarmos a imponência
Do Mocoroca
E da beleza do Sacoā
Lar dos caboquinhos 
E outras espécies
Que soltam seus cantos
Como numa 
Orquestra sinfônica.

Eu Vi Ana se encantando
Com a beleza do entardecer
E o vôo bem alto 
Dos passarinhos baleias
Para depois descer
Num mergulho razante.

No céu também
Podemos contemplar
O balé das andorinhas
E nas beiradas do lago
As aves rasteiras
À procura de alimentos
E o passeio elegante
Das lindas garças.

Princesa dos lagos
Símbolo de beleza
Orgulho dos vianenses
Da baixada maranhense
Sempre serás exaltada
E eternamente amada.

Alan Rubens.

Matinha

Em 12 de março de 2018 22:55

Linda Matinha,
Amada minha
E de todos nós
Filhos teus,
Abençoados por Deus
Que te respeitamos
E de ti cuidamos.

Tuas tradições,
Está em nossos corações,
Tuas festas e tua cultura,
Encanta com ternura
E o teu povo 
É a tua riqueza,
Tuas matas,
De rara beleza.

Em teus carnavais,
Tem alegrias demais,
E o  teu São joão,
É um show de emoção,
Teus artistas,
Tuas celebridades,
Em tudo tem humildade,
Muita paz e felicidade!!!

Ah!! Matinha nosso torrão
Me enches de satisfação
E quem te conhece
Jamais te esquece,
Nem do teu lago farto,
Da tua culinária,
Nem da tua manga
Lambuzada na farinha,
Da tua cachacinha,
Tomada nas pracinhas.

Linda Matinha,
Amada minha,
Terra querida
Exaltada e cantada
Sempre te amaremos,
Estando perto ou longe,
És o orgulho do teu povo
Matinha do céu de anil
Desse imenso Brasil!!!

Alan Rubens

Encosta no Zé Paga, ou na ida, ou na vinda

Em 9 de março de 2018 15:00

Vindo da Santa Maria/ encostei lá no Zé Paga/ jamais se apaga/ a minha recordação/ amarro o burro na argola/sento no mocho/encostado no balcão.(duas vezes)

Santa Maria/ou pra Olinda/ tem que encostar/ no Zé Paga/ ou na ida ou na vinda. (refrão)

Mais fina do que abade/ a saudade vai trazendo/muita lembrança/até parece que tô vendo/a faca de picar fumo/balança velha/com o prato zinabrado/cashimi na prateleira/e o saci na geladeira/pra espantar o mau olhado.

(refrão) Santa Maria…

Bola de açúcar mascavo/pego a dose de costume/alguém pede querosene/e meia caixa de “frosque”/cinco centavos/de pomada sem perfume.

(refrão) Santa Maria…

Fura logo esse paneiro/experimenta e me diz/se a farinha for da boa/compro logo meio alqueire/pra mandar pra São Luís.

(refrão) Santa Maria…

Peso de papel de embrulho/é uma pedra de trovão/amor que só faz barulho/é peso pro coração.

(refrão) Santa Maria…

Esta é a mais nova canção do artista matinhense, membro da AMCAL – Academia Matinhense de Ciências, Artes e Letras, e meu amigo de infância Kleber Brito. A quem chamo carinhosamente, Kebinha.  Como não poderia deixar de ser, uma belíssima peça, uma obra de arte, capaz de em suas estrofes, nos transportar ao passado, que nem ele, nem qualquer um dos nossos contemporâneos esquece.São lembranças que teimam permanecer incólumes em nossa memória apesar do tempo e da distância.

Neste texto tentarei analisar, fazer uma crítica a mais esta ode à nossa terra, suas coisas, suas gentes, que nosso poeta sempre traz. Talvez a emoção, o carinho, admiração ao menestrel matinhense, tolham, ofusquem, minimizem, descaracterizem minhas ideias, tornando-me inapto a uma melhor, ou mais isenta análise, mesmo assim, tentarei.

Primeiramente, vamos ver quem foi Zé Paga, esse personagem que o nosso bardo comedor de manga, magistralmente resgata. Era o dono de um “bode”, como chamávamos os pequenos comércios da beira de estrada. Essa quitanda, ficava bem na bifurcação dos povoados de Belas Águas, Olinda (na época pertencente a Matinha), Santa Vitória, entrada do Bom Jesus e Santa Maria dos Furtado. Portanto qualquer cidadão que fosse para uma dessas povoações, imperiosamente teria que passar e parar no comércio de Zé Paga.

