A Baixada ontem e hoje

Em 25 de outubro de 2019 21:21

Até os anos 60, a Baixada Maranhense ainda  conservava o seu ecossistema equilibrado, exuberante e farto. Rios e lagos navegáveis durante todo o ano, igarapés adentrando os campos, lagoas desaguando nos rios e estes na baía de São Marcos.

O transporte dessa região para as outras, inclusive para a Capital, era realizado exclusivamente pela navegação fluvial, lacustre e marítima. Não havia estradas de qualquer tipo, somente caminhos e veredas. As embarcações responsáveis pelo deslocamento de pessoas, animais, matérias-primas e mercadorias eram canoas, igarités, barcos, lanchas e batelões.

Nos pequenos trechos, carros de boi, cavalos, burros e jumentos. Dispersos pelos campos, pastavam bois, cavalos, bodes, porcos, patos e outros bichos. Ainda era possível, permitida, viável e fácil a mobilidade dos cabocos pelos campos baixadeiros sem as cercas de arames farpados. No verão, os caminhos empoeirados nos conduziam a lugares distantes e diversos, viajando a pé ou a cavalo; no inverno, transitava-se de canoa a remo ou à vara.

Posteriormente, chegaram os búfalos, criados em demasia e soltos nos campos. Em seguida, grandes áreas foram desmatadas e roçadas para fazer pastos e as cercas foram dificultando a vida dos cabocos da região, que logo se mudaram para as cidades mais próximas. Começou assim o processo de degradação do meio ambiente do Pantanal Maranhense. Estabeleceu-se, então, um silencioso ciclo de assoreamento de lagoas, igarapés e rios, devido, sobretudo, à nociva interferência humana.

Nos dias de hoje, é impraticável a navegação de médio calado. A lâmina de água nos lagos cada dia fica rasa e, consequentemente, peixes e outras formas de vida desaparecem em pouco tempo.

Nas áreas limítrofes com os rios e a baía de São Marcos, o mar e o mangue avançam a cada ano. O processo de salinização dos campos acarreta severos danos à fauna e a flora. A biodiversidade da Baixada Maranhense está ameaçada e suplica por um socorro urgente.

Apenas nos anos 70 surgiu a estrada carroçável que dá acesso à Capital, passando por Vitória do Mearim. E somente na década de 80 foram construídas pontes sobre os rios, libertando os viajantes das incômodas travessias de canoas e pontões.

Barcos e lanchas singravam a baía até São Luís abar- rotados de cargas, animais e passageiros mal acomodados e expostos a riscos de toda ordem, especialmente o perigo de naufrágios, como ocorreu em diversas tragédias.

Sobreveio o transporte via ferry boat: potentes, céleres e oferecendo maior segurança. Porém, continuam prestando um serviço com o mesmo padrão dos anos 80.

O fluxo migratório continua. Os jovens baixadeiros que partiram para estudarem em São Luís, com a expectativa de se graduarem e um dia retornarem, frustram-se em constatar que, em seus municípios de origem, as oportunidades de trabalho permanecem quase inexistentes.

A Baixada Maranhense necessita de um Plano de Desenvolvimento que contemple a universalização do conhecimento, da saúde, da pesquisa, da apreensão de novas tecnologias, capacitação, infraestrutura, logística e produção.

Tornou-se imperiosa a construção de ambientes institucionais em que as pessoas incorporem e convirjam sentimentos comuns do povo baixadeiro acerca das alternativas adequadas de intervenção nessa promissora região, a exemplo do Fórum em Defesa da Baixada Maranhense.

O ECO de nossas vozes se confunde com o de nossos ancestrais, retumbando pelos rios, igarapés, enseadas, campos, lagos e pela baía de São Marcos. Onde existe ECO, existe vida…existe esperança.

Crônica publicada no Livro Ecos da Baixada, páginas 32/34.

Expedito Moraes

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