Nosso vate possuía laços familiares na Santa Maria, Bom Jesus e  Olinda Nova, principalmente em Santa Maria, ali moraram seu, avô Luís Furtado, inúmeros parentes, além de  seu tio Eugenio Furtado, comerciante com fortíssima condição financeira, que transformara a pequena povoação onde residia e trabalhava, numa referência em nível de região. Seu “Ogenho”, como chamavam os moradores. Dotado de rara capacidade em comerciar, comprava e vendia de tudo, desde amêndoas de  coco babaçu, e  de  tucum, apetrechos para caça, pesca, roupas, milho, arroz para plantar, trigo, arame farpado,  patachos, enxadas, foices, material de construção, eletrodomésticos, etc. Sua loja, que era imensa, especialmente em se tratando de uma pequena localidade, cercada de campos inundáveis por quase todos os lados, mantinha uma movimentação intensa durante o ano todo, no verão por carros, e em maior quantidade burragens; no inverno por canoas, advindas de arraiais pertencentes a Matinha, São João Batista, São Vicente Ferrer e Viana.

A música começa numa recordação cara a muitos que hoje possuem mais de 50 anos, a ida e vinda a Santa Maria. O canto “Vindo da Santa Maria/encostei lá no Zé Paga/jamais se apaga a minha recordação/amarro o burro na argola/sento no mocho/encostado no balcão”. Pra Kebinha, era coisa comum, pois como já fora dito, a família da sua mãe, Maria Furtado Brito, “Dona”, a quem nós carinhosamente intitulávamos  “Dondona”, morava lá.

Impagável essa reminiscência, montados num burro, com cofos de farinha, coco, tucum ou sacos de sal, de um lado e outro da cangalha, a gente no meio, garotos ainda, conduzidos de forma sacolejante, pelo andar, ou às vezes chouto dos animais.  A argola, era um aro de ferro forjado num fole, com uma espécie de chucho do tamanho de um palmo que o circundava, este era posteriormente cravado em uma coluna de tijolos ou esteio de pau d’arco, na entrada ou pórtico das residências, normalmente onde haviam grandes fluxos de pessoas, de sorte que os viajantes podiam amarrar as cordas dos cavalos ou burros nestas, conseguindo tranquilamente entrar nas casas ou comércios.

Alguns ainda permitiam, em baixo dessas argolas, nas calçadas, a instalação de manjedouras, ou cochos com água ou capim, para maior satisfação dos “semoventes tangidos” e seus proprietários. “Parece que tô vendo”, o mocho meio bamboleante ao suportar o peso de bêbados encostados no balcão de madeira já enegrecida pelo tempo.

Mais fina do que abade/ a saudade vai trazendo/muita lembrança/até parece que tô vendo/a faca de picar fumo/balança velha/com o prato zinabrado/cashimi na prateleira/e o saci na geladeira/pra espantar o mau olhado. A segunda estrofe é belíssima, muito além da sua sensacional rima. Palavras não mais, ou de pouco uso atualmente, permeiam essa parte do canto, e borbulham, transbordam, extravasam saudosas recordações. Quem ainda conhece a “abade”? Deixou de ser vendida, assim como outras coisas no nosso atribulado dia a dia, e no sistemático, inexorável, porém questionável processo, denominado progresso.

Era bem fina, como frisa nosso poeta, servia para enovelar o fumo de molho picado, o “molheiro”.  Ao ser enrolada, era colada com a língua do fumante. “Até parece que tô vendo”, não só isso, meus olhos estão marejados, na minha memória despontam a faca de picar fumo, ponta fina de tanto amolar e do uso constante; a balança velha, e seu prato já tomado pelo zinabre; a lata de talco cashimi bouquet, famosíssimo pelo seu forte e gostoso odor, exposta na prateleira de madeira velha, geralmente paparaúba, devido sua  composição leve e facilidade em cortar, serrar ou pregar, bem como devido a grande quantidade dessa madeira na  região.

Por último, Kebinha magistralmente fecha a estrofe, e as lembranças se tornam uma torrente impiedosa de lágrimas que teimam em cair, embaçando meus olhos e ações. Quem pode esquecer aquela figura de mais ou menos trinta centímetros, uma perna só, todo preto, chapéu ou gorro na cabeça, cachimbo na boca, colocado em cima da geladeira a gás ou querosene? Sua função precípua e única? Evitar que pessoas de “olho gordo”, invejosas, pudessem interferir na vida financeira e pessoal, do possuidor do negócio. Não sei se resolvia, mas esse personagem era muito visto em quase todos os comércios naquela época.

Bola de açúcar mascavo/pego a dose de costume/alguém pede querosene/e meia caixa de “frosque”/cinco centavos/de pomada sem perfume. A terceira parte dessa bela criação, composta com o coração, a alma, por esse artista a quem tenho o privilégio de chamar amigo e companheiro, pois fomos bancários juntos, continua emocionando. Cada vocábulo, cada frase, desemboca no sangradouro da nostalgia, irrompendo numa abissal vontade de voltar no tempo. O açúcar mascavo e a dose de costume, vinham de ali, bem pertinho, do engenho Belas Águas, de Leocádio Silva Costa, o Costinha. A dose de costume era quase uma religião, pra quem gostava da branquinha, a insigne cachaça Belas Águas, saída da indústria de cana   de Costinha. Pra quem não curtia a caninha, a pinga, a “marvada”, como eu, não importava, o engenho de Belas Águas, generosamente nos oferecia garapa e mel fresquinhos.

Lógico que Zé Paga vendia, e vendia bem querosene, afinal naqueles tempos sem energia elétrica, era esse “quorosene”, (como cognominava  a população, sem instrução formal, mas com uma imensa capacidade de inventar, moldar, formatar, igual Drummond, novas palavras), se utilizava para inúmeros fins, por exemplo encher suas lamparinas, de uso noturno, peças estas de flandres fabricadas por Juvêncio Capijuba.

Para não perder o freguês, Zé Paga mercadejava tudo no retalho, desde fumo  molheiro, farias, meia caixa de “frosque”, cordas, anzóis, bacuris, pequis do quintal de Crispim, o melhor da região, meio quilo de sal, traíra seca, curimatá  e surubim salpreso, muçum de São Bento, um quarto de cachaça, meio litro de cinzano, meia caixa de “piula contra”, ou cinco centavos de pomada sem perfume.

Fura logo esse paneiro/experimenta e me diz/se a farinha for da boa/compro logo meio alqueire/pra mandar pra São Luís. A quarta parte é quase uma continuação. Como já foi dito acima, Zé Paga, tal qual outros pequenos comerciantes, negociava de tudo, vendendo, comprando, trocando. Mas haviam os mais procurados, a farinha d’água era essa favorita.  Os paneiros de farinha avolumavam-se no paiol do seu comercio, ou próximo da balança decimal, prontos para serem vendidos, a grosso ou a  varejo.

Um paneiro ou um alqueire, equivalia a 30 ou 32 quilos de farinha, acondicionados em um cofo especialmente confeccionado para esse fim, forrado com folhas de guarimã, amarrado com cipó de jabuti destripado. O serviço era tão bem feito, que o produto durava dias dentro daquele invólucro, sem perder o sabor. Usava-se normalmente um furador de ferro para poder apreciar “se a farinha era da boa”.

“Compro logo meio alqueire/pra mandar pra São Luís”. Todo pai ou mãe que enviava seu filho pra “cidade, para estudar, necessariamente começava (no dizer de papai), a ter um novo padroeiro, passava a ser devoto de um novo santo. Agora tudo que ele juntava, com seus parcos recursos, e endereçava   a estes, mudava de destinatário, ia genericamente pra “São Luís”.  Perdia-se assim a referência do nome dos filhos ou filhas.

Peso de papel de embrulho/é uma pedra de trovão/amor que só faz barulho/é peso pro coração. Derradeira estrofe, a emoção move os versos na apoteose da canção, trazendo ainda elementos hoje distantes do nosso dia a dia. Papel de embrulho, eram folhas duplas de papel, que cortadas ao meio, serviam para como o nome informa, embrulhar produtos a serem vendidos. Como eram folhas soltas, precisavam ser contidas, para não ficarem dispersas ao vento, aí entrava a “pedra de trovão”, aquele pedaço de seixo duríssimo, sem uma origem definida, pesando entre ½ a um quilograma, encontrado às margens das estradas fundas, contiguo a olhos d’agua, colocados sobre elas.

Faz muito barulho esse amor Kebinha, atua direto na alma de quem teve o privilégio de viver aqueles tempos que teimam em subsistir, vívidos na nossa memória. Tua música, poesia, sensibilidade, teu senso de percepção, têm a capacidade de deixar permanentemente em nós, o peso da saudade, mas também carregam, ofertam uma leveza imensa ao coração. Além da certeza de que no passado, morava a felicidade.

João Carlos.